Entre Acasos e Destinos
24 Capitulo 24
A jovem Lúcia comeu em silêncio, e os mais velhos à sua volta respeitaram-no. Sabiam que, quando permanecia daquela maneira, era porque sua mente estava distante dali, perdida em algum pensamento que ainda não conseguira ordenar.
E, de fato, Lúcia estava em seu próprio mundo.
Refazia cada movimento daquela partida em sua memória. Cada avanço. Cada recuo. Cada instante em que acreditara ter compreendido as intenções de seu adversário.
E, acima de tudo, tentava descobrir como não conseguira vencer.
Como alguém que ela julgara conhecer tão pouco havia conseguido conduzi-la até um empate?
Assim que terminou o almoço, seguiu, como de costume, para os jardins.
Caminhava distraidamente entre as flores quando avistou o coreto.
E então reconheceu o pintor que havia encontrado alguns dias antes.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, e ela apressou o passo. Gostaria de conversar um pouco com ele e, principalmente, descobrir como estava sua obra.
— Boa tarde. Como estais?
O pintor ergueu os olhos e sorriu.
Na verdade, já aguardava por aquele momento. Sabia que a jovem costumava caminhar por aquela parte dos jardins depois das refeições e, assim como esperara pela opinião do filho durante o almoço, agora queria conhecer a dela.
Por isso, retomara os conhecimentos de pintura que aprendera muitos anos antes e começara a retratar os jardins como um presente para sua esposa.
— Boa tarde, jovem Lúcia. Como estais hoje?
Ela soltou um suspiro.
— Estou muito pensativa, confesso.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— E o que vos perturba?
Lúcia pediu licença e sentou-se ao seu lado. Seus olhos percorreram o esboço diante deles antes de responder.
— A rainha ontem me escutou da mesma forma que vós fizestes naquele dia. E foi muito bom. Hoje, porém, ela pediu ao meu padrinho... quer dizer, ao conselheiro Pierre, que me desse algumas aulas junto ao príncipe, para que eu não ficasse sem meus estudos.
O pintor sorriu.
— Isso é uma excelente notícia, menina. Mas, se assim é, por que pareceis tão perturbada?
Lúcia respirou fundo.
— Tivemos uma partida.
— Uma partida?
— Joguei xadrez com o príncipe herdeiro.
O pincel do homem permaneceu imóvel por um breve instante, embora seu rosto nada revelasse.
— E?
Lúcia franziu a testa.
— Eu o subestimei. Um pouco, confesso.
O pintor voltou os olhos para a tela.
— Um erro terrível.
Lúcia o encarou.
— Terrível?
— Subestimar alguém porque acreditamos saber do que ele é capaz é uma das formas mais fáceis de sermos surpreendidos.
Ele retomou a pintura, passando o pincel delicadamente pela tela.
— Mas não foi isso que vos trouxe até aqui, foi?
Ela abaixou os olhos.
— Não. Foi o empate.
— O empate?
— Sim. Estou tentando refazer a partida em minha cabeça. Não consigo compreender como chegamos àquele ponto. Eu tinha certeza de que conseguiria vencê-lo.
O pintor permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Então, sem tirar os olhos da pintura, perguntou:
— Suponhamos que sejais uma conselheira.
Lúcia ergueu o olhar.
— Uma conselheira?
— Sim. E suponhamos que, em algum momento, passeis a acreditar que conheceis vosso rei melhor do que ele próprio imagina conhecer-se.
Ela pensou por um instante.
— Isso seria uma arrogância perigosa.
— Por quê?
— Porque um conselheiro deve aconselhar o rei, não acreditar que pode pensar por ele.
O homem finalmente voltou os olhos para ela.
— E se essa conselheira subestimasse o próprio rei?
Lúcia permaneceu em silêncio.
— Como poderia aconselhá-lo corretamente — continuou ele — se já tivesse decidido, antes mesmo de ouvi-lo, quais seriam seus próximos passos?
A jovem desviou os olhos para o tabuleiro que ainda carregava consigo.
— Não poderia.
— Exatamente.
O pintor voltou a pintar.
— Um bom conselheiro não precisa ser aquele que sempre vence o rei. Nem aquele que sempre prevê seus movimentos. Precisa ser aquele que compreende que o rei também pode surpreendê-lo.
Lúcia ficou pensativa.
— Então acreditais que meu erro foi subestimá-lo?
— Talvez tenha sido apenas o primeiro.
Ela franziu o cenho.
— O primeiro?
O pintor sorriu de canto.
— Talvez vosso segundo erro tenha sido sair de uma partida empatada acreditando que precisáveis descobrir por que não vencestes.
Lúcia o encarou, confusa.
— E o que eu deveria descobrir?
Ele pousou o pincel.
— Por que ele também não conseguiu vencer-vos?
A jovem ficou imóvel.
Pela primeira vez desde o almoço, seus pensamentos pareceram parar.
O pintor voltou-se novamente para a tela, escondendo o pequeno sorriso que surgiu em seus lábios.
— Talvez, menina, o empate não tenha sido uma derrota de nenhum dos dois.
Lúcia olhou novamente para a pintura.
E, pela primeira vez, começou a enxergar aquela partida de uma maneira diferente.
As palavras de Pierre lhe vieram à mente. Ele havia lhe ensinado a olhar para as peças como se fossem pessoas, a compreender que cada movimento carregava uma intenção e que não bastava observar para onde uma peça caminhava. Era preciso tentar entender quem a movia.
Então se lembrou das palavras do pintor.
Um conselheiro não poderia acreditar que conhecia seu rei tão bem a ponto de presumir quais seriam todas as suas decisões. Muito menos deveria subestimá-lo, acreditando que o soberano não seria capaz de decidir por si mesmo sem que suas escolhas necessariamente trouxessem prejuízo ao povo ou favorecessem apenas os interesses da coroa.
Lúcia franziu levemente a testa.
Talvez fosse justamente aí que estivesse a verdadeira função de um conselheiro.
Não decidir pelo rei.
Não pensar por ele.
Mas caminhar ao seu lado.
O conselheiro deveria conhecer as necessidades do povo e ter coragem para levar ao soberano aquilo que talvez ele não pudesse enxergar sozinho. E o rei, por sua vez, deveria confiar naquele que escolhera para aconselhá-lo, sem permitir que essa confiança se transformasse em dependência.
Um não deveria diminuir o outro.
Precisavam estar juntos.
Não porque um fosse incapaz de caminhar sem o outro, mas porque, lado a lado, poderiam enxergar aquilo que sozinhos talvez não conseguissem.
Lúcia passou os olhos pelo esboço da pintura.
De repente, a partida pareceu fazer sentido.
Ela havia entrado naquele jogo acreditando que conhecia o príncipe o suficiente para prever seus movimentos. Havia olhado para ele e decidido, antes mesmo de realmente conhecê-lo, que seria fácil vencê-lo.
E ele fizera o mesmo?
Talvez não.
Talvez tivesse simplesmente jogado.
Sem tentar provar que era superior.
Sem subestimá-la.
Sem permitir que as expectativas que ela criara sobre ele determinassem seus movimentos.
Lúcia soltou um pequeno suspiro.
— Então era isso...
O pintor continuou em silêncio, fingindo concentrar-se na tela.
Talvez aquela partida nunca tivesse sido apenas sobre quem venceria.
Talvez tivesse lhe ensinado uma das primeiras coisas que precisaria aprender caso um dia realmente se tornasse uma conselheira.
Um bom conselheiro não deveria temer que seu rei tomasse uma decisão sem ele.
Deveria confiar nele.
E um bom rei não deveria desejar um conselheiro que apenas concordasse com suas vontades.
Deveria desejar alguém que tivesse coragem de caminhar ao seu lado, mesmo quando seus pensamentos fossem diferentes.
Lúcia sorriu discretamente.
Agora compreendia por que o pintor havia dito que o empate talvez não fosse uma derrota.
Talvez, naquela partida, os dois tivessem simplesmente encontrado um ao outro no mesmo lugar.
E, pela primeira vez, Lúcia percebeu que havia coisas que não precisavam ter um vencedor.
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