Enfim, a vida
4 Irene
Irene caminhava tranquilamente, em mais um dia nublado, naquela rua suja e cheia. O fedor da poluição dos carros e de mendigos naquela parte da cidade era ridículo, e a prefeitura nunca tentaria limpar essa área. “Problemas demais, sujeira demais, gente demais”.
Precisava cruzar mais uma rua naquela avenida, pra poder chegar até a parada de ônibus que a levaria até o centro, para longe daquela sujeira toda. Respirou fundo e apressou o passo. Ouvia algumas pessoas conversando seus assuntos banais, sobre novela ou sobre algum protesto em algum lugar. Não importava a ela, apenas queria ir para casa.
Antes de chegar à esquina, entrou em um botequinho de esquina, apenas para comprar chicletes. Como sempre, chicletes de tutti-frutti, já que ela odiava menta. Aliás, menta e framboesa. Comprou os chicletes e saiu andando rapidamente até a parada.
Como sempre, o ônibus atrasou. E ela, na espera, colocou um dos chicletes na boca. Enquanto mastigava, pensava no que caracterizava o sabor de tutti-frutti, que ela tanto gostava. Finalmente o ônibus chegou, ela embarcou e sentou em um dos assentos da janela.
O ônibus fez o mesmo trajeto de sempre, andando entre ruas velhas e depredadas, alvo de vândalos desde o tempo que houve o inicio dos protestos. Ruas esburacadas, paredes pichadas, pessoas na rua. Lembranças na cabeça de Irene começaram a passar, do tempo que ela era pró-ativista, que participava dos protestos e ajudava nas pichações. Mesmo não gostando de fazer as pichações, Irene gostava de lembrar das amigas que tinha feito. Elisa e Elica, as gêmeas que pintavam os cabelos da mesma cor. Wendy, que nunca disse o seu nome de verdade, e que usava esse apelido pra esconder a vida pessoal dela. Marcos, que era rico e financiava algumas revendas de carro ilegais. Mas tudo isso no passado.
Quando o ônibus saiu da área pobre e entrou na área florestal, que circulava toda área residencial, Irene voltou a lembrar dos tempos de adolescente, que ia se divertir em festas e luaus e varava a noite fora de casa. Lembrou da primeira vez que fumou maconha e que ficou realmente chapada. Lembrou de um porre que resultou ela acordando pelada na cama de um vizinho. Lembrou da primeira vez que teve com um garoto bonito da mesma turma do ensino médio. Mas tudo isso não passava de lembranças.
O ônibus costeou o grande lago que mostrava a parte rica da cidade do outro lado, e ela lembrou do tempo de escola, em que aprendeu quase tudo o que usava hoje, desde matemática até os conteúdos básicos de geografia que odiava. Lembrou das discussões em sala de aula, e por consequente, lembrou das discussões com os pais. Lembrou da separação deles, e do tempo que passou em depressão por causa disso.
O chiclete já havia perdido o gosto, então Irene trocou-o por um novo e atirou o velho pela janela. O gosto do tutti-frutti invadiu sua boca.
Conforme ia pensando em suas lembranças, Irene notou que suas memórias ainda haviam algo a lhe ensinar, mas que ainda não se sentia pronta para aprender.
Irene decidiu parar de pensar e se concentrou em mastigar o chiclete. Se concentrou em mover o maxilar e forçá-lo para baixo. Afundar os dentes no látex, feito a partir de uma árvore. Árvore com o mesmo nome do doce. Doce que lembrava os bolos que a mãe dela fazia. A mãe que fazia tempo que não via. Os bolos que fazia tempo que não comia. Lembrar a mãe a faziam lembrar do pai. O pai, um ótimo cozinheiro, sabia fazer um tipo de macarrão que ela amava. As massas que a lembravam do tempo que ela havia engordado. A massa, que a fazia lembrar de física. Física, que a fazia lembrar que o sol era uma estrela, e que o Sol tinha 332 mil vezes a massa da Terra, e que a aceleração da gravidade era de aproximadamente 10m/s em queda livre, e que o corpo humano era feito basicamente por carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, que o carbono liberado pela respiração era usado pelas plantas para a fotossíntese e devolvido como oxigênio para o meio ambiente. Meio ambiente que está sofrendo com aquecimento global e a destruição do ser humano na natureza. Natureza essa que está se revoltando a cada ano e procurando voltar a ter o controle do planeta. Natureza que deu a árvore que produz o chicle, que é usado para a confecção dos chicletes de menta, framboesa e tutti-frutti. Tutti-frutti que era uma mistura básica de laranja, abacaxi, banana, baunilha e morango, e que aquele gosto era todo sintético.
O ônibus finalmente chegou em sua parada. Agradeceu o motorista e desceu para a rua, caminhou pela viela que se originava da parada até a estação central. Cuspiu o chiclete sem gosto e pegou a caixinha de chicletes do bolso. Olhou profundamente para eles e notou que realmente, nada importava, nem mesmo o gosto do chiclete. Era apenas um chiclete, e para sempre seria apenas um chiclete.
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