Encontro de Almas
6 Pequenos passos
Quinta feira chegou, e no primeiro período era biologia, eu estava esperando muito por essa matéria, por duas razões, a matéria parecia ser muito legal, principalmente genética e segundo era a professora Ana que iria nos dar aula, então a empolgação veio em dobro.
Obviamente a professora Ana deu um abraço apertado em mim e nas gurias no corredor antes de entrar na sala, com um sorriso suave, ela disse para entrarmos. A Ana não era a pessoa mais alta do mundo, mas era mais alta que eu, com os cabelos longos e castanhos bem claros quase loiros, e os olhos castanhos cor de mel, com um sorriso travesso que não saia dos lábios dela.
Sentamos nas nossas classes e ela começou a apresentação dela e da disciplina, quase perdi a mão de tanto anotar, como ainda tinha uns quinze minutos de aula, ela distribuiu as apostilas e pediu que lêssemos o texto introdutório, e marcássemos as partes mais importantes.
“Okay pessoal, de tema vocês vão responder as perguntas da apostila e nós discutiremos e corrigiremos em aula.”
“Mas tu nem deu explicação ainda professora.” Andreia comentou, com a voz presunçosa.
“Isto ocorrerá na próxima aula enquanto discutimos e corrigimos as questões da apostila.” Se repetiu a minha professora.
A próxima aula foi Inglês, começamos com uma apresentação, onde teríamos de contar sobre nós mesmos em inglês, a maioria reclamou por ser oral, eles não queriam nem tentar.
O coitado do professor Antônio ficou super frustrado e disse que aqueles que não se sentissem confiantes poderiam fazer o trabalho escrito, então, eu o Pedro, a Luci, a Lua e a Andreia fizemos as apresentações orais.
Claro que não saí contando meus segredos, afinal recém era o quinto dia de aula, mas contei um pouco sobre as coisas que gosto e minha família. Foi interessante ver a reação de alguns deles, Sofia me encarava com um olhar cético, apenas ignorei ela.
“Muito bem todos vocês! Agora para a próxima aula escrevam uma redação sobre um dia na vida de vocês.”
“Pode ser em português?” Perguntou o Miguel um babaca que só vinha para dormir e não queria nada com nada.
“A aula é de inglês, seu idiota! É claro que não pode ser em português.” Disse a Andreia.
Nem disse nada para defender ele, o professor apenas disse que ele poderia usar o dicionário e em caso de dúvidas ele daria assistência em aula, fomos para o recreio, dessa vez a gente sequer olhou na cara da Sofia, eu ainda estava magoada, e minhas amigas ficaram do meu lado nessa.
“Sororidade, mesmo que eu esteja tentando entender o lado dela, eu não gostei que ela veio te acusando daquele jeito ontem.” Disse a Luciana. “Então nem vou tentar, ela vai ter que pedir desculpas.” A Luci deu de ombros.
“Valeu amiga, eu realmente quero tentar me aproximar dela, talvez ela perceba que eu não sou tão ruim assim né?” Comentei.
“Ela vai, uma hora ela vai.” A Lua me assegurou.
“Quer uma dica pra se aproximar da rolha de poço?” Perguntou Andreia.
“Andreia, o nome dela é Sofia.” Defendi.
“Que seja, quer ou não quer?” Ela insistiu impaciente.
“Quero, o que é?” Perguntei.
“Para de tentar. Quando ela se der conta da merda que ela disse ontem... sem nem te conhecer... bem ela vai ter que se desculpar.” Disse a Andreia dando de ombros.
“Valeu.” Disse eu.
“Não liga pra isso.” Ela afirmou e saiu desfilando, como se estivesse em uma passarela.
“O que diabos deu nela?” Perguntou a Paula.
“Sei lá, mas talvez ela seja mais Quinn Fabray que Regina George.” Dei de ombros.
“Tu acha?” Paula perguntou.
“Talvez um pouco de Santana, até porque a Quinn não dá apelidos pros colegas dela.” Comentou a Luci.
“Provável... eu acho que a gente até pode se dar bem.” Disse eu esperançosa.
“Ju, não importa o quanto a personalidade não bata, com a tua... tu sempre quer se dar bem com todo mundo.” Luana acusou rindo.
“Talvez ela não seja tão ruim assim, a Andreia.” Comentou a Paula. “Bem, se ela não sair ofendendo a gente... eu não teria problema algum.”
“Nem eu, Paulinha.” Disse eu animada, já imaginando como me aproximar da Andreia.
Finalmente chegamos no pátio vi que o Pedro estava com uma case de guitarra nas costas, fiquei muito animada, esperançosa que ele fosse tocar durante o recreio.
Me lembrei de quando eu tentava tocar no violão enorme do pai, tinha por volta dos dez anos, sabia tocar música de ouvido, mas não conseguia pegar os acordes. Já tinha um tempo que eu vinha querendo tentar de novo, mas com o ensino médio o pai e a mãe achavam melhor focar nos estudos este ano.
“Hei Pedro! Vai tocar hoje?” A Paula perguntou pra ele.
“To pensando ainda, lembra ano passado, quando eu comecei a tocar Cazuza e a Soraia começou a cantar junto com o Zé?” Pedro perguntou rindo alto.
“Eu lembro, eles até fizeram coreografia.” Paula comentou rindo alto.
“Eu pagava pra ver isso!” Disse a Lua gargalhando.
“Eu com certeza teria me juntado a eles.” Disse a Luci.
“Deixa eu convencer a mãe e o pai a me pagarem um curso de violão! Pedrito e eu seremos imbatíveis no recreio!” Disse eu já imaginando.
“Eu iria adorar! Dá teu jeito Jubs!” Disse o Pedro com um sorriso bobo nos lábios.
“Não te preocupa, Pedroca!” Prometi.
“Posso cantar?” Perguntou a Luci.
“Tu é boa?” Pedro perguntou
“Boa não cobre quão incrível ela é, confia em mim! A Luci é poderosa no canto!” Disse a Lua orgulhosa, eu assenti confirmando.
“Vocês são suspeitas, eu preciso ouvir isso com meus próprios ouvidos.” Disse ele empolgado, tirando a case das costas. “Qual teu estilo?”
“Eu amo pop e rock romântico, mais balada.”
“Beatles?” Perguntou já sentando em um banco.
“Here comes the sun?” Perguntou ela empolgada.
“Com certeza!” Disse ele com os olhos brilhando, e abriu o zíper da case, mostrando a guitarra preta com branco no centro.
“Pessoal! O Pedro vai tocar!” Paula anunciou projetando a voz.
Eu fiquei impressionada de ver todo mundo no pátio correndo em nossa direção, anunciando alto para quem talvez não tivesse ouvido, vi até alguns professores, inclusive a professora Rubi se aproximando.
Ele começou afinando a guitarra, dedilhando, eu tive que me conter para não começar a cantar também, queria que a Luci tivesse esse momento só pra ela, quando ela começou a cantar, todo mundo olhou pra ela impressionados, completamente perplexos.
“Eu falei.” Luana comentou baixinho dando de ombros.
“E eu confirmei.” Disse sorrindo, sentindo as lágrimas se formarem, era bom ver a nossa Luci ter atenção dos outros.
A Luci sempre foi mais na dela, não gostava de chamar a atenção, talvez por ser a mais racional ela não tentava se sobressair, mas ver ela recebendo atenção dos nossos colegas e mostrando quem ela realmente era, me encheu de orgulho.
“Eu preciso de ti na minha futura banda!” Ele exclamou quando a música terminou.
“Certamente! Tu realmente precisa dela.” Confirmei. “Luci! Tu foi incrível!” Disse eu dando um abraço forte nela.
“Valeu amiga!” Disse ela com us sorriso grato.
Eu sabia que ela não estava agradecendo o elogio. “Era teu momento de brilhar.” Sussurrei contra o ouvido dela.
“Tu faz aula de canto?” Perguntou a Paula impressionada.
“Faço sim, eu e a Ju...” Luciana explicou, eu interrompi.
“Mas a Luci tem um dom, é natural, ela só faz para polir a voz e aprender técnica vocal, eu fazia porque era o coral da outra escola, mas esse ano não quis, a Luci continuou.” Expliquei.
“Mostra?” Pediu ele.
“Eu acompanho no violão quando aprender, a Luci fica no vocal.” Falei.
“Topo, por hora só nós dois então. Da um jeito de aprender, Jubs!” Ele disse incisivo.
“Não te preocupa, eu vou convencer meus pais, de alguma forma.” Assegurei. “Se a gente vai formar uma banda, precisamos encontrar mais gente que toca instrumentos.” Comentei ele assentiu.
“Certamente, com a voz poderosa da Luciana, e a habilidade do Pedro na guitarra, vocês tem muito potencial, mas não dá pra formar uma banda de dois.”O professor de matemática comentou.
“Tem razão professor Sergio.” Disse o Pedro ainda mais empolgado.
Minha barriga roncou estragando o momento. “Ótima maneira de estragar o momento.” Bufei. “Acho que vou pegar alguma coisa pra comer.”
“Vou contigo!” Disse a Paula.
“Vou também, eu to morrendo de fome!” Disse o Pedro.
No fim foi todo mundo, pro bar, a Luana me segurou antes que pudéssemos seguir, virei com um sorriso, sabia o que ela ia dizer. ”Valeu.”
“Ela nunca recebe atenção, era a vez dela.” Dei de ombros.
“Pois é, a mana precisa ser notada também, não só nós.” Comentou a Luana. “Então ela fica no vocal.”
“Ela fica no vocal,” Confirmei determinada. “eu no violão e tu no teclado.” Sugeri.
“Com certeza.” Disse ela sorridente.
Seguimos para o Barzinho, e vi a Andreia tentando disfarçar que não estava ouvindo a conversa. Fingi que não tinha notado e segui meu caminho, com um largo sorriso nos lábios.
POV Rubi
Quando vi a correria no pátio logo no início do recreio, os gritos de empolgação dos alunos, alguns avisando sobre o Pedro tocar algo, eu não pude deixar de ficar curiosa.
Vi a Andreia da minha turma correndo na direção do bar, com as bochechas coradas, o sorriso animado, olhos arregalados.
“Professor Sérgio! O Pedro vai tocar!” Ela avisou com um grande sorriso.
“Vamos! Eu não perco isso por nada, vem Rubi, Carmela, Ana, vocês definitivamente não querem perder isso.” Ele avisou. “Sabe qual música?”
“Sim, Here comes the sun, uma das amigas da Julia da minha turma vai cantar, a irmã dela e a Julia mesmo, disseram que ela é boa.”
“Espera, a Luciana vai cantar?” A Ana perguntou.
“Isso.” Cofirmou a Andreia.
“É nós realmente não podemos perder isso, vocês não tem noção do poder da voz da Luciana, mas a Julia não fica pra traz.” Comentou a Carmela.
“A Julia também canta?” Perguntou Andreia surpresa.
“Uma voz doce e angelical, mas não estou surpresa que ela quer que a amiga dela tenha o holofote.” Disse a Ana, Andreia ofegou.
Pude ver um brilho no olhar dela, seria surpresa... não aquele brilho era de admiração, e respeito incondicional. Não pude deixar de sorrir, talvez Andreia não fosse uma pessoa ruim, talvez ela só tivesse uma personalidade forte.
Nos reunimos aos outros alunos, quando ouvimos a melodia começar, tudo silenciou, eu pude sentir a trocar de energia imediatamente, Pedro tinha um dom, e mais que isso, ele tinha algo quase mágico quando tocava a guitarra dele, como se pudesse acalmar todos em volta, Luciana tinha uma voz poderosa na música, que combinava com a melodia perfeitamente, era uma voz doce um pouco rouca, eu estava impressionada.
Ao fim do ‘show’ todos aplaudiram, e Pedro anunciou que queria Luciana em sua futura banda, e Julia de alguma forma convenceria os pais a deixarem ela ter aulas de violão, decidi que se ela não conseguisse eu mesma os convenceria de alguma forma.
“Impressionante os nossos alunos, certo?” Perguntou Sérgio impressionado quando nos encaminhamos para a sala dos professores.
“Verdade, e eu sei bem que música pode até ajudar a focar nos estudos.” Comentei.
“Pois é, eu tenho até pensado em trazer meu violão para ajudar com as aulas de matemática.” Comentou ele. “E tu Rubi, toca algo?”
“Guitarra, também fiz parte de uma banda na adolescência.” Sorri com a lembrança. “Deu até saudades de tocar.”
“Podemos considerar uma banda de professores, eu toco baixo.” Contou a Carmela. “Aquelas freiras odiavam toda vez que eu ia com o baixo para a escola, e tocava músicas de hip hop para os alunos, eles amavam!”
“Eu acho que elas teriam te demitido por tocar a música do ‘capeta’, mas não podiam porque tu é uma ótima professora.” Comentou a Ana rindo alto.
“Vocês transferiram né?” perguntou o Sérgio.
“É teve um caso feio de homofobia na escola contra uma aluna... a gente não pode aceitar isso e caímos fora.” Disse a Carmela. “Como esta escola é mais receptiva, e acolhedora... bem foi a razão de virmos para cá.”
“Verdade, o que aquelas freiras fizeram com a aluna, um mês de estudo bíblico imposto, na hora do recreio como punição! Eu não pude ficar quieta, fui em defesa da aluna, me demiti antes que as freiras me fizessem.” Contou a Ana indignada.
Eu podia ver a ira nos olhos das minhas colegas, conseguia entender melhor que qualquer um, eu não tive coragem de assumir na época da escola, apenas na faculdade, quando finalmente me aceitara completamente, a wicca certamente fora um ponto de virada, e no dia que assumi ao meu pai, eu sabia que um peso saíra do meu coração, mas ele disse.
“Rubi, eu respeito as tuas escolhas, e por isso vou continuar sendo teu pai, vou continuar te amando e torcendo por ti..., mas eu não posso aceitar algo que vai contra as minhas crenças.” Disse ele quando entregava a chave do meu apartamento.
“Eu fiz mais e levei o caso para a SEC.” Contou a Carmela me puxando dos meus pensamentos.
Eu senti meu coração despencar, e meus pensamentos foram direto para a Julia, o que ela havia me contado ontem depois da aula, perguntei-me se fora ela quem sofrera um crime de ódio na antiga escola, estava quase certa que sim lembrando da silenciosa comemoração quando apresentei os livros para o mês do orgulho.
Eu precisava saber, mas não perguntei, como não tinha aula depois do intervalo, saí discretamente da sala dos professores, e fui para o pátio dos fundos, precisava ficar um tempo sozinha.
Fiquei surpresa, ao ver próximo as hortas da escola, um portão que nunca vira, era de ferro fosco com aparência muito antiga, com uma decoração bonita no lugar das barras, como árvores, pássaros e flores, à medida que me aproximava, o portão abria.
Não pude acreditar no que vira quando passei pelas portas de ferro, era algo impressionante, O pomar se estendia diante de mim. As árvores estavam carregadas de frutas que brilhavam como joias à luz do sol, e o ar estava impregnado com um aroma doce e acolhedor. Senti uma onda de calma e segurança me envolver, como se o próprio lugar estivesse me acolhendo.
As lágrimas que eu estava falhando em segurar caíram em cascatas, um rosnado alto de dor e angústia ecoaram ao redor, meu corpo inteiro tremia, senti uma brisa me acariciar nas bochechas. Minhas pernas deram de si, e caí de joelhos, senti meus joelhos e mãos tocarem a grama fresca e macia.
Quando finalmente me a calmei, me recompus, levantando levemente me encaminhei até a árvore mais próxima, toquei timidamente, apenas para sentir a energia, uma voz ecoou dentro do meu coração, e em todo o lugar.
“Bem-vinda Thalia” A voz feminina, disse gentilmente,
Quase caí para traz incrédula, eu nunca havia dito em voz alta meu nome mágico, apenas para o sacerdote no dia da minha iniciação.
“Quem?” Perguntei, mas a voz não me respondeu. “Seja lá quem for, ou o que for esse lugar, ou a razão dele estar aqui... eu agradeço profundamente.”
“Não direi quem sou, este pomar sagrado é um refúgio para aqueles que precisam, este pomar não pode ser procurado, ele aparecerá apenas para queles que necessitam da nossa proteção, se os futuros usuários do pomar, não seguirem as regras... não será mais bem vindo.”
“Eu vou seguir as regras.” Prometi com todo meu coração.
“Não Thalia, tu não entendestes, tu e outra escolhida, guiarão aqueles que necessitam de proteção e refúgio.” Esclareceu a voz “Agora vá, deixe-nos proteger o pomar, continue a tua missão no mundo lá fora, quando a escolhida estiver pronta, tu a trará para cá.”
Senti uma brisa suave acariciando meu rosto delicadamente, e quando me virei para retornar ao terreno da escola me vi no pátio dos fundos, sentada em um banco de granito, pintado de branco ao lado das hortas.
“O que diabos foi isso!” Exclamei em um sussurro. “Quem é a outra escolhida?” Me perguntei, mas algo dentro de mim dizia que eu já sabia a resposta, só não queria admitir para mim mesma.
POV Julia
Eu estava super empolgada com a ideia da banda, mal podia me conter, quando cheguei em casa depois da aula de Inglês, contei pra mana assim que a encontrei no pátio de traz, sentada no balanço com assento de madeira, mas o encosto era como um croché de ferro.
“Mana! Eu tenho uma novidade incrível, pra te contar!” Disse eu sentando no colo dela, fazendo ela rir.
“O que houve?” Perguntou ela sorrindo, levantei e encarei ela.
“Então, meu colega o Pedro, é ótimo na guitarra, ele toca rock anos sessenta, setenta, oitenta e noventa.” Expliquei.
“Rock bom tu quer dizer.”
“Isso!” Confirmei. “Então eu disse pra ele se de alguma forma eu conseguir convencer o pai e a mãe pra me deixar fazer o curso de violão, a gente já decidiu, Lua vai ficar no teclado, eu no violão, ele na guitarra e a Luci no vocal.”
“Tu não quis pegar o vocal?” A mana perguntou, neguei com a cabeça e sentei ao lado dela.
“Não, a Luci merece ser notada também, então eu definitivamente não vou tirar o lugar dela, mesmo que a minha voz seja tão boa quanto.” Comentei.
“To muito orgulhosa de ti, maninha. O problema vai ser convencer o pai e mãe com isso. Eles disseram que tu deveria focar mais nos estudos este ano.” Comentou a Milla.
“Eu sei mas... eu realmente quero aprender... e eu li que uma forma para superar o bullying é se expressar através da música.” Comentei.
“Pois é, eu disse o mesmo, mas eles acham que o clube de produção textual é suficiente.” Ela comentou.
“Bem, vou ter que ver o que eu faço, eu prometi que daria um jeito de convencer eles.” Expliquei. “Eu vou pra cima, tá? Tem tema.”
“Tá bom, só tenta não exageram muito nos trabalhos.” Brincou ela.
“Bem difícil!” Suspirei frustrada.
Fui pro meu quarto e peguei meu material escolar, começando a fazer o tema de casa, super empolgada para impressionar meus professores, só tive que fazer uma pausa na hora da janta.
“E aí como foram de aula?” O pai perguntou.
“Ah, foi normal, já tem um milhão de trabalhos pra fazer pra faculdade, enquanto a Ju tem tema de casa, eu tenho trabalhos na terceira semana de aula.” Contou a Milla depois de tomar um gole de café com leite.
“Não esquece que a tua irmã transforma os temas de casa em um trabalho de final de bimestre.” Comentou a mãe rindo, mas pude ouvir orgulho na voz dela.
“E tu Julinha?” Perguntou o pai.
“Bem, foi superlegal, eu to amando as matérias.” Contei animada. “Mas melhor que isso foi o recreio!” Disse eu com os olhos arregalados. “O meu colega Pedro, ele toca guitarra, levou pra escola hoje, daí ele tocou ‘Here comes the sun’, com a Luci na voz, ficou incrível! Eles querem formar uma banda agora.” Contei. “Luana já se animou também e vai ficar no teclado.”
“Ah isso é incrível, quando eu tinha a tua idade, eu era parte duma banda com alguns colegas.” Contou o pai.
“Eu queria participar, mas não quero tirar os holofotes da Luci. Como não toco nenhum instrumento...” Falei casualmente. “Pelo menos não com técnica, só de ouvido...”
“Julia, não te faz de inocente, eu sei muito bem onde tu quer chegar, e nós já falamos sobre isso! É teu primeiro ano no ensino médio, primeiro foca nos estudos, depois a gente pensa, tu já está no clube de produção textual.” A mãe insistiu.
“Filha... eu entendo a paixão e a empolgação, afinal eu tocava bateria e violão, e por mais que eu tenha me esforçado, chegou um momento em que eu tava focando mais na música que nos estudos.”
“Tu fez faculdade de música.” Lembrei o pai.
“Sim, como um hobby, mas fiz faculdade de História para ter uma formação que garantiria estabilidade financeira.” Ele explicou.
“Pai, porque tu não ensina a Ju, então?” Perguntou a mana, eu queria pular nos braços dela.
“Por que não faz diferença se ela for para um cursinho ou tiver aula em casa com teu pai, ela ainda vai precisar focar na escola.” A mãe disse. “Afinal, tu quer fazer intercâmbio, lembra?”
“É tem razão.” Disse eu resignada.
“Não desiste ainda.” Disse a mana me encarando intensamente. “olha, eu sei que talvez pode acontecer de tirar o foco de algumas pessoas, mas muitas vezes o estudo de música ou instrumentos musicais ajuda inclusive a focar melhor nos estudos, funciona com pacientes portadores de déficit de atenção, autismo, depressão, ansiedade, entre outros.” Milla anunciou.
“Vamos fazer o seguinte então.” Disse o pai, um sorriso começou a brincar nos meus lábios. “Este bimestre que é o primeiro tu foca na escola, curso de inglês e o clube de produção textual, bimestre que vem nós fazemos uma tentativa...” Eu já estava dançando na cadeira “...se tu te comprometer a não parar de te dedicar aos estudos, e continuar mostrando resultado até o final do segundo bimestre enquanto eu te dou aulas, no final de semana, eu mesmo te matriculo numa escola no terceiro bimestre.”
Eu puxei a cadeira pra traz, fui saltitando até meu pai, dei um abraço apertado e um beijo na bochecha dele.
“O que tu acha Inês?”
“Eu acho que pode funcionar.” A mãe concordou um pouco hesitante, abracei ela também.
“Valeu mãe, valeu pai! Valeu mana!” Exclamei, meu coração estava dançando no peito. “Eu mal posso esperar pra contar pro Pedro que consegui convencer vocês, ou melhor a mana conseguiu.” Disse empolgada e voltei pro meu lugar na mesa e continuei a comer.
“Agora isso explica tudo!” A mãe bufou.
“A promessa vai ser a mesma quando a banda começar, prometo que vou continuar mostrando resultado e não vou deixar me distrair, se começar a me distrair eu saio.” Garanti.
“Ótimo!” Disse o pai animado. “Eu tava louco pra uma de vocês falar sobre isso, eu andava querendo ensinar mesmo.” Ele disse sorridente.
“Tu vai me ajudar a praticar, né pai? Até porque mesmo que não role a banda eu sei que só as aulas não vai ser o suficiente.” Pedi, queria que o pai continuasse envolvido, vi que ele estava realmente empolgado com a ideia.
“Não te preocupa. Eu vou te ajudar a praticar.” Ele garantiu com uma piscadela.
Mal podia acreditar que eles tinham concordado, me joguei nos cadernos depois da janta, colocando o dobro, talvez o triplo de esforço no tema de casa, queria mostrar pros meus pais que eles podiam confiar que a minha dedicação aos estudos não seria abalada.
Cheguei na sala pra assistir glee duas horas mais tarde, com todas as apostilas e folhas de fichário, para eles lerem meus ‘trabalhos de casa’.
“Não era só resumo hoje.” Expliquei. “Acho que a professora Ana e a Professora Carmela, só pediram resenha porque elas me conhecem bem.”
Meus pais leram todos os resumos e resenhas que eu fizera, assim como as perguntas respondidas, um sorriso de aprovação se espalhou em seus lábios, assentiram.
“Continua assim.” Disse a mãe e me deu um beijo no topo da cabeça.
Fui pro quarto, apenas para deixar os materiais, voltei correndo para me juntar a eles e continuar com a série, finalmente chegaríamos no episódio 16, e em breve eu alcançaria as gêmeas, não via a hora de discutir a série com elas.
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