Siar largou o livro. Não conseguia ler mais, as letras se embaralhavam à sua frente e se misturavam sem nexo algum. Olhou pra fora, para o jardim encharcado pela chuva e acendeu um cigarro. Tinha certeza que, aos 64 anos, um cigarro a mais não o mataria. Talvez o câncer que o afligia, mas não o cigarro.

A xícara de café esfriava lentamente em cima da mesa, perto do casaco que usara pela manhã. A saída não havia sido proveitosa, como nunca era desde muitos anos atrás. E a chuva ainda deixava o dia pior. Do lado do casaco úmido, o café esfriava. Lentamente.

Siar não queria pensar muito. Não queria lembrar. Mas as paredes o faziam relembrar de tudo. E tudo era o que Siar não queria ver. Mostravam um tempo em que Siar era jovem. Mostravam tempos de felicidade, compartilhada com amigos e com amores. Amores que o cativavam. Amores que o magoaram. Amores que um dia o tinham feito se tornar o homem que é hoje.

Olhou com atenção para uma foto presa no canto da esquerda da parede. Era ele, mais jovem, quase irreconhecível, ao lado de uma mulher linda. Sorria. Mas não era feliz. Ele sabia que não era feliz.

A mesma jovem da foto tinha sido seu primeiro amor. Uma mulher esbelta, inteligente e dona de um sorriso que encantaria a mais dura pedra. Mas era cruel. Sabia jogar com quem queria, e havia jogado com ele de forma que assustaria o mais profano vilão de um romance qualquer.

Siar olhou mais para cima, para uma foto um pouco mais nova. Encontrou outra mulher, um tanto menor que ele, porém linda e delicada. Mas, novamente, não viu felicidade nele mesmo. Era vazio, como o espaço-sideral, seu sorriso. E ela sorria um sorriso sádico, como se ela fosse dona de quem lhe fazia companhia na foto.

Siar tirou o olhar e foi até a mesa. Pegou a xícara e xingou: havia deixado o café esfriar. Tomou, a contragosto, o resto do café e pegou o casaco. Tentou estende-lo perto da porta, para ver se secava um pouco, mas não conseguiu. Dirigiu-se até a janela e usou o varão da cortina como secador provisório. Dirigiu-se de novo até a parede, pôs a mão no bolso e puxou o maço de cigarros. Olhou com atenção ao rótulo e amassou. Atirou o maço dentro da lixeira e virou sua atenção para uma foto em especial. Vira nela uma garota linda, diferente das outras duas com quem estivera. Alguns anos mais novos que ele, a menina não via problemas em se relacionar com ele. E não tiveram problemas por algum tempo.

E a diferença de idade nunca seria um problema, se fosse apenas a idade. A mentalidade acabou por se tornar a vilã. Ele, adulto, com uma mentalidade forte e firme. Ela, recém saindo da adolescência, inocente por natureza. E isso se mostrou uma diferença que os impediu de permanecerem juntos.

Siar então foi a um grupo de fotos mais perto do centro, onde repousavam as fotos da filha biológica, nascida de um caso solitário de amor de uma noite só. Siar, ao saber da gravidez da mulher, havia a procurado e sustentado toda a gravidez. E quando Sarah nasceu, ele cuidou de tudo que pode para que ela tivesse uma vida boa. Fora presente, até a mãe morrer de um ataque fulminante quando Sarah tinha 08 anos de idade. Sarah então fora morar com o pai, que a auxiliou em tudo. Eram tão unidos que funcionavam em completa harmonia, sem nunca terem sequer um problema.

Sarah havia se formado 20 anos atrás, em Bioengenharia, e fora levar a sua vida fora do país. Mandava postais às vezes, algumas cartas por ano, e sempre que podia ligava, tão firmada aos seus sentimentos pelo pai que às vezes não deixava o pai só. Hoje, mãe de gêmeos, morava na Áustria com seu marido.

No centro, exatamente no centro, havia uma foto única. Era Siar, abraçado na última mulher que amara. Eles ainda estavam juntos quando ele tirara a foto, pois o amor que ele sentia por ela era verdadeiro. Mas a vida não deixara completar seus dias felizes.

Siar limpou as lágrimas dos olhos. Não tinha percebido que chorava. Movimentou-se até a cozinha, serviu-se de mais um café e olhou para a janela. Não chovia mais. Tomou o café rapidamente, e pegou o casaco. Ao sair pela porta, olhou para dentro antes de fechar a casa e viu seu reflexo dentro dos vidros da casa. Trancou a porta e se pôs a caminhar, com seu rumo traçado até o lugar do término de tudo. Caminhou por ruas asfaltadas, com pedras e de chão. Caminhou por ruas conhecidas muitos anos antes.

Finalmente chegou ao lugar que um dia jurara não pisar mais. Fazia frio de novo, e começava a garoar. Atravessou o portão e passou por bancos, árvores e alamedas tranquilas, silenciosas. Subiu um pequeno lance de escada, e subiu um pequeno morro, até chegar perto da antiga macieira que se criara ao longo dos anos. Chorava de novo, e de novo não percebera antes das lágrimas caírem do rosto. Se ajoelhou, deixando cair todas as lágrimas que havia prendido ao longo dos anos. Estava diante do túmulo dela.

- Meu amor, eu... eu estou aqui.

Ele a via, sentada em cima da lápide. Ela sorria. Seus olhos mostravam o carinho que ela tinha por ele.

- Eu demorei... mas completei o que precisava fazer. Me desculpe pela demora.

Ela sorriu, e jogou a cabeça para trás. Parecia rir, mas ele não escutava. Ela olhou para ele, com calma e sorrindo. Se empurrou da lápide a frente e parou na frente de Siar. O olhou profundamente esperando.

Ele piscou. Estava pronto. No segundo seguinte, estava do lado dela, com aparência de quando era apaixonado por ela. Seu corpo estava parado a sua frente, ajoelhado. Descansava.

- Você demorou – ela disse discretamente.

— Precisava fechar a última porta – Siar franziu a testa.

- Eu sei. Eu te esperei todos esses anos. Te esperaria pelo resto da eternidade, Siar.

- Eu sei, meu amor. Enfim, o descanso?

— Enfim, o descanso – Ela concordou. E ambos, aos poucos, se desfizeram ao ar.