Enfrentando o Destino

2 1. Viagem no tempo


Capítulo 1

Viagem no tempo

A distinção entre passado, presente e futuro

é apenas uma ilusão teimosamente persistente.

Albert Einstein

A aula de História se arrastava. Não fosse o tique-taque do relógio de parede, acharia que o tempo estava paralisado. Se os ponteiro andarem mais devagar do que isso, voltarão para trás.

– Página 137! Todo mundo já abriu? Posso prosseguir com a explicação? – a voz aguda do professor Licurgo me dava nos nervos.

Ainda faltava muito para o toque do sinal. Não conseguia me concentrar na aula de jeito nenhum. Estava sonhando acordada com o encontro de hoje à noite. Cebola havia me convidado para um jantar no Saveur, um restaurante francês luxuoso. Temos saído bastante ultimamente, mas sempre para encontros casuais. A escolha por um lugar tão formal só me faz pensar que ele finalmente vai dar o grande passo. Vai me pedir em namoro, depois de tanto relutar. Eu não poderia estar mais feliz.

Uma bolinha de papel atirada na minha mesa me arranca dos meus pensamentos. Um bilhete. A caligrafia é sofrível, mas a mensagem me faz suspirar.

Tô curioso pra saber em q vc tanto pensa,

q tá sorrindo tanto desse jeito.

Espero q em mim =D

Então ele reparou na minha cara de boba, enquanto sonhava com ele. Abro um sorriso maior ainda, olho para ele e assinto com a cabeça. Ele sorri de volta.

– Senhorita Sousa, pare de ficar encarando o Cenourinha e preste atenção aqui, sim? – a turma toda cai na risada com a gracinha do professor, e sinto meu rosto queimando.

– Imagine, professor, o senhor deve estar louco, vendo coisas, eu só tenho olhos pra sua aula – não deixei barato seu comentário jocoso.

– EU NÃO SOU LOUCO!!! Agora vamos fazer os exercícios na página 148 e…

Perco-me novamente nos meus devaneios, mas dessa vez procuro olhar para frente pelo menos. Arrumar encrenca com o professor Licurgo nunca é uma boa ideia. Finjo que estou anotando as explicações, mas encho a página do caderno com os dizeres “Mô&Cê”. O sino toca finalmente. Cebola se levanta e, parado à porta, me olha impaciente enquanto recolho meu material.

– Mal posso esperar por hoje à noite – digo quando o alcanço.

– Pois você não perde por esperar. Esta noite será inesquecível, gata.

Sinto-me ficar vermelha pelo elogio, mas não consigo esconder o sorriso. Já no portão de saída, despeço-me dele com um beijo demorado. Ele sussura no meu ouvido:

– Te pego às sete. Pode ser, gata?

– Pra mim tá ótimo – respondo. Daqui a seis horas eu serei a namorada oficial de Cebolácio Júnior Menezes da Silva.

O telefone chama sem que ninguém atenda. A Magali sempre some quando preciso dela. Depois do décimo toque, enfim a voz dela responde:

– Oi, Mô!

– Oi, criatura!! Justo hoje você resolve sumir? Onde você tá que não atende esse telefone?

– Calma, miga! Tava na cozinha fazendo um lanchinho! Já tô aqui, pronto.

– Lanchinho? Mas ainda nem acabou a hora do almoço!

– Ah, miga, é que eu tou super ansiosa com seu encontro hoje! Por isso tou beliscando toda a comida da casa!

– Se você está ansiosa, imagine eu! Vem pra minha casa pra me ajudar a me arrumar! A-G-O-R-A!!

– Ai, flor, agora agorinha eu não posso! Fiquei de ir com o Quim ao petshop pra comprar um afiador de garras pros gatinhos! Os filhotes já desfiaram todas as cortinas e agora descobriram o sofa. E minha mãe tá brava, vou ter que resolver isso!

– Mas Magá, o meu caso é de vida ou morte!

– Eu sei, Mô, mas não vou demorar muito. Chego na sua casa às 15h30, pode ser? Dá tempo de sobra pra você ficar lindona pro Cê.

– Tudo bem então! Mas não vai se atrasar, hein!

– Não vou, pode deixar! Beijo!

– Beijo, tchau!

Ainda eram 14h. Resolvi aproveitar para tentar ler a lição de história da aula de hoje, visto que não prestei atenção nenhuma. Abro no capítulo sobre a Revolução Francesa.

História é a matéria de que menos gosto. Não vai me servir de nada na minha futura profissão, a Medicina. Quero dizer, a profissão com que eu sonho, pelo menos. Além disso, não acho produtivo se preocupar tanto com algo que está num passado tão distante. Seria muito mais interessante se pudéssemos estudar o futuro! É claro que isso não é possível, mas que seria bem mais legal, seria. Pensando nisso, entrego-me ao sono, que me atinge de forma irresistível depois de um lauto almoço e um texto tão entediante. Um cochilo antes da Magali chegar vai até me fazer bem para a grande noite de hoje.

Acordo num carro em movimento. Olho pela janela, tentando reconhecer o lugar. Vejo prédios altos, ruas largas e táxis amarelos parados no sinal vermelho. Com certeza não estou no Limoeiro. Vejo uma placa de sinalização escrita em inglês, quando uma voz familiar vem do banco da frente:

– Amanhã cedo não, amor. Tenho que ir com a Mô pra prova do vestido. Vamos depois de pegar seu irmão no aeroporto – a voz da Magali era inconfundível para mim, mas soava um pouco diferente, mais madura talvez.

– Magá? Onde a gente tá?! – pergunto, espreguiçando-me. Meu corpo está mole como se eu tivesse dormido por dias seguidos.

– A gente tá te levando em casa, flor – ela responde, virando-se para o banco de trás. – Já estamos chegando.

– Mas que cidade é essa?!

– Ela tá bêbada, amor – interrompe uma voz masculina, vinda do banco do motorista. Inclino-me para a frente, tentando identificar o sujeito. Ele está olhando para frente, portanto não vejo seu rosto completamente. Mas sei que também é um conhecido.

– Gente, que lugar é esse, pelamor?! – indago novamente, já tomada pelo pânico. Tinha algo de muito errado acontecendo.

– Ela tá muito bêbada, amor – o rapaz fala novamente, mas agora olhando para mim. Finalmente o reconheço. É o Nimbus. Está com um corte de cabelo diferente, e também seu rosto parece mais... velho.

Magali se vira para trás de novo, e desta vez noto que ela está muito mudada. Seu cabelo está quase loiro e com um corte mais curto. E seu rosto está mais maduro também. Se isso não fosse impossível, eu diria que ela está com vinte e poucos anos de idade.

– Mônica, não brinca assim. Você exagerou na bebida hoje, eu não falei nada porque sei que são seus últimos dias de solteira, te deixei aproveitar, mas não quero te ver passando da conta assim de novo.

– Eu não estou bêbada e estou falando sério! Não faço ideia de onde estou, por favor me ajudem! E você não tem idade pra dirigir, Nimbus! O que pensa que tá fazendo?!

Os dois se entreolham. Magali me olha, balança a cabeça em negativa e solta um longo suspiro.

– Nós estamos em Nova York, querida. Estamos voltando de uma vernissage de uma exposição no Metropolitan. Agora me conta, você se lembra de alguém ter colocado algo na sua bebida? Você tá muito esquisita. Vou dormir na sua casa hoje, você não tá nada bem.

– Amor, ela nem lembra da cidade em que mora há três anos, vai se lembrar se alguém colocou algo na bebida dela? Afe! – Nimbus argumentou enquanto estacionava o carro. É impressão minha ou ele e Magali estão se chamando de "amor"?

– Vem, Mô, vou te ajudar a descer. Segura minha mão aqui. Cuidado pra não tropeçar no vestido – disse Magali enquanto me arrastava até a porta de um prédio muito parecido com os edifícios velhos de Manhattan que a gente vê nos filmes. Sentei nos degraus da escada enquanto ela destrancava a porta. Ela passou por mim e foi se despedir de Nimbus com um longo beijo. Então eles estão mesmo namorando.

– Tchau, Mô. Se cuida – disse Nimbus bagunçando meu cabelo. Ele entrou no carro e deu partida. Fiquei olhando até que o Porsche azul desaparecesse na esquina. Magali me ajudou a levantar de novo, e segurou minha mão o tempo todo enquanto subíamos quatro andares de escada.

– Magali... você tá namorando o Nimbus desde quando?

– Ai, Mô, chega de perguntas estranhas! Tem dois anos que estamos namorando, por quê?

– Mas... – hesitei. – E o Quim?

Ela me fuzilou com o olhar.

– Olha, Mônica, eu não sei que droga colocaram na sua bebida, mas se você continuar tendo essas alucinações eu vou te levar pro hospital!

– Não, não precisa, já estou me sentindo melhor – menti.

– Certo. Agora você vai tomar um bom banho, comer alguma coisa, tomar bastante água e dormir! Amanhã cedo tem a prova do seu vestido, e você tem que estar descansada.

– Vestido?

– Ai minha Nossa Senhora da Bicicletinha!!! Sim, seu vestido de noiva! Agora já pro banho.

Foi então que me lembrei da observação da Magali no carro, quando comentou sobre meus últimos dias de solteira. A situação era realmente periclitante. Eu estava agora convicta de uma coisa: eu definitivamente estava no futuro, em uma realidade alternativa, onde eu morava em Nova York, a Magali namorava o Nimbus e eu me casaria em breve. Mas com quem?

Durante o banho, notei enfim o anel no meu dedo anular direito, uma linda aliança de ouro branco com uma pérola negra. Bastante sofisticado, mas pouco usual, eu diria. Anéis de noivado geralmente são feitos com pedras, normalmente diamantes. Tirei o anel, na esperança de que houvesse o nome do noivo gravado do lado de dentro. Seria bom se eu pudesse descobrir essa informação sozinha. A Magali já estava brava com tantas perguntas. Havia somente uma inscrição em ideogramas, provavelmente em japonês. Nenhuma pista. Resolvi arriscar a sorte interrogando minha amiga de uma forma mais sutil.

– Magá... O que será que meu noivo está fazendo uma hora dessas? – perguntei enquanto despejava leite na tigela com cereal.

– Ah, ele ligou agora há pouco, enquanto você cochilava no carro, e ele falou com o Nimbus. Está confirmado o voo dele, ele volta amanhã cedo. Vamos buscá-lo no aeroporto logo depois da prova do vestido. A negociação deu certo.

– Humm... então deu certo o negócio? Me conte mais – vi que a tática de "jogar verde" estava funcionando.

– Ele já fechou os detalhes do local da gravação do DVD do show do Nimbus, e agora ficou faltando só definir o diretor de filmagem.

– Que bom que deu tudo certo, né!

– Pois é! Ainda bem que dessa vez ele ouviu o Nimbus e vai fechar numa casa de show em Las Vegas. Porque se a escolha fosse só dele, sabe-se lá que lugar maluco ele ia escolher! Provavelmente um safári na África! – ela riu da própria piada, que eu não entendi.

Agora eu tinha mais algumas informações: meu noivo trabalhava com o Nimbus, que pelo visto era alguma celebridade. E, a julgar pelo comentário da Magali, e pela aliança incomum no meu dedo, tratava-se de alguém com gosto por coisas diferentes. Será que...? Não, não pode ser.

Levantei-me da mesa de jantar e fui em direção à lareira, onde havia vários porta-retratos. Eu estava em todas as fotos. Em uma, eu abraçava meus pais; em outra, a Magali; numa outra, eu estava de jaleco branco e com um estetoscópio nos ombros. E na maior delas, eu ostentava um sorriso enorme, e me abraçava por trás um rapaz bem bonito, de cabelo preto e olhos puxados, usando sua indefectível camiseta preta. Seu rosto também era familiar, mas, assim como os outros, estava amadurecido.

Eu estava prestes a me casar com o Do Contra.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim. Deixem reviews, please!
Bjooooo =*