Decidi que eu gostava do Daniel.

Não por obrigação, assim como os companheiros de sela devem gostar uns dos outros, mas porque ele era... Simplesmente Daniel.

Se me pedisse para colocar esse sentimento em palavras, eu dificilmente saberia por onde começar. Acredito, verdadeiramente, que nem tudo precisa ter uma explicação, principalmente naquilo que tange ao que é invisível ao olhar. Assim, eu não poderia resumir a razão do meu gostar as coisas mais básicas sobre ele.

Eu não gostava de Daniel por causa da profundidade do azul de seus olhos, mesmo que eu os achasse mais bonitos que o oceano. Talvez eu nunca tenha visto o mar pessoalmente, mas eu sabia que toda extensão de água do mundo não seria capaz de me oferecer o conforto que o olhar dele me oferecia.

Eu não gostava de Daniel por causa de sua risada, apesar dela ser a coisa mais próxima de um lar que eu conhecia no mundo. Podia dizer o mesmo sobre as músicas que ele escutava ou sobre a infame cueca estampada com o rosto do Homem Aranha.

Não, não era nada disso. Mas era isso também.

Talvez eu gostasse dele por causa daquele momento de sensibilidade, em que eu vi suas lágrimas e enxerguei todas as dores do seu peito. Esse tipo de coisa conecta as pessoas. Você não pode mostrar um pedaço da sua alma para alguém e esperar que a pessoa não seja tocado por ele e que você não seja tocado pela pessoa. Sequer falo de um nível espiritual, como seria esperado de um fantasma, mas de algo que transcende totalmente a matéria da existência e se inclina diretamente sobre o próprio ser.

Verdadeiramente, o motivo do meu gostar era a reunião de todas essas coisas. Ele não é uma coisa só. Eu não sou uma coisa só.

Sempre me disseram que ou se ama tudo ou não se ama nada.

Mas eu não podia amá-lo.

Os vivos não podem amar os mortos dessa forma.

Tudo que pode advir desse tipo de amor é um infinito feito de cinzas.