Ensina-me a Amar
2 Major, I'm a Major
Notas iniciais
How do you sleep while the rest of us cry?
How do you dream when a mother has no chance to say goodbye?
How do you walk with your head held high?
Can you even look me in the eye
And tell me why?
***
Mais um dia no que se tornou comum para Elena. Aquele cenário já não era mais uma surpresa, mas ainda assim, ela não conseguia se livrar daquela sensação angustiante que se apossava dela todas as vezes que olhava para aquele lugar.
O grande acampamento era dividido por alas. Cinco grandes tendas estavam dispostas por toda a clareira. Três delas abrigavam os feridos e devido ao aumento do número, teriam de acrescentar mais tendas em breve. Os recursos eram escassos, mal dava para cuidar dos que já estavam ali, mesmo que muitos não resistissem aos primeiros três dias.
Chovia muito aquela noite, raios cortavam os céus em curtos intervalos de tempo. Os trovões não a impediam de ouvir os pássaros gritando e fugindo cada vez que um novo conflito se iniciava ao longe. Os sons dos tiros ecoavam por toda a floresta que os cercavam.
Para Elena era doloroso e ao mesmo tempo revoltante ver todas aquelas pessoas perdendo suas vidas por uma razão totalmente sem fundamento. Que tipo de presidente esse homem acha que é? Ela pensou. Fazer inimigos não é a maneira mais aconselhável de governar uma das maiores potências do mundo. Onde ele estava quando o atentado ao World Trade Center aconteceu? Onde estava quando todas aquelas famílias necessitaram de apoio do Estado? Não sabemos, aliás, ninguém sabe. Não precisamos de um presidente que só está presente para a guerra. Nosso país não precisa de dinheiro dos poços de petróleo pertencentes a outras nações. Ele precisa ser tratado e curado para reestabelecer-se diante dos países que nos têm por exemplo. Se ao menos enxergassem o mal que fazem a seu povo...
A jovem se encaminhou para a ala infantil, tentando concentrar-se no seu trabalho. Ela tentava manter sempre um sorriso no rosto, por mais que todo aquele caos lhe afetasse. Sua mãe lhe ensinara que algumas pessoas só precisam de um sorriso para ter um dia melhor. E, convivendo diariamente com a devastação trazida pela guerra, era tudo o que precisavam. Adentrando a tenda, Elena avistou o menino israelita que deveria ter no máximo sete anos, que fora trazido há exatamente uma semana que sobrevivera aos graves ferimentos e aparentemente estava sozinho.
Ela conhecia o sentimento de solidão melhor do que ninguém e sabia o quanto doera perder seu noivo, o que fora, o maior motivo de todos para que estivesse ali, tentando salvar vidas. Rapidamente espantou esses pensamentos, antes de perder a compostura e irromper em lágrimas.
Muitas crianças dormiam e outras gemiam de dor. Infelizmente, Elena não poderia fazer nada a respeito, eles não tinham medicamentos que induziriam ao coma e também não teriam aparelhos para monitorar a frequência cardíaca. O garoto dormia tranquilamente, ela lhe tocou a testa comprovando que a febre não voltara desde a noite anterior.
– Doutora Gilbert, temos uma emergência. – Um dos soldados destinados a guardar o acampamento, entrou afoito, como quem correra quilômetros.
– O que aconteceu? – Elena, que estava ajoelhada ao lado da cama de uma menina, levantou-se rapidamente, temendo o pior pelo tom de voz do soldado. Tinha medo de que pudesse ser um ataque, já passara por um na antiga base e jamais se acostumaria com o desespero de tentar tirar todos com vida.
– Um soldado foi encontrado inconsciente no meio da mata. Ele foi baleado, e aparentemente perdeu muito sangue. – Elena se apressou, passou pelo homem, que abriu espaço, quase correndo. Ela sabia que cada segundo era valioso, ainda mais naquele lugar isolado do mundo. Logo avistou três homens, provavelmente israelitas, carregando o corpo inerte. De longe, Elena podia ver a grande mancha de sangue em sua camisa branca.
– Tragam-no por aqui. – Ela os orientou, ou tentou, já que os homens não falavam inglês. Fez sinal para que a seguissem através do acampamento. Eles o colocaram cuidadosamente sobre a cama e Elena começou a trabalhar. Com rapidez e eficiência Elena rasgou a camisa dele, examinando o ferimento. Esterilizou as mãos e colocou as luvas logo em seguida as banhando em álcool, e se pôs a limpar a ferida profunda.
O soldado estava realmente mal. A bala o atingiu abaixo do ombro direito, e por pouco, muito pouco não atingiu o pulmão. Mas, é claro que não teriam como comprovar sem um raio-x, então, baseavam-se nos sinais corporais. A jovem com a ajuda de outro médico conseguiu retirar o projétil, em uma pequena operação que levou duas horas para ser finalizada. O Sol já raiava quando conseguiu estancar o sangramento. Suspirou aliviada quando finalmente teve a certeza que ele ficaria bem se reagisse aos medicamentos.
Para ela, a satisfação de ajudar alguém ia além do dinheiro. Era recompensador ver a gratidão nos olhos de cada um que ajudara. Sorriu para o homem deitado a sua frente. Tinha traços definidos e com toda a certeza era um homem bonito. Mas, mesmo inconsciente e aparentemente inocente, Elena podia ver – ou sentir – uma frieza descomunal emanar dele. Espantou esses pensamentos e se encaminhou a tenda que abrigava a equipe médica. Precisava descansar, estava acordada há aproximadamente trinta e duas horas, provavelmente cairia desmaiada em algum lugar se não o fizesse.
Seu cochilo durou muito menos do que precisava para repor suas energias, fora acordada por Thomas, o mais novo integrante da equipe.
– Elena, desculpe acordá-la, mas estamos tendo um problema com o soldado recém-chegado. – Thomas parecia realmente culpado por acordá-la, ele sabia que ela não dormira muito naquela semana devido ao número de vitimas que recebiam. Elena cambaleou para fora da cama, calçou suas botas, passou as mãos nos cabelos tentando conter a desordem de seu cabelo e se dirigiu a tenda do soldado. Mal entrou e pôde ouvir os gritos.
– Exijo que me tirem do meio dessas pessoas! Sabe com quem estão lidando? Eu sou o Major Damon Salvatore! Major! – O sangue de Elena ferveu. Ela não aturaria preconceito. Ao entrar na tenda como um furacão, Elena viu Ryan, Matt e Meredith tentando manter o major na cama. – Me soltem! – Ele se debatia sob as mãos dos médicos e não parecia sentir dor. Elena aproximou-se da cama pisando duro com a sua habitual postura autoritária.
– Eu sugiro que fale baixo e para de se debater. – Seu tom era calmo e todos ali, sabiam que ela não estava para brincadeira. Mas, Damon pareceu não perceber. – Soltem-no. – Ela pediu quando o homem parara de se mexer.
– E eu sugiro que tire-me daqui. Sou o...
– Major Damon Salvatore – Elena o interrompeu, entediada. Cruzou os braços em frente ao peito e sorriu com escarnio. – Está vendo aquele homem ali? – Ela apontou o queixo na direção, Damon acompanhou com o olhar e viu um senhor de cabelos e barba grisalha – Ele é o mais rico dessa região. – Elena acenou para o senhor que apenas assentiu sorrindo. – Vê aquela moça ali – indicou uma jovem também deitada que os observava atentamente – É a filha do segundo maior produtor de laranja. Mas quando se chega aqui, tem de se submeter ao que temos se quiserem viver. Aqui não há títulos e não há posições sociais, somos todos iguais. Você deveria agradecer por esse povo deixa-lo ficar – Elena agora estava séria e sorria para as pessoas em volta dela, tentando passar tranquilidade e demonstrar que a situação estava sob controle.
– Se soubessem quantos deles matei, provavelmente não concordariam. – Damon sorriu com sarcasmo e isso irritou Elena. – Eles são como moscas, são descartáveis. – A garota sorriu com acidez.
– Onde estão seus companheiros? – Elena perguntou e ele deu de ombros e logo em seguida gemeu de dor. Ela não pode conter o sorriso de satisfação que se abriu em seu rosto. – Os que sobreviveram estão no acampamento. Algum deles parou para te ajudar quando caiu? – O sorriso de Damon se fechou e isso fez a garota sorrir ainda mais. – Essas pessoas foram resgatadas por amigos que se preocuparam em procura-los, porque eles sim tem importância, e ninguém jamais os substituirá. Você é apenas um número, algo passageiro, se essas pessoas não o tivessem trazido, à essa hora, estaria apodrecendo no meio da mata, porque não se importaram em te procurar, e seria facilmente substituído por um soldado mais jovem e eficiente. Então, pense, quem é a mosca descartável? – Elena observou as feições dele se fecharem, então sorriu e saiu do local, deixando os três médicos atônitos e um Damon raivoso.
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