Ensina-me a respirar
9 Capitulo 8 A casa de Angra dos Reis
— Júlia, você pode pedir ao enfermeiro para trazer a cadeira de rodas? – Perguntou Flora delicadamente.
— Claro, Flora, só um minuto que já vou — disse ela terminando de mexer no notebook que estava em seu colo e logo em seguida o fechando.
Tudo estaria em paz se não fosse a maldita dor na perna que me incomodava desde o acidente. Flora estava doce como sempre e Júlia fazia todo o possível para ajudar.
O Dr. Andrade havia dado ordens bem específicas para Flora sobre meus remédios, a troca de curativos dos pinos da perna e também pediu para que ela me aconselhasse a procurar um psicólogo por conta da pancada na cabeça, para ter certeza que não ficou nenhum trauma do acidente.
Depois de algum tempo, um enfermeiro veio e colocou-me na cadeira de rodas com bastante cuidado, o que não evitou que a perna doesse mais. Fui acompanhado de Flora e Júlia que conversavam mais a frente enquanto o homem empurrava a cadeira até a ambulância que me aguardava na saída do hospital junto com o Dr. Andrade.
— Bom, Sr. Aguilar, é aqui que nos despedimos e espero de coração que fique bom logo. – falou o médico com simplicidade. — Passei a Flora todos os cuidados que vocês devem tomar com a perna e as datas dos próximos exames, se o senhor quiser continuar se tratando comigo, é claro.
— Continuarei o tratamento já que o senhor começou Dr. Andrade, mas não garanto a tal visita ao psicólogo visando que tenho não todo este tempo disponível. — Terminei.
Ele deu uma olhada para Flora e Júlia que não entendi ao certo o que queria dizer, mas resolvi que não perguntaria sobre isso.
Não demoramos muito tempo para chegar a minha casa em Angra dos Reis. Construída pelo meu pai para a minha mãe ela possuía uma arquitetura Greco-Romana fantástica, na frente tinha uma fonte com uma estátua de minha mãe sentada com alguns pássaros que ele havia construído em seu aniversário de vinte e sete anos logo após o casamento.
Nos fundos havia uma piscina com água aquecida onde Júlia passava a maior parte do tempo em nossas visitas à casa. Mais ao fundo no terreno, ficava um antigo jardim meio acabado que fiz para Melissa em nosso tempo juntos no Brasil. Pensando bem, acho que é por isso que não gostava de plantas.
Enquanto entrávamos na casa, Flora olhava admirada para tudo, realmente era uma casa de alto nível, mas como eu já estava acostumado não me atentava a esses detalhes.
— Nossa, Sr. Aguilar, a casa é realmente linda! — exclamou Flora — Parece até um castelo de contos de fadas. — Completou.
— Não é para tanto, a casa de Miami é bem maior e mais moderna que esta. – disse indiferentemente.
— Realmente é linda a casa, Flora, Daniel e eu sempre passávamos nossas férias escolares aqui e era muito divertido!
— Ela deve ter uns vinte quartos! — Disse Flora pensando alto.
— Na verdade, ela possui vinte e cinco quartos, cinco suítes, duas quadras de esportes, uma piscina aquecida, um bar próprio e um enorme jardim. Fora os carros de coleção que o Dan guarda aqui. — falou Júlia com a mão no queixo como se estivesse fazendo esforço para lembrar-se de tudo.
— Um jardim! — exclamou Flora exaltante — Nossa, será que mais tarde se não for problema posso dar uma olhada nele?
— Não. — falei rápido — Ele está todo destruído, não há nada lá que valha sua atenção.
— Poxa, é uma pena. — disse Flora abaixando a cabeça.
— Deixa de ser chato, Daniel. — falou Júlia me fuzilando com os olhos — Eu te levo lá mais tarde, Flora, e, como você é paisagista, acho que poderá dar uma vida àquele lugar já que o Daniel mandou o jardineiro embora há alguns anos.
— Não posso ir lá se isso incomoda o Sr, Aguilar, e também tenho muitas coisas a fazer e não sei se terei tempo para isso infelizmente.
— Por que algo tão trivial como um jardim me incomodaria? Faça como quiser, apenas não se esqueça de que está aqui a trabalho e não lazer. — respondi não querendo dar o braço a torcer.
Logo quando entramos na casa, os empregados já nos esperavam no hall de entrada, nas escadas curvadas que levavam ao segundo andar onde ficavam os quartos, percebi que um aparelho para cadeirantes tinha sido instalado recentemente.
— Tomei a liberdade de mandar colocar um elevador para deficientes na sua escada e também pedi uma cadeira motorizada para que não dependa de ninguém para se locomover.
— Ótimo, Srta. Linda, como sempre bem observadora.
— Bom, Sr. Aguilar, que tal subirmos para seu quarto, afinal deve estar cansado da viagem e acho que irá querer tomar um banho e descansar. — Continuou Flora.
Espera ai! — exclamou Júlia – O Daniel não está em condições de tomar banho sozinho, então — ela fez uma pausa rápida e soltou um sorriso maldoso — quem vai dar banho nele?
— Ora, Júlia, — disse rapidamente – você pode me ajudar nisso! – completei vendo Flora corar.
— Nem pensar, — falou ela rindo — sua enfermeira é a Flora, quem não quis contratar uma enfermeira “suja” — Julia fez aspas com as mãos — foi você, então se virem porque eu vou cair na piscina!
Após dizer isso, Júlia saiu rindo em direção aos fundos da casa enquanto eu e Flora ficávamos calados processando a informação.
Não demorou muito para a ficha cair, Flora me olhava esperando minha rejeição e concordo que não era uma situação muito confortável para mim também, mas estava acostumado com os empregados da casa e sabia o quanto eles era sujos devidos aos afazeres domésticos e nesse momento me vi sem saída.
— Srta. Linda, — respirei fundo — realmente não é uma situação confortável, mas acho que podemos ser profissionais com relação a isso.
— Sr. Aguilar, não sei se posso fazer isso! — falou apreensiva tropeçando com as palavras — será que não poderia pedir para outra pessoa?
— A senhorita sabe que não confio em mais ninguém para cuidar de mim, como lhe expliquei no hospital e deveria saber que isso fazia parte do trabalho de uma enfermeira.
O rosto de Flora estava totalmente vermelho e vi que ela procurava algum lugar para colocar a sua cara de tanta vergonha, confesso que apesar do nervosismo eu no fundo estava gostando da situação..
Flora me ajudou com o elevador e fomos até o quarto onde os empregados já tinham colocado nossas malas. Ela olhava para todos os cantos do quarto evitando se esbarrar com meus olhos, até que depois de respirar fundo ela me olhou de cabeça baixa e disse:
— Vamos, Sr. Aguilar, primeiro temos que move-lo para a cadeira de metal. — Observou ela.
— Ah sim, claro — disse saindo do transe — pode me ajudar a me levantar?
Flora veio em meu auxilio me dando seu ombro pra que pudesse passar de uma cadeira a outra, senti por um momento minha perna doer, porém deu para resistir tranquilamente, afinal estava nervoso demais para pensar nisso.
Tirei a camisa pólo que vestia enquanto Flora tirava meus sapatos e meias de modo que fiquei apenas com a bermuda que possuía um zíper de lado para tirar sem tocar nos pinos da perna.
Flora olhava para o lado enquanto eu abria o zíper retirando apenas a parte da frente da bermuda. Ficar nu na frente dela fazia meu coração bater acelerado e senti meu rosto corar, ela evitava me olhar enquanto empurrava a cadeira em direção ao banheiro que também tinha sido adaptado para cadeirantes.
Ela começou a me banhar limpando as feridas e os pinos da perna, em seguida me passou o sabonete para que eu limpasse as minhas partes íntimas até a altura do peitoral.
Percebi que enquanto ela me secava com a toalha, seu rosto apesar de corado apresentava um tom de muita calma e paz, isso acabou me deixando mais tranquilo.
— Pronto, senhor, vou lhe colocar na cama para que possa descansar um pouco — disse ela depois que terminamos de me vestir novamente.
Apoiado em seu ombro mais uma vez ela ajudou-me a levantar para passar da cadeira para a cama. Enquanto estávamos em pé, antes que pude perceber, pisei em falso com a perna ruim e por instinto cai na cama levando Flora comigo que acabou se projetando em cima de mim por acidente. Ficamos cara a cara por algum tempo, imóveis apenas nos olhando, víamos nossos reflexos nos olhos um do outro até que ouvimos a porta abrir rapidamente.
— Daniel, você sabe onde coloquei o meu... — Júlia ficou imóvel olhando a cena de Flora e eu na cama daquela forma. — Desculpem incomodar volto mais tarde quando acabar! – disse fechando a porta.
Flora saiu de cima de mim rapidamente, seu rosto estava mais corado que nunca e eu também estava na mesma situação, ela terminou de arrumar as coisas e saiu do meu quarto me deixando sozinho com meus pensamentos.
FLORA LINDA
Encontrei Júlia no andar de baixo na sala de tevê.
— Espero não ter atrapalhado nada — ela disse rindo.
— A gente só caiu — murmurei constrangida.
— Claro! — ela riu — Daniel, aquele safadinho.
— Júlia, foi um acidente! Por favor não fale mais nisso — tentei ser firme
— Tudo bem. Desculpa. — falou Júlia. Virei para sair da sala — Mas aposto que vocês gostaram desse acidente.
— Não! — Respondi, mas pensando bem não tinha sido tão ruim assim.
Naquela mesma noite, acordei de madrugada para beber um pouco de água e no caminho de volta para meu quarto resolvi dar uma olhada em Daniel e ainda bem que o fiz.
Daniel estava queimando em febre. Liguei para o médico dele enquanto o termômetro media sua temperatura.
O dr. Andrade atendeu no segundo toque com uma voz sonolenta.
— Boa noite, doutor, desculpa estar ligando a essa hora. É a Flora!
— Boa noite, senhorita Linda, aconteceu alguma coisa?
— Daniel está com um pouco de febre — contei tentando conter o nervosismo.
— Tudo bem, vamos fazer uma verificação para ver se há necessidade de levá-lo ao hospital. Você trocou os curativos nos horários certos?
— Sim, senhor.
— Muito bem, veja se há sangue nas ataduras — Fiz conforme o médico me instruiu e vi que estava tudo limpo, passei a informação a ele — Tudo bem, verifique se há algum inchaço perto do machucado.
Fiz uma leve massagem e vi que tudo parecia bem, relatei isso ao médico.
— Srta. Linda, acredito que essa febre não seja nada demais, o corpo de Daniel está passando por uma leve desintoxicação. Os remédios que ele está tomando atualmente são mais fracos do que o que aplicamos no hospital, mantenha-o sobre observação, dê um antitérmico e me ligue amanhã de manhã para falar sobre seu estado. Então veremos se há ou não a necessidade de levá-lo ao hospital.
— Okay, doutor, obrigada. E mais uma vez me desculpe.
— Sem problemas, Srta. Linda, me ligue caso haja alguma coisa. Tenha uma boa noite.
Desliguei o telefone e acordei Daniel para lhe dar o remédio que o doutor havia passado.
— Vamos lá, Dan, levanta. É rápido — chamei.
Daniel levantou um pouco o corpo e deixou os olhos entre-abertos, parecia ainda estar dormindo, mas tomou o remédio e a água antes de voltar a deitar.
Estava saindo do quarto para voltar a dormir quando ouvi a voz de Daniel.
— Não me deixa sozinho, por favor, não me deixe — ele murmurou. Virei para ver se ele falava comigo, mas Dan continuava dormindo — Eu não quero ficar sozinho — choramingou.
Voltei para perto da cama e me abaixei para fazer um leve carinho nos cabelos de Daniel.
— Eu estou aqui, Dan, não vou te deixar sozinho — prometi baixinho.
Nunca tive certeza se Daniel me ouviu, mas mesmo assim, depois daquela noite passei a dormir em um colchonete no quarto dele.
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