Todas as pessoas que eram mais próximas de mim sabiam que eu gostava de dormir até tarde, mas algumas delas sentiam prazer em me acordar, o que me deixava realmente muito bravo. Já estava virando rotina me acordarem cedo aos finais de semana. Não que fosse por querer, mas isso mudava toda a minha forma de ver o dia. Meu telefone tocou. Coloquei a mão do lado da cama e o peguei.
- Que merda em. – Ele continuou tocando. — Ah, tem que ligar né? – Apertei o botão verde e coloquei-o em minha orelha. – Juro que se eu estivesse sonhando eu iria te xingar até a morte. Seja lá quem for. – Mesmo parecendo agressivo falei em voz calma. Não queria que a pessoa por trás do número que não estava na minha lista ficasse com medo de mim.
- Hmm, Bom dia Fê.
- MIKA!? – Falei um pouco alto, mas já era tarde para concertar o erro.
- É. – Disse ele um tanto acanhado.
- Desculpa, achei que era engano. – Minha voz era uma mistura de pânico, agonia e culpa.
- Sem problemas. – Ele riu. – Nem te preocupes. Mas então, que vais fazer hoje?
- Mofar. Digo, eu iria ficar em casa sem fazer algo produtivo.
- Não estás a fim de ir à praça ao lado da tua casa?
- Ok, sem problemas. – Achei estranho. – Que horas?
- Pode ser agora?
- Pode, eu só vou me arrumar aqui e já estou indo pra lá.
- Tudo bem, eu já estou aqui.
- Em que parte dela tu estás?
- Estou escorado na árvore central.
- Ok, já chego aí.
Desliguei o telefone e me arrumei o mais rápido possível. Essas oportunidades não apareciam com frequência em minha vida. Depois que me vesti fui até a cozinha beber um copo de água, mas enquanto passava pelo quarto do meu irmão vi dois cadáveres em cima da cama. “Foi uma noite selvagem” pensei. Passei pela sala, abri a porta, desci as escadas e abri a porta do hall de entrada.
O tempo estava agradável. O céu estava nublado e uma leve brisa refrescava meu corpo. Caminhei meia quadra até chegar à praça, nada que pudesse me matar. Quando pisei na grama eu pude vê-lo com perfeição, bermuda azul claro e camisa roxa, sempre muito bonito. Caminhei até ele e sentei ao seu lado. Ele me abraçou.
- Minha vida é uma merda. – Ele começou a chorar.
Não entendi o que estava acontecendo. A gente mal havia começado a se falar e ele já me chamou para se lamentar. Algo muito grave estava acontecendo.
- Mika, o que aconteceu? – Falei o mais suave que pude. Ele continuou abraçado em mim. Devolvi o abraço.
- É como se eu estivesse destinado a ser fracassado no quesito amor. – Ele pronunciava as palavras entre soluços.
- Brigou com uma garota? – Perguntei olhando o movimento na rua em frente à praça.
- Sim. – Ele soluçou.
- E vale a pena sofrer por ela? Destruir a tua vida, entrar no poço mais fundo por alguém? – Ele permaneceu em silêncio. – Confesso que não tenho tanta sorte assim no fator amor, mas nem por isso eu fico me martirizando. – Ele não precisava saber que isso era mentira. – Ergue a cabeça e segue em frente. Vai adiantar nada ficar assim.
- Não é tão fácil quanto tu pensas. – Disse ele em tom baixo desencostando-se de meu corpo.
- Por quê?
- Eu gostava dela, realmente gostava.
- Amava? – Ele ficou rígido. Não sei se eu me arrependi de ter perguntado isso, mas agora já era tarde. – Entendeu a diferença. – Olhei em seus olhos.
Nós ficamos um tempo em silêncio, eu pensando nele e ele pensando nela. Trágico. Os pássaros se movimentavam pelos galhos e, às vezes, faziam barulhos suaves, fazendo-me lembrar de que ainda estava vivo. Olhei para eles e comecei a viajar, pensando em como seria a sensação de poder ver tudo lá de cima.
- Fê. – Mika estava mais calmo e não chorava mais.
- Diga. – Voltei a olhar em seus solhos.
- O que eu faço da minha vida? – Dei uma risada. – O que foi? – Ele me olhou com um olhar um tanto preocupado.
- É que geralmente sou eu quem pergunta isso. Meus amigos e amigas não aguentam mais escutar isso vindo de mim.
- Ah. – A voz dele era quase inaudível, mas o tom de tristeza continuava evidente.
- Olha, se eu fosse mais corajoso para chegar em quem eu gosto, eu diria que só com está pessoa eu conseguia me sentir diferente, que ela conseguia me fazer sorrir nos momentos mais difíceis, que o jeito dela me conquista todo dia, todas as horas. Diria o quanto ela é especial para mim. E eu nunca teria vergonha de mostrar tudo o que eu sinto por ela. – Eu disse isso olhando para a grama abaixo de mim, mas eu conseguia ver que Michael olhava para mim enquanto eu falava.
- E por que não disse isso pra ela?
- Vai querer que eu repita tudo isso para ti?
Depois que eu terminei a frase me toquei do que tinha feito. Meus olhos se arregalaram, meus batimentos cardíacos aceleraram, meu corpo ficou rígido e todo o mundo em minha volta pareceu andar mais devagar. Eu estava em um daqueles momentos em que tudo acontecia em câmera lenta.
- “Fiz merda, eu consegui estragar minha vida.” – Pensei.
Eu sempre ensaiava estes diálogos antes de dormir, mas nunca achei que iria errar tão feio. O que deu em mim?
Eu e Mika ficamos em silêncio. Estávamos vivendo um momento constrangedor, em que nenhum sabia o que dizer ou fazer. Alguns minutos de silêncio se passaram desde minha mancada, mas mesmo assim não nos olhamos.
- Desde quando Fê? Digo, desde quando tu pensas, ou melhor, sente isso?
- Faz quatro meses. Desde que a gente virou colega.
- Mas, a gente nem se falava. – Disse ele pausadamente.
- Isso que me incomoda. – suspirei. – Me apaixonei por alguém que eu tenho o mínimo grau de intimidade. Incomoda-me o fato de saber que a minha existência não faz diferença para ela, mas mesmo assim, ela continua sendo minha única razão para ir ao colégio todos os dias. Porém, a pior parte ainda é saber que, novamente, eu me apaixonei por um heterossexual.
- Isso explica muita coisa.
- Como o quê? – um tom de vergonha se misturou com minha voz.
- Grande parte das vezes que eu olhava para a janela tu estavas me olhando. – Corei. – Calma Fê, não precisa ter vergonha, é o teu sentimento, não pode ter medo de demonstrá-lo.
- Aí que está Mika. – Minhas mãos tremiam. – Eu tenho medo de contar sobre mim, medo das pessoas se afastarem. E mesmo cuidando tanto, eu acabo dando com a língua nos dentes. Justamente com a pessoa que eu gosto. Não é fácil ser gay, não é fácil se apaixonar por heterossexuais.
- Já te apaixonou muitas vezes?
- Duas. E nestas duas eu sofri.
- Eu sou uma delas?
- S-sim. – Gaguejei. Minha vontade era de dar uma de avestruz e esconder minha cabeça.
- Eu não sei o que dizer.
- Não precisa dizer nada Mika. Só te peço para não se afastar de mim. Já passei por isso da última vez e eu não quero entrar em depressão novamente.
- Eu não quero me afastar. – Mesmo em um momento tão estranho eu consegui sorrir. – Não quero me afastar de alguém que comecei a conhecer há pouco tempo. Mas confesso que essa notícia é um choque.
Eu e Mika ficamos conversando mais um pouco, como se o evento não tivesse acontecido. Depois de duas horas nós voltamos para nossas respectivas casas, e esta distância dele me fazia mal. Mesmo que a notícia para Mika tenha sido um choque, ele agiu com naturalidade, não sentindo nojo ou se afastando de mim.
Durante o resto do dia eu fiquei pensando em como eu era idiota, em como eu pude errar tão feio. E todo o sofrimento só terminou quando eu fui dormir.
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