Entre A Luz E As Trevas

2 Capítulo 2 A Menina Anjo


Eu ainda permanecia imóvel perante aquela cena chocante... Eu queria desesperadamente acreditar que aquilo era um sonho, que era uma alucinação devido as horas de trabalho. Porém eu já era acostumado aquela rotina, então logo tratei de tirar esta possibilidade de minha cabeça.

Meu lado médico tratou de entrar em ação, com meu corpo trêmulo, tratei de me aproximar daquela menina anjo a fim de pode ajuda-la. Anjo ou não, eu simplesmente não podia deixa-la abandonada a própria sorte. Eu não seria um bom médico ou um bom homem se a abandonasse.

Então me aproximei da menina anjo e o corpo dela tremia tanto ou mais quanto o meu. Não era apenas as asas dela que estavam feridas, os braços dela também estavam sangrando e, olhando atentamente, pude perceber uma grande mancha de sangue no tecido branco de seu vestido, na altura do tórax, o que me fez concluir rapidamente que ela também estava ferida ali.

Olhei para aquele rosto assustado e de repente senti uma paz que nunca em minha imaginei poder sentir. Os olhos verde esmeralda dela choravam, imaginei que deveria ser a dor que ela deveria estar sentindo. Tirei meu sobretudo e comecei a sentir o frio daquela noite sem a vestimenta, e, tentei cobri-la. No momento em que minha mão tocou a pele daquela menina anjo, ela automaticamente se retraiu, como se tivesse medo de mim. Eu não sabia o que tinha acontecido com ela, até aquele momento, nem imaginava que anjos pudessem existir, mas eu queria ajuda-la. Eu nem entendi o porque, afinal sempre fui um homem muito solitário, mas eu não queria deixa-la abandonada a própria sorte.

Tentei toca-la mais uma vez, porém ela se retraiu novamente, com medo do meu toque.

- Não tenha medo, menina anjo. – eu disse, minha voz estava segura e firme, queria que ela confiasse em mim para ajuda-la. – Eu não vou machuca-la, quero te ajudar.

Ao ouvir minha voz, a menina anjo pareceu se acalmar, pelo menos o bastante para que eu a tocasse. Assim, eu consegui cobri-la com meu sobretudo, e depois disso, com muito cuidado para não machuca-la, a pequei em meus braços. Pra minha surpresa, ela era leve como uma pluma, nem parecia que eu estava carregando um adulto nos braços.

Tomei um cuidado especial com as asas. Se eu pudesse, tiraria aquele pedaço de lança ali mesmo, porém em casa eu tinha os instrumentos médicos mais adequados para aquele procedimento.

- Não tenha medo. – eu repeti, percebendo que ela tremia em meu colo – Eu vou ajudar você, é só isso que irei fazer. Eu jamais machucaria você.

E novamente, ao ouvir minhas palavras, ela se acalmou e até se aconchegou em meu colo. Eu andei rapidamente, queria chegar o mais rápido possível a minha casa, não queria encontrar ninguém, pois provavelmente me fariam ir até a delegacia local dar queixa do que eu vira, e, como eu ia explicar o que eu mesmo não entendia?

Eu ainda custava a acreditar que carregava em meus braços um anjo, pois, não sou desses que acredita no sobrenatural e no além. Uma parte de mim ainda queria acreditar que era um sonho, que eu imaginei as asas da menina, que quando eu chegasse em casa, só encontraria uma mulher normal, sem asas, a qual eu prestaria os socorros necessários.

Não demorou muito para que eu chegasse a minha casa, passei apressadamente pelo pequeno jardim, tirei as chaves do bolso e abri a porta, agradecendo mentalmente por finalmente estar em meu lar. Acendi a luz da sala e, inicialmente, pensei em deitar a menina anjo no sofá de três lugares, o maior de minha sala, mas, logo mudei de ideia. Subi as escadas que levam ao segundo andar e entrei no único quarto da casa, o meu, e, deitei a menina anjo em minha cama de casal.

Apesar de ser solteiro, eu sempre fui meio espaçoso, por isso a cama de casal. A menina me olhava com os olhos verde esmeralda ainda assustada, eu queria acalmá-la, porém, naquele momento era mais importante cuidar dos ferimentos dela.

Deixei ela sozinha e desci as escadas, voltando ao primeiro andar para ir a meu consultório. Não gosto de atender a meus pacientes em casa, porém é necessário manter um consultório em casa para alguma emergência. No aposento, peguei tudo o que precisava, ataduras, bisturis, remédios que ajudam na cicatrização, anestesia... Tudo que eu precisaria para curar os ferimentos da menina anjo. Me lembrei mentalmente para perguntar o nome dela, pois não queria passar o resto do tempo que ficaria com ela sem nem ao menos saber o seu nome.

Voltei para meu quarto e a menina anjo observava assustada meu aposento, parecia que ela nunca tinha visto um quarto antes, observava curiosa minha estante repleta de livros e meu criado do mudo com um abajur e um relógio despertador.

Eu me aproximei dela e tirei meu sobre tudo, precisava começar a trabalhar. Eu tinha que começar pela lança que perfurava uma das asas, mas, como nunca na vida tinha atendido a um anjo – aliás, eu nem sabia que anjos existiam – não sabia se era seguro anestesiar o local. Seria melhor não arriscar.

- Escute, menina anjo. – eu disse, com uma vos tranquila, na esperança de acalmá-la – Você está muito ferida e eu quero ajuda-la. Mas pode ser que você sinta um pouco de dor. Você me compreende?

Ela me respondeu afirmativamente com a cabeça, e, naquele momento, eu finalmente entendi que aquela menina anjo me compreendia. Involuntariamente sorri para ela, e, para minha total surpresa e espanto, ela sorriu de volta para mim. Todo meu interior foi tomado por uma paz inexplicável enquanto eu contemplava o sorriso meigo e sem maldade de minha menina anjo.

Me aproximei dela e toquei na asa ferida, e ela gemeu com meu toque ao mesmo tempo em que seus olhos verde esmeralda se enchiam de lágrimas. Eu a conheci há menos de uma hora e não gostei de vê-la gemendo e sofrendo, e, me estranhei por pensar assim. Não era o tipo de homem que se preocupava com desconhecidos, e, no entanto, estava mais do que preocupado com minha menina anjo.

- Calma, menina anjo. – eu disse mais uma vez, para acalmá-la – Sei que dói, mas é para que eu possa tratar seus ferimentos.

Enquanto eu trabalhava nos ferimentos dela, conversava, para que ela esquecesse a dor e o que eu estava fazendo. Ela não dizia uma única palavra, apenas me observava com seus inocentes olhos verde esmeralda. Quando ela sentia dor, gemia e eu pacientemente explicava para ela que estava doendo, mas que iria melhorar.

Quando eu consegui tirar a lança da asa dela, percebi que o ferimento era bastante extenso. Com muita paciência, tratei dos ferimentos delas com um remédio cicatrizante e depois enfaixei com algumas ataduras, tudo isso sobre os olhar inocente e curioso da menina anjo.

Após cuidar da asa, tinha que mexer na ferida do tórax dela e, para isso, precisava tirar o vestido ensanguentado dela. Sai da cama, e fui até meu guarda roupas, peguei um pijama e voltei para a cama, para cuidar dos ferimentos dela. Rasguei o vestido na altura do ferimento para poder tratar, e, assim como na asa, ela gemia enquanto eu cuidava dela.

No final meu trabalho valeu a pena, ela estava devidamente tratada e, eu poderia manda-la embora, para onde quer que os anjos morem. Mas, algo nos olhos verde esmeralda dela me impediu de fazer isso.

- Menina anjo, vista o meu pijama. – eu disse, mostrando para ela o pijama que havia pego – É melhor do que você ficar com esta roupa ensanguentada.

A menina anjo me olhou confusa, como se não soubesse do que eu estava falando. Pensei que, muito provavelmente, ela não soubesse o que era uma roupa, então fui obrigado a ajuda-la a trocar de roupa. Foi um trabalho difícil, já que eu tive que fazer praticamente tudo, mas ao final do processo ela estava limpa e as feridas tratadas. Fiz com que ela se deitasse em minha cama e a cobri com alguns cobertores, para que ela pudesse dormir e descansar.

- Você tem um nome, menina, anjo? – perguntei, pois queria muito saber como poderia chama-la.

Ela me olhou confusa, pelo visto não havia entendido.

- Eu me chamo Rand, entende? – perguntei.

E ela respondeu afirmativamente com a cabeça.

- E você, tem um nome? – eu tornei a perguntar.

E ela me respondeu com uma negativa com a cabeça, como vinha fazendo. Parecia que não sabia falar.

- E eu posso escolher um nome para você? – eu perguntei mais uma vez.

E ela me respondeu afirmativamente. Olhei novamente para aquele rosto angelical, os olhos verde esmeralda tão inocentes... A pele extremamente branca, os cachos loiros platinados... Toda aquela fragilidade e, só me minha um nome em mente.

- Menina anjo, vou te chamar de Angelina. Você gosta?

Ela sorriu para mim, o que me fez deduzir que havia gostado do nome que veio em minha mente ao olhar para toda a pureza de seu olhar. Enfim sai da cama e apaguei a luz, saindo do quarto.

- Boa noite, Angelina.

CONTINUA...