Ensaio Sobre A Vida
5 b (Opcional)
Notas iniciais
Após meu fim de semana um tanto peculiar, minha semana foi uma volta à rotina. Isso era o que eu esperava que acontecesse. Segunda-feira ocorreu apenas um fato interessante, eu fui chamado para ser substituto em uma peça de teatro no colégio. Confesso que pensei em não aceitar, mas, no fim, acabei aceitando.
A peça retratava a história de um grupo de personagens de desenhos infantis que foram enviados e estavam perdidos no mundo de Oz. Era uma mistura de contos de fadas, criados pelos próprios membros do teatro. O único problema é que eu iria ter apenas quatro dias para decorar as falas e incorporar as personagens, mas isto não era algo que me faria desistir.
Terça e quarta-feira foram os dias mais chatos da minha semana, já que eu tinha simulado para o vestibular durante a manhã e pela tarde eu tinha que ensaiar a peça incessantemente. Mesmo chegando em casa cansado nestes dois dias eu me sentia bem, o teatro era algo que me motivava e me clareava as ideias.
Quinta-feira foi um tanto estranho. O teatro aconteceria no próximo dia e nós repassamos a peça várias vezes, além de ter que provar muitos tipos de figurinos para ver qual se encaixaria na personagem. Durante o período de aula eu e mais alguns membros do teatro fomos até as salas divulgar a peça. Nas do ensino fundamental nós não fomos escutados, já que ficaram tocando bolinhas de papel em nós e os professores não quiseram nos ajudar. Já nas salas do ensino médio nós fomos escutados e várias pessoas pegaram os ingressos antecipadamente.
A última sala era a minha, graças ao fato de eu estudar na última turma do terceiro ano. Ao entrar na sala um frio tomou conta de meu corpo. Era muito mais fácil falar com desconhecidos do que com conhecidos. Sei que eram meus amigos, mas nessas horas era como se ninguém fosse confiável. Pedi licença para o professor e comecei a falar.
- Bem, nós, do grupo de teatro, estamos aqui para divulgar a peça que acontecerá amanhã no auditório aqui da escola às dezoito horas. A peça foi titulada como “Aquela que dorme” e quem quiser ir, o valor é cinco reais na hora ou agora. – Falei sem gaguejar, era um avanço.
- Carinho em. – Disseram algumas vozes em coro no fundo da sala.
- É que nós somos mercenários e estamos tentando superfaturar com este grande evento. – Respondi com o intuito de quebrar a tensão criada pelos meus colegas.
- Não sabia que tu ainda fazias teatro. – Lena me olhava com um ar de desconfiança, como se eu estivesse escondido uma vida dela.
- É que um dos membros originais do teatro teve que sair, então nós chamamos ele. E cá entre nós, foi uma ótima aquisição. – Uma das pessoas que me acompanhava falou antes de mim. Eu não gostava quando isto acontecia, mas eu não seria grosso com ela.
- Aquisição. Virei mercadoria. – Alguns riram. – Enfim, alguém vai querer comprar os ingressos agora?
Apenas cinco pessoas levantaram a mão e compraram os ingressos, dentre elas a Lena, o Mika e o Kevin. Não acredito que o Mika me veria atuando, que vergonha.
Na sexta-feira eu não fui à aula, pois fiquei a manhã toda no auditório ensaiando a maldita peça. Eu realmente gostava do teatro, gostava de atuar, mas ficar trocando de roupa para cada personagem e retocar a maquiagem todo o tempo por causa do calor me cansava.
Após um almoço engraçado, com o pessoal do teatro, e uma tarde cansativa, cheia de ensaios, finalmente havia chegado a hora de apresentarmos a peça. O auditório estava cheio, sem uma cadeira vazia. Nós nos reunimos no palco e fomos para nossas posições.
- Esse é o nosso maior público. – Disse uma colega enquanto espiava pela cortina do palco. – Hora do show.
Coube a mim, o novato da peça, introduzir ao publico a nossa história. Mesmo com luzes fortes vindo em direção ao palco, que me impedia de ver a plateia, eu fiquei nervoso. Não é todo dia que se enfrenta uma plateia de trezentas e cinquenta e quatro pessoas.
As cortinas se abriram e a luz iluminou meu terno escuro, minha cartola e minha bengala. Avancei até a frente do palco e encarei algumas pessoas da plateia, criando coragem para começar a falar.
- Quantos de vocês já não se perderam por mundos ditos impossíveis de se estar? Quantos de vocês já não desistiram de algum sonho por causa de pessoas que disseram ser inalcançável? Sonhos. – Fiz uma pausa longa e caminhei pelo palco. – Como saber o que é real e fictício enquanto se sonha? Este é a nossa fado. Uma eterna busca entre o que dizem ser real e o que dizem ser impossível. Mas então, quantas aventuras de vocês não começaram com um simples sonho? – Logo após eu terminar minha fala, todas as luzes se apagaram, deixando o auditório em uma escuridão total. E assim nossa peça teve inicio.
Durante a peça tudo ocorreu perfeitamente bem, fora alguns erros de falas básicos, mas nada muito comprometedor. No final nós fomos aplaudidos de pé e posamos para várias fotos, todas para recordação. Ainda de maquiagem eu desci do palco e alguns amigos vieram falar comigo.
- Fernando, foste tu que criaste aquela primeira fala? Sério, estava tudo perfeito, tu, o texto, a história, tudo, vem cá, me dá um abraço. – Lena me abraçou de um jeito que só ela sabia, acolhedor e forte.
- Obrigado Lena. Ah, e foi eu quem criou a primeira fala, estava tão na cara assim?
- Pra mim sim ué. – Rimos
- Parabéns Fê, sério, foi muito boa, principalmente aquela cena das poções.
- Obrigado Kevin. – Sorri.
- Ei, Fê! – Uma voz familiar ecoou pelo auditório. Virei-me para ver quem havia me chamado. – Parabéns, tu atuas muito bem. – Não consegui segurar meu excesso de felicidade e tive uma crise de sorriso. Não me contive e o abracei, mas por sorte ele devolveu o abraço.
- Sem querer ser chata, mas não é melhor tu ir tirar essa maquiagem? Não quero que tu manches nada. – Lena me cutucou pelas costas.
- Ok, é verdade, desculpa. – Me soltei do Mika, mesmo não querendo. – Eu vou lá tirar essa maquiagem, já volto.
Muitas pessoas ainda estavam no auditório, me obrigando a ora empurrá-las e ora pedir licença. Quando cheguei ao banheiro retirei toda a maquiagem, menos o lápis de olho que era a prova d’água. Ao voltar para o auditório notei que ele estava mais vazio, mas ainda havia algumas pessoas comentando sobre a peça e elogiando os atores. Nós tínhamos feito uma boa apresentação.
- Está gatão com esse lápis de olho. – Mika veio em minha direção.
Acho que o destino gosta de me pregar peças. Mika sempre conseguia fazer eu me iludir, mas também me fazia sorrir.
- Vou conquistar todos assim. – Falei fazendo uma cara de galã enquanto mandava um beijo para ele.
Mika e eu conversamos por um bom tempo sobre a peça, até que Lena chegou e nós caminhamos para casa. O dia, mesmo que cansativo, foi perfeito. Voltei a fazer algo que eu gostava e consegui me aproximar um pouco mais de Mika. Iria ser uma ótima noite de sono.
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