Enfim, a vida
2 Ramsés
O dia estava calmo. As nuvens caminhavam preguiçosamente pelo céu, e o sol deixava o dia mais lindo o possível. Ramsés estava sentado no degrau de madeira da casa, olhando fixamente para os coqueiros a sua frente e imaginando se os cocos já estariam maduros.
Ram se esticou para trás e alcançou o prato com melancia que estava servido. Conforme comia, ia pensando se aquele coco bem no alto estava bom para tomar o suco. Piscou lentamente e bocejou, enfiou um pedaço de melancia na boca e mastigou sem pressa. Estava sem gosto, como todas que tinha comido daquela safra.
Voltou a olhar pra aquele coco. Tinha algo nele. Alguma coisa o fazia voltar a olhar pra ele, o prendia naquela direção. Aquele coco chamava por ele. Ele precisava fazer algo. Ramsés se levantou com raiva. “Como um coco, um simples coco, podia deixar ele tão irritado?”. Entrou na casa, pôs o velho gramofone a tocar e pegou uma corda pra tentar resolver a história com o coco.
Foi até o coqueiro e encarou aquele coco. Começou a chutar a árvore esperando que o coco caísse por si só. O que não acontecia independente da força que ele batesse no coqueiro. Ram ficou mais irritado ainda. Parecia que o coco dizia: “Você pode tentar, mas eu não saio daqui!”.
Ram pegou um pau e começou a cutucar o coco, tentando derrubá-lo, mas o coco balançava e não caia. Atirou pedras, e mais errava do que acertava o coco. E mesmo as que ele acertava apenas machucava o coco, não o fazia cair.
Voltou para dentro de casa quando começou a escurecer, e o vento da praia começava a ficar forte. Acendeu as luzes e ligou a televisão, pensativo ainda no coco. Se dirigiu até a cozinha, abriu a geladeira e fez um sanduiche. A televisão falava de alguma coisa que tinha acontecido em um dos portos vizinhos, e que a população reclamava da falta de segurança. Ram comia o sanduiche com pouco entusiasmo, e a TV ainda não o ajudava. O gramofone começou a arranhar, e Ram foi tirar a agulha do LP que tocava.
Um presente do pai de Ram, Amon, o LP da Earth, Wind e Fire era o disco preferido e vivia em cima do gramofone. Após tirar a agulha de cima do LP, Ram foi até a sala e desligou a luz. A TV iluminava um pedaço da sala. Ram subiu as escadas e fechou as janelas, e ligou o ventilador de teto no mais lento possível, voltou à sala e desligou a televisão.
Quando se deitou, ele não conseguia parar de pensar em como tirar aquele coco. Enquanto devaneava, o telefone tocou. Ram o atendeu sem nem ao menos ver quem era.
– Oi amor. Imagino que tu esteja deitado já – Disse a voz do outro lado da linha.
– Lia! Bom dia meu amor.
Liara vivia em um país com 10 horas de fuso horário diferentes por causa de um intercambio que fazia. Quando pequena, se mudara para a casa ao lado de Amon, e constituíra uma amizade com Ram que se tornara amor na adolescência. Ambos tinham se casado no último inverno, antes de Lia ir para o exterior fazer o intercambio sobre antropologia, que ela tanto queria fazer.
– Você parece cansado. Não tem se incomodado muito aí na casa da praia, não é?
“Sempre na mira” pensou Ram. Ela o conhecia bem, e não havia como ele negar.
– Tem um coco me incomodando. Eu vou colocar aquele coqueiro abaixo se eu não conseguir pegar esse coco.
Fez-se silêncio no outro lado da linha.
– Lia?
– Você tá se incomodando com um coco? É isso mesmo?
Era aquele tom de voz. Se tinha começado a mudar o tempo pra vir a chuva, no telefone ia vir a tempestade.
– Amor...
– Não vem com amor! Tu não vai colocar aquele coqueiro abaixo por causa de um coco, tá me ouvindo! Tu sabe que eu demorei pra fazer ele crescer!
– M-mas eu não ia colocar ele abaixo, eu só quero pegar esse coco maldito que tá me tirando o sono!
– Não me interessa!
– Liara!
– Escuta aqui... Se eu voltar pra aí e encontrar o MEU coqueiro no chão, ou fora do lugar, eu juro que arranco o teu pescoço e coloco tua bunda no lugar! – Ela gritou “MEU” com tanta força que Ram tirou o telefone de perto do ouvido. Ela era assim, explosiva e gritona. E amava Ramsés com tanta força que chegava a transformar uma tempestade em uma pequena garoa.
Fez-se silêncio na ligação. Por uns segundos, não houve som nenhum de ambos os lados, até Lia soltar um suspiro.
– Ram?
– To aqui.
– Eu te amo. To com saudades.
– Eu também. To com mais saudades ainda. Demora muito pra você voltar?
– Mais um mês. Aí eu termino o intercâmbio. Eu te amo, preciso voltar pra aula.
Ela desligou o telefone antes de ouvir a resposta. E Ram apenas suspirou. E virou-se para o lado. E adormeceu.
Quando o sol raiou e invadiu a casa pela janela aberta que Ram esqueceu de fechar, e o som do mar ao longe ecoava pelas paredes da casa, Ramsés acordou. Levantou-se meio indisposto, mas lavou o rosto e se serviu de café e pão caseiro. Quando terminou o café, pôs a roupa suja para lavar e limpou a cozinha. Quando conseguiu terminar, viu que estava com fome e se pôs a fazer o almoço.
Enquanto almoçava, olhou para o coqueiro e enxergou o “maldito” coco novamente. Ele engoliu o que restava da comida e ficou pensando em como alcançar aquele coco. Se dirigiu até a varanda e desceu o degrau de madeira.
Ramsés encarou aquele coco, obstinado. E, por um segundo, ele sentiu que o coqueiro olhava para ele.
No momento seguinte, o coco caiu. Se soltou do topo com o vento, como a chuva cai: calma, elegante e simples. Ramsés viu o coco cair e nada fez. Esperou ele tocar o chão e causar o barulho. Então, foi até lá, enlaçou o coco e o levou para dentro.
Depois de comer o coco e tomar sua água, Ramsés não sabia mais o que fazer. Olhou, em direção ao sol e fechou os olhos quando os raios de sol tocaram seus olhos. Abriu a geladeira, pegou um pedaço de melancia e se sentou novamente no degrau de madeira. Enquanto o sol sorria para ele, ele sorria para o mundo. E nada tiraria aquele sorriso do rosto.
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