Encontro de Almas
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Notas iniciais
POV Rubi
Quando entrei na sala de aula na sexta feira de manhã, havia um burburinho alto na sala, Julia tinha um sorriso alegre nos lábios, e os olhos brilhavam em pura empolgação, o Pedro um sorriso triunfante nos lábios.
Coloquei minha pasta em cima da mesa e pendurei a bolsa na cadeira, os alunos me viram e começaram a sentar em seus lugares, abri um grande sorriso quando eles começaram a se acalmar.
“bom dia, queridos. toda essa empolgação é pelo final de semana?” Perguntei soltando uma risadinha.
“Na verdade, bimestre que vem meu pai vai começar a me ensinar violão, daí se não afetar nos meus estudos eu posso fazer um cursinho e se tudo der certo, eu o Pedroca, a Lua e a Luci vamos começar uma banda.” Contou a Julia com os olhos brilhando.
“A gente tá inclusive precisando de baixista, baterista, violinista e saxofonista, percussão, tecladista a gente já tem.” Anunciou o Pedro, com um sorriso contagiante. “Quem tiver interessado, vem falar conosco.”
“Quais músicas vocês vão tocar?” Perguntou o Lucas.
“MPB, Pop e rock, anos 60,70, 80 e noventa.” Luana disse animada.
Pude ver que a maioria dos alunos se empolgou com a novidade deles, no entanto vi o olhar desaprovador da Sofia, que negava com a cabeça, eu não queria causar uma discussão desnecessária visto que os outros alunos não haviam notado a colega.
Sofia levantou a mão, eu tensionei, aquele olhar me incomodava. “Sim Sofia?”
“Não é inapropriado tocar este tipo de música em uma banda na escola?” Sofia perguntou, os alunos olharam para ela completamente pasmos.
“Em primeiro lugar, a banda não seria uma banda escolar, seria independente, segundo... nós seriamos uma banda cover, não sairíamos roubando direitos autorais das bandas originais.” Pedro explicou.
“Não é isso que eu quero dizer, eu estou me perguntando se o estilo musical que vocês escolheram é apropriado.” Sofia esclareceu.
“E porque não seria?” Julia insistiu, os olhos estreitando. “Não tem nada errado com estes estilos musicais.”
“Talvez se tu for drogada ou se tu quiser ir para o inferno.” Sofia disse encarando Julia.
Os ombros de Julia tensionaram, eu pude ver as mãos dela estremecerem, Luana e Luciana levantaram das cadeiras delas, giraram em seus calcanhares, ao mesmo tempo encararam Sofia, Julia puxou a cadeira em que estava sentada, levantou, segurando as mãos das amigas.
“Não vale a pena.” Disse ela com a voz entrecortada, meu coração afundou.
Antes que pudesse piorar, eu levantei minha voz. “Okay pessoal, vamos começar a aula e vocês discutem a banda no recreio.” Pedi.
Julia me encarou com gratidão no olhar e elas sentaram de volta em suas classes e eu pude começar a aula, pude ver que eles não iriam deixar o assunto esquecido por muito tempo.
“Então, para começar vou devolver os resumos de vocês, e iremos começar com a teoria de fonemas.” Disse eu levantando da minha mesa com a pilha de resumos corrigidos.
Caminhei entre os alunos entregando cada um dos trabalhos, vi que eles não deixaram de sorrir com os bilhetinhos que eu coloquei no pé das folhas, sorri de volta e voltei para a frente da sala, onde escrevi no quadro em letra de forma a palavra ‘Fonema’.
“Alguém sabe me dizer o que é fonema?” Perguntei, vi que alguns braços levantaram. “Julia?”
“Fonemas são os sons das sílabas, certo?” Julia perguntou.
“Tu não está longe, mas fonemas são os sons da fala.” Expliquei e vi os alunos se apressarem a copiar a explicação. “Quando escrevemos, usamos as letras que são símbolos gráficos, mas quando falamos usamos sons articulados ou fonemas. As letras nós vemos, enquanto os fonemas nós ouvimos.”
Continuei a explicação sobre fonemas e dei alguns exemplos no quadro, no fim os alunos interagiram muito, dizendo palavras diferentes para aprender os diferentes símbolos que representavam cada uma das letras.
“Sora, se for pensar, a gente pode encontrar música em tudo né?” Pedro comentou, os olhos brilhavam.
“Até um arrastar de cadeira, ou uma batida de porta se tu fizer de forma ritmada e tiver uma harmonia... por exemplo.” Disse “Essa garrafa plástica vazia...” Apontei a garrafa que eu sempre levava comigo. “Se eu amassar... vai ter um som.”
“E isso pode fazer música certo?” Julia perguntou empolgada.
“Até onde eu sei, isso é aula de português, não de música.” Andreia reclamou.
“Sim, mas se tu for pensar, para escrever uma letra de música, no Brasil, tu precisa saber Língua portuguesa, não é mesmo?” Julia zombou. “E na música tem os sons de cada instrumento, assim como o som de cada palavra na nossa língua.”
“É uma ótima comparação, Pedro e Julia, gostei da contribuição de vocês.” Comentei.
“As onomatopeias são os sons que encontramos ao nosso redor, não é, professora?” Luciana perguntou.
“Bem lembrado, mesmo que ainda não veremos esta parte, as onomatopeias são exatamente os sons que nosso cérebro assimila e o ouvido escuta.” Confirmei. “Alguém tem alguma dúvida?”
Os alunos negaram com a cabeça então pedi que eles fizessem os exercícios das páginas cinco e seis da apostila que corrigiríamos no final da aula, pude ver que eles se concentraram em fazer os exercícios enquanto eu passava entre as fileiras de classes.
No final da aula os alunos foram para o recreio, Sofia como esperado ficou na sala de aula, eu caminhei até ela, meu sorriso era tenso, não sabia ao certo como se daria esta conversa.
“Posso sentar, Sofia?” Perguntei apontando para a mesa ao lado dela.
“Claro professora.” Disse a aluna com um leve sorriso.
Sentei, e virei encarando ela. “ Sofia, eu sei que tu veio de uma escola cristã em uma cidade cristã.” Comentei ela assentiu. “E vai ser bem difícil se adaptar em uma escola laica, ou seja, uma escola que não tem relação com igrejas ou qualquer tipo de religião. Mas não é legal julgar um colega por gostar de um estilo musical diferente do teu.”
“Mas vai contra o que a bíblia diz, não é mesmo?” Sofia insistiu.
“Sofia, esta escola não é ditada pelas leis da bíblia, e os alunos têm a liberdade de se expressar da forma que eles quiserem desde que não machuque ninguém, desde que não ofenda ninguém, talvez seria interessante conhecer melhor as músicas que eles citaram, tu vai perceber que não tem nada de errado com os gostos musicais dos teus colegas.” Sugeri, levantando da cadeira. “No pátio atrás da escola... é onde ficam as hortas, não é um lugar muito popular entre os alunos, talvez, tu vai gostar de ficar ali durante o recreio, é um ótimo lugar para sentar e ler um livro.” Sugeri.
“Obrigada professora... vou pensar.” Prometeu a Sofia e eu me encaminhei para a minha mesa onde meus materiais ainda estavam.
Saí da sala, não pude deixar de lembrar a reação de Julia ao que Sofia disse a ela, e isso me lembrou da conversa com Carmela e Ana durante o recreio ontem, pensei novamente se deveria conversar com Julia sobre isso. Mesmo que só estivesse supondo, mesmo que soubesse que ela não me dera tamanha liberdade ainda, e este assunto era delicado, não estava certa do que fazer.
POV Julia.
Eu nem acreditava que o nosso grupo tinha crescido tanto em tão pouco tempo, primeiro a Paula, que nos levou junto com ela para o pátio na segunda feira, ontem o Pedro se juntou, e hoje, meio hesitante foi a Marcela quem veio conversar conosco durante o recreio.
“Hum, posso falar com vocês?” Marcela perguntou meio hesitante, ela não nos encarava, e não sabia o que fazer com as mãos.
“Quer sentar?” Perguntou a Paula.
Eu levantei, me dirigi a outra mesa que tinha alunos de outra turma, pedi se podia pegar a cadeira vazia deles, uma guria latina, virou para mim com um sorriso leve e assentiu.
“Valeu.” Disse eu, e levei a cadeira pra nossa mesa. “Aqui, senta.” Pedi, Marcela ofegou surpresa, os outros assentiram pra ela e Marcela timidamente sentou conosco. “eu to começando a achar que o barzinho tá ficando pequeno demais pra nós.”
“Bem, tem as hortas no pátio de traz, quase ninguém vai lá.” O Pedro mencionou. “Eu gosto de praticar lá, principalmente músicas novas, assim eu não pago mico se errar.”
“Bah, agora tu me deu uma ótima ideia, vou fazer o mesmo, pra praticar violão e pra escrever.” Comentei.
“Eu gosto de sentar lá pra ler, é silencioso.” A Marcela admitiu.
“Não distrai né?” Comentou a Paula e nós duas assentimos. “Acho que pode ser o lugar perfeito pra nós, passarmos o recreio quando tiver muito agitado no pátio da frente, ou não tiver cadeiras suficiente pra todo mundo se acomodar.”
“Gostei amiga!” Disse a Luciana animando-se. “Minha família tem sítio, é muito bom ficar próximo a natureza.”
“Verdade, a gente também tem sítio, da família do meu pai, cada filho dos meus avós herdou um terreno, então a gente vai bastante nos finais de semana.” Contei, “O que vocês gostam de fazer nos finais de semana?” Perguntei para os nossos novos colegas.
“Bem geralmente eu vou no centro de umbanda nos sábados e domingos vamos nos meus avós.” Contou a Paula.
“Que legal, eu não conheço muito da umbanda, só sei que é de matiz africana e as pessoas mandam oferendas para iemanjá no dia 2 de fevereiro e no ano novo, mais do que isso, eu não sei.” Comentei constrangida. Fiz uma nota mental para ler um pouco sobre a umbanda
“São Jorge da Católica, corresponde a Ogum da Umbanda e Candomblé, mesma lenda, do guerreiro que mora na lua.” Contou o Pedro. “Eu geralmente passo final de semana com meu pai, não gosto de deixar ele sozinho. Ele ficou bem deprimido depois que a mãe faleceu.” Contou ele com a voz embargada.
“Eu imagino, deve ser bem difícil né?” Comentei, apertando o ombro do meu colega.
“É sim, faz dois anos já. Aquela doença maldita!” Ele exclamou com um rosnado, as mãos apertadas em punhos.
“Ai Pedro, sinto muito... eu não fazia ideia.” Disse a Luana.
“Tudo bem, e vocês o que gostam de fazer no final de semana?” Perguntou ele, tentando mudar de assunto.
Eu podia imaginar o quanto doía lembrar, mesmo que não pudesse me relacionar com a situação dele, ainda assim senti meu coração doer.
“Eu geralmente gosto de ler, meus pais viajam bastante, então é estranho quando eles tão em casa, às vezes eu saio com a Deia nos finais de semana, e a gente vai no shopping.” Marcela contou.
“Ah! Isso é legal, eu faço o mesmo com a Luci e a Lua.” Comentei encarando minhas amigas, elas assentiram. “Tu e a Andreia se entenderam?”
“É, eu acho que sim... ela pediu desculpas e tal..., mas eu não passo os recreios com ela, a gente passa mais tempo juntas fora da escola.” Contou a Marcela.
“Porque?” Perguntou a Luciana.
“Ah, eu não gosto muito das gurias que ela anda aqui na escola... são muito metidas.” Marcela admitiu, Paula bufou rolando os olhos. “Então eu me afasto e passo o recreio lendo.”
“Mas se tu quiser passar o recreio conosco, em vez de ficar sozinha lendo. Por mim tudo bem.” Comentei.
“É, tu é bem diferente daquelas lá, e eu acho que a gente até pode se dar bem, né?” A Paula comentou.
“É estranho, a Andreia não era assim quando eu entrei na escola... eu me lembro que foi meio abrupto, quando eu transferi, ficava sozinho e tal. Daí um dia ela veio falar comigo, acho que ela já estava aqui desde o primeiro ano do fundamental.”
“Tava sim, ela só não fez o presinho aqui porque ela estudava em uma creche.” Contou a Marcela.
“Bah, a Andreia deve conhecer a escola como a palma da mão dela então.” Comentei, soltando uma gargalhada.
“Provavelmente, ela quem me mostrou as hortas no pátio de traz.” Contou o Pedro sorrindo nostálgico.
Ficamos conversando até dar o sinal e fomos para a sala de aula. O resto da manhã correu tranquila, a Sofia não fez nenhum comentário crentelho durante as aulas, eu me perguntei se isso duraria por muito tempo.
Alerta de spoiler, tivemos que aguentar pelo menos uns três meses da crentelhada da Sofia, mas o mês do orgulho fez com que as coisas mudassem, eu devo tudo ao mês do orgulho, porque aquele mês foi um ponto de virada para nós todos.
Depois da aula eu teria o clube de leitura e produção de texto durante a tarde, estava super empolgada para ver como seria, Eu fiquei curiosa se era tipo um clube do livro com a leitura de um livro por mês, discutir a história, e fazer produções textuais baseadas no livro.
Então depois do último período, eu fui no bar da escola almoçar com a Lua e a Luci, a Lua tinha clube de artes, enquanto a Luci tinha aula de música, Para a nossa surpresa, o Pedro e a Andreia também estavam lá, sentados juntos em uma mesa já com os pratos de comida. O Pedro nos viu e acenou, Andreia virou, ela não pareceu muito incomodada se a gente se juntasse a eles ou não.
“Querem sentar conosco?” Pedro perguntou.
“Tu não te importa Andreia?” Perguntei.
“O bar é público, gnomo punk.” Disse ela com um tom de zombaria.
“Sim, mas a mesa que vocês escolheram não, tu tem a liberdade de decidir quem tu quer que sente contigo.” Luciana comentou incomodada.
“Só coloquem essas bundas brancas de vocês na cadeira, logo.” Pedro exclamou rindo alto. “A Andreia só se faz de otária pras amigas metidas dela no recreio.” Brincou ele.
“Mas é uma gazela fofoqueira mesmo!” Ela reclamou.
“Eu tenho local de fala.” Zombou ele.
“Ah, então tu é mais a Quinn do que a Regina George mesmo... eu tava certa.” Brinquei com um sorriso presunçoso, ela só rolou os olhos.
“Acredite o que tu quiser, Pigmeu.” Ela fungou, a gente não pode deixar de rir. “Mas não espera que eu sente com vocês no recreio.”
“Por que não? É contra a regra uma aluna popular sentar com colegas que não criaram reputação ainda?” Debochou a Lua.
“Digamos que eu ainda estou decidindo se vale a pena me aproximar de vocês ou não.” Comentou ela. “Mas foi bem decente vocês não hesitarem em deixar a Marcela sentar com vocês, tomem isso como um ‘teste’... agora se vocês se mostrarem como a crentelha da nossa turma...” Ela apertou os punhos.
“Confia em mim... nem se compara.” Comentei, a Lua e a Luci assentiram veemente. “Então, o que vocês tem agora?”
“Eu tenho aula de música.” Contou o Pedro.
“Também.” Disse a Luciana.
“Eu tenho leitura e produção textual.” Disse a Andreia, eu assenti e apontei pra mim mesma, ela sorriu levemente. “Acho que tu vai gostar, a gente lê alguns livros, mas a parte de produção é tipo escrita criativa, tu escolhe se quer escrever fanfic ou histórias originais, é bem legal. E os livros sempre têm aulas sobre o livro que estamos lendo, sempre trazendo o tema do livro.”
“Ah, gostei, parece bem interessante mesmo.” Comentei animada. “Quais os livros geralmente?’
“A sora dá uma lista de livros para a nossa idade, cada mês é um livro. Tem de tudo, mistério, fantasia, ficção científica, livros de vida escolar, estas coisas.” Contou ela, eu me animei ainda mais.
“Parece bem legal mesmo.” Comentei.
Eu e as gêmeas fomos até o balcão pedir nosso almoço, eu não queria comida e pedi um xis e fritas, as gurias por outro lado pediram uma ala-minuta, fomos para a mesa e ficamos conversando enquanto comíamos, a Andreia parecia bem curiosa sobre nós. Enchendo a gente de perguntas.
“Então, por que vocês transferiram?” Pedro perguntou.
“Eu sofri bullying, elas vieram junto pra eu não ficar sozinha.” Contei, as gêmeas assentiram afirmativamente.
“Bullying hum? Por causa estilo? Óculos?” Andreia perguntou.
“O estilo veio por causa do bullying, a gente sugeriu, assim ninguém ia incomodar ela.” Contou a Luana, eu pude ver que ela tava meio tensa com o caminho que as perguntas deles estavam seguindo.
“Sabe como é às vezes não tem exatamente uma razão específica pra ser vítima de bullying, eles apenas escolhem um alvo...”Comentei dando de ombros.
Eu não era próxima deles o suficiente ainda para sair contando tudo sobre a minha vida, além do mais eu não queria ser vítima de homofobia nos primeiros dias de aula.
“E tu Pedro porque transferiu?” Perguntou a Luci.
“Ah, eu tava numa escola cristã, não católica. Um dia um guri transferiu pra minha turma e eu contei pros meus pais que um ‘veadinho’ tinha transferido.” Pedro comentou, eu pude ver arrependimento nos olhos dele. “O pai ficou puto com o vocabulário que eu usei para falar do colega, nunca vi o pai tão furioso comigo, disse que eu nem conhecia o colega e já estava humilhando ele, e que eu deveria ter cuidado, porque eu não gostaria de ser chamado assim por ninguém, se me descobrisse Homossexual, ou não iria querer que meu filho fosse chamado assim.” Ele contou. “Me fez me desculpar com o colega mesmo que eu não tivesse falado nada com ele, e em menos de um mês eu tava estudando aqui. Pra aprender a respeitar os outros. Ele não queria que a escola me influenciasse mais ainda.”
“Tiro meu chapéu pro teu pai.” Comentei rindo.
“Eu também.” Disseram a Lua e a Luci.
“Pois é, depois de anos estudando aqui, e com as celebrações do mês do orgulho, eu pude entender o que o pai quis dizer.” Comentou o Pedro.
“Eu não tive influência de igreja ou qualquer coisa do tipo na minha vida, minha família é agnóstica, então religião nunca realmente ditou nada na minha família.” Andreia deu de ombros. “Me dá nojo, gente crentelha, que nem a balofa da nossa turma, que julga os outros sem nem conhecer.”
Eu fiquei surpresa com o que a Andreia disse, não esperava que ela pudesse ser legal, mesmo que não me sentisse confortável com os apelidos ofensivos que ela usava para mencionar a Sofia, eu podia entender a razão. Andreia podia ser bem razoável.
Às duas fomos nos despedimos e fomos para a sala do clube do livro. A sala era dentro da biblioteca, o que era bem apropriado. Tinha várias cadeiras com a mesa acoplada, posicionadas em círculos, além de sofás e poltronas, com almofadas grandes, enquanto ninguém chegava, a Andreia sentou no sofá e tirou um livro de dentro da mochila pra ler, eu notei que era o mesmo livro que eu estava lendo, Sangue de tinta, não pude deixar de rir.
Ela levantou os olhos e eu apontei para o livro que tirava de dentro da mochila. Andreia soltou uma gargalhada, rolando os olhos.
“Acho que vamos nos dar bem, Pixie.” Ela disse ainda rindo.
“Eu também, lady fae.” Concordei assentindo.
“Qual capítulo tu tá lendo?” Ela perguntou.
“Sexto, e tu?” Retornei.
“Oito, vê se lê mais rápido, assim a gente discute ele.” Pediu ela e eu assenti.
O primeiro livro que leríamos naquele mês seria a Bússola de ouro, que eu já tinha lido, mas estava empolgada para reler ele pro clube do livro, e a primeira atividade era basicamente escrever uma redação contando sobre nós, e trocar com os colegas, contar para todos o que aprendemos sobre o colega que tivemos a redação lida.
Eu li a de uma colega também do primeiro anos, mas da sala ao lado, o nome dela era Patrícia, afro-brasileira, olhos castanhos e cabelos encaracolados, um sorriso gentil. Na redação dela dizia que os avô por parte de pai veio de Moçambique tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro, conheceu a avó dela, e se casaram, mas os pais dela acabaram vindo para Porto Alegre onde o pai cursou economia, e a mãe história, moravam aqui, e eram muçulmanos embora não conservadores.
Eu não pude deixar de ficar impressionada com a coragem do avô dela de sair da realidade dele na África, para tentar melhorar de vida, deixando tudo pra traz, era incrível que eles inclusive conseguiram superar as adversidades e conseguir uma vida melhor longe de tudo.
Outros colega também tinham histórias incríveis, a Andreia, vinha de uma família de empresários, o pai em era gerente de vendas de uma metalúrgica famosa filho do dono da empresa, enquanto a mãe era a dona de uma escola de dança, também muito famosa, muitas misses de Porto Alegre estudaram lá, e a minha colega, era a primeira bailarina da turma que a mãe dela dava aula. Eu pude imaginar quanta pressão ela sofria, e me perguntava se esse era o motivo da ‘dupla personalidade’ dela.
Depois do clube fui para casa, empolgada para começar o livro e apressar a leitura de Sangue de tinta, para alcançar a Andreia, assim poderíamos discutir a história.
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