Ao que parecia, nenhum dos dois estava disposto a ceder.


Porém, o que aconteceu a seguir surpreendeu a ambos.


Depois de mais alguns movimentos, Lucian recostou-se na cadeira e observou o tabuleiro por alguns instantes. Então, com calma, moveu uma última peça.


Lúcia permaneceu em silêncio.


Seus olhos percorreram o tabuleiro uma vez.


Duas.


Ela poderia continuar.


Ele também.


Mas ambos haviam chegado à mesma conclusão.


Qualquer tentativa de avançar obrigaria o outro a responder, e qualquer resposta abriria uma nova possibilidade para o adversário.


Lucian ergueu os olhos.


Lúcia já o observava.


Nenhum dos dois sorriu.


— Creio que chegamos a um impasse — disse ele.


— Creio que sim.


Pierre aproximou-se do tabuleiro e analisou a posição por alguns segundos. Por fim, assentiu.


— Empate.


Lúcia recostou-se lentamente na cadeira.


Lucian, entretanto, continuou olhando para o tabuleiro.


— Não esperava isso.


Ela ergueu uma sobrancelha.


— O empate?


Ele finalmente voltou os olhos para ela.


— Vós.


Pela primeira vez naquela tarde, Lúcia pareceu não encontrar uma resposta imediata. Contudo, logo recuperou a compostura.


— Talvez tenhais me subestimado.


Um breve silêncio se instalou entre os dois.


Lucian deixou escapar um discreto sorriso de canto.


— Talvez. Assim como vós também me subestimastes.


— Talvez.


Na sala secreta, a rainha trocou um olhar silencioso com o rei.


Nenhum dos dois disse palavra.


Pierre, porém, continuava observando os jovens.


Porque sabia que aquela partida terminara em empate.


Mas também sabia que nenhum dos dois havia saído realmente derrotado.


E talvez fosse justamente isso que tornasse aquela partida mais perigosa do que uma vitória.


Não se tratava apenas de um jogo.


Tratava-se de dois jovens vindos de mundos completamente distintos, moldados por criações e ensinamentos diferentes, mas unidos por algo que nenhum deles parecia disposto a esconder: o desejo de vencer.


Ambos queriam mais.


E, naquela tarde, Lucian compreendera algo que jamais esperara encontrar dentro daquela biblioteca.


Lúcia não era simplesmente uma criada que sabia mover peças sobre um tabuleiro.


Havia nela uma inteligência que não podia ser ignorada.


Uma liberdade de pensamento que não se curvava facilmente a títulos, riquezas ou posições.


E, embora jamais admitisse em voz alta, Lucian começava a invejar justamente aquilo que tornava aquela jovem tão diferente dele.


Sua liberdade.


Sua maneira de enxergar o mundo.


E, acima de tudo, a coragem de dizer o que pensava sem se importar com quem estivesse diante dela.


Lúcia, por sua vez, também havia descoberto algo.


Por trás da postura arrogante do príncipe, havia alguém capaz de ouvir, observar e aprender com o adversário.


Talvez aquela partida tivesse feito mais do que terminar em empate.


Talvez tivesse colocado entre os dois uma espécie de respeito que nenhum deles esperava encontrar.


Lúcia então se levantou.


— Fora uma competição justa, jovem príncipe. Agradeço-vos por me concederdes uma partida realmente digna de ser jogada.


Lucian também se levantou.


— Devo confessar que também gostei de ter uma adversária à altura.


Dessa vez, ambos sorriram.


Foi então que Lúcia percebeu a posição do sol pelas janelas da biblioteca.


Seu semblante mudou imediatamente.


O almoço.


Se demorasse mais, Amélia certamente estaria à sua procura.


— Perdoai-me, mas preciso me retirar.


Fez uma pequena reverência ao príncipe e, em seguida, voltou-se para Pierre.


— Com vossa licença, conselheiro.


— Vá, menina. Antes que Amélia decida vir buscá-la pessoalmente.


Lúcia sorriu discretamente e deixou a biblioteca.


Lucian acompanhou sua saída com os olhos até que a porta se fechasse.


Por alguns instantes, permaneceu em silêncio.


Pierre percebeu.


Mas, pela primeira vez, decidiu não o corrigir.


— Vamos, jovem príncipe. Está na hora do almoço. Acredito que esta partida vos tenha despertado o estômago.


Como se despertasse de um breve transe, Lucian percebeu que, de fato, estava faminto.


Não que estivesse disposto a admitir aquilo diante de Pierre.


Lançou ainda um último olhar para o tabuleiro, como se esperasse encontrar ali alguma resposta que lhe tivesse escapado durante a partida.


Nada.


Apenas o empate.


E a lembrança daquela jovem criada que conseguira enfrentá-lo de igual para igual.


Por fim, levantou-se.


— Tendes razão, Pierre. Vamos.


O conselheiro conteve um pequeno sorriso e seguiu ao lado do príncipe pelos corredores do castelo.


Quando chegaram à sala de refeições, o rei e a rainha já os aguardavam à mesa.


A rainha ergueu os olhos assim que o filho entrou.


O rei, por sua vez, manteve-se aparentemente concentrado em sua refeição.


Aparentemente.


Ambos aguardavam pela mesma coisa.


Queriam saber o que havia acontecido naquela biblioteca.


Lucian tomou seu lugar à mesa sem dizer uma palavra.


Pierre acomodou-se ao lado dele.


O silêncio durou apenas alguns instantes.


Então o rei pousou os talheres e olhou para o filho.


— E então, meu filho?


Lucian ergueu os olhos.


— E então o quê, pai?


A rainha não conseguiu esconder um pequeno sorriso.


— Como fora a partida, Lucian?


O príncipe recostou-se na cadeira.


Por um breve instante, pareceu considerar se deveria contar.


Então respondeu:


— Terminou em empate.


O rei arqueou uma sobrancelha.


— Empate?


— Sim.


Lucian pegou os talheres novamente, mas, antes que pudesse começar a comer, acrescentou:


— E foi uma boa partida.


Pierre observou o príncipe em silêncio.


Conhecia Lucian o suficiente para saber que aquela pequena frase significava muito mais do que aparentava.


O rei permaneceu observando o filho por alguns instantes.


— Uma boa partida? — repetiu, como se aquelas palavras escondessem algo mais.


Lucian assentiu e finalmente começou a comer.


— Sim.


A rainha apoiou delicadamente os talheres sobre o prato.


— E quem conseguiu arrancar um empate de vós?


Lucian ergueu os olhos.


Por um breve momento, seu olhar encontrou o de Pierre.


O conselheiro, muito convenientemente, parecia concentrado demais em sua própria refeição.


— Uma adversária — respondeu o príncipe.


O rei arqueou uma sobrancelha.


— Uma adversária?


— Sim, pai.


— E onde encontrastes uma adversária digna de vós dentro do castelo?


Lucian hesitou por um instante.


Então respondeu:


— Acredito que Vossa Majestade já soubesse que ela era boa. Afinal, mandastes que ela continuasse estudando algumas matérias comigo.


A rainha sorriu discretamente.


— Ah, sim, meu filho. Porém, eu não sabia o quão boa ela era. Apenas pedi a Pierre que desse continuidade aos estudos dela nos horários possíveis, para que conseguisse conciliá-los com o serviço.


Pierre precisou conter um sorriso.


Lucian percebeu.


— Pareceis bastante entretido, conselheiro.


— Eu? De maneira alguma, jovem príncipe.


— Vossa expressão diz o contrário.


— Talvez esteja apenas satisfeito por finalmente terdes encontrado alguém capaz de vos fazer pensar antes de mover uma peça.


O rei soltou uma breve risada.


— Então foi uma partida difícil.


Lucian voltou a atenção para o prato.


— Foi.


— E quem venceu? — perguntou a rainha, fingindo desconhecer a resposta, embora ela e o rei tivessem acompanhado toda a partida às escondidas.


Dessa vez, o príncipe não hesitou.


— Ninguém.


A rainha inclinou levemente a cabeça.


— Um empate, então.


— Um empate.


O rei permaneceu em silêncio por alguns segundos.


Então perguntou:


— E como era vossa adversária?


Lucian pousou os talheres.


A pergunta parecia simples.


Mas, por algum motivo, aquela resposta lhe pareceu mais difícil do que qualquer movimento daquela partida.


— Inteligente.


Pierre levantou os olhos.


A rainha percebeu.


— Apenas inteligente?


Lucian respirou fundo.


— Observadora. Não se deixa intimidar facilmente. Pensa antes de agir... e não parece ter o menor receio de contrariar alguém quando acredita estar certa.


O rei sorriu de canto.


— Parece que encontrastes alguém que vos tirou da zona de conforto.


Lucian não respondeu.


A rainha, porém, continuou:


— E ela joga xadrez há muito tempo?


— Não sei.


— Não sabeis?


— Não perguntei.


Antes que a conversa prosseguisse, Pierre pediu licença para falar.


— Com o perdão da palavra, Vossa Majestade, minha afilhada aprendeu a jogar xadrez aos dois anos de idade.


Lucian interrompeu o movimento dos talheres.


A rainha sorriu.


Pierre continuou:


— Lúcia sempre foi uma menina extremamente curiosa. Desde muito pequena demonstrava facilidade para observar e compreender as coisas. Com o passar dos anos, tornou-se capaz de enfrentar diferentes adversários sem jamais ter sido derrotada.


Fez uma pequena pausa.


— Confesso que esta é a primeira vez que a vejo chegar a um empate. E, sobretudo, a primeira vez que a vejo ultrapassar cinquenta jogadas em uma partida.


Lucian ergueu os olhos imediatamente.


— Ela é vossa afilhada?


A surpresa em sua voz foi genuína.


Pierre assentiu.


— Sim, jovem herdeiro.


Lucian olhou para o conselheiro por alguns instantes, como se aquela informação tivesse acabado de acrescentar uma nova peça a um jogo que ele julgava encerrado.


— E por que não me falastes?


Pierre finalmente sorriu.


— E qual seria a vantagem de vos contar que a jovem poderia jogar muito bem por ser minha afilhada?


Lucian ficou em silêncio por alguns segundos.


Então, para sua própria surpresa, acabou concordando.


— Faz sentido. Concedo-vos esse ponto.


A rainha riu baixinho e voltou a se dedicar à refeição.


O rei, entretanto, permanecia em silêncio.


Seu olhar passou por Lucian e depois se perdeu por alguns instantes, como se ainda estivesse recordando a partida que observara secretamente.


Aquele jogo lhe dissera mais do que qualquer relatório poderia dizer.


Lúcia não havia se curvado diante do título do príncipe.


Não havia se intimidado por estar diante do futuro rei.


Não havia tratado Lucian como alguém superior simplesmente por sua posição.


Havia sentado diante dele, observado o tabuleiro e jogado como se estivesse diante de qualquer outro jovem que tivesse aceitado seu desafio.


E fora justamente isso que o rei desejara descobrir.


Não se poderia conhecer verdadeiramente alguém apenas pelas palavras que dizia diante da realeza.


Era preciso observar como agia quando esquecia que estava sendo observada.


E, naquela tarde, Lúcia havia se esquecido completamente de quem estava diante dela.


O rei voltou os olhos para o filho.


Lucian ainda parecia pensativo.


— Então — disse o rei, quebrando o silêncio —, parece que encontrastes uma adversária interessante.


Lucian ergueu os olhos.


Dessa vez, porém, não tentou negar.


— Sim, pai.


Pierre baixou discretamente os olhos para o prato, escondendo um sorriso.


A partida havia terminado.


Mas, ao que parecia, o jogo estava apenas começando.

Notas finais
Estão gostando Kizlar