Enfrentando o Destino
3 2. Cara a cara
Notas iniciais
Tá aqui o capítulo 2! A formatação tá um pouco estranha, porque estou postando de um iPad e não tem como arrumar, mas assim que tiver acesso a um PC eu arrumo. Eu não queria deixá-los esperando mais, então vai assim mesmo :3
Boa leitura!
Capítulo 2
Cara a cara
Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?
Almeida Garrett, Destino
Isso não podia estar acontecendo. Há poucas horas eu estava voltando do meu colégio, me preparando para uma noite inesquecível ao lado do grande amor da minha vida, o Cebola. E agora estou presa no futuro, morando num país estranho, prestes a me casar com outro homem. Só pode ser um pesadelo.
Resolvi ir dormir. Quando acordasse, certamente estaria de volta à minha casa no Limoeiro. Não foi difícil pegar no sono. Embora estivesse com a cabeça a mil, tantos acontecimentos me sugaram toda a energia.
Acordei com a Magali batendo à porta. Abri os olhos e vi um quarto que não era o meu. Era ainda o apartamento em Manhattan.Então não era só um sonho ruim. Droga.
Enquanto nos arrumávamos para ir à prova do vestido, ocorreu-me uma ideia. No meu perfil nas redes sociais certamente haveria bastante informação sobre essa minha nova vida, e sobre meu noivo também. Ah, eu sou um gênio! Como não tinha pensado nisso antes?
– Magá, enquanto eu me troco, liga meu notebook pra mim... quero ver se meu noivo querido me deixou alguma mensagem no Facebook...
– Claro, Mô. Que bom ver que você acordou bem melhor. Ontem você tava muito estranha! – Respirei aliviada. A rede social do momento ainda era o Facebook pelo menos.
Entrei no closet para me trocar.Havia, além das minhas roupas, uma seção de roupas masculinas, a maioria delas pretas, é claro.Nós já moramos juntos? Vai ser mais difícil me livrar dele do que eu pensava.
Desde que vim parar nessa nova realidade, olhei–me no espelho pela primeira vez.Eu também havia mudado bastante. Meu cabelo, antes naturalmente castanho escuro, agora era preto e um pouco mais comprido do que de costume. Pude ver que eu tinha uma tatuagem nas costas, uma frase escrita em letras miúdas que eu não consegui ler no reflexo. Também estava mais alta e mais magra, e meus dentes não estavam mais salientes.Já devo ter usado aparelho ortodôntico.De modo geral, aprovei meu visual.Admito, ficar mais velha tem suas vantagens.
Sentei-me à mesa, com meu notebook ligado e minha página do Facebook aberta. Minha amiga também tinha deixado ali um copo de leite e biscoitos, mas agora não havia tempo para comer. Eu tinha uma investigação a fazer.Felizmente, como eu previra, minha timeline tinha muitas peças do quebra-cabeça. Pelas informações contidas ali, soube que vim morar em Nova York em 2016, e que estava cursando o terceiro ano de Medicina na New York University. Também descobri que comecei a namorar o Do Contra há quatro anos e que estávamos noivos há seis meses. Havia várias fotos de nós dois juntos, em viagens pela América do Sul, América do Norte e Ásia. Um álbum especial me chamou a atenção: fotos de nós dois, felizes, acompanhados de Magali e Nimbus, numa praia paradisíaca, cujo mar era de um azul hipnótico. O lugar estava marcado como Taiti, e a data era agosto de 2018.
Olhando tudo isso, percebi que éramos um casal que se amamuito. Parece que somos muito felizes juntos. Só tem um problema: eu não me lembro de nada disso. Ainda amo o Cebola.Não consigo entender por que meu futuro não é ao lado dele. O que aconteceu para que não estejamos juntos hoje? Tudo parecia estar indo tão bem...
O Do Contra sempre foi um amigo especial. Mas nunca passou disso. Quem diria que um dia eu me casaria com ele!...Não, isso está errado.Vou voltar para o presente e arrumar isso. Não que eu tenha algo contra o DC, mas... ele não é o Cebola.
Procurei pelo Cebola na minha lista de amigos. Ele não estava lá.Ele não tem mais conta no Facebook? Que estranho... Será que perdemos o contato completamente? Vou ter que descobrir isso mais tarde.Agora eu tinha uma prova de vestido para enfrentar.
Enquanto Magali se ocupava em parar um táxi, eu observava um senhor sentado num banco logo ali, lendo o New York Times. Pude ver no cabeçalho da primeira página a data de hoje: sábado, 9 de fevereiro de 2019. Então eu estava com 21 anos. Seis anos se passaram desde minha última memória.
– Magá... O que será que foi feito do Cebola?
Magali, que estava distraída olhando pela janela do táxi, olhou-me horrorizada, como se eu tivesse dito algum palavrão impronunciável.
– E por que essa curiosidade agora, depois de tanto tempo? Achei que você nunca mais quisesse ouvir falar dele.
– Ah, essa proximidade do casamento me fez lembrar dos velhos amigos, sabe... E eu nem me lembro qual foi a última vez que tive notícias dele.
– E acho melhor que continue assim.
– Mas...
– Mas nada, Mô. Amiga, vai por mim, não faça isso consigo mesma. Eu te entendo, o casamento está próximo, você está nervosa, com saudades de casa, do Limoeiro, mas o Cebola é página virada, arrancada e rasgada.Não quero falar sobre isso e ponto final.
Fiquei em silêncio, ponderando. Algo muito grave aconteceu entre nós, para que a Magali fosse tão categórica. Mas agora eu tinha que ir a fundo nessa história. Tinha que descobrir onde está o Cebola.
Chegamos a um ateliê, cuja vitrine mostrava vestidos de noiva lindíssimos. Entramos, e eu olhava distraidamente as roupas penduradas numa arara enquanto aguardava que trouxessem meu vestido.
– Aqui está seu vestido, Senhorita Sousa. Siga-me até os provadores, por favor – instruiu-me a atendente, num inglês perfeito.
Olhei-me no espelho já enfiada no vestido. Era um vestido curto, um pouco acima dos joelhos, de saia rodada e corpo justo, feito num tecido fino e esvoaçante, bordado de pérolasna lateral abaixo do busto. Eu não podia negar que era lindo, mas não era nada parecido com os vestidos de noiva que eu idealizei durante a vida toda. Mas é claro que a noiva do Do Contra não se casaria com um vestido convencional.Pelo menos ele era branco.
– Que foi, flor? Não gostou do vestido? Na última prova você tinha gostado tanto – disse Magali adentrando o provador sem bater à porta antes.
– Claro que gostei, amiga – menti. – É só que eu ainda me sinto um pouco cansada, não estou com humor para escolher roupas hoje.
– Você é a noiva mais linda do mundo, Mô. O DC vai se apaixonar de novo quando te olhar neste vestido.
A Magali sempre sabia como melhorar meu humor. Com a realidade completamente virada do avesso, ela ainda era minha melhor amiga. A única coisa normal na minha vida.Senti uma súbita vontade de abraçá-la, e o fiz.Não me contive e explodi em lágrimas no seu ombro. Assustada, ela afagou meus cabelos.
– Amiga, é super normal ficar nervosa, falta tão pouco pro grande dia. Fica calma, pois vai dar tudo certo, viu?
– Magá, você não entende... é que aconteceu tanta coisa... nem sei como explicar... – disse entre soluços.
– O que quer que seja, flor, vai se resolver. Vai dar tudo certo.Sshh, já passou, já passou – ela falou enquanto dava tapinhas de leve nas minhas costas.
Ficamos abraçadas até que eu me acalmasse. Tirei o vestido e saímos do ateliê. Um Porsche azul aguardava estacionado.
– Bom dia, princesas. E aí, como está ficando o vestido? – perguntou Nimbus enquanto entrávamos no carro.
– Ah, amor, você precisava ver, a Mônica vai ser a noiva mais linda que já pisou as praias da Polinésia Francesa.
Então era um casamento na praia. Seria naquela mesma praia em que tiramos as fotos seis meses atrás?
As placas de sinalização indicavam que já estávamos próximos do Aeroporto de LaGuardia. Comecei a me sentir tonta, meu coração martelava no peito e meu estômago estava revirado. Eu não estava pronta para ficar cara a cara com o Do Contra. Como eu iria agir? Como eu iria disfarçar a minha falta de memória total e completa dos anos em que estivemos juntos? Será que devo contar a verdade a ele?
Acho que não. Certamente me mandariam para o hospital, achando que eu estou com alguma doença, ou que sofri algum traumatismo. E ele ficaria arruinado quando eu dissesse que amo o Cebola e não ele. Vou pensar depois numa forma de resolver isso.Por enquanto era melhor fingir que está tudo normal.
Procuramos nos telões o voo da Delta Airlines que estava chegando de Las Vegas, e fomos até o portão de embarque indicado. Não demorou muito e uma torrente de passageiros começou a sair pela porta. Senti que iria desmaiar a qualquer momento.
Três minutos depois que todos saíram, um vulto, sozinho, vinha caminhando devagar pelo corredor, embaçado pela porta de vidro fosco.Era uma figura alta, esbelta, de cabelos arrepiados, usando uma camiseta preta e uma mochila nas costas. Era ele. Minha visão começou a ficar turva e então eu apaguei.
Notas finais
No próximo também posto uma foto do vestido de noiva da Mô *_* (do iPad não dá pra postar :/ )
Continuem mandando reviews, eles são altamente inspiradores!
Bjos pra todos e até breve! Muito breve!
*atualização em 18.2.2013 às 19h31: arrumei a formatação do capítulo conforme prometido. E aqui o link com uma foto de como imaginei o vestido de noiva da Mô: http://media.bodaclick.com/img/img_reportajes/5mil/43dec/5438_1284995507_4c9779b377c7f.
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