Encontro Marcado
6 Capítulo 6

Os primeiros raios de sol anunciavam a manhã, acordando Bernardo que foi o primeiro a se incomodar pela luz clara e forte que atravessava a janela, irradiando o local. No “calor” da noite passada, tinha que esquecido de fechar as cortinas. Esse pensamento o fez sorrir, e seus olhos buscaram a sua dona, aquela lhe aquecia o coração só em admirá-la vendo dormir em seus braços. Ele a moveu com cuidado, deitando-a sobre o conforto do travesseiro. Se bem que pelo seu sono pesado, nem a Torcida do Flamengo e a do Corinthians juntas a acordaria. Levantou da cama com cuidado para não lhe atrapalhar o sono. Foi rápido em fechar as cortinas, impedindo que a luz do sol entrasse e incomodasse Emília. Ele ainda sorriu ao ouvir o som do leve ronronar do sono dela. Aquela mulher era martírio e benção em sua vida.
Felicidade tamanha, que ele chegava até a cantarolar enquanto descia as escada em direção a cozinha para preparar o café do manhã. Ele sempre sentia fome ao acordar, mas hoje, acordou com fome de três búfalos. Bem que dizem que um bom sexo abre o apetite. Ele nem reparou no sorriso faceiro que Raimunda abriu ao vê-lo passar tão contente. Gostava dos patrões, ainda mais quando estavam tão amorosos e “famintos”, ficava até mais fácil suportar Emília -n
Ele voltou a subir as escadas, carregando com cuidado a farta bandeja que preparou. Estranhou o fato de Emília ainda estar dormindo, haja vista o tempo que ficou lá embaixo preparando a café. Sem contar que Emília costumava acordar cedo, dizia ela para aproveitar o dia, acordar tarde era para os preguiçosos. Se bem que não era costume ela dormir um pouco mais de uma noite "calorosa". Ao observá-la com mais atenção, notou que a bichinha começava a suar. Ele lembrou de fechar as janelas e cortinas, mas esqueceu de ligar o ar
— Grande Bernardo!! Que marido nota dez eu sou, francamente — Riu dele mesmo, ao ligar o ar, sentindo o vento gélido refrescar o ambiente. Ele ouviu um suspiro vindo de Emília ou era impressão sua? -n
Ele tomou o desjejum sozinho, abandonando a bandeja sobre a cômoda quando satisfeito. Não resistiu a tentação de deitar ao seu lado, e aproveitar um pouco mais do calor que emanava do corpo nu — Como eu te amo, minha doce pimenta — Ele ainda sussurrou, declarando todo seu amor aquele ser feminino que dormia serenamente sobre os lençós amarrotados, em seu leve ronronar, alheia as caricias que ele fazia em suas mechas castanhas num gostoso cafuné. Sem perceber, seus olhos se fecharam para mais algumas horas de sono.
Bernardo voltou a acordar quando já estava perto do almoço, Emília se quer tinha se movido. Teve que pensar duas vezes para resistir a tentação de acordá-la. Mesmo preocupado, desceu com a bandeja para a cozinha, tendo o cuidado para não fazer barulho.
Emília suspirou, acordando de um pesado sono, sentindo na pele o toque gentil da seda e do linho dos lençóis.
Passou os braços pelo travesseiro, afundando o rosto, achando que pegaria novamente no sono. Sentiu um revirar no estômago e achou que era o enjoo matinal. Mas não era, e isso quase a surpreendeu, era fome.
Movendo-se, Emília descobriu que o dia estava claro e havia amanhecido há muitas horas, visto a intensidade do sol que brilhava lá fora, e que ela podia o vislumbre pelas frestas da janela.
Segurando o lençol contra o copo nu, saiu da posição de bruços a qual acordara e sentou-se. Seus cabelos estavam despenteados e embaraçados, corou ao lembrar-se que isso se devia aos toques e carícias que Bernardo fizera com suas mãos imensamente gentis. Emília passou uma das mãos nas mexas, colocando atrás da orelha e fechando os olhos, para relembrar aqueles carinhos inesquecíveis.
Alarmada com o rumo dos pensamentos, abriu os olhos e fitou a cama com pavor. Estava dormindo sobre o colchão puro, pois se lembrava brevemente dele ter tirado os lençóis no meio da noite, com cuidado para não acordá-la. Estavam sujos e úmidos, e eram incômodos, mas agora, ficava chocada de ver o resultado da noite passada, embolado sobre o chão num emaranhado de tecido inútil.
Distraída em pensamentos, se assustou quando a porta se abriu de leve e alguém espiou, relaxou ao ver o rosto aflito de Bernardo, chegando a lhe presentear com um pequeno sorriso
— Boa tarde, minha doce pimenta! — Ele até suavizou a expressão, mais tranquilo ao receber tão belo sorriso, adorando ver as mechas que ele tanto maltratou ontem a noite tão revoltas
— Dormi tanto assim? — Perguntou, e ele não pode evitar achar graça na forma que ela esfregava os olhos amendoados para espantar o resto do sono
— Já já é uma da tarde, meu amor — Ele sorriu ao ver esposa tão confusa
— Meu Deus, Bernardo… eu tenho que ir.. —
— Você não tem que nada. Apenas descanse. Dizem que anemia dá sono, certa fraqueza, não foi o que o médico disse que você tinha? Tem que descansar e se alimentar
Sentiu-se constrangida ao se ver rodeada por tanto carinho e cuidado. Tanto que se sentiu mal por insistir na mentira. Que Deus a perdoe, mas ela ainda não estava pronta para esse amor, o amor mais forte, verdadeiro em qualquer lugar do mundo, o amor maternal. Esse grande amor que tanto lhe fez falta, acreditava na simples lógica de que já que não o recebeu, ele não existia dentro si…
— E hoje é sexta, conta-se nos dedos a quantidade de promotores que vão trabalhar. Não se preocupe, já avisei a Rosa que você não vai hoje. Talvez até pudéssemos comer fora, o que acha? — Ao perceber o silêncio, ele guiou os dedos até o queixo saliente e angular feminino, chamando sua atenção— Emília? —
— Desculpe, meu amor, me sinto um pouco indisposta, o que disse? —
— Nada tão importante. Quer que eu a leve ao médico? Me arrumo num instante! Serei mais ràpido que o The Flash —
Ela riu da piada sem graça, recebendo em troca o belo sorriso masculino que tanto lhe tirava a paz. Acabou imaginando o quão bonitinho seria o filho deles, se ele puxasse pelo menos o sorriso do pai. Recriminou tais pensamentos, e as iris castanhas voltaram para ele.
— Não seja exagerado, é comum. Mas sabe o que você pode fazer? Me dá colo — Ela sorriu faceira ao se mover pelo colchão, e ainda enrolada sob o lençol, se aninhar ao peito dele, não tinha lugar mais seguro.
— Espertinha, nem adianta essa manha, sabe que precisamos conversar – Apesar tom sério, ele ainda sorria do seu jeitinho manhoso, envolvendo, elançando-a com seus braços fortes — As suas reações...Você estava são fora de si… e não digo só por ontem —
— Não é nada, acredita em mim. Eu sei que extrapolei, me desculpa. Não sei porque... Tenho estado tão agitada, nervosa, com as emoções a flor da pele... deve ser o estresse do trabalho. Acredite, eu não gosto disso, mas é mais forte do que eu. E eu fiquei ainda mais nervosa quando liguei Hospital e aquela sua secretária com a cara mais limpa disse que você tinha vindo pra casa — Como sempre, optou pela meia verdade.
— Tudo bem, eu acredito! Mas Dorotéia não sabia mesmo. Eu realmente saí avisando que vinha pra casa. Mas acabei recebendo uma ligação da Lucrécia... Acredite, foi um jantar negócio —
— Um jantar de negócio que sua secretária não tinha conhecimento? — Rebateu, um leve tom de desconfiança
— Emília… — Iniciou, um tom leve de repreensão — Eu já estava de saída. Eu comentei com você sobre o projeto social que ela quer fazer na Baixada Fluminense, lembra-se? Nada mais justo que o Hospital do pai colabore —
— Um jantar que demorou muito por sinal — Resmungou, falsamente chateada
— Mas que coisinha ciumenta — Ele riu, antes de salpicar um selinho no nariz arrebitado, recebendo o som de sua risada como recompensa.
— Quer saber porque demorei? Não conheço muito a Baixada. Sem querer ser preconceituoso, não é um lugar que costumo frequentar. Mas ela quis que conhecesse um pouco o lugar, comemos algo, tratamos sobre valor, e só. O problema é que Alfredo se perdeu com o GPS que indicou a rota errada. E ele ainda teve que cutucar o carro que teve algum probleminha que até agora não entendi.. Vê? Passei mais tempo na rua do que com ela em si —
— Desculpa, mas isso muito agrada — Ela gargalhou, uma gargalhada tao gostosa que o contagiou.. E ele sorriu também
— Alias, você não foi trabalhar, Bernardo? —
— Fui sim, meu amor. Não está me vendo lá na minha sala rodeado de papeis e cafeína? — Sorria descaradamente debochado, enquanto tirava certo sarro da pergunta.
— Seu, bobo – Apesar da canhota que se erguer para um tapa carinhoso no braço dele em falsa repreensão, ela tambem ria – Quis perguntar o motivo, engraçadinho... —
— Ah sim, deixe-me ver… Acho que fiquei preocupado demais com minha linda esposa que estava num sono bem pesado. E passar o dia todinho com você na cama me pareceu muito tentador —
— Hum.. sabe que adoro ficar agarradinha assim com você? Aliás, porque não vamos mais tarde naquele restaurante que abriu perto da praia? Por favor? — Ela fez aquele seu biquinho engraçado acompanho do olhar de que implora,
— Eu adoraria, meu amor, adoraria mesmo. Mas sem bancar o marido controlador, já temos compromisso. Vamos jantar na casa do Dr. Luís –
— Jura que tenho que ir? – Perguntou, um tanto desgostosa
— Desculpe, mas é importante. Luís precisa explorar seus conhecimentos, vamos assinar um contrato. Eu jamais recusaria um pedido seu, sabe disso… Eu te amo tanto — Ele buscou as iris castanhas, a destra afagando a face macia e lisinha de Emília. Ela suspirou, chegou a fechar os olhos para aprecia o toque
— Hum.. está bem, mas eu vou cobrar muito caro por isso — O tom deveras sugestivo, malicioso até.. que ficou bastante claro no sorriso pervertido que desenhou seus lábios. A canhota se embrenhando por debaixo da blusa do pijama dele, sentindo os músculos rijos e firmes … Ahh.. era uma delícia.
Bernardo soltou um leve gemido de contento quando Emília passou as unhas arranhando de leve a carne tenra. O beijinhos em seu pescoço… Ah… ele não ia resistir
— Um banho na hidro, que tal? Estou sentindo um outro tipo fome, bem mais urgente — Ela sussurrou, rente ao ouvido dele, aproveitando para morder aquele pedacinho de carne saliente, recebendo mais um gemido abafado resposta .
Refreando o impulso de tomá-la de imediato, ali mesmo sobre o colchão, ele se levantou. Num gesto rápido, quase bruto, ele a pegou no colo. E sem dizer nada, a levou em direção ao toalete. Mas nem era preciso palavras, o brilho animalesco nas iris escuras falava por si .
Mas mal sabia ele dos Planos de Emília, que era bem simples, levar esse homem a loucura. Porém agora, era difícil manter o curso dos pensamento, pois quando Bernardo tomou seus lábios, enfurnando uma das mãos entre suas pernas, aqueles dedos maravilhosos entre suas dobras, ela esqueceu quase completamente de seu objetivo.
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No andar debaixo, Raimunda levava o paletó do patrão e o blazer da patroa, que foram abandonados no cabideiros, para a lavanderia. Mas, esquecendo de olhar os bolsos, não viu o envelope vermelho que Lucrécia deixou bolso interno do paletó de Bernardo. Carta que irá se desfazer sobre as águas, se ninguém ver a tempo.
Vitória Ventura chegou exatamente na hora marcada para o jantar. Acompanhada do enteado do Bento, seu coração parecia pular de sua boca a qualquer momento. Sim, tinha motivos para estar tão nervosa e ansiosa, mas devia admitir também que rever Luís depois de tantos anos, mexia com ela de certa forma, as vezes sentia-se uma adolescente. Como agora, ao abrir o seu mais bonito sorriso, mais do que feliz em vê-lo
— Luís Carmosino, que bom te ver! — Ela o cumprimentou, entendendo-lhe a mão, gesto que foi acompanhado pelo sorriso majestoso..
Luís a admirou com seus olhos cansados. Admirou a leveza do vestido ao cair e modelar o corpo não tão novo, mas que daria de 10 a 0 em muita novinha por aí, com toda certeza. Admirou o sorriso que ela desenhava nos lábios, e que acompanhava as iris claras que brilhavam pareciam sorrir também…. Sim, o amor que sentia por ela. Passaria um século, mas se manteria intacto. Uma pena não ter dado certo. Ambos sabiam que tudo não passou de uma manobra da Senhora Carmem, mãe de Luís, mas infelizmente o mal entendido foi corrigido tarde demais, ambos já estavam casados e com suas famílias. Então, numa última conversa, ambos aceitaram que se fossem realmente para estarem juntos, o destino teria contribuído; aceitaram que foram egoístas ao jogar todo o amor que sentiam fora por bobagens vãs, e que era tarde demais para achá-lo entre os despojos. Em comum acordo, decidiram seguir com suas vidas depois de tudo resolvido. Alias, quase tudo..Vitória não foi totalmente sincera, escondendo de Luís a parte mais importante de vida dos dois...
— Vitória Ventura! Minhas pupilas custam a se adaptar desde que chegou. Está resplandecente, se me permite dizer. A Europa lhe fez muito bem — Ele pegou com delicadeza a mão oferecida, sentindo o cheiro da pele macia.
— Ah, Luís! Sempre cavalheiro, cavalheiro e galante — Comentava, enquanto sem jeito alargava o sorriso, evidenciado as covinhas rosadas pelo rubor – Lembra-se de Bento? –
— Mas é claro. Estou realmente velho! Ele ainda era um garoto quando o vi pela última vez. Veja, está um homem feito — Luís teve a sua atenção voltada para o jovem senhor, de quase 40 anos de idade, que acompanhava Vitória, e num aperto de mão, o cumprimentou.
— Ora, ainda está muito bem apanhado para sua idade, Dr. Carmosino — Bento o cumprimentou de forma gentil, apertando a mão que foi oferecida, sorrindo de modo afetuoso.
— Um homem feito que não quer me dá netos... — Resmungou Vitória, forjando o tom chateado
— Bondade sua, meu rapaz, bondade sua! — Então ele riu do resmungo da senhora ali presente e teve que comentar — Ah, essa geração… Essa geração só quer saber de tecnologia, Vitória. Os relacionamentos hoje em dia são cada vez mais superficiais. Não como como os no.. da nossa época — Ele ia cometer a garfe de citar o relacionamento deles, mas se interrompeu, bem a tempo. Vitória ainda assentiu, ainda mais rubra. Se Bento sentiu algum clima entre o casal, foi gentil o bastante em não demonstrar — Bom... Bernardo e Emília não devem demorar. Vou até a cozinha ver como está o preparativo para o jantar. Sintam-se a vontade. Vou pedir a uma das criadas para lhes servir um drink. Com licença… —
— Um momento, Luis! E Lucrécia? Ainda não a vi — Ele se virou quase que instantaneamente quando ouviu o seu chamado. Os olhos se encontrando mais uma vez ...
— Luh não mora mais comigo, comprou o seu próprio apartamento por aqui perto. Mas eu a informei do jantar, infelizmente ela já tinha compromisso. Ela anda muito atarefada com a ONG beneficente que está criando na Baixada — Ela assentiu mais uma vez, sem desviar o olhar, presa nas iris castanhas… Mas ele foi obrigado a desviar, a fim de ir supervisionar o jantar como tinha dito.
Bento e Vitória se sentaram sobre o sofá estofado revestido em couro, admirando cada quadro que decorava a casa com requinte. Ele pode sentir toda a tensão vindo dela, ainda mais pelas pernas que ela não parava de balançar. Querendo lhe passar tranquilidade, ele pegou a mão de Vitória, que suava, e a segurou entre as suas..
— Ansiosa para vê-la? Sabe que nem eu acredito as vezes? Quanto mais eu paro para refletir sobre sua história, mais inacreditável me parece. E mais eu te admiro, minha mãe — Com todo carinho e amor que a mulher que o criou merece, Bento levou a mão que ele segurava aos lábios, para um beijo terno!
Vitória, já bastante emocionada, não consegue formar uma palavra. Apenas retribui o gesto atencioso do filho postiço lhe afagando os cabelos.
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