Entre A Luz E As Trevas
1 Capítulo 1 Encontro
Dizem que os anjos aparecem em nossas vidas para nos ensinar a dar valor a coisas que antes não achávamos importantes. Dizem que anjos existem, que caminham entre nós, seres humanos, em forma carnal sem que possamos imaginar esta realidade. Dizem que existem os anjos que querem nos levar para o caminho da luz, e que lutam contra os anjos das trevas, que querem semear a discórdia e o ódio entre nós, simples mortais.
Eu particularmente nunca acreditei em nada disso. Sempre fui cético e sempre fiz aquele tipo que só acredita naquilo que meus olhos são capazes de ver, nunca acreditei no sobrenatural e sempre achei que esse tipo de coisa fosse invenção dos religiosos, que acreditam na salvação de nossa alma. Para mim, essa história não passa de nada, nunca acreditei na vida após a morte e acho que a vida é uma só e que cada pessoa deve vive-la de acordo com suas próprias regras.
Meu nome é Rand Cameron e sou um solitário homem de trinta e sete anos, vivo sozinho em uma pequena cidade esquecida pelo mundo. Uma dessas cidades onde nada acontece, todos os dias são exatamente iguais e onde um homem solitário pode viver seus dias sem ter que se importar com os outros.
Trabalho como médico nesta cidade, aliás, sou o único médico aqui. Sempre atendo meus pacientes em casa, pois aqui nesta cidade não tem um bom hospital. O que tinha, mal atendia as necessidades das pessoas e foi destruído com uma forte chuva há dois anos, desde então comecei a atender meus pacientes em casa, o que eu prefiro, o ambiente hospitalar me incomoda, não gosto de multidão.
A cidade possui pouco mais de dez mil habitantes e, todos são muito hospitaleiros e amigos. É o tipo de lugar onde todos se conhecem, todos são amigos e todos se ajudam mutualmente. Todos, com uma única exceção, eu.
Não faço o tipo sociável, por este motivo, quando eu tinha vinte anos de idade, sai de casa para evitar o matrimônio que minha família havia arranjado. Desde antão mudei-me para esta cidade e nunca mais mantive contato com nenhum membro de minha família.
Em minha pacata rotina, passo meus dias atendendo a meus pacientes e as minhas noites são todas solitárias em minha pequena casa. Uma rotina que vivo há dezessete anos, desde que sai de casa, e que não queria e muito menos pretendia mudar. Achava que estava bem e que era feliz assim. Até eu ter minha pacata e solitária vida sendo drasticamente mudada por um destes acasos do destino, se é que pode ser chamado de acaso.
Em toda a minha vida, eu nunca poderia imaginar que seria um dos protagonistas de algo que eu sequer acreditava. Eu nunca imaginei que o acaso me colocaria de frente com ela... Aquela que mudou minha vida de uma forma que eu jamais imaginaria...
Aquela noite eu estava atendendo a meu último paciente, um pai de família de sessenta e oito anos que padecia vítima de uma doença incurável. Eu não podia fazer muito por ele, o máximo que minhas habilidades médicas permitiam era apenas aliviar sua dor com medidas médicas paliativas, até chegar a hora de sua morte. Nestas horas, penso que é injusta a vida de um médico, quando não se pode salvar a vida de seu paciente.
Terminei meu atendimento e dei algumas instruções para a esposa do doente, que mais uma vez me agradecia por tudo o que eu fazia. Lá fora o inverno tornava a noite congelando, e, antes de deixar a casa, vesti meu sobre tudo e coloquei meu cachecol para então sair para a fria noite em minha cidade.
Na rua, o vento forte aumentava a sensação térmica, fazendo meus ossos congelarem. Tudo o que eu queria era chegar logo a minha casa para me aquecer na pequena lareira que tem na sala de minha casa. Pequena, porém eficiente, umas horas em frente a ela e tomando uma boa caneca de chocolate quente seria perfeito para minha solitária noite.
Ainda faltavam algumas quadras para que eu chegasse a minha casa, e, foi então que eu senti um cheiro muito peculiar e anormal para uma noite de inverno. Era cheiro de sangue. Para muitas pessoas o sangue não tem cheiro, porém para mim, médico a tant5os anos, o líquido vital do ser humano tem um cheiro bastante peculiar, que eu consigo sentir a distância.
O cheiro não vinha de muito longe e, era quase certo que havia uma pessoa ferida ao relento, no meio daquela fria noite de inverno e, como médico, era meu dever ajudar quem quer que fosse. Um médico não pode abandonar uma pessoa ferida no meio da noite, é contra o código de ética e contra o juramento profissional.
Mudando meu itinerário, comecei a andar pelas desertas ruas da cidade, já passava das onze da noite e quase ninguém aparecia nas ruas aquele horário. O que me fez desconfiar ainda mais daquele cheiro de sangue... Raramente aconteciam assaltos na cidade, pois todos se conheciam perfeitamente bem. Seria alguém de fora então?
Enquanto eu andava a procura da pessoa que certamente estaria ferida, minha mente trabalhava sem parar em possíveis teorias para o que poderia ter acontecido. Eu não pensava mais em voltar para minha casa ou em minha quentinha lareira que me esperava para me aquecer. Tudo o que eu conseguia pensar era na pessoa que obviamente estava ferida.
Eu cheguei até um beco sem saída e, acertei em cheio, olhei para o chão e ali havia uma grande poça de sangue, pelo visto o ferimento da pessoa era grave. Eu estava preparado para qualquer coisa, menos para o que eu vi.
Olhei para frente a fim de ver a pessoa que havia perdido todo aquele sangue. A poça de sangue do chão seguia formando um caminho até o fim daquele beco sem saída. E foi então que meu corpo ficou totalmente paralisado diante da visão em minha frente...
Ela tinha uma aparência extremamente infantil... Olhos de um verde profundo que demonstravam medo e, por trás do medo, conseguia ver inocência através das duas esmeraldas que eram os olhos dela... A pele dela era muito branca, nunca vi alguém com pele tão clara em toda a minha vida... Ela tinha longos cabelos cacheados e loiros platinados, que eram longos e caiam em cascata por todo o corpo dela... Ela usava um longo vestido branco que lembrava muito uma camisola de senhora e estava manchado de vermelho devido ao sangue que perdia, era uma grande quantidade. Porém, o que me paralisou por completo não foi o sangue que ela perdia e sim o que saia das costas dela, asas... Uma das asas daquela menina estava perfurada por um objeto cortante, parecia uma lança, e era dali que vinha todo o sangue.
Aquela mulher com rostinho de criança que jazia ali caída e ferida era, definitivamente um anjo... Minha surpresa era tanta que apenas a observava com meus olhos espantados e totalmente imóvel.
CONTINUA...
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