Ensina-me a respirar

10 Capitulo 9 O jardim esquecido


Três dias se passaram, as brigas se tornaram mais constantes e pessoais, Júlia sempre defendia Flora ao invés de ficar do meu lado e sempre discutíamos também por conta disso.

A hora do banho era sempre constrangedora para ambas as partes, porém estávamos nos adaptando a esta situação melhor até do que eu esperava. Flora passou a dormir numa cama de solteiro perto da minha, pois na primeira noite tive uma febre horrível.

Estávamos como sempre tomando nosso café da manhã enquanto Flora, que acordara muito mais cedo, já estava a mandar e-mails em seu Imac.

— Flora, para de mexer nisso e coma conosco! — Ordenou Júlia enquanto servia seus cereais.

— Desculpe-me, Júlia, mas Patrícia precisa de alguns arquivos para uma reunião agora pela manhã. Assim que acabar eu como um pouco, tá bom? —disse Flora calmamente sorrindo para a amiga.

— Daniel, sentiu muita dor esta noite? – Perguntou Júlia mudando de assunto.

— Um pouco Júlia, a dor vem sempre quando está perto de tomar o remédio novamente e os pinos ainda incomodam para dormir. — falei enquanto passava manteiga no pão. — Não vejo a hora de tirar isso da minha perna!

— Não se esqueça, Sr. Aguilar, que depois que retirar os pinos ainda precisará ficar alguns dias com tala na perna e depois fazer a fisioterapia. — Disse ela sem tirar os olhos do computador.

— Eu sei de tudo isso, não precisa ficar me lembrando a toda hora, apenas quero retirar os pinos porque me incomodam. — acendi um cigarro — Já terminei meu café! – disse ao empregado.

— O senhor precisa mesmo fumar na mesa? — Perguntou Flora.

— Minha mesa, Srta. Linda, e minha casa também! — exclamei. — Fumo onde eu quiser na hora que bem entender. — falei me sentindo vitorioso.

Flora me olhou por um tempo, seu olhar era triste e sincero, ela respirou fundo e logo em seguida abriu um sorriso.

— Tudo bem, Sr. Aguilar. — disse se levantando. — Preciso terminar isso para Patrícia, se me der licença vou terminar no escritório pois, como estou lidando com números, preciso manter minha atenção ao máximo.

Após dizer isso, Flora saiu em direção ao escritório no segundo andar. Fiquei imóvel, achei que ela iria tentar me convencer de que não poderia fumar naquele local e acabaríamos brigando, mas ela foi simples e rápida, tirando toda e qualquer reação que eu poderia ter.

— É, Daniel, ponto para a Flora — disse Júlia rindo e se levantando — Se quer saber, a fumaça também me incomoda. Vou sair um pouco de casa, então vê se não arruma encrenca até eu voltar, tá?

— Cala a boca, Júlia! – falei fechando a cara — Some logo daqui também!

Dei uma tragada forte e joguei o máximo de fumaça que consegui para fora. Elas realmente estavam se juntando contra mim, pensei, toda vez que acontecia algo eu sempre saía como errado na história.

A manhã passou extremamente rápido, Flora só saiu do escritório para limpar as feridas da minha perna e me fazer tomar o remédio.

A tarde fui ao escritório para falar com Flora sobre algumas estátuas que não estavam alinhadas na casa, precisava que ela conversasse com os empregados para resolver isso de uma vez por todas e confesso que estava nervoso.

Ao chegar lá, reparei que já não se encontrava mais no ambiente, então dei meia volta e saí a sua procura, nesse momento passava uma das empregadas.

— Margarida, você sabe onde a Srta. Linda se encontra? — Perguntei calmamente.

— Desculpe corrigi-lo, senhor, mas é Margareth. E sim, vi a Flora... — ela deu uma pausa rápida — Srta. Linda indo para o jardim.

— Obrigado, Margareth, pode ir.

Não acredito que ela estava no jardim. Pensando bem, desde que chegamos por alguns momentos, percebia sua ausência, mas apenas achei que estaria no quarto ao lado descansando e não no jardim.

Fui até o lado de fora com minha cadeira motorizada. Graças á Flora, a casa estava toda adaptada com rampas e elevadores para eu poder andar por toda a propriedade.

Logo quando cheguei, tomei um baita susto, as flores estavam todas vivas e o jardim estava rodeado de mais cores do que conhecia. Devo dizer que estava realmente lindo, alguns arbustos estavam com formato de estatuas de animais e se espalhavam por todo o lugar.

Percebi que perto do jardim tinha uma picape muito antiga parada com algumas flores em sua traseira. Mesmo olhando aquilo tudo, meu pensamento ia tentando desvendar como aquele carro ainda funcionava, sua pintura estava toda desbotada, havia vários pontos de ferrugem e seu cano de descarga estava totalmente torto.

— Sr. Aguilar? — ouvi a voz de Flora — O senhor deseja algo?

— Na verdade tenho que te passar... — eu ainda olhava para o carro — Isso é seu? – perguntei incrédulo.

— Sim, senhor, esse é o meu carro! – respondeu ela rindo.

— Eu pensei que estava usando o carro da empresa. — questionei — Afinal, isso ainda anda?

— Claro que anda! – disse parecendo ofendida – É um ótimo carro!

— Se você o diz, mas, Flora, o que fez com o meu jardim?

— Bom, eu tenho adiantado o meu trabalho e no tempo livre fico aqui o refazendo. — ela parecia apreensiva enquanto falava, acho que na verdade ela achou que mandaria parar e desfazer tudo. — O senhor disse que não teria problemas!

Respirei fundo, estava pronto para mandá-la parar, olhei em seus olhos novamente e acabei me perdendo neles. Seus olhos apresentavam muita paz e alegria, ela realmente amava fazer aquilo com as plantas.

— Tudo bem, pode continuar, afinal você também precisa de uma folga já que está trabalhando fora de seu horário. — respondi vendo seu rosto ir de incrédula para um lindo sorriso que somente ela conseguia fazer.

— O senhor gostaria de ver o jardim? – perguntou ela.

Fiquei quieto por um tempo enquanto Flora caminhava em minha direção, não sabia direito o que dizer por que eu simplesmente não gostava muito de plantas, mas eu realmente queria ficar ao lado dela e resolvi aceitar seu convite.

Já estava cansado, todo esse tempo me sentia inseguro com as outras pessoas, via apenas suas falhas e basicamente desaprendi a ver suas qualidades. Quando estava na presença de Flora, tudo parecia mais colorido, exatamente como esse jardim e percebi que todas as vezes que a quis mandá-la embora, era apenas por medo, medo de um sentimento reprimido, medo pelo que Melissa fez a mim.

Era muito difícil eu deixar alguém se aproximar dessa forma, esse sentimento eu via apenas como uma fraqueza que as outras pessoas poderiam explorar para me ferir, porém, Flora era diferente e dessa vez resolvi que não iria contrariar meus sentimentos.

— Claro, porque não! — respondi inseguro. — Vamos ver o que você fez ao jardim!

Comecei a caminhar com Flora, percebi que ela estava muito diferente do habitual, seu cabelo estava trançado e ela usava um macacão com uma das alças de modo que dava para ver perfeitamente o contorno de seus seios sobre a camisa branca de algodão que usava. Sua roupa estava um pouco suja de terra, mas também resolvi que não pensaria nisso.

O jardim estava coberto por vários tipos de flores e eu não conhecia nem um décimo do que estava vendo. Os detalhes eram o que chamavam mais atenção, Bonsais bem arranjados enfeitavam os locais isolados do jardim e estávamos andando por um caminho de pedra batida que acompanhava os arbustos em formato de animais pastando.

—Diga-me, Sr. Aguilar, por que o senhor é sempre tão duro com as pessoas? — perguntou Flora calmamente.

— Você me acha arrogante, Srta. Linda? — a encarei por um momento.

— Não, senhor, acho que é duro demais com as pessoas e de certo modo eu entendo seu pensamento, mas acho que se o senhor realmente quiser pode ser a ótima pessoa que eu sei que é! — ela fez uma pausa — Sabe, não gosto de ver as pessoas falando mal do senhor, afinal nenhuma delas conhece sua história para saber por que age dessa forma!

— E você, Srta. Linda, conhece minha história?

— Não senhor, isso seria uma invasão ao seu particular, mas ficarei feliz em ouvir quando quiser me contar. — ela parou e começou a ajeitar uma planta que estava um pouco caída. — Apenas acho que o senhor é uma pessoa melhor do que aparenta, sabe.

Respirei fundo por um momento, não gostava de falar sobre minhas coisas com empregados, mas olhando de outra forma, Flora não era apenas uma empregada, alguma coisa havia mudado nesse tempo e estava disposto a descobrir no que isso ia dar.

— Sabe, Srta. Linda... — comecei a falar mas ela me cortou.

— Pode me chamar de Flora se quiser, senhor — completou rindo — Não me importo.

— Tudo bem... Flora, como estava dizendo, não acredito que seja essa pessoa que você vê! – terminei.

— Posso chamá-lo de Daniel? — Perguntou ela.

— Acho que não tem problema visto que me dá banho todos os dias! — Falei tentando ser legal e descontraído.

Chegamos a um lugar do jardim onde havia um banco de madeira, Flora me ajudou a sair da cadeira de rodas e sentamos no banco. Estávamos próximos, sentia seu perfume e não conseguia parar de olhar em seus olhos.

— Daniel, estou te acompanhando no dia á dia há algum tempo, não lhe conheço como Júlia, mas consigo ter uma noção do caráter que possui.

Sei que você não tem muito jeito para lidar com as pessoas a sua volta e que tem certo receio delas, mas tenho certeza que má pessoa você não é! — disse com convicção.

— Mas eu volto a perguntar, Flora, como pode ter certeza disso? — Perguntei a encarando vívido para ouvir sua resposta.

Flora parou por um momento, cerrava seus punhos nas calças e mordia timidamente seus lábios com um gesto de apreensão e nervosismo. Ela levantou a cabeça e respirou fundo. Tudo a nossa volta tinha se apagado e apenas víamos os brilhos em nossos olhos. Ela passou a mão arrumando seu cabelo que se precipitava para fronte de seu rosto, em seguida soltou um sorriso bem carismático, simples, enquanto eu a encarava.

— Porque se você fosse mesmo uma pessoa ruim eu não teria me apaixonado por você Daniel. — Disse sem tirar os olhos dos meus.

Não acreditava no que estava acontecendo, Flora estava realmente sendo sincera e declarando seus sentimentos por mim? Fiquei imóvel por um tempo, queria sair e esquecer tudo isso, mas esse sentimento que eu venho reprimindo e negando veio á tona. A pesar de estar nervoso com a situação, eu resolvi que, depois de muito tempo, pela primeira vez iria me permitir sentir e expressar esse sentimento por alguém. Na verdade percebi que era mais forte do que eu. — Então temos um problema, Srta. Linda — falei calmamente enquanto ela abaixava a cabeça esperando que eu terminasse de falar.

— Eu entendo, Sr. Aguilar... — coloquei meu dedo em seus lábios carinhosamente indicando que queria silêncio da parte dela.

— O problema é que já faz um tempo que também me apaixonei por você, não queria admitir por medo ou sei lá por que! — completei — Mas essa é a grande verdade, toda vez que eu me deito é em você que eu penso, Flora, e quando não te vejo me sinto perdido e sozinho.

Flora apenas me olhou por um momento, meio incrédula, passou a mão pelos meus cabelos e acariciou meu rosto com toda doçura que possuía.

Passei minha mão também por trás de sua nuca e inconscientemente como um imã nossos corpos foram se encaixando cada vez mais até nossos lábios se encontrarem.

Seus beijos eram suaves, delicado, em alguns momentos abria meus olhos e via seu rosto, era lindo. As mãos dela iam do meu cabelo ao pescoço e eu acariciava levemente a sua nuca.

Ficamos nos beijando por algum tempo até que por fim senti meus lábios adormecerem, separamos nossos rostos ainda nos encarando e com simplicidade começamos a rir.

— Meu deus, o que foi isso? — Disse em poucas palavras rindo.

— Não sei, Daniel, mas espero que se repita bastante — completou ela.

Passei a mão delicadamente em seu rosto e ela se encolheu preguiçosamente como um felino, deu um beijo selado em seus lábios e olhei em seus olhos.

— Quero ficar com você!