Enfim, a vida
5 Elias
Mackenzie estava sentado apoiado no balcão do bar. Sua postura lembrava vagamente uma imagem que vi outro dia na internet enquanto procurava sobre os livros de Bukowski, em que Matt Dillion era Henry Chinaski. Talvez Mackenzie seja Henry. Era um escritor bêbado. Só escrevia bem quando estava bêbado, e como estava bêbado toda noite, era normal ele escrever poemas ou histórias tão boas quanto seu primeiro e único livro. E além da bebida, fedia a fumaça. Fumante desde seus 14, 15 anos, Mack nunca deu muita importância pra saúde. Seu maço de Benson e Hedges estava perto do copo de uísque em cima do balcão, e havia um acendido entre seus dedos. Mack estava vestido de uma maneira estranha naquela noite, pois não fazia frio e ele, no entanto, estava com seu antigo sobretudo puído largado no banco ao lado. Seu colete marrom com a gravata da mesma cor estava limpo. Uma raridade, conhecendo o homem que o vestia. Sua calça caqui não era lá muita coisa, mas estava cuidada.
Havia tempo que não o via. Desde o funeral do velho Siar, não o tinha visto, e já faz quase seis anos desde que Siar passou dessa para uma melhor. Mas nunca fomos “melhores amigos”, então não há como sequer cobrar que não tenhamos nos vistos.
Aproximei-me de onde ele estava sentado, passei por ele e me sentei no outro banco, deixando o banco com o casaco intacto. Suspirei e pedi uma dose de uísque, relaxando o corpo assim que me sento. Não falo nada, e nem penso em puxar assunto. Vejo Mack suspirar e olhar para o lado, me reconhecendo. Mas também não vejo que ele faz questão de falar. Suspira e toma um gole da sua dose.
O silêncio é agradável. Como eu mesmo pensei, não há questão de se falar algo. Minha dose chega e eu saboreio-a. A sineta da porta toca e uma mulher entra, não tendo mais que 30 anos. Ela anda até uma mesa e sinaliza um oi para o barman, que responde alto e sorrindo. “Oi Irene”, é o que ele fala. Tomo mais um gole da minha dose e sinto um cutucão leva no antebraço. Mack está com o braço estendido segurando o maço de Benson e Hedges aberto na minha direção. Sorrio e aceito um, pegando o isqueiro dele logo em seguida. Acendo o Benson e deixo a fumaça descer pela minha garganta, chegar aos pulmões e subir junto com a expiração. Devolvo a ele o maço e termino a minha dose. Peço mais uma e vejo que ele termina a dele e me acompanha em mais um copo. Continuo fumando e vejo que ele já acendeu mais um e que está relaxado em cima do banco.
Quando minha dose chega, vejo que o barman vai até a moça e conversa com ela. Parecem serem velhos amigos, e pelo jeito que ele se movimenta para falar com ela, deve estar apaixonado pela moça. E pelo sorriso de Irene, vejo que ela nota esse sentimento. Provavelmente também não retribuí. Lamento pelo rapaz, mas não posso fazer nada. Termino o meu cigarro antes do barman voltar e vejo que Mack colocou outro cigarro perto do meu copo enquanto estava distraído. Sorrio e acendo novamente. Quando era jovem não fumava com frequência. Era narcisista demais, e levava demais as opiniões alheias. Mas depois que me tornei adulto e que morei sozinho, comecei a dar menos importância para as opiniões e cortei o que havia de narcisista em mim. Pude me dar ao luxo disso, ao menos. Suspiro e tomo um gole.
Mack se endireita no banco e estica as costas. O cigarro pende nos lábios enquanto ele estica os braços para se alongar. Suspira e, ao se levantar, me da um tapinha nas costas e diz, quase murmurando:
– Foi bom te ver de novo, El. Precisava ver um rosto amigo, pelo menos hoje.
Sorrio.
– Foi bom te ver também, Mack. Parece que às vezes precisamos de um pouco de paz e liberdade, até mesmo da vida.
Ele me olha afetuosamente nos olhos e responde.
– Eu que o diga, El. Eu que o diga.
Mack pega seu casaco, acena para o barman e acende mais um cigarro. O barman se aproxima e pergunta se Mack quer colocar na conta ou pagar. Mack sorri e paga o rapaz, se despede mais uma vez de mim com um aceno de cabeça e se vai. A sineta da porta toca duas vezes, e vejo que estou sozinho com a garota no bar. Não viro o meu rosto para ela, mas sei que ela me encara pelas costas. Tomo mais um gole da minha dose e suspiro. Quando tento me apoiar no balcão com meu cotovelo, esbarro em algo. Procuro, alarmado, e encontro apenas o maço de Benson e Hedges e um pequeno pedaço de papel escrito com uma caligrafia cursiva. “Faça bom proveito.”. Bem a cara do Mack. Puxo mais um cigarro e fico parado. Ele foi com o isqueiro e eu não trouxe o meu. Começo a girar o cigarro nos meus dedos quando escuto a voz dela.
– Vai acabar tirando o tabaco de dentro se continuar girando-o.
Me viro levemente e a encontro a uns dois metros de mim sorrindo charmosamente. Ela é bonita, com os cabelos castanhos até a altura dos ombros e algumas sardas no rosto. Seus olhos são da mesma cor do cabelo, mas são tão afiados que sinto que ela poderia cortar pela minha alma de um lado ao outro em um piscar de olhos. Sorrio de volta
– E você deveria largar.
Rio. Sacudo a cabeça levemente.
– Nolan, alcance um isqueiro pra ele, por favor?
O barman me alcança um isqueiro e eu acendo o cigarro. Peço mais uma dose. Ela me encara, suspira e se senta ao meu lado. Faz o mesmo pedido que eu.
– Posso?
Encaro-a e alcanço o maço para ela. Ela puxa um e acende.
– Não tinha me dito que era melhor largar? – pergunto, um tanto quanto sarcástico.
– Tinha dito que você deveria largar, não que era melhor.
Tomo um gole da minha terceira dose e arqueio as costas. Puxo a fumaça tranquilamente e solto a fumaça para cima. Um som baixinho toca perto das coxas dela. Provável que seu telefone. Mas nem reage, deixa o tocar. Puxo um pouco mais de fumaça.
– Você é bem quieto.
Encaro ela.
– Ou é isso ou eu to te intimidando.
– Que tal ambos?
– Assim você tira a graça do negócio. – Ela responde e dá de ombros. Tomo a dose inteira em uma talagada só e peço mais uma. Largo o maço de cigarros em cima do balcão, para caso ela queira mais. Mas não me importo muito.
– Você é realmente muito quieto.
Sorrio levemente e acendo mais um cigarro. Nolan está limpando os copos que estavam no secador e guardando-os, então já deve estar perto da hora de fechar. Tomo a última dose em um gole só e vejo que ela fez o mesmo.
– Ei Nolan! Fecha a minha conta. – Peço
Pago e me levanto devagar, para não dar tontura. Ela se estica no banco. Levo o cigarro à boca e puxo a fumaça. Sorrio para ela.
– Ei, não fique sorrindo assim pra mim. Posso acabar te seguindo até a sua casa – Diz, sedutoramente.
Olho para ela e viro o meu rosto de leve, para que eu possa enxergar o barman. Sua expressão é contida, mas ele tem ciúmes. Decido que não me importo. Suspiro e volto a minha atenção para ela.
– Não precisa seguir, quero companhia até minha casa. – Dou minha deixa.
Ela não precisa de um outro convite. Prontamente se levanta, avisa que é pra colocar na conta dela e sai comigo noite a fora.
– Você é bem espertinha.
Ela gargalha.
– Olha só quem tá quebrando o silêncio agora. Aliás, ainda não sei o seu nome.
– Importa?
– Um pouco. Antes que você pense, não saio com qualquer um. Preciso me sentir atraída, e não é qualquer um que faz isso.
– Elias.
– Irene.
Caminhamos o resto do caminho até minha casa em silêncio, mas um silêncio levemente agitado. Não espero a porta fechar pra grudar meus lábios nos dela. Ela se agarra ao meu corpo com voracidade, e não penso em mais nada.
Quando acordo pela manhã, a encontro deitada de bruços com o rosto virado pra mim. Sorrio. Talvez tenha tirado a sorte grande. Acendo um dos poucos cigarros que havia sobrado no maço. Depois de uma ou duas baforadas, ela fala, sonolenta:
– Você tava com gosto de fumaça ontem.
Encaro-a.
– Mas eu não me importo. – Ela me sorri afetuosamente.
Penso em Nolan e no amor que ele sente por essa mulher. Penso em como ele pensa nela e ele deve estar sofrendo. Mas não o conheço o suficiente para sentir pena. Sorrio para ela.
– Round dois?
– Round dois, querido. Round dois.
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