Encontro de Almas

5 Tentativa e erro


Tentativa e erro

Sofia, assim como eu, a Lua e a Luci, também era nova na escola, mas diferente de nós, ela não tinha nenhum amigo ou amiga que viera com ela. Na verdade, ela mudara do interior para Porto Alegre e por um bom tempo tivera muita dificuldade para se adaptar.

Sofia era uma guria quieta, mal interagia com os colegas, ela respondia as perguntas dos professores com entusiasmo, mas não passava disso. Depois de alguns dias essa situação estava começando a me incomodar, por um motivo que eu fui entender mais tarde.

Depois da primeira aula com Rubi era o intervalo, Paula, a menina afrobrasileira que sentava na classe ao meu lado, e falara comigo logo depois da minha apresentação, fez questão de passar o recreio comigo a Luci e a Lua, fiquei aliviada, nós éramos novas na escola, alvos fáceis para valentões. A Paula, e a Luana, tentaram fazer o mesmo, assim como a Bi pela Sofia, mas ela recusara as duas vezes no primeiro e segundo dia de aula.

Eu nunca fui alguém para dar o primeiro passo ao fazer amizades, talvez um pouco de timidez ou o medo de rejeição depois que a pessoa me conhecesse, não sei bem, mas com a Sofia... eu acabei falando depois da aula de história na quarta feira, logo antes do intervalo.

“Minha vez.” Disse eu determinada, olhando em direção a Sofia.

“Amiga, ela já disse não 3 vezes.” Disse a Luciana.

“Eu não tentei, a Milla disse que eu deveria tentar, então hoje eu vou.” Avisei, com a voz firme. “Talvez a quarta tentativa vá funcionar.”

“Quer que a gente espere?” Perguntou a Paula.

“Vão indo. Depois encontro vocês lá, se der tudo certo, arrasto ela comigo.” Disse, elas assentiram e saíram da sala.

Caminhei até a Sofia, um pouco hesitante, o rostinho gorducho dela estava baixo, olhando para o caderno onde ela escrevia, sabia que ela não havia me visto, decidi pegar a cadeira ao lado da classe dela e sentei em frente a ela, esperando.

Quando finalmente terminou, ela fechou o caderno, levantou os olho lacrimosos e eu sorri levemente, esperando que meu sorriso fosse caloroso e gentil, mesmo que as minhas roupas e maquiagem não ajudassem muito, e as pessoas poderiam se sentir desconfortáveis.

“Oi, quer descer pro recreio comigo e as gurias? O lanche do bar é tri bom.” Comentei com os olhos arregalados e um sorriso expectante.

“Eu trouxe lanche, e porque tu tá me chamando mesmo?” Sofia perguntou com a voz fria. “Sentindo pena da gordinha que senta no fundo da sala e não tem amigos?” Exigiu com a voz cortante.

Estremeci um pouco, eu conseguia entender melhor do que ninguém como ela se sentia. Sabia como era ser zoada por ser diferente. A minha sexualidade foi um ponto de virada para mim, quando me assumi homossexual na escola, quando tinha quatorze anos... muitas amigas e amigos que eu tinha se afastaram depois disso, as únicas que ficaram comigo, foram as gêmeas, meus pais e a mana mesmo que a mãe não fosse realmente uma apoiadora, ainda não me rejeitou.

“Não, eu só achei que poderia ser divertido, na primeira aula de literatura tu parecia super entusiasmada sobre literatura e poesias... eu também adoro isso. Pensei que poderia ser algo em comum e poderíamos ter uma amizade.” Dei de ombros.

“E por que eu seria tua amiga? Quero dizer, olha as tuas roupas, a tua boca suja! É impressionante que alguém realmente queira.” Ela disse zombeteira.

Aquelas palavras, me acertaram em cheio como uma faca, e doeram, eu estava tentando ser gentil e ela veio pra cima me ofendendo, senti meus olhos encherem de lágrimas, com um sorriso triste apenas assenti e levantei.

“Sabe... não te julgo por me julgar pela minha aparência..., mas talvez eu seja exatamente como tu... e a minha roupa, a minha boca suja, sejam apenas formas que eu encontrei pra me proteger.” Disse pra ela, arrumando os óculos na ponte do nariz, minha voz não era mais gentil.

Segui para a porta da sala sem nem olhar para traz. O que a minha mágoa não me fez perceber naquele dia, foi que aquela atitude dela, e as palavras duras foram pelo mesmo motivo que eu usava a jaqueta de couro preta com spikes, as mechas coloridas, a sombra e esmalte preto, os piercings falsos na orelha e o brinco autocolante no nariz, ela também estava tentando se proteger.

Em vez de encontrar as gurias no barzinho, eu fui para a biblioteca no recreio, sentei em uma sala de estudos, peguei o livro Sangue de tinta de dentro da minha mochila, coloquei o fone no ouvido, escolhi no smartphone, a minha playlist favorita. Pelo menos por alguns minutos eu poderia me esconder no mundo dos livros.

Sempre senti conforto com os livros, a biblioteca da escola, e da faculdade sempre foram meu refúgio quando algo me incomodava, me afundar nas páginas dos livros me dava uma certa paz, o sinal tocou interrompendo a minha leitura, bufei, teria que ir para aula, querendo ou não.

POV Rubi

Depois do primeiro dia de aula, notei que Marcela havia se isolado, passava o recreio sozinha, sentada em um banco próximo as hortas da escola, lendo algum livro de fantasia, dessa vez ela lia ‘A filha das sombras’ de Caio Ritter, fiquei impressionada que ela havia escolhido tal livro, era obscuro, diferente da wicca que eu era praticante.

Resolvi me aproximar dela, tentar entender o motivo do isolamento, me perguntava se era pela discussão na primeira aula, sentei ao lado da Marcela no banco, vi os olhos vermelhos e inchados, ela havia chorado.

Esperei ela fechar o livro e perceber a minha presença, Marcela notou, virou o rosto e sorriu levemente, eu sorri de volta para ela, apontei o livro, nas bochechas apareceu uma coloração rosada.

“Ah... a Julia me indicou no outro dia.” Comentou a Marcela timidamente. “É obscuro mas bem interessante, outras formas de magia.”

“Tu está gostando?” Perguntei.

“Sim! O autor tem uma escrita bem interessante, ao mesmo tempo que arranca sorrisos também da uma tensão, até to pensando em pesquisar mais títulos dele.” Contou ela animada. “Tu já leu esse, professora?”

“Sim, diversas vezes, vejo que a Julia cumpriu a promessa de te introduzir novas histórias de fantasia de autores brasileiros.”

“Sim na terça ela me recomendou esse livro, e veio com uma lista na quarta.” Contou Marcela rindo. “Ela até incluiu uma sinopse e uma resenha muito detalhada de duas páginas frente e verso da visão dela sobre cada um dos livros.” Disse ela soltando uma gargalhada.

“A Julia pode ser bastante intensa às vezes quando escreve.” Comentei sorrindo.

“Verdade...” Concordou ela.

“Marcela, eu notei que tu tem se afastado um pouco da turma.” Comentei casualmente.

“A Deia... ela é minha melhor amiga, fora da escola, ela não é assim, na verdade ela é brutalmente honesta, mas doce ao mesmo tempo, na escola... ela é o completo oposto, e eu não suporto isso. Então eu prefiro evitar.” Contou. “Como eu prefiro ficar longe da agitação do recreio, eu venho aqui no pátio dos fundos perto da horta porque ninguém vem aqui.” Esclareceu ela.

“Entendi. Mas sabe... mesmo que ler seja algo relaxante e reconfortante, conhecer novas pessoas, e fazer amigos, pode ser ainda mais reconfortante, talvez tu conheça alguém que vai gostar dos mesmos livros que tu e discutir as histórias contigo, ou mesmo descobrir histórias novas.”

“Talvez tu tenha razão, talvez eu tente amanhã.” Comentou ela com um sorriso suave.

“Acho que seria uma ótima ideia.” Concordei.

“Tu acha que a Julia e as amigas dela... me aceitariam no grupo delas... mesmo que eu ainda seja amiga da Deia?”

“Eu não conheço elas bem ainda, então não tenho como dizer com certeza, mas sabe, pelo que eu pude ver, as quatro parecem ser acolhedoras e receptivas. Porque tu não fala com elas?” Perguntei.

“Eu tenho vergonha.” Admitiu baixinho. “Mas acho que eu vou tentar.”

“Eu tenho certeza que tu consegue.” Prometi.

O sinal tocou e fomos juntas para o prédio da escola

POV Julia

Fui para a aula de física, me sentei no fundo em um lugar que não tinha ninguém em volta, não queria conversar, vi que Paula olhou em minha direção, mas as gêmeas apenas negaram com a cabeça e se apressaram a sentar no lugar delas.

Antes do segundo intervalo era a aula de educação física, disse pro professor Alberto que estava com uma cólica horrível, fazendo cara de dor e tudo, até tinha um remédio na mochila, eu sempre me preparava pra matar educação física.

Sentei em um banco longe da quadra, o professor sentou do meu lado, ele provavelmente não tinha acreditado.

“Olha, eu vou te dar uma folga hoje, tá? Tu não parece bem por algum motivo, e não é cólica... minha esposa tem problema com cólica e eu sei quando ela tá exagerando.”

“Desculpa...” Disse baixinho. “Eu só não to a fim de interagir hoje...” Expliquei.

“Tudo bem, mas em vez de ficar aqui sentada, sem fazer nada. Eu quero que tu leia este texto sobre o vôlei, certo?” Pediu ele. “Faz um resumo...”

“Pode ser uma resenha? Eu odeio fazer resumo, parece errado escrever um texto curto demais, meu sonho é ser escritora, adoro adicionar detalhes.” Disse pra ele.

“Ótimo! Já gostei de ti, então faz uma resenha bem detalhada e me entrega no fim da aula, eu tenho um livro que tu pode usar para complementar a tua resenha.” Prometeu o professor Alberto.

“Valeu sor! Mal posso esperar para começar.” Disse eu com os olhos arregalados. “Posso escrever mais de duas páginas?”

“Quantas tu quiser.” Prometeu com um sorriso brincalhão.

Eu fiquei bem animada de escrever a resenha, fiquei também muito impressionada com a história do vôlei, não me fez querer jogar, mas me fez querer entender e pesquisar mais, até decidi fazer um trabalho completo de pesquisa independente em casa para entregar na próxima aula, mesmo que o professor não tivesse pedido.

Eu já estava me sentindo mais animada, depois da aula, então me juntei a Paula, a Lua e a Luci para o segundo recreio, elas pareciam bem alegres de ver que eu me juntei a elas.

“Hei, porque tu não participou do jogo?” A Paula perguntou.

“Não tava muito na pilha de interagir depois da minha conversa com a Sofia... o sor me pediu pra fazer um resenha sobre vôlei, ele não acreditou na falsa cólica... então eu passei a aula fazendo o trabalho que ele me pediu.” Expliquei.

“Melhor que a irmã Alice que mandava a gente ler passagens da bíblia quando queria matar a aula de educação física.” A Lua rolou os olhos.

“Nem me lembra! Tu não tem ideia de como eu to aliviada de me livrar daquele inferno!” Eu comentei.

“Contraditório.” Comentou a Paula rindo.

“Eu sei!” Comentei soltando uma risada alta. “Gurias, foi a melhor coisa que me aconteceu vir pra esta escola.”

“Verdade, eu fiquei aliviada quando a mãe concordou em nos matricular na mesma escola que tu.” Disse a Luci.

Depois da aula de geografia, era hora da aula de português, a Rubi chegou com um amplo sorriso nos lábios, já cumprimentando todo mundo, o rosto iluminado e o sorriso encantador.

“boa tarde, queridos, fizeram o tema?” Perguntou ela, com esperança nos olhos.

Levantei da minha classe e caminhei até a dela, entreguei os dois temas, o resumo que ela pedira e o complemento que fiz por conta.

“Sora, eu sei que tu pediu um resumo.” Disse eu mostrando o resumo para ela. “Mas pareceu tão errado quando eu terminei... que eu tive que complementar o meu trabalho... eu sei que tu não pediu mas...” Entreguei as folhas grampeadas. “Nem precisa ler se não quiser, mas eu ia me sentir culpada se entregasse um trabalho tão curto.” Expliquei, ela ofegou, a boca aberta, olhos arregalados, completamente pasma.

“Obrigada Julia.” Disse ela. Eu pude só ouvir uma risadinha atrás de mim.

“O que?” Perguntei pra Luana.

“Nada...” Ela deu de ombros.

“Tu não tá esperando ganhar pontos com trabalho extra né? Porque se for isso... tu é mau caráter.” Disse Sofia.

Eu só virei pra ela, rolei os olhos. “Sofia, acusar uma colega de algo tão errado, sem nem conhece-la é uma forma de preconceito.” Disse a professora Rubi.

“Não, eu não quero uma nota mais alta, eu só não me senti satisfeita com o tamanho do resumo que eu fiz e quis complementar, não quer dizer que eu esteja esperando uma nota alta em troca, eu até disse que a professora nem precisa ler se ela não quiser.” Disse com a voz fria. “Pode me julgar pela minha aparência e a minha ‘boca suja’ o quanto tu quiser Sofia..., mas o meu caráter... eu não vou admitir.” Avisei pra ela e voltei pra minha classe.

Por mais que eu estivesse sentada na classe em frente ao quadro, ouvindo o que a Rubi falava, as palavras que a voz doce falava com entusiasmo e empolgação, não entravam na minha cabeça, e tudo o que eu conseguia ouvir, foram as palavras duras da Sofia.

Final da aula eu não tinha escrito nada, Rubi provavelmente notara. Como era a última aula da manhã, ela pediu para ficar para traz quando todo mundo já estava saindo, ela sentou ao meu lado, segurando algumas folhas e me entregou, eu notei que era a matéria do dia.

“Julia, tu não copiou nada, querida.” Disse ela com a gentileza que sempre fizera os alunos confiarem nela.

“Desculpa.” Eu disse baixinho, com a voz triste.

“Foi o que a Sofia falou? Quando tu entregou o trabalho extra?” Perguntou ela com carinho, as esmeraldas dos olhos dela passavam tanta empatia, que dava vontade de falar os meus segredos mais profundos, obviamente me contive.

Dei de ombros “Nem todo mundo é um fã.” Comentei, apontando para minha jaqueta, ri amargurada, a voz meio quebrada. “A gente tenta ser legal, mas acaba sendo aquela que sai chorando da sala.” Resmunguei, rolando os olhos.

“Se quiser conversar...” A voz de Rubi ressoou no meu ouvido como um carinho sem toque, fez meu coração aquecer um pouco e a dor suavizar.

“Obrigada, mas... eu tentei falar com a Sofia hoje... eu to preocupada, ela não parece nem querer tentar, sabe? Eu não sei se ela sente falta dos amigos do interior, ou se é problema de adaptação mesmo, mas ... Já é o terceiro dia de aula e ela nem quer tentar, amigos fazem toda a diferença.

“Eu vou falar com ela...” A Bi prometeu com um sorriso compreensivo. “Aqui está um resumo da aula de hoje, tem uma explicação na apostila, talvez se tu tiver uma gramática em casa, pode usar para desenvolver.”

“Valeu sora... eu trago na próxima aula.” Assegurei, guardando o resumo dentro da pasta sanfona que colocava as folhas de exercícios que os professores davam em aula.

“Sora... eu realmente não quero uma nota mais alta, tá? Eu só sou detalhista, gosto de rechear meus trabalhos, tu vai ver, eu sempre vou pedir mais que os professores pedem.” Expliquei, “O trabalho extra eu só fiz porque um resumo pareceu errado.”

“Julia, não te preocupa, eu não duvidei em momento algum do teu caráter, ainda mais quando tu disse que eu nem precisava ler, embora eu vá ler.” Disse ela com um sorriso brincalhão. “É gratificante quando os alunos se esforçam pela matéria, inclusive o teu professor de educação física, estava muito empolgada no segundo recreio, mostrando o trabalho que tu fez enquanto matava a aula.”

“Ele ia pedir um resumo, eu odeio resumos, são curtos demais e eu não acho justo então pedi para fazer uma resenha no lugar, como disse, eu gosto de rechear.” Expliquei. “Só não me dá ponto extra tá? Corrige ele, mas eu quero uma nota justa.”

“Não te preocupa. Eu fico muito feliz de ver a tua dedicação, então não te preocupa. Me diz, o que aconteceu durante a tua conversa com a Sofia no recreio? O que tu disse sobre julgar a tua aparência e a boca suja...”

“Aparentemente, essa é a razão pra ela não querer ser minha amiga, como as gurias andam comigo... provavelmente a gente só tá dando murro em ponta de faca... eu só não quero que as gurias saibam que essa é a razão, elas são bem intensas pra me defender.” Expliquei.

Saímos da sala juntas, Rubi tinha um sorriso doce nos lábios. “Sabe... a tua roupa, tem bastante personalidade.”

“Eu sei... me faz parecer durona..., mas pode intimidar outras pessoas...” Comentei.

“Talvez, mas assim como tu...a tua roupa e a maquiagem tem atitude, te dá coragem para defender o que tu acredita, e se impor.” Comentou Rubi animadamente. “Talvez um dia tu não vai precisar da jaqueta preta e da maquiagem pesada para isso, mas por enquanto... aproveita. E não muda isso só porque tu tem haters.” Rubi me deu uma piscadela e soltamos uma risadinha.

Aquelas palavras da Bi, me tocaram tão fundo... eu me senti completamente abraçada e aceita por ela, completamente apoiada, e desde daquele dia quando eu me assumi, e as gêmeas foram as únicas que me abraçaram, literalmente foi a primeira vez que eu senti uma aceitação incondicional.

“A Lua e a Luci me conhecem desde o fundamental um, elas estão comigo há um tempão, às vezes parece que elas e a minha irmã mais velha me conhecem melhor que os meus pais.” Ri alto, rolando os olhos. “Elas me ajudaram a escolher o visual.” Confidenciei. “Meu último ano do fundamental dois não foi o mais fácil, sofri bullying na escola... fiquei muito mal... então elas me ajudaram através da escolha da roupa e a mana... ela me apresentou minha ‘mentora’.”

“Mentora?” Perguntou curiosa.

“Alanis Morissette.” Contei.

“É, eu entendo o que tu quer dizer, teve uma época da minha vida, que Alanis fez toda a diferença para mim também.” Contou a Bi. “Ainda faz, ainda às vezes dependo das músicas dela “

Esta havia sido a primeira vez que contara algo sobre mim para a Bi, não desenvolvi aquele primeiro segredo, não contei a razão do bullying , isso veio mais tarde.

“Eu fico feliz que tu tem o apoio da tua irmã e das tuas amigas.” Rubi comentou suavemente, mas parecia que tinha algo a mais que ela queria me contar.

“Meus pais também, mas a mana e as gurias, ela são mais proativas, o pai e a mãe pagam pelas coisas, se vai me ajudar... eles concordam, não mimam, mas se vai mudar algo... eles dão este tipo de apoio” Esclareci, queria deixar claro que meus pais eram meu apoio também.

Eu descobri o que era meses depois, o que ela queria contar, mas como a gente não tinha toda a intimidade que desenvolvemos depois de um tempo, ela manteve isso para si mesma durante esta primeira interação que tivemos, nem percebi o tempo passar até chegarmos no portão, onde nos despedimos. Eu segui para casa sozinha, me sentindo mais leve.

POV Rubi

Depois que saímos da sala de aula conversávamos animadamente, Julia me confidenciara parte da origem e razão daquele estilo que começara a usar no ensino médio, levou muito tempo para entender por completo o que acontecera no último ano do fundamental dois.

“Até amanhã, Julia.” Disse eu quando chegamos no portão.

“Até amanhã professora Rubi.” Disse ela com o sorriso caloroso e os olhos azuis brilhando com animação em perspectiva para o próximo dia.

Aquele olhar me encheu de calor, e alívio, naquela época eu não sabia, mas foi aquele olhar que eu passei a querer ver todos os dias, assim como era o meu sorriso que Julia queria encontrar.

POV Julia

Cheguei em casa me sentindo leve e faminta, não tinha comido nada no intervalo, então estava duas vezes com mais fome que o normal, joguei a mochila no sofá de camurça beje da sala de estar e segui o cheiro da comida da nossa empregada doméstica Vitória, até a cozinha, olhei para o topo da mesa e senti minha boca salivar, ela havia feito macarrão ao molho branco, com frango grelhado e uma salada bem farta. A Dona Vitória sempre sabia meus favoritos, mas não tinha sinal dela na cozinha.

“Oi Vitória!” Chamei, esperançosa que ela fosse me responder, ou aparecer do nada atrás de mim.

Não aconteceu, andei em volta da casa de dois andares, levei a mochila para o quarto, ela não estava dentro da casa, então fui até o pátio de traz, ela estava sentada no banco de jardim, sorri. Sei o quanto a Vitoria gosta de ficar perto das plantas que ela sempre cuida com carinho.

Me juntei a ela, e dei um beijinho na bochecha rechonchuda. “Oi!” Disse animada.

“Oi, minha pequena travessa.” Disse ela carinhosa como sempre. “Quantas travessuras aprontou na escola hoje?”

“Nenhuma, estava sentada quietinha, para não ser expulsa.” Brinquei.

Dona Vitória esteve trabalhando conosco desde que eu era criança, começou como babá minha e da Milla e depois diminuiu as horas só trabalhando três vezes por semana, era como uma segunda mãe pra nós.

“E esses olhinhos vermelhos, o que foi?”

“Eu tentei me aproximar de uma colega... ela me julgou pelas minhas roupas e maquiagem, além da minha boca suja, disse que era impressionante que eu tinha amigos.” Contei, senti um caroço se formar na minha garganta.

Vitória me segurou em um abraço apertado e eu dei vazão as lágrimas que segurava desde o recreio, os soluços balançavam meu corpo, ela apenas me segurou, deixando eu chorar sem julgamentos.

É impressionante como apenas um abraço e uma comidinha caseira podem ajudar quando o coração dói, Vitória não precisava vir com conselhos ou palavras sábias pelos seu anos de luta e problemas com o alcoolismo do marido, ou os problemas financeiros que a família dela passara por muito tempo, para fazer a gente se sentir melhor, só um abraço carinhoso e uma comida quentinha faziam todo o trabalho.

Depois do almoço fui para o meu quarto, e antes de fazer o tema, acessei e vi que tinha uma notificação no msn, a Paula e as gêmeas praticamente me forçaram a criar um para mim.

❤Paulita_Torres : O que diabos aconteceu hoje entre tu e a Sofia?

Ju_Gomes: Meu, eu to tentando entender ainda! Eu fui lá perguntei se ela queria ir no bar conosco, e ela foi grossa, basicamente o que eu disse àquela hora, me julgou pela roupa e pela boca suja.

❤Paulita_Torres : Eu to desistindo dela.

Ju_Gomes: É, eu acho que a gente tá dando murro em ponta de faca, mas antes de desistir total, vamos dar um tempo, como a Luci sugeriu, talvez ela se de conta que a gente é legal.

❤Paulita_Torres: Sei lá Jubs, eu não sei se eu quero esperar por ela... depois do que ela disse pra ti na aula... eu to começando a pensar que pode ter sido racismo velado, quando ela disse não, mas tá melhor agora?

Ju_Gomes: Uhum, só precisava de um abraço e comida, especialmente a comida..., comi duas vezes o meu normal.

❤Paulita_Torres: Quanto é o teu normal?

Ju_Gomes: 2 pratos. Hehe

❤Paulita_Torres: COMO TU NÃO ENGORDA!!!

Ju_Gomes: Me pergunto até hoje.

Eu também, até hoje eu não faço ideia, minha colega da faculdade, às vezes me fazia a mesma pergunta, com um olhar assassino, ela estava acima do peso, mas o que eu posso fazer, né. Enfim, a faculdade só vem depois de doze anos, deixa quieto por enquanto.

❤Paulita_Torres: Eu tenho que fazer tema, quer que eu te mande uma foto das minhas anotações de física e português?

Meus olhos brilharam e meu coração derreteu com o carinho da Paula, quando ela ofereceu.

Ju_Gomes: Te devo meu rim um dia!

❤Paulita_Torres: Não exagera Drama Queen!

Ju_Gomes: EU NÃO SOU A RACHEL de glee!

❤Paulita_Torres: Tu é pior! Tu é a Quinn!

Ju_Gomes: Me sinto honrada, mas prefiro a San, mesmo que ela tem inspirado a minha máscara de gelo, espero que esteja chegando lá! Já a San é mais parecida comigo em muitos aspectos, talvez te conte um dia. To indo fazer tema, até amanhã, te vejo na aula.

Antes que a Paula pudesse perguntar em quais aspectos, eu fechei o MSN, não estava pronta para contar algo tão profundo sobre mim ainda, eu não queria passar pela mesma coisa que ano passado e perder mais uma amiga.

Enviei uma mensagem para a Paula agradecendo pelas fotos do caderno dela, fiz upload no computador para enxergar melhor a imagem, visto que naquela época, a câmera do Smartphone não era a melhor, okay que era bem melhor que a do tijolão da Nokia, bem antes disso, mas deixa quieto.

Finalmente terminei de copiar a matéria, fazer o tema e fui ler o meu livro, imaginando que talvez seria muito legal fazer o mesmo, contar minha história, talvez dar uma floreada, porque provavelmente os leitores morreriam de tédio. Bem... eu to considerando publicar o terceiro, e certamente dei uma floreada

A Lua obviamente me ligou para saber o que aconteceu hoje no recreio contei para ela, obviamente ela ficou furiosa, mas a Luci tentou ser razoável e racional, tentando entender o lado da Sofia, então ouvindo o lado racional da Luciana, decidi dar uma chance para a nossa colega.