Ensina-me a Amar
1 This Is War
Notas iniciais
To the right, to the left
We will fight to the death
To the edge of the Earth
It´s a brave new world
This Is War — 30 Seconds To Mars
***
A chuva caía torrencialmente, impedindo que Damon dormisse direito. Os raios, enormes cicatrizes formadas no céu, iluminavam todo o recinto. Os gritos, tão desesperados, ainda ecoavam na mente dele, deixando-o um pouco desconfortável. Aquelas imagens, imagens tingidas de vermelho sangue, não sairiam de sua mente tão cedo, ele não conseguia esquecê-las com tanta facilidade.
Mas, de certa forma, Damon sentia-se confortável com aquilo, com as cicatrizes espalhadas por seu corpo, com o frio que lhe eriçava os pelos do braço. Era ali onde ele queria estar, qualquer outro lugar simplesmente não faria sentido para ele. Damon não se arrependera de todas as decisões que havia tomado. Jamais se compungiu de servir e proteger seu país, sua nação.
O rapaz virou na cama e sorriu ao ver o retrato de seu irmão, Stefan. Um suspiro longo e sôfrego escapou dos lábios do moreno, e ele fechou os olhos ainda com o gosto amargo daquelas lembranças que percorrendo a boca. O ódio o consumia por dentro, era como o alimento de sua alma, era o combustível que o dava forças para continuar. A sede de vingança pulsava dentro dele, fazia com que ele almejasse ir ainda mais longe do que já fora.
Ele mordeu o lábio inferior com força e respirou fundo. De repente, um raio cortou o céu em uma velocidade quase invisível, e como um presságio — algo incrivelmente cálido e intenso — Damon sentiu seus pelos eriçarem, cada molécula de seu corpo agitou-se diante daquela sensação tão anormal e intensa.
Um som incrivelmente alto fez com a mente de Damon se agitasse repentinamente. A adrenalina percorreu seu sangue correndo por suas veias e se espalhando dentro de suas artérias sanguíneas. Ele sorriu e levantou da cama, os raios incendiavam o céu enquanto a chuva tornava-se cada vez mais intensa. Uma sirene começou a tocar e todo o quartel pareceu tornar-se escarlate, como o sangue. As sirenes tocavam despertando cada um dos homens de seu estado de inércia.
Damon colocou sua blusa e escondeu, sob a mesma, as medalhas que ele havia ganhado ao se alistar. Ele respirou fundo e sorriu ao ver seus companheiros pegando suas armas. Aquilo era uma guerra. O moreno repetiu bilhões de vezes em sua cabeça. E na guerra, apenas os mais fortes sobrevivem.
– Vamos logo, deve estar acontecendo algo lá fora. — A voz de Damon fora cortada pelo som estrondoso de algo parecido com uma dinamite. O moreno pegou sua arma e vestiu seu casaco, no qual havia o símbolo do exército americano. O fogo dos raios incendiava o céu com uma exuberância quase inacreditável. Damon saiu correndo para fora do quartel, junto com seus companheiros. Ele sentia seu coração bater em um ritmo acelerado, quase vertiginoso e podia ouvir os passos de seus colegas atrás dele.
À medida que corria, Damon relembrava de tudo o que passou para finalmente poder estar ali, junto com as pessoas que ele mais admirava. Ele tinha orgulho por ser assim, por estar ali. Afinal, aquela era uma conquista que poucos alcançaram. À medida que corria, Damon ouvia os gritos de desespero que ecoavam pela mata, quase como um agouro silencioso, cortante.
De repente, tudo o que ele pôde ver foram as pessoas correndo desesperadas pelo mato. Algumas gritavam e choravam, outras estavam caídas no chão com os corpos ensanguentados e extremamente machucados. Há poucos metros dali, estava a fonte de todo caos. Damon parou por alguns instantes, e observou os corpos caídos no chão, algumas pessoas apenas gemiam enquanto outras gritavam desesperadas. Damon caminhou por entre os corpos observando cada um deles caído no chão. Ao observá-los, mesmo ao relento, o moreno percebeu que eram islamitas.
Damon parou para observar uma mulher que estava caída no chão tentando estancar uma ferida, os olhos castanhos dela eram tão densos como uma montanha.
– Moço, me ajude. — Ela pediu gemendo de dor. Damon encarou a garota por alguns instantes, olhando-a nos olhos, sentindo aquelas duas íris pesarem em sua consciência. Ele respirou fundo e deu dois passos para trás, caminhando para longe da mulher, a deixando ali... Sozinha.
Ele saiu correndo pela mata ao ouvir o som de galhos sendo quebrados. Vários soldados percorriam o mesmo caminho tortuoso que ele, por entre os grossos galhos e as grandes folhas verdes. Damon avistou o homem a quem perseguia, e segurou sua metralhadora da melhor forma que pôde. Ele apertou o gatilho enquanto corria pelo mato, perseguindo o fugitivo. Os trovões explodiam no céu enquanto relâmpagos iluminavam o caminho à frente de Damon. Finalmente ele viu o homem caindo diante dele, ele sorriu e respirou fundo aliviado ao ver que o rapaz havia sido abatido. Ele voltou a correr pela mata atrás de possíveis fugitivos, mesmo ouvindo o som dos tiros atrás dele. Damon não pararia, para ele aquilo jamais seria o suficiente, não matava dentro dele a sede de vingança pela morte de seu irmão.
Outro raio rompeu o céu ao meio, mas junto a ele, veio o som de algo estrondoso, incrivelmente alto. Damon caiu de joelhos no chão ao sentir sua pele sendo dolorosamente rompida. Ele sentiu cada mera partícula de seu corpo ser dilacerada pela dor, enquanto o sangue escorria por sua camisa branca, molhando — a por completo. A dor era excruciante, a pior que ele já sentira em toda sua vida. Cada músculo de seu corpo se contraiu diante daquela dor insuportável enquanto ele lutava para encontrar seu ar.
A chuva caía sobre seu corpo enquanto ele pressionava o ferimento com força, sua visão foi ficando cada vez mais turva, enquanto ele ouvia os trovões vociferarem no céu. Damon ouviu alguém o chamando, mas não conseguiu responder... A última coisa que lhe veio à cabeça foi a voz daquela mulher murmurando:
– Me ajude...- A moça disse em árabe. Os olhos castanhos dela ficaram presos em sua mente, vagando dentro dele, enquanto ele perdia, lentamente, a consciência que ainda lhe restava...
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