Notas iniciais
A inspiração voltou, então aproveitei para postar! Capítulo não betado, qualquer erro me avisem!

Angélica acordou suada e dolorida por volta das três da manhã. O mesmo sonho outra vez. Aquilo estava ficando ridículo. Iria conversar com Dumbledore, não aguentaria mais uma noite dessas, precisava dormir. Talvez conseguisse permissão para preparar a sua poção. Já havia dito pra ele que poção de sono sem sonhos não funcionava com ela, assim como várias outras. Efeitos colaterais.

Como sabia que não conseguiria dormir mais, decidiu ir para o Salão Comunal e tentar estudar um pouco seu cronograma. Precisava encontrar uma maneira de conciliar suas tarefas escolares com as extracurriculares. Não era realmente necessário ter boas notas naquele ano, não na situação em que estava, mas era parte do seu trabalho, ser uma aluna, e como tudo com o que já havia se comprometido, faria direito. Ficou nisso até na hora de descer para o café da manhã.

Quando chegou no Salão Principal, Hermione encontrou todos sentados e comendo. Sorriu para eles enquanto se sentava ao lado de Angélica.

— Bom dia! – disse enquanto pegava uma torrada.

— Mione! – Rony sorriu enquanto os outros a cumprimentavam – Como você está?

— Estou bem melhor, obrigada Rony, foi apenas um susto. – sorriu verdadeiramente. Havia decidido deixar o que passou para trás. De nada adiantava viver de sonhos, se alimentar de ilusões. Havia criado um mundo em sua mente que não correspondia com a realidade. Era a hora de dar uma chance para a vida real.

Rony sorriu como se tivesse acabado de ganhar um pedaço extra da torta de carne da sua mãe. Quando Hermione chegou na casa dos seus pais para passar as férias, havia se esforçado ao máximo para tentar cativá-la. Desde o incidente no Ministério da Magia do ano anterior, quando achou que ela fosse morrer, alguma coisa despertou dentro dele, uma urgência de vê-la com mais frequência, de ficar perto dela, de sentir seu cheiro. Havia aceitado o que se recusava desde o quarto ano: sentia algo por ela além da amizade. Não sabia o quão profundo isso era, nem se era correspondido, mas a guerra iminente o fizera criar coragem para tentar descobrir. Apesar de todos os desencontros dos primeiros dias de aula, quando ela parecia tão estranha, aquele sorriso, o sorriso da sua Hermione, fazia-o sentir que havia esperança.

Angélica sorriu aliviada ao ver como a amiga parecia bem. Não era o incidente em si que a deixava preocupada, afinal, não fora nada grave. Ela mesma já tinha passado por acidentes piores. Tinha medo da reação da castanho ao novo relacionamento de Malfoy. Ele era uma incógnita. Sabia sobre ele apenas o que era de acesso público, comentários, fofocas. Gostava de tirar suas próprias conclusões, mas nunca havia sido tão difícil. Não conseguia nem imaginar como havia sido a infância dele fora dos portões da escola. Ninguém nasce arrogante, ou maldoso. Normalmente há uma série de fatores que levam uma pessoa a chegar nesse ponto. Na maioria das vezes coisas relacionadas à traumas na infância, perdas extremamente dolorosas. Mas o que ele havia perdido? Quem ele viu sofrer? Não podia resolver a equação sem os dados. Mas deixou todas as perguntas de lado enquanto observava o quanto Rony parecia feliz enquanto recebia praticamente toda a atenção de Hermione. Será que esse era o caminho que ela havia decidido seguir? Mais perguntas. Independentemente do motivo, isso parecia deixar o ruivo alheio à troca de olhares entre Harry e Gina. Pela forma como ambos sorriam, deveriam ter resolvido qualquer problema que enfrentavam no dia anterior.

Mais uma vez deixou os olhos vagarem pelo salão, apenas pelo hábito de observar. Seus olhos cruzaram com o de Christian. O sorriso que se formou foi espontâneo. Sabia que não era sábio se deixar envolver com alguém dessa maneira. Tinha coisas à fazer, e no fim das contas, estava quebrada por dentro. Não sabia se algum dia conseguiria sentir essas coisas por alguém novamente. Mas tinha que admitir que ficara surpresa por ele tê-la defendido da irmã. Claro que Andresa não conseguiria atingi-la pelas costas. Não era estúpida! Sabia que ela tentaria algo, assim como sabia que Snape estava do lado de fora observando a cena, e que se nenhum dos dois parassem o ataque, poderia apenas ter se virado e tê-la desarmada por si mesma. Mas o fato de ele se preocupar, a fez pensar. Assim como sentiu toda a raiva se esvair apenas com o toque dele. Não podia se permitir pensar essas coisas. Quebrou o contato visual e continuou olhando a mesa. Malfoy não estava lá, mas já esperava por isso. Também não viu a Parkinson. Tinha ouvido um boato de manhã que ela ainda estava trancada no banheiro em volta de um caldeirão. Não sabia o que estava aprontando, mas não podia ser coisa boa. Por mais que duvidasse que ela realmente pudesse fazer uma poção perigosa o suficiente, alguns erros podiam ser desastrosos. Fez uma nota mental de ir até lá verificar.

Deixou a os olhos vagarem pelo salão, sem motivo algum, apenas pelo hábito de observar. Reparou que a Pansy ainda não estava na mesa da Sonserina. Tinha ouvido um boato que ela ainda estava no banheiro da Murta, choramingado em volta de um caldeirão, ameaçando azarar qualquer um que se aproximasse. Não que se interessasse pelas atividades ilegais dentro do castelo, mas nos dias atuais, qualquer poção ilícita feita por algum aluno daquela casa, deveria ser levada em consideração. Não que achasse que a garota tivesse a capacidade de fazer algo que realmente fosse prejudicar alguém, mas fez uma nota mental de ir até lá dar uma olhada.

Enquanto deixava a mente vagar, a ruiva não percebeu que na mesa da Sonserina, alguém a observava atentamente.

— Sinceramente irmão, não entendo o que você vê nela. – Andresa chamou a atenção de Christian que estava sentado ao seu lado, ainda olhando para a ruiva.

— Não espero que você entenda. – ele respondeu simplesmente. Não estava com ânimo de aturar a irmã. Depois do incidente na aula de poções, ela simplesmente ficou insuportável. Havia atormentado-o até que finalmente perdesse a paciência e lhe devolvesse a varinha, perto do horário do jantar.

— Sabe, você até que é bonito, não sei porque perde seu tempo com ela. – Ela continuou, mesmo sabendo que não deveria provocá-lo tanto. Mas estava entediada. Draco não havia lhe dado qualquer atenção desde o almoço do dia anterior. Por um breve momento, de manhã, chegou a acreditar que ele realmente tinha caído no seu jogo, mas aparentemente teria que se esforçar mais. Mas ficava difícil tentar atraí-lo quando ele parecia tão distante, preocupado com outras coisas. Não conseguia pensar em nada que pudesse ser mais importante para um garoto de 16 anos do que uma gata como ela lhe dando mole. Desde que entrara no trem no início do período letivo, vários rapazes lhe chamaram para sair, inclusive de outras casas. Mas nenhum deles era tão impressionante quanto o loiro que tentava conquistar. Tinha uma paixonite por ele desde o primeiro ano, e agora que finalmente tinha uma chance não ia desperdiçá-la ou deixar alguém entrar no seu caminho.

— Desperdício de tempo é o que eu gasto com você. – ele retrucou de mau humor – Com Angélica é investimento futuro.

— Como depósito à longo prazo? – riu gostosamente – É bom saber que seu coração está no lugar certo, maninho, que é em lugar nenhum! Por um momento realmente acreditei que você fosse capaz de ter sentimentos de verdade!

— Você não sabe nada, NADA, sobre meus sentimentos Andresa! – ele não gritou, apenas sibilou as palavras de forma lenta e baixa enquanto a encarava, o que deixava evidente sua ira – Não me confunda com você!

— E você realmente acha que ela vai ficar com você quando descobrir o nosso acordo? – olhou para os lados para ter certeza de que ninguém estava prestando atenção nos dois – Depois de saber no que você tem me ajudado?

— Acordo no qual você não fez nada para cumprir a sua parte, diga-se de passagem. – tentou controlar a respiração para se acalmar, vestindo a sua máscara de frieza – E ela não vai saber sobre isso.

— E quem te garante isso? – fingiu sorrir de forma maliciosa. A verdade é que tinha medo do irmão. Ele podia ir de 0 a 100 em poucos segundos, mas ainda assim precisava mostrar que tinha uma apólice de seguro: eles tinham um acordo.

— A única forma de isso acontecer é você contar. – o sorriso sombrio que deu combinava com seus olhos em chamas – O que você não vai fazer, a menos que queira que eu conte ao diretor sobre o que tem misturado ao seu suco de abóbora.

— Você não faria isso! – arregalou os olhos. Até onde ele iria para prejudicá-la caso fosse contrariado?

— Não me teste. – encerrou o assunto levantando-se da mesa. Tinha a primeira aula com Angélica e não queria se atrasar.

A primeira aula do dia era Poções. Quando Draco chegou, a maioria dos alunos já estava acomodado. Seu olhar vagou distraidamente pela sala, tentando se decidir onde sentaria, quando parou no lugar onde Hermione estava. Não a via desde o acidente na aula do Prof. Snape. Sabia que era um covarde por fugir dessa forma, mas enquanto não conseguia tirá-la de sua mente, esse era o melhor caminho. Foi só então, um segundo depois, que ele percebeu que ela não estava sozinha, e não era a ruiva irritante que estava ao lado dela, e sim o Weasley pobretão. De onde estava não conseguia ouvir o que eles estavam conversando, mas ela estava rindo gostosamente de algo que ele havia dito. Sentiu o sangue ferver quando viu que ela, em meio à risada, colocou sua mão em cima da mão do ruivo, que ficou olhando para a garota, completamente embasbacado, enquanto colocou sua mão por cima da dela, brincando distraidamente com uma pulseira prateada que ela usava. Quem aquele ruivo idiota pensa que é para tocá-la daquela forma? Com tanta intimidade? Inconscientemente deu um passo para perto da mesa, movimento que não passou despercebido por Hermione, que olhou para ele. Seus olhares se cruzaram. O dele cheio de ódio e ciúmes, o dela magoado e confuso. Queria ir até ela, azarar aquele imbecil e deixar claro que ninguém deveria tocar nela. Mas um instante de lucidez passou por sua mente. Que direito ele tinha de fazer isso? A forma como ela havia corado quando ele a tocou, o sorriso cúmplice que trocaram, apenas provava o quanto eles eram próximos. Sempre soube que o Weasley sentia algo por ela. Estava estampado na sua cara. Mas nunca cogitou a ideia de que ela poderia corresponder a esse sentimento. Havia se deixado acreditar que ela poderia gostar dele, apesar de ser uma ideia ridícula. Hermione Granger nutrindo sentimento por Draco Malfoy? Parecia o início de uma piada ruim. E tentar intervir no que quer que estivesse acontecendo entre ela e o ruivo apenas deixaria transparecer que ele se importava. Talvez ele devesse interferir, e talvez ela gostasse disso, mas e aí? O que faria em seguida? Abandonaria todos os seus planos, iniciaria uma nova guerra entre sua família? Qual a probabilidade de isso dar certo para alguém? Provavelmente todos acabariam mortos, inclusive ela. Era estupidez. Respirou fundo, fechou os olhos momentaneamente para controlar as emoções, afinal, era um oclumente habilidoso, e foi até o outro lado da sala, onde viu que Andresa havia guardado um lugar para ele.

Hermione olhou para Angélica, que estava sentada atrás dela, e aparentemente havia sido a única que prestara atenção nas atitudes do loiro, já que Rony ainda estava olhando, perdido em pensamentos, para as mãos unidas dos dois. A ruiva levantou uma sobrancelha de forma interrogativa para ela, que apenas deu de ombros, afinal, também não havia entendido o que aconteceu. Na verdade, nunca entendia nenhuma das ações de Draco. Desde aquele maldito problema no trem, nada mais fazia sentido. Havia aceitado que tudo não passara de fruto da sua mente fértil e dos inúmeros romances trouxas que lia durante as férias, onde o vilão às vezes era o mocinho e vivia feliz para sempre com a mocinha, desde que ela fosse corajosa o suficiente para se aproximar dele. Mas aquele era o seu mundo real. Não havia uma versão onde ela viveria feliz para sempre com o seu vilão, até porque, talvez ninguém fosse realmente viver feliz para sempre com o que estava por vim. Mas tinha que admitir que essas atitudes do loiro a deixava encabulada. Ainda a pouco, podia jurar que o que viu nos olhos dele era ciúmes. Mas para haver ciúmes tinha que ter algum sentimento, o que era impossível. Decidiu deixar isso para lá, porque pensar nisso doía de uma forma que ela não conseguia explicar. Havia tomado a decisão de se dar uma chance de realmente ser feliz, de dar uma chance para que algo acontecesse entre ela e o ruivo sentado ao seu lado, que tocava sua mão de forma suave, gentil, enquanto a olhava de forma encantadora. Ele merecia uma chance e ela também.

Um pouco antes do professor chegar, deixou seu olhar vagar até Harry. O amigo gentilmente havia cedido seu lugar para ela, dizendo que era bom que pelo menos um dos dois conseguisse fazer suas tarefas, já que nem o ruivo nem o moreno tinham boas expectativas com relação às aulas de poção. Tinha se sentado com um aluno da Lufa-Lufa, havia feito parte da Armada de Dumbledore no ano anterior. Eles estavam conversando de forma bem relaxada, provavelmente falando sobre quadribol. Com o campeonato das casas se aproximando (só aconteceria perto do Natal, mas para os meninos isso era próximo o bastante) era apenas sobre isso que a maioria dos jogadores conversava. Era bom vê-lo tão descontraído. Ele estava tão mal durante as férias que temia que algo pudesse acontecer.

— Bom dia turma, meu nome é Horácio Slughorn e eu vou ser seu professor de poções esse ano. – o professor era baixinho e gorducho e usava vestes extravagantes. Apontou a varinha para o quadro, onde apareceram algumas instruções – O diretor e eu decidimos que agora seria um ótimo momento para vocês aprenderem algumas poções voltadas para a área da medibruxaria. Nesse período, eu ensinarei algumas coisas básicas, mas há cursos especializados que os que se interessarem pela matéria, podem fazer durante as férias ou depois que terminarem a escola. – Ele fez uma pausa, para que todos os alunos pudessem acompanhar o que ele dizia. Notou o interesse de alguns – Por favor, abram o livro na página 52, na poção de reposição sanguínea. As instruções estão no livro e as informações complementares estão no quadro. Os ingredientes no armário no fundo da sala. Vocês têm até o final da aula para prepara-la, engarrafa-la e deixarem os frascos em cima da minha mesa. Estarei andando pela sala para acompanhar o desempenho de vocês.

Hermione e Angélica foram as primeiras a se levantarem quando o professor terminou de falar. Para a ruiva seria uma tarefa fácil. Já havia preparado aquela poção tantas vezes que nem havia se dado ao trabalho de abrir o livro. As duas se sentaram em frente aos seus caldeirões minutos depois, e começaram o preparo da poção. Angélica aproveitou o tempo para pensar na conversa que teria com o diretor mais tarde, enquanto auxiliava Christian com os ingredientes dele. Ele parecia ter algum talento para poções e era bem meticuloso com seu trabalho manual. Em pouco tempo encontraram um bom rítimo de trabalho. Apesar de ser uma tarefa individual, viu-se satisfeita em ter companhia, e pegou-se observando com interesse os movimentos que as mãos dele faziam ao cortar, macerar, esmagar. Não precisava prestar muita atenção no que fazia, porque estava tão acostumada com aquela poção que poderia fazê-la até mesmo vendada. Então apenas aproveitou o momento.

Já Hermione, parecia extremamente concentrada no que estava fazendo. Percebeu logo que a poção não era assim tão complicada, mas se concentrar em cada passo, impedia que sua mente vagasse por rumos impróprios. Dava a si mesma pequenos comandos, “Agora corte as raízes, Hermione”, “Agora abaixe o fogo do caldeirão para cozinhar”, “Mexa até atingir uma cor vermelho pálido”. Estava tão concentrada na tarefa que não percebeu que Andresa passava do seu lado e deixou algo cair no seu caldeirão. Estava entretida cortando em partes iguais o último ingrediente da poção quando a voz de Rony a tirou de seus pensamentos.

— Mione, o que houve com a sua poção? – a voz do ruivo estava alarmada, e não era para menos. A poção que devia estar avermelhada estava com um tom verde doentio.

— Eu não sei, fiz tudo como estava escrito no livro! – ficou desesperada, principalmente quando notou que o professor, que estava passando de mesa em mesa anotando o desempenho dos alunos, estava se aproximando do seu caldeirão.

O diálogo entre os dois chamou a atenção de Angélica, que em menos de um segundo estava ao seu lado.

— Deixa eu dar uma olhada nisso aqui. – avaliou cuidadosamente o que deveria ser a poção de Hermione e logo percebeu o que havia acontecido. Havia uma raiz utilizada no preparo da solução que quando adicionada em excesso causada aquela reação – O quanto de raiz você adicionou?

— Apenas a quantidade escrita no livro! – a castanha estava alarmada.

A ruiva olhou em volta e viu Christian apontando a cabeça para a irmã. Andresa estava do outro lado da sala com um sorriso maldoso estampado nos lábios.

— Christian, preciso da sua ajuda. – sabia que não deveria fazer isso, mas não conseguiu evitar – Vamos trocar o meu caldeirão com o da Hermione.

Sem nem questionar, o rapaz pegou sua varinha e levitou o caldeirão de Angélica delicadamente, enquanto ela fazia o mesmo com o da amiga.

— O que você pensa que está fazendo? – Hermione estava incrédula. O professor estava quase na mesa deles. Não havia tempo de preparar uma nova mistura – Você vai se encrencar.

— Não, eu não vou. – a ruiva respondeu convicta. Respirou fundo antes de iniciar os procedimentos para reparar a poção. Se concentrou o máximo que pôde e começou a cortar os ingredientes. De vez em quando dava algumas instruções para que Christian a ajudasse. Em poucos segundos eles estavam emcompleta sintonia, alheios aos olhares de preocupação de Rony e Hermione. Depois de algum tempo apontou a própria varinha para o caldeirão, enquanto o rapaz mexia constantemente a poção. Conhecia os encantamentos, mas mesmo assim conseguia sentir o suor escorrendo por seu rosto. Já fazia algum tempo que não preparava algo complexo em tão pouco tempo.

— O que ela está fazendo? – Rony perguntou atônito para Hermione enquanto via Angélica apontando a varinha para a mistura.

— Em alguns casos é possível utilizar encantamentos para potencializar algumas poções. – Hermione também estava incrédula – Mas isso exige muita concentração, esforço físico e total domínio da magia. Poucas pessoas no mundo podem fazer tal coisa.

Quando a ruiva finalmente abaixou a varinha, estava um pouco pálida, mas sorrindo. Apontou para o caldeirão que apresentava uma poção perfeita. O que aconteceu no momento certo, pois o professor acabara de chegar à mesa de Hermione e Rony. Deu uma boa olhada no caldeirão da castanha, depois no de Angélica.

Hermione notou que Andresa estava quase caindo da cadeira, tentando ouvir o que o professor diria, provavelmente esperando que ele fosse descontar pontos pelo seu fracasso. Ela e Rony haviam ficado em uma posição estratégica ao lado da mesa para que ninguém conseguisse ver o que estava acontecendo ali. A morena do outro lado da sala não fazia ideia do que havia acontecido.

— Em todos os meus anos como professor, nunca vi duas poções tão perfeitas! – o professor comentou alto, chamando a atenção de todos os alunos – As dos meninos estão boas, mas as de vocês estão espetaculares! Me arriscaria a dizer que seria completamente seguro mandar os frascos com as poções diretamente para a Ala Hospitalar! – ele quase saltitava de empolgação – 20 pontos para a Grifinória pelas poções preparadas perfeitamente!

Christian ajudou Angélica a se sentar. Ela estava realmente pálida e suava frio, apesar de estar sorrindo. Não fazia ideia do que diabos ela havia feito com a poção, nunca tinha visto aquele tipo de procedimento na vida. Mas isso no fundo não importava. Estava completamente orgulhoso da ruiva. Sabia desde o momento em que a vira pela primeira vez o quanto ela era especial. No fundo admirava a coragem Grifinória. Ela poderia ter se ferrado por tentar ajudar a amiga, mas fez assim mesmo. Não podia se esperar esse tipo de lealdade dos seus amigos sonserinos. Não que não houvesse qualquer tipo de honra entre ele. Havia. Mas nada que beirasse auto-sacrifício. Por mais que ás vezes achasse isso idiota e sem propósito, talvez fosse algo bom.

Hermione olhou para Andresa, que parecia ter comido algo extremamente azedo, e sorriu friamente. Não era do tipo vingativa, deixava isso para aqueles do tipo da morena, mas aquilo teria volta.

Quando a aula acabou, já estava na hora do almoço. Teriam algum tempo antes de precisarem ir para a aula de Transfiguração no período da tarde. Despediram-se de Christian assim que chegaram ao Salão Principal e sentaram-se para comer. Contaram para Harry o que havia acontecido, já que ele estava longe demais para ter visto alguma coisa.

— Angélica, como conseguiu aquela façanha com a poção? – Rony perguntou enquanto se servia – Nunca vi algo assim!

— Só alguns truques que aprendi na escola avançada, nada de mais. – Angélica falou baixo enquanto corava. Normalmente não teria feito aquilo. Havia combinado com o diretor que não revelaria seus conhecimentos para os outros alunos, mas aquela sabotagem passou dos limites. Não deixaria Hermione se prejudicar se pudesse impedir.

— E aqueles encantamentos que você estava lançando com a varinha? Nunca tinha visto isso pessoalmente – Hermione havia ficado encabulada com aquilo. Quando leu a respeito disso não havia nada mencionando que pessoas tão jovens pudessem adquirir essas habilidades.

— Ahh, não é nada de mais... – a ruiva desconversou – Só uma técnica que eu aprendi com um professor da outra escola. – Se não podia revelar o que sabia, muito menos ainda sobre onde e com quem aprendera.

— Seja como for, parece que isso requer bastante esforço, você está totalmente pálida. – Hermione decidiu não insistir muito no assunto, talvez não fosse algo que Angélica gostaria de compartilhar no momento.

— Realmente exige um pouco de esforço sim. – por mais que tentasse disfarçar, estava exausta. Apesar de aquela ser uma poção relativamente fácil de ser preparada, consertá-la com encantamentos exigia muita magia e energia. Era bem treinada, mas fazer algo assim tão rápido a esgotou. Sentia as pernas bambas e a respiração entrecortada – Eu adoraria poder descansar agora, mas tenho uma coisa para fazer.

— O que? – Hermione sabia que a amiga não estava demonstrando todo o cansaço que de fato deveria estar sentindo, e duvidava que a ruiva fosse capas de fazer qualquer coisa que não fosse tirar uma soneca até a próxima aula.

— Eu preciso ir até o banheiro da Murta... – Angélica ficou indecisa se contava ou não para Hermione o que ia fazer, mas decidiu contar, afinal, ela era a Monitora Chefe – Ouvi alguém dizendo que a Pansy está preparando alguma poção ilegal. Aparentemente ela não é conhecida por seus talentos mágicos, e alguém pode acabar se machucando.

Hermione sentiu as bochechas corarem. Esteve tão preocupada com seus problemas particulares que havia deixado de lado suas obrigações. Era função sua patrulhar os corredores e os banheiros femininos para ver se estava tudo em ordem.

— Não se preocupe com isso Angélica, vá descansar um pouco, eu mesma vou lá dar uma olhada. – ela sorriu para a ruiva que parecia agradecida – Se ela tiver mesmo fazendo alguma coisa errada, vou adorar poder tirar alguns pontos da Sonserina. As duas sorriram cúmplices.

Logo após almoçarem, a ruiva subia para a torre, Rony e Harry foram relaxar no lago e Hermione subiu para o banheiro.O ambiente estava silencioso, mas assim que se aproximou da porta, ela sentiu um cheiro forte de ovo podre que vinha lá de dentro. Abriu a porta cautelosamente, cobrindo a boca e o nariz com a capa do uniforme.

— Quem está aí? Eu disse que não quero ninguém aqui! – a voz esganiçada de Pansy surgiu do último box, junto com o clarão de um feitiço de azaração.

Hermione estava preparada para uma atitude do tipo e bloqueou o feitiço com facilidade. Chegou mais perto, e antes que a outra garota pudesse dizer mais alguma coisa, a desarmou.

— Infelizmente para você, Pansy, esse banheiro não é particular. – disse com nojo, pegando a varinha da menina que havia caído aos seus pés.

— O que você quer aqui, sangue-ruim? – chegando um pouco mais perto, Hermione pôde perceber a situação deplorável na qual a sonserina se encontrava. Parecia que não tomava banho há algum tempo, pois suas vestes estavam sujas e seu cabelo desgrenhado. As profundas olheiras em baixo de seus olhos mostravam que ela não havia dormido, e que provavelmente, passara muito tempo chorando. Percebeu que ela tentava em vão, esconder o caldeirão fumegante que estava em cima do vaso, à suas costas. Por um momento, chegou a sentir pena.

— Estou aqui porque sou a Monitora Chefe, Parkinson, e aparentemente você está preparando uma poção ilegal. – tentou dizer com toda a calma que podia. Não desceria ao nível da outra. – E você sabe o que isso significa.

— O que eu sei é que o que eu faço não é da sua conta, sua nojentinha! – a morena estava gritando. A falta de sono e comida a estavam fazendo começar a perder o controle, junto com o medo que estava por estar sem a sua varinha.

Hermione poderia ter encerrando a conversa alí, tirando alguns pontos da Sonserina e a entregando para McGonagal, mas estava curiosa sobre a poção. O que seria tão importante para Pansy se arriscar dessa forma?

— Sabe Parkinson, se isso que você estava preparando era uma poção do amor para o Malfoy, você falhou miseravelmente... – disse sorrindo, jogando com a sonserina para tentar obter a resposta.

Mas a menção ao nome do loiro aparentemente foi a gota d’água para romper o controle da morena.

— Eu não preciso de poção do amor para conquistar o Draco, ele já me ama! – ela berrava – A culpa é daquela maldita Andresa! Se ela não tivesse mudado tanto, Draco ainda estaria comigo!

— E o que você pretende com essa poção? Mata-lo envenenado? – Hermione percebeu que o descontrole era o ponto fraco de Pansy, e continuou jogando com isso – Porque é a única coisa que você vai conseguir com isso que preparou.

— Sua idiota, não é para ele, eu nunca faria mal ao meu Draquinho! – Pansy já estava chorando. Sabia que estava falando o que não devia, mas havia perdido o controle.

Hermione ponderou a situação. Aparentemente o alvo das loucuras da sonserina era Andresa, e como Angélica havia previsto, o talento de Pansy para o preparo de poções era escasso. Não podia deixar isso ir adiante.

— Por mais tentadora que seja a ideia de alguém envenenando a Constantine, eu não posso deixar isso acontecer, Parkinson. A sua casa perderá pontos e você cumprirá detenção.

— Mas quem falou em envenenamento? – o sorriso da morena ficou doentio – Não, não. Não vou precisar envenena-la. Ela mesma fará isso quando eu terminar, quando eu mostrar para o Draco como ela é de verdade.

— Como assim, isso não faz sentido! – Hermione sabia que não devia estar dando continuidade para a conversa, que a sonserina estava fora de si, mas sua curiosidade era maior – O que você pretende com isso?

— E porque eu deveria contar para você? – Pansy provocou – Você vai me entregar mesmo, antes que eu possa continuar. O que eu ganho com isso?

— Porque se você me contar... – Hermione pensou bem antes de falar, estava claro que apesar de fora de controle, a sonserina também estava jogando, provocando-a – Eu posso não te entregar para a Profa. McGonagall para cumprir detenção.

— É pouco, mas gostei! – os olhos da sonserina se iluminaram – E se eu te disser que não sou a única preparando poções ilegais, que Andresa também faz?

— Eu te diria que você precisa de provas para incriminá-la. – Hermione estava séria. Adoraria um motivo para poder incriminar Andresa, mas não podia confiar na palavra da morena.

— Ah, ela é muito cuidadosa para deixar provas... – Pansy disse tristemente, mas sabendo que tinha a atenção da grifinória – Mas tem outro jeito de provar isso...

— Como? – era a vez de Hermione perder a paciência. Se Pansy não dissesse algo que valesse a pena, acabaria com tudo aquilo.

— Toda poção possui um antídoto, sabe-tudo. – a sonserina sorriu vitoriosa.

— E é nisso que você está trabalhando? Porque não parece estar dando certo. – Hermione ainda não sabia o que fazer com a informação, mas não daria o gosto da Pansy de saber que a deixou confusa.

— Ah, está dando sim! – a morena sorriu debilmente – Mais dois dias e o antídoto fica pronto!

— Antídoto para qual poção? – era só o que ela precisava, saber o que Andresa preparava ilegalmente.

— Mas se eu te contar você não vai mais precisar de mim, e vai me entregar! – a sonserina era esperta, e sorriu triunfante.

— E essa poção vai envenená-la ou machuca-la de alguma forma? – Hermione estava dividida, mas não queria demonstrar.

— Não, é completamente inofensiva, mas vai fazê-la ficar tão humilhada que desejaria estar morta! – assim que disse essas palavras, Pansy sabia que havia vencido o jogo.

— Ok, faremos um acordo então. – Hermione começou calmamente, ponderando suas opções – Você tem exatamente dois dias para terminar a poção, e nesse período, farei vista grossa para isso. Nem um dia a mais.

— E o que eu ganho com isso? – Pansy sabia que estava abusando, mas no fundo, não tinha nada a perder.

— Na verdade é o que você não ganha, uma detenção, e provavelmente sua expulsão. – Hermione perdeu a paciência.

— Ok, parece justo. – A morena sorriu.

Hermione deu uma última olhada na garota antes de sair, jogando a varinha da mesma no chão ao lado do boxe. Deixaria que Pansy tentasse seu truque, afinal, Andresa merecia. E se caso algo desse errado, a entregaria direto para o diretor. Seria a palavra dela contra a sua. Uma ficha impecável como a sua permitia uma pequena transgressão, como não ter patrulhado corretamente o banheiro. Mas caso Pansy não terminasse a poção em dois dias, colocaria um fim naquilo. Era mais tempo do que podia arriscar. Completamente absorta em seus pensamentos, Hermione se esqueceu de apenas um detalhe: justiça nunca foi o forte dos sonserinos.

O período da tarde passou voando, e quando se deram conta, já estavam saindo da última aula. Angélica já estava melhor, até mesmo sorrindo, apesar de estar ficando mais calada conforme o tempo passava. Assim que sentaram-se para jantar, um aluno do primeiro ano chegou e entregou um bilhete para Harry e Angélica.

— De quem é? – Rony perguntou enquanto se sentava.

— Dumbledore. – os dois responderam ao mesmo tempo.

— Para você também, Ang? – Hermione estranhou.

— Ele deve estar querendo saber sobre meus primeiros dias de aula, adaptação, coisas assim. – não conseguiu esconder o alívio que sentiu ao ler o bilhete marcando um encontro para depois do jantar.

— E você Harry? – ela perguntou para o amigo, que ainda encarava o papel em suas mãos.

— Apenas diz que quer me encontrar amanhã a noite. – suspirou – Não tenho ideia do motivo.

A única comunicação que teve com o diretor desde o incidente no Ministério fora a carta de autorização para que ele e os amigos pudessem assistir as reuniões da Ordem. Esperava sinceramente que ele não quisesse retomar as aulas de oclumência. Sabia que nem ele nem o Prof Snape conseguiriam lidar com isso. Mas talvez fosse bom conversar com alguém. Estava o tempo todo com a cabeça tão cheia que as vezes nem conseguia prestar atenção nas aulas. Se não fosse por Gina, nem teria conseguido montar o time de quadribol da Grifinória daquele ano. Pensar na ruiva fez seu coração pesar. Estavam realmente se dando bem. Era bom ficar com ela, sentir seu cheiro, segurar a sua mão, mas tinha medo. Não queria que ela se tornasse mais alvo do que já era. Além disso tinha Rony. Precisava dele. Não iria arriscar a sua amizade por causa de um relacionamento que tinha tudo para dar errado, mas simplesmente não conseguia se obrigar a afastar-se dela.

— Harry, está tudo bem? – e justamente ela o tirou de seus devaneios. Antes de responder olhou para os outros três, que pareciam entretidos em alguma conversa, e só então virou-se para ela.

— Eu não sei. – respondeu sincero – Não conversei pessoalmente com Dumbledore desde...

— Desde o ministério. – ela completou. Podia ver as sombras que dominavam o olhar do moreno sempre que se lembrava daquele dia.

— Sim. – suspirou mais uma vez.

— Acha que é sobre isso que ele quer conversar? – ela segurou a sua mão em baixo da mesa, tentando lhe passar algum conforto.

— Acho que não. – segurou a mão dela, sentindo o calor emanar por todo o seu corpo – Não há muito mais a ser dito sobre aquilo.

— Não tem nenhuma suspeita? – ela sussurrava, tentando não atrair a atenção do irmão. Não tinha medo dele, mas sabia que Harry ainda não estava pronto para isso.

— Acho que ele quer falar sobre o que vai acontecer, sobre a guerra. – seu coração disparava só de pensar nisso. Falar sobre isso tornava tudo mais real, mas não falar não fazia desaparecer. Isso tinha que acabar, e se de fato era sua responsabilidade, quanto mais preparado estiver, melhor.

— Não se preocupe, está seguro aqui. – ela tentou sorrir.

— Eu sim, mas e os que estão lá fora? – era nisso que pensava todos os dias. Enquanto ele estava ali se escondendo, comendo e dormindo, quantas pessoas estavam desaparecendo, sendo torturadas e mortas? Quantas famílias eram destruídas? Famílias de trouxas que não tinham como se proteger porque simplesmente não sabiam com o que estavam lidando.

— Não é sua culpa. –a ruiva respondeu percebendo que era melhor não dar continuidade no assunto, pelo menos não durante o jantar. Terminaram a refeição em silêncio, embora ainda de mãos dadas.

Após jantarem, Angélica seguiu para a sala do diretor, enquanto Harry, Gina e Rony subiram para a torre da Grifinória e Hermione ia fazer sua patrulha.

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você? – Ron perguntou pela décima vez.

— Tenho. – ela respondeu sorrindo – Você sobe e começa o dever de Transfiguração. Não vou demorar, e quando chegar eu te ajudo.

— Se você tem certeza... – queria ficar com ela, mas forçaria uma situação, principalmente agora que as coisas pareciam ir tão bem.

— Tenho sim. – ela sorriu enquanto seguia para o outro lado – Te vejo mais tarde!

Não soube em que momento decidiu seguir para a biblioteca, mas quando percebeu, estava sentada lá no fundo, atrás da enorme pilha de livros que havia feito para que ninguém a descobrisse. Agora que estava sozinha, decidiu repensar tudo o que aconteceu nos últimos dias. Não era de ficar remoendo, mas sentia algo no fundo lhe incomodando desde que vira Angélica com Christian. Eles pareciam se dar tão bem! Durante a aula de poções, em um momento crítico, eles se comportaram como duas peças de um todo, em harmonia, como se fossem apenas um. Não conseguia entender ou imaginar a extensão da relação entre eles, ou se de fato havia algo entre ales além de amizade, mas conseguia entender o brilho nos olhos da ruiva quando falava dele. Parecia fácil, simples. Apesar de estar tentando dar uma chance para ela e Rony, algo no fundo da sua cabeça ficava martelando: “Por que não podia ser simples assim com Draco?”. Vê-la com outra realmente a abalou. Não diria para ninguém, mas precisava ser honesta consigo mesma. Por isso estava ali, tomando fôlego para deixar isso para trás antes de seguir em frente. Mas ainda sentia que precisava de um ponto final, algo para lhe dar um encerramento, apesar de não saber exatamente o que.

Um barulho perto dela a fez ficar alerta. Já era tarde e todos deveriam estar nos dormitórios. Levantou-se, com a varinha em punho. Aproximou-se de uma das prateleiras, mas não tinha ninguém. Então sentiu alguém parado atrás dela. Virou-se rapidamente, pronta para atacar.

— Por Merlin, Malfoy! – o loiro estava parado, encarando-a, enquanto ela abaixava a varinha – O que faz aqui?

— Estou fazendo minha ronda, Granger. – apontou para o distintivo no seu peito – O mesmo que você deveria estar fazendo, se fosse um pouco mais competente. Talvez eu deva falar com a Profa. McGonagal. Ela vai ficar realmente desapontada em saber que sua aluna favorita não está cumprindo os seus deveres.

Hermione não estava mais ouvindo o que ele dizia. Vê-lo ali apenas trouxe tudo à tona novamente. Sentiu a tristeza dominando-a. Passou por Draco sem olhá-lo e foi para a mesa pegar as suas coisas.

— Ei Granger, estou falando com você! – instantaneamente Draco percebeu que algo estava errado. Ela não o havia xingado, ofendido, nem tentado azará-lo.

— Tanto faz Malfoy. – Não queria discutir. Não queria nem mesmo ter que olhar para ele. Queria apenas esquecer tudo aquilo, tomar um banho e ir dormir.

— Olhe para mim quando falo com você! – definitivamente algo estava errado. Ele se aproximou dela e puxou-a pelo braço, forçando-a a encará-lo.

— O que você quer Malfoy? – sua voz saiu sussurrada, pois olhar nos olhos dele trouxe as recordações de volta. Todos os momentos em que ele foi carinhoso com ela, se preocupou, para logo em seguida trata-la como lixo. E agora, ficar se agarrando com a Andresa pelo castelo todo. Sentiu as lágrimas mornas escorrendo pelo seu rosto.

Isso pegou Draco de surpresa. Estava preparado para raiva, indiferença, mas dor? Não esperava encontrar isso nos olhos dela. Sentiu como se algo perfurasse o seu peito. Pensar que talvez fosse sua culpa era algo insuportável. Perdeu completamente o controle dos seus atos.

— O que houve? – perguntou se aproximando mais dela.

— Por que se preocuparia? – a aproximação dele a deixou nervosa. Não aguentava mais suas mudanças de humor.

— O que houve Hermione? – perguntou mais uma vez, passando sua mão livre pela face dela, secando as lágrimas que escorriam.

— Draco... – ela só conseguiu sussurrar, fechando os olhos enquanto ele a tocava.

Ele sabia que tinha que se afastar. Mas vê-la ali, sofrendo, entregue ao seu toque, fez desmoronar o muro que havia construído dentro de si. Só conseguia pensar no quanto queria acalmá-la, no quanto seus lábios úmidos o hipnotizavam. Puxou-a para mais perto de si, descendo a mão que segurava o braço da garota para sua cintura, e com a que secava suas lágrimas, puxou-a carinhosamente pela nuca. Não conseguia acreditar no que estava fazendo.

Hermione teve dois segundos para perceber o que estava acontecendo, mas não fez nada para impedir, apenas se entregou. Sentiu o toque dos lábios dele contra os seus. Não eram frios, como imaginava, e sim quentes e convidativos. Levou suas mãos até a nuca dele, puxando-o para mais perto, colando seus corpos. O sentiu gemer sob seus lábios e aprofundar o beijo. Sentiu o cheiro amadeirado de seu perfume inebriá-la, assim como o gosto suave de menta em seus lábios. Era uma combinação perfeita. Sentia-se no paraíso.

Draco precisou de todo o seu autocontrole para não empurra-la com força contra uma das paredes quando ela o puxou para mais perto. Sabia que esse beijo poderia assinar a destruição dos dois, mas no momento não ligou. Tudo o que importava eram os lábios dela se movendo contra os dele. Estava em êxtase. Era um beijo completamente diferente dos vários que trocava com Andresa. Esse era cheio de calor, emoção. Conduziu-a delicadamente até a mesa, onde colocou-a sentada. Sem se separar dela, com seus corpos ainda colados, foi aprofundando o beijo. Desceu a mão que estava na cintura e colocou em seu joelho, onde estava a bainha da saia. Ela não fez qualquer movimento de resistência, estava entregue. Foi quando um pequeno alarme estourou em seu cérebro, fazendo-o se afastar bruscamente.

— Draco? – ela olhou-o confusa. Podia sentir seus lábios latejando. Provavelmente estavam vermelhos e inchados, devido a intensidade do beijo. Mas no seu interior estava regozijando-se. Havia sido o melhor beijo da sua vida! Não entendeu porque ele se afastou. Definitivamente ele parecia estar gostando.

— Hermione, eu... Nós... – ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado. Não podia olhar para ela, ou começaria a beijá-la novamente. Mas parecia não ter controle sobre o próprio corpo. Aproximou-se novamente, colocando as duas mãos na face dela, olhando-a nos olhos – Nós não podemos fazer isso. Eu não posso fazer isso! – será que ela não entendia o que estava em jogo?

— Por quê? – de fato ela não entendia qual era o real problema. Quer dizer, ela era uma nascida trouxa, e ele era um Malfoy! Mas e daí? – Não me diga que não sente o mesmo que eu!

— Hermione, você não entende! – isso era frustrante. Nunca poderia dizer para ela o que teria que fazer. Que talvez morresse tentando cumprir sua maldita missão. E que se por sorte, conseguisse cumpri-la, ela nunca iria perdoá-lo. Mesmo que perdoasse, nunca poderiam ter um futuro juntos, pois sua tia a mataria antes que ele pudesse fazer qualquer coisa.

— Então me explique! – ela tinha que entender o que estava acontecendo entre eles.

— Eu não posso! – ele se afastou novamente. Não tinha o direito de envolve-la nisso. Ela merecia mais. – Não podemos continuar com isso.

— Você não pode me tratar como lixo em um momento e no outro me beijar e achar que eu não mereça uma explicação sobre o motivo! – ela se levantou, indo até ele, aumentando um pouco o tom de voz a cada passo – É por causa do meu sangue?

— Droga Hermione! – ele viu as lágrimas rolarem novamente pela sua face enquanto se aproximava – É claro que não! Não me importo com isso! – e realmente não se importava.

— Então me dê apenas um motivo! – segurou a mão dele enquanto falava – E não diga que é porque não gosta de mim dessa forma. Merecemos a verdade um do outro, ao menos dessa vez.

— Eu... – ele tentou desviar, mas ficou hipnotizado pelos olhos dela – Eu não sei o que é isso que sinto por você. – respirou fundo – Nunca senti por ninguém, mesmo. Não sou do tipo sentimental, não tenho um nome para isso que aperta o meu peito e revira o meu estômago quando estou com você. Sei que não é ódio. Algumas vezes é raiva, por te ver com outras pessoas, por te ver sorrindo e saber que não é para mim. Acredito que sim, eu gosto de você, mas não sei explicar desde quando.

— Então... – ela tentou dizer algo, mas ele a cortou.

— Mas você me pediu um motivo para isso não ser o bastante. – ele a olhou no fundo dos olhos, e sentiu lágrimas também escorrerem pela sua face – Estamos em guerra Hermione, e ambos sabemos que não estamos do mesmo lado.

— Guerra? – foi sua vez de se afastar – Você realmente quer me falar sobre isso? Dizer que essa guerra estúpida interfere tanto nas suas ações?

— Você não entenderia. – não tentou se aproximar. Era um assunto delicado.

— Você não pode realmente acreditar no que Voldemort prega. – cuspiu as palavras – Pensei que fosse diferente.

— Não acredito! – queria gritar, mas se conteve. Mesmo em uma situação tão horrível como essa, era bom poder desabafar o que estava entalado na sua garganta – Espero que ele se afogue no próprio sangue quando vocês acabarem com ele.

— Então, por quê? – quando mais tentava entender, menos sucesso tinha.

— É complicado. – abaixou o rosto. Não podia olhá-la agora, ou simplesmente começaria a chorar como uma criança em seu colo.

— Eu posso ajudá-lo! – tinha que tentar convencê-lo de que havia outras formas – Podemos tentar...

— Não Hermione, você não entende! – olhou-a com raiva. Raiva por fazê-lo desejar tentar outra forma, por querer uma vida que não merecia, por querer ficar com ela – Não há outra forma, outro caminho. Não para mim. Esse assunto está encerrado.

— Draco... – ela foi até ele, puxando-o, obrigando-o a olhá-la nos olhos. Sabia que “isso” que estava acontecendo entre eles, apesar de não saber exatamente o que, era algo frágil. Se deixassem quebrar agora, talvez nunca mais pudessem consertar.

— Não, Hermione, eu não posso. – ele viu a dor no fundo dos olhos dela. Viu as lágrimas voltarem a escorrer, mas não podia fazer nada, ou seria pior para os dois – Isso nunca mais vai poder acontecer. – não tinha ameaça em sua voz. Estava devastado demais para isso. Algumas lágrimas teimosas escorreram por sua face – Eu sinto muito.

— Eu também. – sabia que era ridículo sofrer pelo fim de algo que nunca existiu. Mas naquele momento teve a compreensão de algumas coisas: 1) Talvez Draco realmente não fosse o garoto que ela passou tanto tempo acreditando que era. 2) Talvez de fato, ele fosse diferente. 3) Ele também sentia algo por ela. E finalmente 4) Isso não mudava nada.

— E agora? – ela sussurrou enquanto se encostava novamente na mesa, procurando algum apoio – O que espera que eu faça depois disso? – disse se referindo não apenas à conversa, mas a tudo o que aconteceu com eles nos últimos dias.

— Vamos esquecer, fingir que nunca aconteceu. – pôde ouvir a dor na própria voz – Não vou procurá-la ou insultá-la durante as aulas. Temos obrigações como Monitores e esse serão os únicos contatos que teremos.

— Isso é ridículo! – ela queria gritar, esbravejar, fazê-lo ver a razão, mas não tinha mais forças.

— Você merece mais do que ser o segredo de alguém, Hermione – ele disse enquanto se aproximava – Eu sinto muito.

Beijou-a delicadamente uma última vez, antes de se virar e sair. Dando as costas não só para ela, mas para todo o resquício de alma que ainda tinha. Decidiu que cumpriria a sua missão, mas que também a manteria segura, não importava o custo. Podia não haver um futuro para ele, mas ainda havia um futuro para ela, e ele não lhe negaria isso. Passou pela porta sem olha-la uma última vez, deixando para trás uma garota desolada, sentada no chão, chorando e com o coração em pedaços.

— Parabéns Hermione! – sussurrou amargamente entre as lágrimas – Conseguiu o seu encerramento.

Notas finais
Espero que gostem!!! Até a próxima! ;-)