Notas iniciais
Vejo vocês nas notas finais! ;-)

Depois de perceber que não iria mesmo conseguir dormir, Angélica decidiu ir para o salão comunal. Sentou-se em frente uma das janelas, olhando o céu. Ainda faltava algum tempo para amanhecer, então se permitiu ficar pensando no pesadelo que a havia acordado. Não era a primeira vez que o tinha. A voz masculina que a atormentava se tornara tão familiar quanto a sua própria, apesar de não se lembrar de já tê-la ouvido alguma vez na vida real. Esse sonho estava se tornando cada vez mais frequente. Havia começado há alguns meses, mas sentia como se o tivesse durante toda a vida. Dumbledore havia sugerido que ela tomasse uma poção de sono sem sonhos antes de dormir, mas na única vez em que fizera isso, foi muito pior. Ao invés das vozes e dos raios de luz, havia apenas o vazio, sufocante, frio. Foi uma experiência tão aterrorizante que preferia não dormir a tomar a poção mais uma vez. Apesar do tempo, lembrava-se vividamente da primeira vez em que acordou gritando no meio da noite.

“Estava escuro. Só conseguia sentir aquele medo avassalador e uma grande dor no peito lhe tirava o ar. Tinha a sensação de ouvir alguém chamando o seu nome, mas não conseguia responder. Tentava se levantar, mas nenhum músculo respondia ao seu comando. Não conseguia abrir os olhos, não conseguia falar ou respirar. Estava se afogando.

— Acorda! – sentiu um par de mãos fortes apertando-lhe os ombros. Teve consciência de que seu rosto estava úmido devido às lágrimas que ainda estavam escorrendo por sua face. Sua garganta doía, o que significava que havia gritado em algum momento, apesar de não conseguir nem mesmo sussurrar alguma coisa agora – Querida, por favor! – a voz insistia, e ela finalmente conseguiu abriu os olhos. Sentiu um alívio imediato quando o reconheceu. É claro que era ele quem estava ali, com os olhos arregalados e a expressão transbordando preocupação.

— Marc... – sua voz falhou e não saiu mais alta do que um mero sussurro. Através dos olhos marejados, pôde vê-lo sorrir, apesar de ainda estar receoso.

— Fiquei tão preocupado! Acordei com você gritando e vim o mais rápido que consegui! – ele ajudou-a a se sentar na cama, e depois a abraçou forte. Ela tinha certeza de que ele havia vindo rápido, pois trajava apenas a calça do pijama, aquecendo todo o seu corpo naquele abraço, com o contato da pele de seu peito nu contra o fino tecido camisola que ela usava. Em qualquer outra ocasião, ele nunca deixaria o quarto de hóspedes da casa de seus pais usando tão pouca roupa, principalmente para entrar no seu quarto, mesmo agora, quando seus pais estavam viajando e os deixaram sozinhos em casa – Você está bem, querida?

— Sim, estou... – não estava, mas não o deixaria mais preocupado do que o necessário. Nem se lembrava exatamente do sonho, apenas da sensação de terror. Mas nada disso a abalava quando estava nos braços dele. Seu abraço era tão reconfortante e acolhedor, que em poucos segundos, conseguiu ignorar completamente o medo que sentia – Foi só um sonho ruim. – chegou para o lado, puxando-o para a cama junto com ela. A cama era bem grande, mesmo assim, preferiu aninhar-se ao lado dele, deitando confortavelmente em seu peito, que exalava o cheiro de seu perfume favorito.

— Quer que eu fique o resto da noite com você? – com uma das mãos ele acariciava o seu cabelo, e com a outra puxava-a para mais perto. Se seus pais não fossem voltar em dois dias, ela jamais arriscaria ficar assim com ele, em sua cama. Mas naquele momento, permitiu-se esse pequeno prazer. As férias de páscoa estavam acabando e apesar de terem ficado muito tempo juntos, já que ele havia ficado em sua casa devido ao seu aniversário, logo voltariam para a escola e tudo ficaria mais difícil. Então, apenas respondeu a pergunta dele com um beijo suave em seus lábios.”

Balançou a cabeça para afastar a lembrança. Provavelmente era isso que estava lhe causando pesadelos. Depois de tanto tempo, era a segunda vez que se lembrava dele. Depois de tudo, o que mais queria era lançar um obliviate em si mesma e esquecer tudo a respeito dele, o primeiro beijo, aquela noite e tudo o que aconteceu depois. Mas não podia. Precisava se lembrar, precisava sentir a dor para ter forçar e seguir em frente. Lembrou-se de uma rase de um livro trouxa eu havia lido muito tempo atrás: “a dor precisa ser sentida”*. Era a pura verdade.

O barulho de alguém passando pelo retrato que guardava a entrada da torre a tirou de seus pensamentos. Olhou para a passagem e espantou-se ao ver Harry entrando por ela.

— Parece que mais alguém tem dificuldades para dormir! – ele sorriu com simpatia, apesar de espanto, indo até ela e sentando-se e lhe entregando um bolinho de chocolate que havia trazido da cozinha.

— Sonhos ruins? –perguntou curiosa enquanto aceitava o doce. Imaginava que ele tivesse algum tipo de problema noturno, já que o viu acordado de madrugada naquele dia.

— Ás vezes. – respondeu sincero, olhando pela janela – E qual é a sua desculpa?

— Acho que a mesma. – olhou-o nos olhos – A noite parece trazer nossos fantasmas á tona.

Ele concordou, olhando-a de forma curiosa.

— Você ainda sonha com aquela noite? – perguntou, sem conseguir se conter. Talvez ele pudesse ajuda-la com seus próprios pesadelos.

— Muitas vezes. – olhou para as suas mãos. Ela não precisou ser mais específica para que ele soubesse a qual noite se referia.

— Estaria mentindo se dissesse que sei como se sente. – tinha sua cota de mortes nas costas, mas nada comparado ao que ele viveu – Mas posso imaginar.

— Você sonha com os seus pais? – ele perguntou em um impulso.

— Algumas vezes. – ela sorriu triste, lembrando-se dos rostos deles.

— Como você os perdeu? – era indelicado, mas talvez desabafar afizesse bem. Ela não parecia ser alguém com muitos amigos.

— Como você sabe? – o olhou incrédula. Não havia contado para ninguém.

— Digamos que um órfão reconhece outro. – sorriu deforma bondosa.

— Ano passado, em um incêndio causado por comensais. – não conseguia mentir, não sobre isso.

— Eu sinto muito. – foi sincero. Ficou pensando em todas as famílias que a guerra destruiu.

— Eu também. – só de lembrar do que aconteceu sentia seu coração sangrar.

— Ficou com alguém da família? – lembrou-se dos tios. Esperava que ela tivesse parentes melhores.

— Não sobrou ninguém. – queria encerrar o assunto antes que começasse a chorar. Não faria isso na frente de ninguém.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa ela se levantou.

— É melhor eu ir me arrumar para as aulas, não quero me atrasar.

Ele apenas acenou com a cabeça enquanto ela se virara e subia as escadas de forma apressada. Sentiu um peso enorme no peito. Tantas famílias destruídas, tantas mortes desnecessárias. Precisava colocar um fim nisso.

Quando chegou ao dormitório, a maioria das meninas já tinham levantado, incluindo Hermione.

— Você está bem? – a castanha perguntou assim que ela entrou – Fiquei preocupada quando não te encontrei.

— Sim, eu estou bem. – fingiu seu melhor sorriso, como sempre – Sinto muito por preocupá-la. Mas e você, como está?

— Estou bem... – tentou mentir, mas não era boa nisso. Sabia que as olheiras profundas denunciariam o quanto ela não dormiu naquela noite.

— Uma boa amiga lhe diria para deixá-lo de lado, porque você é melhor do que isso. – sentou-se ao lado de Hermione, que já estava com o uniforme, mas com uma cara não tão boa.

— E o que você diria? – olhou curiosa para a ruiva.

— Que tenho corretivo para as suas olheiras, colírio para os olhos vermelhos e sei fazer um ótimo chocolate quente se quiser chorar. – sorriu simpática – Tome o seu tempo para sofrer. Nada dura para sempre.

Hermione sorriu verdadeiramente. Não esperava tanta compreensão vinda de alguém que conhecia tão pouco. Esperou Angélica se trocar e então aceitou a as ajuda com a maquiagem. Não era como se ela não entendesse sobre esse tipo de coisa, apenas não era algo da sua rotina, se maquiar, e as coisas sempre ficavam mais divertidas com uma amiga. Sorriu ao pensar na palavra. Amiga. Sim, era isso o que elas eram. Mesmo que em pouco tempo, haviam passado um bocado de coisas juntas, e isso não acontecia sem que surgisse algum tipo de amizade.

Quando finalmente saíram para tomar café, encontraram os meninos sentados na mesa já comendo.

— Bom dia! – disseram juntas enquanto se sentavam, repassando o horário de aulas da parte da manhã.

— Bom dia! – Harry cumprimentou de volta, sorrindo para Angélica, e então voltando-se para o lado, onde estava Gina. Estavam conversando sobre as aulas. Era o ano de ela fazer os NOM’s e ele não conseguia imaginar como fazer as provas sem a ajuda de Hermione para estudar.

Angélica precisou conter um sorriso ao perceber que Rony encarava Hermione com os olhos um pouco arregalados e a boa ligeiramente aberta. Além da maquiagem, ela estava com o cabelo solto, coisa que não usava todos os dias, e os olhos estavam brilhando um pouco, devido à empolgação para a primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Entendia o porquê de ele estar encantado. Mas a reação durou apenas alguns segundos. Ele logo voltou a si e continuou comendo, murmurando um “bom dia” baixo.

Enquanto comia, Hermione estava tão concentrada que quase pulou quando ouvir a voz de Angélica no seu ouvido.

— Ele não está lá. – foi baixo o suficiente para mais ninguém ouvir, mas alto o bastante para entender bem a conotação usada.

— Eu sei. – disse antes de poder realmente pensar. Então corou e tentou desconversar – Quem não está lá, Angélica?

— Draco Malfoy não está na mesa da Sonserina. – o tom da ruiva se torou ligeiramente malicioso.

— E por que eu me importaria com isso? – tentou o máximo que pôde fingir inocência. Sabia que não ia funcionar, mas ninguém podia culpá-la por tentar.

Para a sua sorte, Angélica não conseguiu responder, porque nesse momento uma coruja passou e deixou um pacote cair na sua frente.

— Deve ser para algum de vocês, eu não estou esperando correspondência. – disse olhando para o pacote.

— É para você Mione, tem seu nome no envelope. – Harry apontou para uma carta amarrada ao pacote.

Hermione abriu com as mãos trêmulas. Ainda não havia superado todo o tormento que havia passado no quarto ano, quando pensaram que ela tinha um caso com Harry e ficavam mandando coisas nojentas e perigosas para ela por correio-coruja. Mas ao terminar de ler a carta, um grande sorriso se estampava em sua face. Em menos de um segundo largou a carta de lado e rasgou o embrulho do pacote, deparando-se com a pequena caixa de veludo contida ali.

— O que é Mione? – Rony perguntou, chegando mais perto, enquanto Harry pegava a carta para ler. Sim, eles tinham esse tipo de intimidade.

Ela não respondeu, apenas abriu o fecho prateado, revelando o distintivo de Monitora Chefe. Já havia assumido o cargo, mas ainda usava o distintivo antigo.

— Parabéns! – Gina gritou do outro lado da mesa, atraindo a atenção da maioria dos alunos da Grifinória.

Não conseguia conter o sorriso enquanto prendia o broche nas vestes, olhando para os amigos. Quando voltou-se para a mesa dos professores, encontrou o diretor e a Profª McGonagal sorrindo para ela. Ao menos uma coisa boa em meio a toda aquela confusão.

Draco estava no seu quarto desde que chegara na noite anterior. Não saiu para falar com ninguém, e graças a um arranjo de seu pai com o Prof. Snape, não precisava dividi-lo com outros colegas de casa. Estava pensando nela, é claro. Não conseguia tirar seu cheiro da memória, ou a forma como ela ria. Sabia que tinha que lutar contra isso, pelo seu próprio bem, e pelo bem dela. Qualquer tipo de envolvimento com uma nascida trouxa colocaria em risco tudo aquilo que ele estava planejando. Não que se importava com a árvore genealógica dela, ou com a quantidade de magia que corria em suas veias. Afinal, seu pai vinha de várias gerações de puros sangues e era uma pessoa desprezível. Mas não podia arriscar tudo pelo que tinha aceitado se envolver com esse maldito plano do Lord das Trevas porque havia sentido algo diferente por ela. Porque não conseguia parar de pensar na textura aveludada de sua pele, ou porque seu coração disparava todas as vezes que lembrava dos seus olhos.

Estava atrasado, sabia disso. Mas não conseguia encontrar coragem para levantar da cama e ter que encará-la nos corredores, nas aulas, durante as refeições. Não sabia se resistiria à tentação de ir falar com ela, de provocá-la apenas para ver suas bochechas adquirindo aquela cor rosada que ele tanto gostava, de chegar perto dela apenas para sentir seu perfume, ou apenas ficar olhando para ela, enquanto ela estuda ou ri com os amigos. Aquela risada natural e gostosa, que ele gostaria que fosse reservada apenas para ele.

Irritou-se consigo mesmo pelo rumo que seus pensamentos tomaram. Estaria perdido se não a tirasse da cabeça. Seria a sua ruína, e de tudo aquilo que ele queria conquistar. Não, teria que se afastar, teria que tirá-la completamente da sua mente, que apesar de todas as aulas de oclumência que sua tia lhe dera, não era um lugar seguro. Se o Lord desconfiasse que ele tinha tais pensamentos, o mataria. E agora estava tão perto de alcançar seus objetivos, não colocaria tudo a perder. Se tivesse êxito, poderia arrancar seu pai de perto da sua mãe, teria uma posição privilegiada dentre o círculo mais intimo dos seguidores de Voldemort e manteria os prestígios que seu sobrenome carregava, assim, se algo acontecesse com ele, sua mãe estaria segura. E se por um milagre ele sobrevivesse a tudo isso, seria imensamente recompensado. Não, não ia colocar tudo isso a perder nem mesmo por ela, que despertou nele coisas que ele não sabia serem possíveis. Iria esquecê-la.

Uma carta, trazida por uma coruja da escola mais cedo, jazia no chão ao seu lado. A principio havia achado estranho, e até mesmo um pouco assustador, receber uma carta do diretor no segundo dia de aula. Estava com as mãos trêmulas quando abriu o envelope, mas assim que viu o seu conteúdo, entendeu do que se tratava. Nem leu a nota que o diretor havia escrito, provavelmente parabenizando-o por ter sido escolhido como Monitor Chefe, a mesma carta que recebera nas férias, apenas prendeu o novo distintivo em suas vestes.

Uma batida forte na porta o tirou de seus devaneios. A raiva o inundou. Não queria ver ninguém naquele momento. Todos sabiam que deveriam deixá-lo em paz quando estava no seu quarto.

— Quem é? – não conseguiu disfarçar a irritação.

— Draco... – uma voz feminina respondeu manhosamente – Você não vai tomar café? Já está ficando tarde... – a raiva só aumentou. Esperava que os boatos que Pansy espalhara dizendo que estavam namorando fossem suficientes para manter essas meninas nojentas afastadas. Não queria saber de nenhuma delas. Foi até a porta do quarto e abriu-a bruscamente.

Ele não conseguiu esconder a surpresa ao olhar para a jovem parada à sua porta. Ela não era muito alta, mas como estava usando botas com salto alto, ficava apenas alguns centímetros mais baixa do que ele. Tinha cabelos negros, ondulados até a base da cintura, a pele era tão branca que parecia translúcida e os olhos azuis eram surpreendentemente elétricos, que contrastavam com os lábios, que eram fartos e com uma coloração vermelha como sangue. Ficou no mínimo uns dois segundos encarando-a com a boca aberta. Parecia mais a imagem de um anjo do que uma estudante.

— Quem é você? – Perguntou assim que conseguiu encontrar a sua voz. Ela era, com certeza, a garota mais estonteante que já vira na vida.

— Eu sou Andresa Constantine, muito prazer! – sorriu. Um sorriso que com certeza faria qualquer homem se ajoelhar aos seus pés – Eu me atrasei para o café e quando pascei por aqui percebi que você ainda não tinha se levantado, então tomei a liberdade de parar para saber se estava tudo bem... – bateu os cílios de forma sedutora. Sabia bem o que estava fazendo, e sabia que estava dando certo, pois mais uma vez, ele havia ficado sem palavras.

Draco ficou mais algum tempo observando-a, enquanto ela o olhava com um misto de expectativa e admiração. Depois do impacto inicial, ele notou que a forma como ela falava e sorria parecia artificial. Ela estava tentando seduzi-lo. Não que não estivesse acostumado com isso, apenas não estava interessado. E reparando bem, sua pele era pálida demais, sem vida, e seus olhos eram frios. Ela podia ser até bonita, mas nada de forma extraordinária, ou talvez fosse, mas naquele momento ninguém parecia assim tão interessante para ele, ninguém, a não ser uma morena que provavelmente estava do outro lado do castelo. Amaldiçoou-se por ter esse tipo de pensamentos! Ali estava a garota mais bonita da Sonserina, tentando seduzi-lo, e ele não conseguia tirar Hermione da cabeça. Toda vez que se distraia seu pensamento ia até ela. Precisava afastá-la de sua mente. E como o sonserino que era, olhou para a jovem a sua frente e teve uma ideia.

— Fico grato por sua consideração, senhorita Constantine, apesar de não sermos tão íntimos... – ele deu seu melhor sorriso enquanto a olhava de forma sacana.

— Bem, é verdade... – ela sorriu constrangida – Estudamos juntos desde o primeiro ano, mas ainda não havíamos conversado...

— Como eu pude deixar de notar, durante cinco anos, que a garota mais linda da escola estudava na mesma sala que eu? – ele encostou-se no batente da porta, apoiando um dos braços estrategicamente ao lado dela, para que não pudesse sair do lugar – Foi uma falha terrível da minha parte! – ele sorriu de lado quando a viu ruborizar. Não precisaria nem ao menos se esforçar para tê-la – Mas acho que podemos reparar isso...

— Podemos? – ela perguntou docemente, olhando-o nos olhos. Ele não precisava ter bloqueado a passagem, ela não tinha planos de ir há lugar algum sem ele. Acreditou que ele estava caindo no seu jogo.

— Oh, sim, podemos! – ele segurou-a pela mão – Vamos começar com você me acompanhando até o Salão para tomarmos café, podemos nos conhecer melhor no caminho... – ele sussurrou as últimas palavras no seu ouvido, e a ouviu suspirar em resposta.

— Sim, podemos...

O Salão já estava vazio quando chegaram. Decidiram então, irem direto para a sala, pois não queriam chegar atrasados na aula do Snape, que mesmo sendo o diretor da Sonserina, nunca perdoaria se um monitor de sua casa chegasse depois do horário em sua aula.

Draco conhecia bem aquela parte do castelo, e guiou Andresa por alguns atalhos, chegando à sala de aula antes mesmo dos outros alunos. Como a porta ainda estava trancada, encostou-se na parede, puxando Andresa para mais perto, abraçando-a de forma com que ela ficasse de costas para ele. Era uma posição estratégica, de acordo com ele, pois como estava sendo abraçada, ela acreditaria que ele estava lhe dando atenção, quando na verdade, podia ficar livre para pensar.

Deixou a mente vagar sem rumo, a princípio, mas logo lembrou-se de suas férias, e isso fez um calafrio percorrer a sua espinha.

"A mansão estava mais sombria do que de costume. Com a prisão de seu pai e o fracasso da missão no Ministério, o Lord das Trevas cortou dele e de sua mãe, todos os privilégios que tinham.

Estava no seu quarto. Já haviam se passado metade das férias e ninguém havia vindo até ali. Talvez essa prisão domiciliar a que foram forçados, fosse a coisa mais próxima de paz que ele poderia conseguir.

Deitado sob os luxuosos lençóis egípcios que sua mãe fazia questão de distribuir em cada uma das gigantescas camas dos quartos principais, Draco imaginava como seria o próximo ano letivo.

Quem sabe dessa vez ele pudesse ter um ano em paz, sabendo que as noites na mansão seriam silenciosas, sem os gritos alucinados de dor de sua mãe sendo torturada por seu pai. Isso sempre acontecia depois de alguma reunião com o Lord. Seu pai havia perdido muito do prestígio e da confiança que outrora teve com seu mestre. Agora era constantemente humilhado e ridicularizado, e quando todos iam embora, ele descontava sua frustração na esposa.

Draco sabia reconhecer as pessoas como elas eram. Sabia que sua mãe, assim como ele, em outros tempos, quando seu sobrenome tinha mais valor, gozava plenamente do luxo e influência que o marido podia lhe proporcionar. Sempre havia sido um negócio lucrativo ser um membro da tão nobre família Malfoy. Ele não concordava com todos os negócios ilegais do pai, assim como a mãe dele também não, mas eles sinceramente não estavam preocupados em saber de onde vinha a fortuna. Ele não é hipócrita. Sabia que o pai ameaçava famílias, usava a influência que tinha junto ao Ministro para próprio proveito, contrabandeava artigos das trevas, mas nunca se importou com isso, nunca parou para pensar em quem estava sendo prejudicado para que ele ganhasse roupas novas e caras, ou tivesse todos os brinquedos que quisesse, ou até mesmo que seu pai tivesse que “comprar” o time de quadribol da Sonserina com vassouras novas para que ele pudesse jogar. Apenas o que lhe importava era ter o que queria.

Mas isso não era justificativa para que seu pai fizesse com ele e sua mãe o que bem desejasse. Muitas vezes, ele havia enfrentado o pai e fora machucado no lugar de sua mãe. Faria isso de bom grado todas as vezes, mas ela passou a trancá-lo no quarto com magia e pegando sua varinha para que ele não saísse de lá até o castigo dela acabar. E isso era o que o deixava mais irritado: vê-la sofrer sem poder fazer nada.

Mas ele sabia que isso iria mudar. Na sua mão direita ainda estava a carta que acabara de receber de sua tia Bellatrix, dizendo que o Lord das Trevas iria até a mansão em breve para lhe dar uma missão, e que se ele fosse bem sucedido, seria extremamente bem recompensado.

E era só nisso que ele conseguia pensar. Se recuperasse novamente a honra da família, poderia expulsar seu pai da mansão e garantir para sua mãe uma vida melhor. Era só isso o que importava. Não que acreditasse que Voldemort fosse terminar glorioso. Por mais que achasse o Potter um idiota, era em Dumbledore que depositava suas esperanças.

Nunca fora um santo, ou o tipo de garoto bom. Não. Estava bem longe disso e tinha plena consciência. Mas só um louco gostaria de viver em um mundo onde aquele Lord pirado comandasse.

Aos poucos, foi lentamente deixando-se adormecer. Sabia que sonharia com a felicidade de sua mãe. Uma felicidade que observaria à distância."

Draco riu interiormente. Como estava enganado e iludido naquela época. Logo depois de receber a carta de sua tia, seu pai foi solto e o inferno se instalou novamente na Mansão Malfoy. E depois, mesmo que por algum milagre conseguisse cumprir sua missão, o que ele sinceramente duvidava, só lhe restaria manter o pai afastado pelo tempo que conseguisse, pois a seu ver, não havia mais esperança. Era um tolo ao pensar que havia uma versão daquela história onde ele conseguiria tudo o que queria. Se ele falhasse, um destino pior do que a morte aguardava sua mãe e ele, e se saísse vitorioso, não imaginava que haveria um mundo onde pudesse viver em paz.

— Draco! Draco! – a voz irritante de Andresa tirou-o do devaneio – Você está me ouvindo?

— Claro que sim! – teve que se esforçar muito para manter a voz calma, e mais ainda para sorrir quando ela virou-se para encará-lo. Que ideia estúpida fora essa de tentar usar essa menina irritante para tirar Hermione da cabeça?

— Eu estava dizendo que não gosto nada daquela Angélica que está vindo pelo corredor com a sangue-ruim Granger! – sua voz transmitia todo o ódio que sentia pela ruiva – Ela é uma nojentinha que se acha especial por ter estudado em uma escola avançada! Sinceramente não entendo a fixação do Christian por ela.

Mas Draco parou de ouvir assim que ela fez menção à Hermione. Olhou instintivamente para o corredor procurando-a. De fato ela estava lá, ao lado da ruiva, seguida por um grupo de grifinórios que teriam aula com ele agora. Não pôde deixar e notar que ela parecia diferente. Procurou as olheiras que sempre estavam em baixo de seus olhos, provavelmente devido o fato de ela estudar até tarde, mas não as encontrou. Em vez disso, notou que ela estava com a pele mais brilhante, com aspecto saudável, e que ela usava maquiagem. Nada exagerado, como Andresa, e sim algo natural, que apenas realçava sua beleza. Notou também que seu cabelo estava mais brilhante, e que parecia mais sedoso. Ficou tentado a chegar perto dela para poder acariciá-los. E os lábios... Sentiu um leve comichão por todo o corpo ao olhar para os lábios dela, que no momento, estavam com uma coloração avermelhada, natural, e tão convidativos para um beijo que inconscientemente umedeceu seu próprios lábios.

— Não!— gritou mentalmente para si próprio – Não posso me permitir ter esses pensamentos! Preciso afastá-la de mim, da minha cabeça, e que Merlin me ajude, do meu coração! Não sei o que é isso que estou sentindo, mas não posso saber. É melhor para nós dois que eu não saiba.

Então, num lapso de inspiração, puxou Andresa para mais perto de si e a beijou. Era um beijo vazio, sem emoção, pelo menos de sua parte. Podia sentir a paixão com a qual a garota correspondia ao seu beijo, e como ela havia ficado na ponta dos pés para garantir maior proximidade. Sabia que para ela esse beijo significava alguma coisa, sabia o que ela queria dele desde o momento em que ela tentou seduzi-lo da primeira vez, mas não se importava de enganá-la. Na verdade, não se importava com os sentimentos dela nem com o de ninguém. Não conseguia sentir nada nos lábios dela, nem seu cheiro o agradava. Nos braços dela, havia apenas o vazio.

Hermione, que vinha conversando animadamente com Angélica sobre uma poção sobre a qual havia lido e estava louca para praticar, só notou que algo estava errado quando a ruiva parou abruptamente ao seu lado, como se tivesse sido petrificada.

Era difícil algo pegar Angélica de surpresa, mas o que estava vendo realmente a espantou. Já havia cruzado com Andresa antes, e suspeitava dela, mas vê-la daquela forma com Malfoy era realmente muito para processar, principalmente depois de vê-lo com Hermione no dia anterior.

— O que houve? – Hermione perguntou virando-se para a amiga, que olhava fixamente para frente. Quando se virou novamente para ver o que Angélica encarava, sentiu uma pontada no peito e as pernas vacilarem. Draco estava abraçado com uma menina da Sonserina que ela não conhecia. Não simplesmente abraçado, eles estavam se beijando, ali, no meio do corredor, com um grupo de sonserinos do lado, fazendo algazarra.

Sua garganta secou e ela sentiu dificuldade para respirar. Por pouco não precisou apoiar-se na parede, pois as suas pernas não pareciam muito firmes. Era como se alguma coisa tivesse pressionando seu peito, impedindo o ar de entrar.

— Pare já com isso, Hermione Granger!— pensou com raiva de si mesma – Você prometeu que iria esquecer, prometeu que não pensaria mais nele, principalmente na fantasia que criou dele!

Hermione respirou fundo e seguiu o corredor com passos decididos. Os alunos da Sonserina que estavam em volta do casal, no momento em que viram seu distintivo brilhando sob as vestes, foram se afastando sem protestar.

Preparou-se para dizer algo, mas parou no momento em que algo chamou sua atenção. Ele usava nas vestes o mesmo distintivo que ela. Havia se esquecido completamente disso! Nos segundos que levou para se recuperar, Angélica chegou ao seu lado, junto com Rony e Harry. Ela a olhava de forma terna, mas dura. Não valia a pena. Não causaria tumulto por causa dele. Não se deixaria abater. Ouviu o barulho da porta sendo destrancada e tomou a dianteira, passando por Draco sem nem mesmo olhá-lo.

O Professor Snape entrou na sala abruptamente, com suas habituais vestes negras ondulando ao passar. A sala ficou mais escura e o ar mais denso. Os alunos tiveram a sensação de estarem de volta ás masmorras, onde tiveram aulas com ele por cinco anos.

— Não pedi para ninguém pegar o material! – disse com desprezo, olhando para alguns alunos da Grifinória, que rapidamente guardaram seus livros. Estranhou o fato de que Hermione estava sentada no fundo da sala, e não na frente – Agora, prestem atenção! Vocês tiveram um ensino muito fragmentando nessa matéria, e me espanta o fato de que tantos alunos tenham tido notas suficientes nos NOM’s para cursar esse período. Principalmente dada á falta de capacidade de concentração e poder mental de alguns aqui presentes... – seu olhar fixou-se demoradamente em Harry, estava sentado ao lado de Rony em uma das primeiras carteiras. Por mais que preferisse sentar-se junto das meninas, achou melhor dar espaço para elas conversarem. Não conseguiu entender o que realmente havia acontecido – Não vou permitir brincadeiras e nem gestos tolos com as varinhas! O primeiro aluno que fizer alguma besteira será expulso da matéria! Não é uma matéria fácil, com as quais estão habituados, e não permitirei que cabeças ocas atrapalhem minhas aulas!

Circulou pela sala por um momento antes de ir até o quadro negro e escrever: FEITIÇOS NÃO VERBAIS.

— Algum de vocês pode me dizer qual é a vantagem de um feitiço não verbal? – seu olhar recaiu instintivamente em Hermione, no fundo da sala. O surpreendeu o fato de que sua mão não estava levantada, aliás, parecia alheia a tudo que ele dizia. Esperou por mais um momento, mas ninguém ergueu a mão. Caminhou lentamente até ficar de frente com a grifinória, que só então pareceu perceber a presença do professor na sala.

— Então Srta Granger, qual é a resposta para a minha pergunta? – perguntou maliciosamente, sabendo que ela não prestou atenção na pergunta. Sabia que ela era uma aluna brilhante, mas não podia permitir que ela ficasse desatenta em suas aulas.

Hermione olhou espantada para o professor. Não havia escutado nada do que ele havia dito. Na verdade, estava tão imersa em seus pensamentos, que nem havia notado que a aula já havia começado. Mas sabia que se demorasse para responder, não respondesse ou respondesse errado, Snape tiraria vários pontos da sua casa.

— Vantagem do feitiço não verbal! – Angélica sussurrou pelo canto da boca. Sabia que Snape perceberia, mas seria melhor perder pontos por falar a pergunta para a amiga do que por ela não responder.

— O feitiço não verbal dá uma fração de segundo de vantagem para o bruxo que a lança, pois o adversário não pode prever que feitiço esse irá lançar. – Hermione sorriu aliviada para Snape, que estava com cara de desgosto.

— Menos 5 pontos da Grifinória por não estar prestando atenção à aula, Srta Granger! – Snape disse dando-lhe as costas e seguindo para frente da sala – E menos 5 pontos por ter murmurado para a Srta Granger a pergunta, Srta Angel! – ele virou-se e encarou a ruiva com expressão desgostosa que estava sentada ao lado da Hermione. Ela era esperta, agiu rápido. Se Hermione não tivesse respondido, ou tivesse respondido errado, teria que ser mais severo com ela. Podia ouvir protestos vindos dos outros alunos da Grifinória, principalmente de Harry e Rony, mas ignorou-os – Como a Srta Granger decorou do livro de feitiços, o feitiço mudo dá vantagem ao bruxo que o lança. É isso que vocês irão praticar hoje. Separem-se em duplas e lancem em silêncio, feitiços para desarmar, que deverão ser repelidos, também em igual silêncio.

Em poucos minutos, todas as duplas já estavam formadas. Angélica havia notado o sorriso de Christian para ela, como em um convite. A sua entrada havia sido tão tumultuada que não tivera tempo de conversar com ele. Sorriu em uma forma de desculpa e apontou para Hermione, que ainda parecia perdida em pensamentos. Ele fez um sinal positivo com a cabeça, e se dirigiu para um colega de casa,mas tomando o cuidado para puxá-lo para perto de onde ela estava. Ainda poderiam ficar próximos.

— Srta Granger – Snape disse alto, com um sorriso sarcástico nos lábios – Você irá praticar com o Sr Malfoy. Não queremos que a Srta Angel tenha que ficar sussurrando-lhe instruções, não é mesmo? O Sr Malfoy a fará prestar mais atenção no que está fazendo.

— Ótimo! – Hermione murmurou com ironicamente, enquanto dava as costas à Angélica e ia para o outro lado da sala, onde Draco estava – Era tudo que eu precisava!

Seu olhar se cruzou com o de Andresa, que estava indo até Angélica. As duas se encararam por uma fração de segundo, com profundo ódio e desgosto.

Hermione e Draco ficaram apenas se encarando, sem o menor sinal de que iriam começar a fazer a tarefa. No resto da sala, a maioria dos alunos estava murmurando o encantamento ao invés de dizê-lo em voz alta. Hermione olhou para Angélica, que estava com um sorriso de canto nos lábios, olhando para a jovem a sua frente, como se segurasse uma risada.

Ela não foi a única a perceber esse sorriso. Andresa, que estava tentando se concentrar ao máximo viu que Angélica estava debochando internamente por ela ainda não ter tido resultados. Isso a deixou extremamente irritada. Então, ignorando completamente as instruções do professor, gritou:

— Estupefaça!

Angélica já esperava uma atitude dessa vinda de Andresa, e estava preparada. Com dois acenos de varinha, bloqueou a azaração e a desarmou sem pronunciar uma única sílaba. O feitiço de Angélica foi tão forte, que além de a varinha de Andresa ter voado de sua mão, ela também deu vários passos cambaleantes para trás.

Hermione ria do que acabara de acontecer, quando sentiu um feitiço passando a milímetros de sua cabeça. Virou-se rapidamente e viu Draco com a varinha erguida, apontando para ela.

— Nunca dê as costas para o adversário, Granger. – ele sorria debochado.

Uma onda de raiva enorme tomou conta do seu ser. Empunhou sua varinha e concentrou-se ao máximo antes de lançar um feitiço para desarmar em Draco. No entanto, ele também lançara outro feitiço no mesmo instante. Os feitiços se chocaram no ar e causaram uma leve explosão, lançando Draco e Hermione em direções opostas com uma enorme força. Ambos bateram a cabeça e caíram no chão, desmaiados.

— Ela está inconsciente professor. – Angélica disse, virando-se para Snape assim que terminou de dar uma olhada em Hermione.

— O Sr Malfoy também está. Vou levá-los até a Ala Hospitalar. – com um floreio da varinha, materializou duas macas, onde depositou Hermione e Draco. Então se virou sombriamente para todos os alunos – Continuem praticando em duplas até eu voltar. Se alguém causar qualquer desordem, ou abandonar a sala antes que eu volte, limpará a Sala de Troféus todos os dias até o Natal! – então saiu com as duas macas flutuando atrás de si.

— É tudo culpa daquela doninha quicante! – Rony disse com raiva para Harry e Angélica – Ele sempre dá um jeito de prejudicar a Mione de alguma forma! Qualquer dia desses, eu pego ele de jeito!

— Hey machão! – Angélica disse rindo para Rony – Guarde suas energias para o quadribol! Além do mais, Hermione sabe se virar sozinha. Depois da aula, vamos até a Ala Hospitalar para vê-la. Agora é melhor voltarmos a praticar, sinceramente não estou nem um pouco a fim de limpar a sala de troféus.

Os dois jovens concordaram rindo, e iam voltar a praticar quando Andresa veio andando na direção dos três, com passos decididos.

— É melhor aquela sangue-ruim não ter machucado o meu Draco! – berrou para que todos ouvissem – Ou eu acabo com ela!

Angélica simplesmente a ignorou, virando-se. Estava prestes a continuar a caminhar quando sentiu seu braço ser puxado. Andresa a segurava firmemente e tinha um olhar raivoso.

— Eu estou falando sério!- gritou ainda mais alto – Mantenha aquela sujeitinha nojenta longe do Draco.

— É melhor você aprender a ter bons modos, garota, ou EU acabo com você! – as palavras saíram em um tom baixo, mas com o silêncio que estava na sala, não podia-se ouvir outra coisa além da discussão entre elas. Mantinha o olhar frio e duro, encarando a morena como se pudesse rasgar a sua alma apenas com a força de vontade – Fique longe dela, Constantine.

— E quem é você para me dizer o que fazer? – Andresa sentiu um formigamento desconfortável no couro cabeludo ante as palavras de Angélica, e soltou o seu braço, dando dois passos para trás. Mas não ia sair por baixo, afinal, era uma sonserina – Você não me conhece, não sabe do que eu sou capaz! É melhor você dizer para a sua amiguinha ficar fora do meu caminho! O mesmo serve para você.

Angélica parecia estar exercendo todo o seu autocontrole. Sua mandíbula estava travada e seus olhos estreitos.

— E você vai fazer o que, Andresa? Gritar pelo seu irmão? Pedir para ele te salvar, quando sua capacidade mágica e intelectual, escassas, se provarem tão inúteis quanto você? – Angélica a olhou com desprezo e disse com deboche – Eu estava lá, Andresa, naquele hotel na França. Eu me lembro do que aconteceu.

Andresa ficou pálida e sem reação. Havia se esquecido daquele dia. Na verdade, apagou-o completamente da sua mente até agora. Esse era mais um motivo para dar seguimento aos seus planos. Ela estava lá, ela viu. Não podia deixar que mais alguém soubesse. Quando percebeu, Angélica tinha lhe dado as costas e estava distraída conversando com Harry. Viu ali uma oportunidade de ouro. Apontou a varinha e estava prestes a lançar um feitiço, quando essa saiu voando de sua mão.

— Atacar pelas costas é golpe baixo até mesmo para você, Andresa. – Christian tinha se posicionado na frente de Angélica e segurava a varinha que acabara de voar em uma das mãos, enquanto olhava desafiadoramente para a morena – Será que vou ter que contar isso na próxima carta que for escrever para o nosso pai?

Angélica virou-se ao escutar isso. Era isso mesmo, aquela baixinha havia tentado lhe atacar pelas costas? Ela estava testando a pouca paciência que não tinha. Teria atingido a morena como um trem-bala se Christian não a tivesse segurado. Ele não fez força alguma, apenas colocou a mão sobre seu ombro assim que chegou ao lado dele. Imediatamente sentiu uma espécie de calma. Era estranho e reconfortante ao mesmo tempo. Olhou para ele, que sorria enquanto piscava um dos olhos de forma cúmplice, como que dissesse para deixar com ele, que resolveria tudo.

— Devolve a minha varinha, Christian! – a morena rugiu. Não bastava a ruiva, agora seu irmão também queria envergonhá-la.

— Acho que não. – ele colocou a varinha da irmã no bolso das vestes – Angélica tem razão, você precisa aprender boas maneiras, maninha.

— Você não pode fazer isso! – a raiva passou para incredulidade.

— Não apenas posso, como vou. – segurou a mão de Angélica enquanto a acompanhava até os amigos – Quem sabe eu te devolvo no jantar? – perguntou ironicamente – Deve ser tempo o bastante para você pensar nos seus atos.

Andresa ia retrucar, mas nesse momento o Prof Snape entrou na sala, com um farfalhar das suas vestes.

— Estão dispensados. – olhou interrogativamente para Angélica, que estava sorrindo de forma vitoriosa, enquanto estava de mãos dadas com um de seus alunos. Ela apenas gesticulou que explicaria mais tarde – Quero um trabalho de 60 cm de pergaminho para a próxima aula sobre feitiços não verbais.

Assim que saíram da sala, Harry estranhou o fato de Christian ter ficado ao lado deles. A ruiva havia soltado da sua mão para juntar o material, mas parecia completamente confortável ao seu lado. Pareciam íntimos, e isso era estranho. Não iria julgar, não tinha esse direito, mas sentia-se cada vez mais confuso com o que estava acontecendo.

— Angélica, o que aconteceu na França? – Harry a olhava com curiosidade, tentando mudar o rumo dos pensamentos, assim que ela se despediu do sonserino. Eles não teriam a próxima aula em conjunto. Rony parecia igualmente curioso.

— Ah, foi algo realmente engraçado! – Angélica mal podia conter o riso. Provavelmente nunca esqueceria aquele dia.

"Estava passando alguns dias na França. Estava tomando café no salão do hotel em que estava hospedada, com a carta que acabara de receber de Dumbledore ainda em suas mãos. De acordo com ela, estava tudo certo com a sua transferência. Teria algumas semanas de férias, antes que as aulas começassem, em setembro, então havia decidido continuar com a sua viagem. Sabia que devia estar sentindo-se aliviada por não ter que voltar para sua antiga escola, mas não estava. Apesar da importância da tarefa que recebera da Ordem, sentia como se estivesse fugindo. Talvez ele aparecesse no próximo período letivo, e ela pudesse confrontá-lo. Sabia que era loucura, e que provavelmente acabaria morta, assim como seus pais, mas ao menos faria alguma coisa!

Foi tirada de seus pensamentos por um grande barulho no andar de cima. Conhecia o som de uma poção explodindo distintamente. Viu alguém correr escada abaixo, gritando, com uma toalha cobrindo o rosto, até chegar na mesa ao lado da sua.

— O que foi que você fez agora? – o garoto que estava sentado na mesa, fingindo que lia um jornal, nem ergueu os olhos quando a garota sentou-se ao seu lado.

— Christian, você precisa me ajudar! – ela ainda cobria o rosto com a toalha e parecia estar chorando – Alguma coisa saiu errado!

— Não é problema meu que você não tenha capacidade de preparar nem uma simples poção. – a voz do garoto soava entediada, e apesar de ainda fingir interesse no jornal, não tirava os olhos da ruiva que estava sentada na mesa de frente com a dele, que observava tudo atenciosamente.

— Sou sua irmã! – a voz dela era estridente e chorosa, mesmo sendo abafada pelo pano – Ou vou contar para a mamãe...

— Vai contar o que para ela? – pela primeira vez ele desviou os olhos da ruiva e encarou a jovem sentada ao seu lado – Que anda fazendo poções ilegais no banheiro do seu quarto e que eu me recuso a te ajudar com isso? – sua voz era calma e firme, mas Andresa conhecia bem o irmão para saber quando ele estava a ponto de perder a calma.

— Por favor... – ela suplicou novamente.

Ele suspirou sonoramente antes de concordar.

— Ok, levante a toalha para que eu possa ver o estrago que você fez.

Angélica quase caiu da cadeira ao ver o que havia embaixo da toalha. O rosto da garota estava completamente coberto com furúnculos roxos, que soltavam um líquido verde viscoso e fedorento. Nunca a teria reconhecido se não tivesse visto sua foto com o irmão no jornal daquela semana. Teve que abafar a risada com as duas mãos, mas não antes que a outra garota percebesse e cobrisse o rosto novamente. Olhou de forma constrangida para o garoto, pedindo desculpas, mas ele também ria.

— Pegue essa pomada – ele disse ainda rindo, enquanto tirava um frasco do bolso – E passe no rosto todo. Até amanhã os furúnculos devem sumir.

— Amanhã? – a garota perguntou irritada – Mas eu preciso me livrar disso agora!

— É o que eu posso fazer por você! – Felipe respondeu irritado, querendo se livrar logo da irmã para poder voltar observar a ruiva da outra mesa – E se continuar me chateando, posso mudar de ideia e te deixar assim até começarem as aulas!

— Não! – Andresa gritou e pegou o frasco da mão do irmão, correndo para fora do salão antes que ele mudasse de ideia.

Christian virou-se novamente para observar Angélica, e quem sabe, ir até sua mesa e conversar. Mas ela já havia ido embora."

— Eu também ficaria nervoso se alguém me visse numa situação dessas! – Rony ria tanto que sua barriga doía.

— Realmente deve ter sido muito engraçado! – Harry concordou – Mas é melhor corrermos, estamos muito atrás, se não, chegaremos atrasados.

Os três continuaram o caminho até as estufas rindo e fazendo piada sobre furúnculos roxos, rostos deformados, e incapacidade mágica.

O dia passou tão rápido, que quando notaram, já estavam saindo da última aula. Tinham visto Draco no Salão Principal durante o almoço, e pela forma como se agarrava com Andresa, estava muito bem de saúde. Isso os deixou animados, pois significava que Hermione ficaria bem logo.

— Vamos lá ver a Hermione? – Rony havia ficado ansioso o dia todo. Não via a hora de poder visitar a castanha.

— Vamos sim, só vou até a torre pegar uma troca de roupa para ela. – Angélica disse sorridente.

— Nós vamos indo na frente então. – Harry disse de forma distraída.

— Aconteceu alguma coisa, Harry? – Rony perguntou preocupado. Desde o almoço Harry estava distante.

— Não, não. – Harry disse olhando pelos corredores – Não é nada. Vamos lá ver a Mione.

Os dois foram para o corredor oposto ao que Angélica havia entrado.

— Quanto tempo ele acha que vai conseguir enganar o Rony dessa forma? – Angélica pensou sorrindo enquanto subia as escadas do dormitório.

Enquanto descia as escadas carregando a roupa para Hermione, Angélica avistou Gina sentada em uma poltrona perto da lareira. Ela estava lendo algum esquema de quadribol, pois estava completamente absorvida pelos pergaminhos em suas mãos. Achou que seria uma boa ideia ir lá conversar com ela.

— Gina! – chamou enquanto se aproximava da poltrona onde a ruiva estava sentada.

— O que você quer? – Angélica via Gina na poltrona, mas a voz que veio de lá não se parecia em nada com a dela.

— Gina? Você está bem? – a voz de Angélica saiu um pouco falha, enquanto ela dava um passo para traz.

— Estava até você vim me incomodar. – a voz que saiu da poltrona pareceu gelar até a alma de Angélica, que deu mais um passo apavorado para trás.

— Gina... O que está havendo?

Então Gina levantou a cabeça. Seu rosto estava extremamente pálido, ela emanava uma aura sombria, seus olhos eram órbitas vazias, que emitiam uma luz avermelhada. Sua voz ia se tornando mais rouca à medida que ia falando.

— Sentiu saudades, Angel? Porque eu estou de volta!

Angélica entrou em pânico. Aquela voz... Conhecia aquela voz! Era a mesma que a atormentava em sonhos! Cobriu o rosto com as mãos, enquanto dava passos desesperados para traz. Tinha que sair de lá! Estava desesperada, como poucas vezes havia ficado em sua vida. Acabou tropeçando no tapete e caindo de costas do chão, batendo forte a cabeça ficando inconsciente.

— Angélica! Acorda! – Gina correu até Angélica, que estava caída no chão.

Angélica voltou a si, e ouviu a voz de Gina. Quando abriu os olhos, a ruiva estava ajoelhada ao seu lado.

— Angélica! Por Merlin! O que houve? – a voz de Gina estava preocupada – Você me chamou, e quando eu me virei para responder, você ficou pálida, disse coisas sem nexo e caiu.

Angélica tentava assimilar as coisas, e sentiu um forte tremor quando se lembrou do que tinha visto.

— Isso não é bom! – sussurrava, enquanto Gina a ajudava a se levantar – Isso não é nada bom!

— Angélica, o que está acontecendo? – Gina perguntou enquanto a ajudava a se sentar em uma poltrona, para se acalmar.

— É um problema que eu tenho há algum tempo. – ela estremeceu só de se lembrar de como adquiriu essas visões – Tinha melhorado, não sei o que houve.

— Você deveria falar com Dumbledore sobre isso. – Gina estava preocupada com Angélica. Lembrava-se de seu primeiro ano, de como Voldemort havia possuído sua mente. Temia que algo assim acontecesse com a jovem a sua frente.

— Ele já sabe. Mas talvez seja melhor eu falar com ele... – então olhou de forma penetrante para Gina – Por favor, me prometa que não vai falar sobre isso com ninguém!

— Eu prometo, não vou falar. – Gina estava sendo sincera.

— Eu vou até a Ala Hospitalar ver a Mione. – a voz de Angélica ainda estava fraca.

— Diga a ela que eu mandei um oi, ok. – Gina voltou para a poltrona em que estava antes e pegou seus papéis.

Angélica levantou-se e foi até o a saída, mas antes de sair, virou-se para Gina e disse:

— Você deveria procurar o Harry. Ele passou o dia todo esperando por você.

E saiu, deixando para trás uma Gina que tinha a face da cor de seus cabelos.

Angélica entrou na Ala Hospitalar e logo localizou onde Hermione estava deitada.

— Hey! – ela disse carinhosamente enquanto se sentava ao lado da amiga – Como você está?

— Eu estou bem. – Hermione respondeu com um sorriso fraco, agradecida por Angélica ter ido visitá-la – Madame Pomfrey disse que eu já posso ir, mas que se eu quiser, posso passar a noite aqui.

— Eu trouxe seu material e uma troca de roupa para o caso de você decidir ficar.

— Obrigada. – Angélica notou que Hermione estava um pouco cabisbaixa.

— O que houve? Você está um pouco abatida. – olhava de forma preocupada para ela.

—-Não foi nada, deve ser só o efeito do feitiço. – as suas palavras poderiam ter sido convincentes se ela não tivesse desviado o olhar.

— Hermione, você pode me contar. Sou sua amiga. – Angélica soou tão sincera que Hermione virou-se para fitá-la.

— Na verdade é só algo que o Rony me disse que me deixou um pouco encabulada.

— E o que foi que ele disse?

— Que o Malfoy está namorando aquela garota. – a repugnância dela ao dizer isso era visível – Até onde eu sei, eles nem eram amigos e agora já estão namorando? Tudo bem que ela é bonita, e de repente todos passaram a olhar para ela, mas para falar a verdade, eu nem me lembro de tê-la visto no castelo antes! – não pode evitar deixar sua voz soar um pouco magoada ao final da frase.

Angélica a olhou pelo que pareceu uma eternidade antes de falar.

— Sabe, se alguém te escutasse falando assim, diria que você está com ciúmes...

— Não diga bobagens! – ela tentou parecer indignada, mas a leve coloração rosa em suas bochechas a entregou – Eu não tenho porque sentir ciúmes dele.

— Bem, se você está dizendo... – Angélica tentou soar indiferente – Porque na verdade, pelo que me disseram, eu achava que você gostava do Rony.

Hermione corou até o último fio de cabelo. Falar disso sempre a deixava constrangida. Claro que ela já havia pensado nisso. Nos últimos anos, passara a olhar para ele de maneira diferente. Ela não era como o Harry, a quem ela via como um irmão. Seu jeito trapalhão, sua lealdade, a forma como ele ria, sempre a deixava feliz e às vezes suspirando pelos cantos. Ela havia realmente pensado na hipótese de estar apaixonada por ele durante as férias, enquanto ficou n’A Toca. Ele parecia mais atencioso com ela, mais carinhoso, preocupado. Uma vez, antes de dormir, pegou-se imaginando com seria namorá-lo. Seria fácil, natural, como respirar. Com ele ela podia ser simplesmente ela, só Hermione. Não haveria dor, nem mágoa, nem incertezas. Ele a amaria da mesma forma. Mas... O que a incomodava é que sempre tinha um porém no final dos seus pensamentos. Isso a intrigava e irritava. Ela teria uma vida calma e tranquila ao lado de quando a guerra acabasse, e até lá ele seria um namorado carinhoso e dedicado. Mas será que é isso o que ela queria? Sempre que pensava nisso, seus pensamentos vagavam sem resposta.

Não soube ao certo por quanto tempo ficou divagando, mas quando deu por si, Angélica ainda estava sentada a observando.

— Me perdoe. – disse constrangida – Acho que acabei me perdendo nos meus pensamentos. Mas me diga, aconteceu mais alguma coisa?

Angélica sorriu, antes de responder.

— Na verdade, nada de mais. As aulas correram normalmente, e parece que o incidente na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas já ficou para traz. – ao terminar de falar, ergueu a mão para afastar uma mecha de cabelo que havia caído sobre o seu rosto, e Hermione pode notar que ela usava um anel que parecia ser de ouro branco com um grande diamante no meio – Ah, se bem que parece que alguém realmente não gostou do tal namoro do Malfoy.

— Quem? – a curiosidade deixou de lado a ideia de perguntar sobre o anel.

— Parece que ninguém viu a Pansy nas aulas hoje... – Angélica começou a dizer tentando sorrir. Não perdera o olhar da amiga e seu anel. Não queria falar sobre ele. Mudar de assunto sempre era uma boa tática de distração – E algumas meninas da lufa-lufa disseram que ela estava trancada no banheiro das meninas, ameaçando azarar qualquer um que não a deixasse em paz.

Hermione não sabia o que pensar sobre isso. Não era do seu perfil rir do sofrimento dos outros, e no fundo, sabia que a sonserina não deixaria isso barato.

— Acho que é melhor eu ir. – Angélica disse quebrando o silêncio – Tenho que fazer alguns deveres e você precisa descansar. – disse enquanto se levantava – Vejo você amanhã no café?

— Sim. –Hermione sorriu – Obrigada pela visita, e por trazer meu material, e por tudo.

— Não precisa me agradecer, é para isso que servem os amigos! – e sem dizer mais nada, Angélica virou-se e foi embora.

Hermione ficou um bom tempo fitando o teto antes de pegar no sono. Teve sonhos confusos, onde ela tinha que escolher entre salvar o Rony ou o Draco, enquanto vozes no fundo chamavam o seu nome, outra dava risada, um coro gritava sangue-ruim, e uma voz, que ela reconheceu sendo de Angélica dizia “ESCOLHA”.

Ela acordou suada, olhando para a escuridão. Levou algum tempo até se recordar que estava na Ala Hospitalar. Não se lembrava do sonho, apenas de ter visto o rosto do Rony e alguém ter dito para ela escolher alguma coisa. Deitou-se para voltar a dormir, mas com a ideia fixa de que na manhã seguinte, falaria com Rony.

Notas finais
* A dor precisa ser sentida: frase retirada do livro A Culpa é das Estrelas. Se você não leu, super recomendo. Eu nem sei por onde começar a me desculpar, sério! Normalmente eu nem leio histórias que não tenham sido concluídas porque não tenho paciência de ficar esperando o autor postar, e justamente eu faço esse tipo de coisa. ¬¬' Eu tive um tipo de bloqueio artístico. Simplesmente mão consegui escrever nada! Abri várias e várias vezes o capítulo e não saía uma única linha. Decidi esperar um tempo até ter alguma inspiração, que surgiu exatamente hoje, enquanto eu deveria estar estudando para a minha prova de Gestão Empreendedora. Vai entender como o cérebro funciona... Não vou prometer uma nova data, porque sei que vai virar tudo uma loucura nos próximos 15 dias. Formatura da faculdade, provas, trabalho de Resistência dos Materiais... Muita coisa em pouco tempo. Mas juro que não vou desistir de postar. É uma meta particular terminar essa história! Muito obrigada para quem comentou no último capítulo. Já respondi a todos, mas mesmo assim, queria dizer que vocês moram no meu coração! Até a próxima! :-)