Encontro Marcado
26 Capítulo 26
Notas iniciais
— Não imagina quantas noites eu sonhei que minha mãe ia aparecer algum dia, ia me pegar em seus braços, me pedir perdão e me levaria embora. E eu não ia precisar mais conviver com a esposa do meu pai. Ele era um bom homem, mas viajava tanto…. Me deixava sozinha e era cego para as atitudes da mulher dele – O choro rompeu mais alto, talvez comovida pelas lembranças ruins –
— Eu não sabia com o você era, Emília. Mas imaginava você em meus sonhos. Te abraçava, te chamava de filha. Era só o que faltava para eu poder viver em paz, pra conseguir a felicidade –
— Felicidade? Não, esse é o sentimento que sempre me foi negado pela senhora –
— Não, minha filha. Deus sabe que desde o dia que te conheci, não desejei outra coisa além de que fosse feliz. Por isso estive tão presente, por isso quis impedir que abortasse o seu filho, o meu neto, o nosso menino –
— E acreditou que confessando que era minha mãe ia conseguir? Não, senhora, não adianta. Eu não posso aceitar sua pena –
— Está enganada, Emília, não é pena. É amor –
— Amor? Como pode falar de amor agora, senhora? Agora que estou prestes a perder o pouco que me resta? – As lágrimas rolaram pela maçãs que estava rosadas. Altiva, Emília secou o rosto com as próprias mãos, e cravou os olhos sobre a mulher ao seu lado – Quando eu mais precisei do seu eu não tive, agora é tarde demais
— Minha filha, minha filha .. – Em lágrimas, Vitória suplicou, tentando tocá-la
— Não me toque! – Vociferou – O que a Senhora quer? Me convencer de que me ama e que sempre me quis? Não, senhora!. Eu não sou sua filha e nem quero ser. Eu perdi meu bebê quando fiz a pior escolha da minha vida. Você me perdeu quando me ABANDONOU NA CHUVA. VIVA COM ISSO –
Ela saiu do próprio quarto, desceu a escadaria correndo. Alheia aos gritos de Vitória que implorava pelo seu perdão, implorava para que ela voltasse, Emília pegou o carro, dirigindo sem rumo.
Naquele momento, Vitória apenas rezava pra qualquer deus que fosse, que protegesse sua filha!
(...)
Emília sequer percebeu que ainda vestia o velho e companheiro pijama longo. As madeixas levemente bagunçadas estavam cada vez mais esvoaçadas pelo vento que insistia entrar pela janela do carro e bagunçar seus cabelos. Mas a promotora nem parecia se incomodar, ou estava inerte demais para o simples clique e fechar a janela.
Ela sentia a lágrima percorrer cada poro de sua face, escorrendo pela pele lisa. Uma atrás de outra. Era um choro mudo, silencioso, ela já não sabia por que chorava.. Emília tentava manter os olhos na estrada, mas a sua mente estava longe. Tudo que queria era voltar pros braços daquela mulher, a qual se afeiçoara desde o primeiro momento que a viu. Queria voltar para os seus braços e lhe pedir afago, um consolo que fosse para sua vida que estava tomando um rumo caótico. Mas orgulhosa e inflexível, ela não se perdoava e nem era capaz desse ato tão generoso. Foi então que no mero piscar dos olhos amendoados, para deixar que as lágrimas acumuladas ali seguissem seu fluxo, que levasse um pouco da dor e da culpa embora, foi que tudo mudou. Emília nem sequer percebeu que o sinal fechara, sequer percebeu a rua transversal logo em frente, rua a qual o sinal abrira e um caminhão de carga vinha em sua direção rápido demais para dar tempo do freio fazer seu trabalho.
(...)
Por mais que Emília teimasse em duvidar, ou achasse que seu débito era grande demais, os olhos de Deus caíram sobre ela naquela manhã. Numa manobra até mesmo perigosa, o motorista jogou o carro para o lado, vindo a colidir em um poste na esquina, sem grandes consequências, a não ser talvez, atrapalhar o transito naquele local. Emília mal acreditou ao se ver inteira.
O motorista foi gentil, até mesmo preocupado pelo estado da senhora que ainda estava vestida com o pijama. Insistiu para que Emília o deixasse leva-la até o médico, mas igualmente teimosa, Emília recusou. Pediu inúmeras desculpa e prometeu pagar o prejuízo, mas como estava sem qualquer quantia em dinheiro, cartão, talão de cheque.. até mesmo documento, ela forneceu seu endereço de trabalho, telefone e pegou os dele também, afirmando que entraria em contato no dia seguinte. Percebendo algo errado com ela, o motorista a deixou ir. Não sabia por que, mas confiou naquela mulher de olhos amêndoas.
Depois do susto, Emília dirigiu somente até o estacionamento mais próximo. Passou o carro e a chave pro manobrista e optou por um taxi para chegar até a casa de Gema.
(....)
A campainha tocava insistentemente, enquanto a Sra Fontana se arrumava para visitar os pais. Pedro estava na sala, brincando distraidamente no seu chiqueirinho, de vez em quando sendo olhado pela criada que foi atender a porta. Ela se assustou com a descompostura de Emília, mas a visita apenas gesticulou para que a criada a ignorasse.
Os olhos amêndoas encontraram os olhos confusos do afilhado. Mas em segundos a confusão do menino se dissipou, dando espaço para um sorriso largo e alegre, característico do menino levado só de ver a madrinha. Os braços pequenos se ergueram em sua direção, e então, a emoção transbordou os olhos castanhos, deixando as iris ainda mais brilhantes pelas lágrimas que começava a acumular. E Emília, a muito custo, teve que segurar o choro preste a romper.
Ela abraçou aquela criança, como se naquele simples abraço todo o desespero, toda a agonia, fosse embora! As mãos pequeninas foram guiadas para o rosto da mulher, uma em cada em lado, afagando a pele macia.
— Dodói, diinda? – Pedro perguntou, confuso e preocupado
— Não, meu amor, não. – Mesmo entre lágrimas, ela riu, achando alguma graça naquela pergunta feita pela melodiosa voz infantil
— Chola não – A criança disse, com tanta naturalidade… como se fosse simples.
— Tá bem, não fica assim. A tia para, olha, não fica tristinho – Ela tentou sorrir para tranquiliza-lo, sendo menos inconsequente – Tá tão lindo o meu gatinho, pra onde vai lindo assim? ... Hm.. olha esse perfume, meu nenem ta tão cheiroso – A pontinha do nariz foi guiado para o pescoço gordinho da criança, causando-lhe cócegas.
Aquela risadinha gostosa de criança foi ouvida em resposta, os bracinhos se agarrando ainda mais no pescoço de Emília
— Vamú vovó e vamú vovô – Respondeu, o sorriso sapeca a mostrar o dentinhos
— Ah é? Acho que vou também – Entrou na brincadeira, distraindo-o
Ainda sorrindo, Pedro balançou a cabecinha em negativo como resposta
— Mamãe não dessá – Disse travesso
— E por que não ?
— Se alumar, ficar biito -
— Oé, a minha roupa está muito …. – Ela continuava a conversar com Pedro num dialogo infantil quando foi interrompida com a chegada de Gema
— Emília??? – Parecia mais preocupada do que surpresa. Diferente de Pedro, ela sabia que algo estava muito, muito errado ao reparar no estado de Emília
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