Ensina-me A Ser Tua

4 Capítulo 4 - Sessenta e um dias...


R: Eu não quero ir, Kurt! Não há um só motivo para eu estar lá! [dizia irritada]

K: Festa, Rachel! Uma festa é o motivo. [respondia animado]

R: Festa da Santana. Eu estou cansada das piadinhas. Pensei que as coisas mudariam aqui, mas ela continua a mesma implicante de sempre.


Dois meses se passaram e Rachel seguia sua vida. Dividindo o apartamento com Kurt, recebendo a visita de Finn quase diariamente, alguns encontros desagradáveis com Santana e a sempre divertida presença de Brittany que fazia valer a pena sair em grupo, além de Puck, que dividia apartamento com Finn. A morena ocupou-se em NYADA o máximo que pôde. Matriculou-se no máximo de matérias que podia. O que pudesse fazer para manter sua cabeça ocupada, ela fazia. Proibiu-se de pensar em Quinn, mas é claro que sua mente não era tão obediente.

O aniversário de Santana tinha chegado e a latina estava preparando uma grande festa em seu apartamento, que ficava muito perto do de Rachel e Kurt. Tudo o que a morena não queria fazer era ir a esta festa. Mas ela sabia que ia acabar indo de qualquer jeito...

R: Eu vou! Mas não vou demorar. Antes que Santana faça a primeira piadinha. Quer dizer, a segunda, porque sei que ela vai falar alguma gracinha quando eu chegar, eu já estarei fora daquele apartamento.

Quase todos os dias Rachel olhava o facebook de Quinn, mas o mesmo estava sem atualização há exatos dois meses. Nenhuma adição de amigo, nenhuma marcação em foto, nenhuma atualização de status. A loira havia mesmo abandonado aquela rede social. Rachel tinha quase certeza de que isso tinha sido proposital, no intuito de deixá-la sem notícias. Definitivamente, ela conseguiu. Tinha esperança de saber mais sobre ela através de Santana, mas não sabia como abordar a latina sem uma enxurrada de perguntas seguidas de insinuações com duplo sentido. Contentou-se com as poucas vezes em que viu a latina resmungando que Quinn não respondia às suas mensagens, emails ou qualquer coisa que o valha. A falta de notícias estava fazendo Rachel pensar nela ainda mais. Claro que poderia ligar para ela, mas qual a possibilidade de ser atendida? Qual a possibilidade de ela ter mantido o mesmo número? Por que diabo ela não conseguia seguir com sua vida?

Finn estava tentando ser paciente. Rachel evitava qualquer contato mais íntimo com ele. Todas as desculpas possíveis já tinham sido usadas. No melhor dos dias, ela se permitia dar uns amassos com ele que, quando esquentava, logo cortava sem qualquer justificativa. Ela simplesmente não conseguia não pensar em Quinn quando ele a tocava. Aquela promessa da loira mais parecia uma profecia...

Em alguns dias as coisas pareciam engrenar. Rachel passava o dia inteiro sem pensar nela, até que à noite a lembrança voltava. Em sua parede havia um calendário, onde ela marcava cada dia que passava e que havia pelo menos um pensamento em Quinn. Era deprimente, mas não havia um dia sequer sem estar marcado. Rachel realmente tentava se esforçar para esquecer. Já tinha se conformado de que era passado. Mas nada funcionava. Oh droga...

O som era quase ensurdecedor e Rachel não acreditava que os vizinhos de Santana ainda não tinham chamado a polícia. Foi fácil descobrir que não chamaram porque todos estavam na festa também. Muita gente que ela nunca tinha visto, muita comida e, principalmente, muita bebida. Por um milagre inexplicável, Santana a recebeu com um abraço, sem piadas. Agradeceu sinceramente ao presente que ganhou e disse que ela poderia ficar à vontade. Finn estava muito bonito, carinhoso como costumava ser. Engrenou logo uma conversa com Puck, o que fez a morena circular livre com Kurt entre as pessoas. Santana e Britt moravam também num loft, com uma ampla varanda. A vista de lá era bem mais bonita do que a do apartamento que dividia com Kurt. Os pais da latina gastavam uma quantia salgada para mantê-la lá. Brittany era uma excelente anfitriã e fazia com que todos fossem bem servidos em tudo, comida ou bebida. Rachel já pensava em pedir a ela que organizasse uma festa em seu próprio aniversário.

Kurt a puxou para se afastar um pouco do barulho, tentando desenvolver algum diálogo que pudesse ser ouvido quando, de repente, perdeu a voz:

R: E o que, Kurt? Kurt? Continua! [dizia sem entender porque o amigo havia interrompido a história de repente e vidrado o olhar em outra direção]

K: Minha santa mãe de Deus! [exclamou surpreso]

R: O que foi? [perguntou confusa]

K: Estou tendo uma visão? [apontou para a direção da porta]

Rachel tentou seguir o olhar de Kurt para entender o que tanto o assustava, quando sentiu o chão se abrir em um infinito buraco negro. A sensação que tinha era a de que tinha sido sugada para um universo completamente paralelo onde a realidade tinha virado algo relativo.

K: Quinn Fabray está viva! [gritou divertido]

O grito aconteceu em um instante muito propício: logo quando a música acabou. Isso, claro, chamou a atenção da loira que congelou ao perceber a presença de Rachel. Claro que tinha pensado na possibilidade de Santana tê-la convidado, mas tinha quase certeza de que ela recusaria o convite. Certezas tinham virado algo muito relativo...

S: Fabray, sua vadia! [gritou feliz, correndo em direção a ela] Pensei que não viesse mais! Por que você não retornou minha ligação?

Q: Eu quis fazer suspense... [respondeu sarcástica]

S: Que bom que veio! Cadê sua mala? [perguntou ao perceber que ela não tinha nenhuma bagagem]

Q: Deixei no hotel.

S: Hotel?! Mas que porra? Você vai ficar aqui! [exigiu]

Q: Amanhã eu trago minha mala para cá, quando toda a bagunça da festa estiver arrumada. Mas eu precisarei dormir antes disso e imagino que essa festa não tem hora para acabar.

S: Não tem mesmo!

B: Quiiiiiiinn! [gritou feliz]

Q: Hey, Britt! [sorriu docemente]

B: Vem! Finn, Rachel, Kurt e Puck também estão aqui. [disse a arrastando para levá-la em direção a eles]

Quinn queria dar meia volta. Não. Meia volta era pouco. Queria voltar todos os quilômetros percorridos e chegar logo em Yale. Era tarde demais! Sentiu os braços de Kurt lhe envolverem num abraço apertado:

K: Por que você sumiu, Quinn? Use seu facebook, pelo amor de Deus!

Q: Oi, Kurt! [sorriu docemente] Eu tenho andado ocupada.

Era óbvio que ignorar Rachel não era uma opção, mas como cumprimentá-la era um mistério impossível de se desvendar. Quando seu olhar pousou sobre o dela, sentiu o abraço apertado de Puck.

P: Baby mama! [exclamou animado]

Q: Noah! [respondeu carinhosamente feliz]

P: Que saudade de você! [disse sincero]

Q: Sinto o mesmo! [respondeu no mesmo tom]

F: Oi Quinn, tudo bem? [perguntou educado e atencioso]

Q: Tudo sim, Finn! E você? [manteve a compostura]

F: Eu estou ótimo! [sorriu]

Q: Que bom! [sentia-se culpada por se forçar a odiá-lo]

O constrangimento que pairava no ar só era percebido por elas duas, claro. Rachel não tinha conseguido dizer qualquer palavra. Não fazia ideia do que fazer ou dizer. Durante 61 dias não tinha notícias dela. Durante 61 dias, buscou várias formas de apagá-la da memória. Durante 61 dias tinha sentido que era impossível esquecê-la. Em 61 dias aquela noite estava de volta:

Quinn tinha acabado de sair de seu quarto. Rachel estava nua sobre a cama. O cheiro da loira estava impregnado nos lençóis. Estava em sua pele... O choro sofrido abandonou sua garganta e se deixou desabar na cama, agarrada ao travesseiro. Ainda sentia os toques dela em sua pele, em todo o seu corpo, em seu interior... Os dias que passaram não foram mais fáceis. Nova York não parecia mais tão interessante. As marcas deixadas em seu corpo, das chupadas e mordidas de Quinn, tinham durado mais tempo do que deveriam. Era como se fizessem questão de permanecer ali, para lembrá-la, dia após dia, de cada detalhe daquela noite. Queria esquecer logo, queria esquecer definitivamente, mas era impossível. Sentia-se culpada a cada vez que Finn a beijava. Sentia-se culpada ao ver o esforço do namorado em animá-la, em agradá-la. Não era culpa dele se ele não era quem ela queria que fosse...

Rachel se sentiu zonza e perdeu o equilíbrio de repente. Todos se assustaram, mas Quinn não teve tempo de se manifestar, pois foi arrastada por Santana para ir a qualquer lugar daquela bagunça que a festa havia se tornado. Kurt levou Rachel ao banheiro e ela pôde vomitar. Não tinha bebido ou comido algo estragado, mas vomitava como se tivesse devorado um bar inteiro. Sua cabeça estava a ponto de explodir. Flashes daquela noite rodeavam sua mente, podia sentir de novo a respiração de Quinn em seu pescoço, os gemidos em seu ouvido... Não fazia ideia do que se passava na cabeça da loira. Não fazia ideia de nada...

Estava sentada na varanda tomando um pouco de ar na companhia de Kurt, enquanto Finn tinha saído com Puck para comprar algum remédio que pudesse ajudá-la no mal-estar:

Q: Você está bem?

Rachel estremeceu. Era como se estivesse acontecendo um terremoto em seu corpo. A voz doce voltou a se dirigir a ela. A mesma voz que não saía de seus ouvidos há dois meses. Ela estava mesmo ouvindo aquilo ou o mal-estar a estava fazendo ter alucinações?

K: Você está tremendo! Vou buscar algo para te aquecer mais. [saiu sem esperar uma resposta]

Rachel queria pedir para ele não ir, mas não saíram palavras de sua boca. Aliás, era como se ela tivesse desaprendido a falar. Quinn viu Kurt se afastando e se aproximou mais da morena:

Q: Você está bem? [perguntou de novo]

R: Eu... Sim... Estou. [disse nervosa, olhando-a insegura]

Q: Que bom! [deu-lhe um sorriso suave]

A tensão entre elas era pesada demais para se lidar. O silêncio era ensurdecedor. Rachel se sentia pequena, constrangida, como se estivesse nua diante de uma multidão. As coisas que elas fizeram e disseram deixaram sua alma nua. Estar na presença de Quinn era quase doloroso. Era quase libertador...

Q: Posso ficar aqui? Não me interesso pelo barulho lá de dentro. [tentou ser o mais natural possível]

R: Sim... Claro! [respondeu educadamente]

Q: Você quer água ou...

R: Por que você sumiu? [interrompeu agoniada]

Q: O que disse? [perguntou confusa]

R: Por que você sumiu? [olhou-a magoada]

Q: Eu não sumi. [respondeu firme]

R: Você sumiu sim! [exclamou] E eu não sou a única a achar isso. Ninguém sabia nada de você.

Q: A Santana e a Britt sabiam. [rebateu]

R: Ah, claro... [soltou um sorriso sarcástico] Então você não sumiu... [finalizou quase sem voz]

Q: Não encaro como um sumiço, eu só...

R: Dois meses... [interrompeu] Dois meses sem uma puta notícia sua! [irritou-se] Dois meses sem saber NADA de você!

Q: Você não tem que falar assim! [defendeu-se] Não combinamos de manter contato. Pelo contrário...

R: O que você está fazendo aqui? [levantou-se agoniada]

Q: Estou na festa da minha amiga... [tentou dizer o óbvio]

R: Não! Aqui do meu lado! [exaltou-se] O que você está fazendo aqui perto de mim?

Q: Você não parece bem. Eu só...

R: EU NÃO ESTOU BEM! [gritou] Por sua causa eu não estou bem! Eu me sinto uma prostituta que você levou pra cama! Satisfeita? [perdeu completamente o controle]

F: Rach? [chegou interrompendo, sem perceber o clima entre elas] Eu trouxe algumas coisas que podem te ajudar. Você toma e eu te levo pra casa, certo? [disse atencioso]

R: Ok... Obrigada! [respondeu sem graça]

Q: Bom... Dá licença! [saiu atordoada]

R: Eu quero ir pra casa agora! [disse agoniada]

F: Certo. Eu te levo.

Quinn também não estava bem. Rever Rachel fazia tudo daquela noite vir à tona, mesmo que nada tivesse saído de sua cabeça um dia sequer. Era como se a vida estivesse gritando para ela, dizendo que não adiantava fugir. Oh, Céus! Pra que direção ela poderia correr?



[CONTINUA...]



Notas finais
E aí? Estão gostando mesmo? Espero que sim!
Comentem mais! Me façam feliz! :)