Jacob estava sentado na frente da casinha do cachorro, na varanda. Tinha um copo de uísque na mão e um cigarro na outra. Respirou fundo, tomou um gole do uísque quase quente, puxou um pouco da fumaça pro corpo e soltou lentamente. Se esticou na cadeira, colocou o chapéu que repousava no braço da cadeira e levantou-se preguiçosamente. Atirou o cigarro para o lado, virou o resto do copo no chão e colocou o copo para repousar em cima da cadeira. Pôs dois dedos na boca e assobiou alto, chamando o cachorro. Marfim não demorou para vir correndo de encontro ao dono. Jacob olhou com calma para o cachorro, que sempre o acompanhou desde o início de sua vida, sorriu e começou a caminhar. Marfim começou a trotar ao seu lado, em meio ao campo, deixando para trás a velha casinha em cima do morro.

Conforme Jacob ia caminhando, ele começou a pensar nos tempos de adolescente anarquista que fora. O “velho tempo”, como ele gostava de pensar. Um tempo que apenas se divertia, fazia farra e ninguém mandava nele. Festas, shows, brigas e muito álcool envolvido. Sem contar as mulheres. Inúmeras mulheres. De todos os tipos, todas as cores e todos os amores. E as amizades, que ele manteve por longos e longos anos, mesmo com distância e diferenças.

Marfim ia caminhando lentamente ao lado do dono, sem pressa. Não pensava aonde ia, nem se precisava chegar. Apenas trotava, cuidando a frente. Seus olhos grandes e marrons cansados iam ao longo da estrada, cuidadosos.

Jacob olhou o cachorro. Ele sempre fora estranho, desde pequeno. O menor das crias, o menos barulhento e o mais calmo, sendo esse o motivo de Jake tê-lo escolhido. Eram parecidos. Jacob era sempre o menor, o menor dos amigos, o menor dos primos, o menor da família. Não gostava de fazer barulho quando criança, e sempre fora calmo e cuidadoso, até a puberdade atacar, e com eles as más companhias. Conforme cresceu, foi se acalmando novamente, mas manteve um pouco do rebelde que fora dentro de si.

Quando Jake terminou o ensino médio e se inscreveu para a faculdade, sem nem ao menos saber o que cursaria, foi quando houve o fatídico acidente de carro. Era noite e o pai de Jacob dirigia a camionete. Não chovia mais, mas havia chovido nos três dias anteriores. O pai de Jake ia a 90 quilômetros por hora, e não havia luz na rodovia a não serem as dos faróis do carro. Jacob ia escutando a música do carro e não prestava atenção na rodovia, e o pai de Jacob não viu a tempo o animal que cruzava a pista. Acertou o animal na traseira, perdeu o controle e capotou várias vezes. Jacob saiu muito ferido do acidente, com órgãos internos machucados e alguns ossos quebrados. Seu pai não sobreviveu ao primeiro impacto, e não houve o que fazer pra tirar Jacob da depressão que seguiu.

Jacob olhou pra cima, saindo das velhas lembranças e retornando ao presente. Enxergava a velha figueira no topo do morro, e acelerou o passo. Marfim começou a andar mais rápido quando se deu conta que seu dono já estava alguns metros à frente. Jake pulou a velha cerca do cemitério da figueira, correu até as escadas e começou a subir com pressa os degraus. Ao chegar ao fim da escada, Jacob estava sem fôlego. Olhou em direção a arvore, e enxergou dois vultos. Surgiam devagar, como se o vento estivesse moldando-os. Assim que apareceram por completo, olharam em direção a Jacob, sorriram e seguiram em direção a ele. Assim que chegaram perto, Jacob notou que era um casal. Mas não um casal comum. Eram velhos amigos.

– Acho que você acabou vindo primeiro, Jake. – A mulher falou com um tom casual, discreta.

– Ei, Jake, tem café? – O rapaz olhou-o profundamente. Tinha aparência de uns 25 anos, mas era mais velho. Pelo menos Jake se lembrava dele sendo mais velho.

– M-mas... vocês... Nessie, você não tinha vindo pra cá alguns anos atrás? Não fui o primeiro não. E outra: você foi buscar o bostinha do Siar pra cá? Agora ele vai ficar chorando aqui, me enchendo o saco.

Nessana riu, atirando a cabeça para trás, como ela sempre fez. Siar encarou Jake, e falou:

– Ah sim, agora eu vou te encher o saco... Marfim?

Quando Siar olhou para o cachorro, seus olhos se encheram de lágrimas. Amava aquele cachorro, que fora dado para Jacob quando a cadela de Siar deu cria. Ele havia dado o cachorro porque Jake havia se apegado ao bichinho, e ele não poderia criar. Mas sempre que podia, ia até a casa de Jake para vê-lo. O que resultou no cachorro crescendo acostumado com Siar.

Marfim olhou longamente para Siar, correu até ele, cheirou sua perna e mijou nos sapatos de Siar, para o espanto de todos. Latiu, e começou a correr em volta de Siar, o reconhecendo.

– Pelo menos ele marcou território, né — Nessana tremia de tanto rir.

Siar olhou com carinho para Marfim, afagou sua cabeça e se juntou aos risos.

Algumas horas depois, sentados na frente da casinha do cachorro, na varanda da casa em cima do morro, Siar e Nessana apreciavam um copo de uísque enquanto Jake fumava mais um cigarro. Nessie respirou fundo e se abraçou em Siar.

– Jake, onde estamos? – Siar perguntou, cortando o silêncio.

– Importa? Limbo, paraíso, inferno... estamos em qualquer lugar de qualquer um desses três. Eu não me importo.

Nessie suspirou.

– Não importa. Pelo menos não para mim.

– Nem pra mim – disse Jake.

Eles olharam para Siar, com uma expressão curiosa.

– Não me importa. Estou com vocês. Estou em casa.

E “em casa” nunca pareceu a palavra tão certa a ser usada.