— Obrigada! Pode dizer a Emília que já cheguei?

— Hum.. Não quer se sentar, Senhora? Eu vou verificar se ela pode recebê-la –

Vitória assentiu, ansiosa para mais uma tarde agradável, cheia de risos, piadas sem graça e discursos feministas com a filha. Mas quando ouviu o grito alarmado de Rosa, e a mesma correr ao seu encontro, pálida como fantasma, ela sentiu a agonia lhe apertar o coração, e ela soube que algo estava errado... Sua Milly…..



— A Dona Emília, a Dona Emília! Meu Deus! Ela.. Ela.. Ela está caída lá no chão. Eu não.. –

Vitória nem precisou ouvir mais nada, indo direto para o gabinete, sendo seguida por Rosa.

Tentando conter todo o nervosismo, Vitória se aproximou. A primeira coisa que fez foi sentir os pulsos da Beraldini, que estavam fracos. Ainda mais nervosa do que antes, Vitória verificou se tinha algum ferimento na cabeça da filha que graças a Deus não havia…

— Ela reclamou de alguma dor, Rosa? Se estressou com alguém? – A médica perguntou sem esconder a aflição

— Não, quer dizer, eu não sei — Rosa mal conseguia dizer algo coerente – Dona Emília ficou o tempo todo trancada nessa sala. Faz algumas horas que falei com ela porque o Dr. Bernardo ligou. Ela disse que não ia atendê-lo, que era pra inventar qualquer desculpa, e nem era preciso chamá-la novamente se ele retornasse. E disse que não queria ser importunada em nenhuma hipótese. Mas como a senhora chegou… Meu Deus... – Rosa estava desesperada, parecia cair num choro a qualquer momento

Vitória, mais uma vez sentiu os pulsos de Emília que estavam ainda mais fracos. Sem conseguir ser médica naquele momento, pois tratava-se de sua filha, ligou pra a ambulância.

Foi uma correria só no Ministério, alguns meramente curiosos, mas a maioria estava realmente preocupada. Emília, ainda desacordada, foi carregada pelos enfermeiros por uma maca. Vitória sem pensar duas vezes, a acompanhou dentro da ambulância, e pediu para seguirem até ao hospital em que trabalhava…

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Vitória estava apreensiva na sala de espera.. Depois de tanto tempo longe da filha, não podia crer que agora a perderia. Não, não podia. Deus não poderia ser tão injusto..Será que o inferno que passou longe de sua pequena não foi suficiente para castigá-la? Não, por Deus, não. Vitória precisava, não, mais que isso, Vitória necessitava se ajoelhar e pedir perdão a filha.. ou nunca teria paz. Vitória tinha que recompensar Emília por todo o amor que lhe renegou em razão da miséria. Não, por favor, elas ainda tinham tanta coisa para conversar.. Tanto amor para dar.. Sim, pois sabia sua menina a adorava, mesmo sem saber que era sua mãe… quando descobrisse, não podia ser diferente…

As lágrimas escorriam pelos seus olhinhos cansados, e perdida em seu sofrimento, nem notou seu colega se aproximar.

— Dra Vitória? – Ela virou o rosto tão rápido em sua direção, que poderia rer quebrado o pescoço, tamanha a força

— Então, Dr. Romeo? Como ela está? – Vitória já se colocava de pé, ansiosa por noticias. Já sentindo as mãos trêmulas, péssimo hábito quando tensa ou nervosa

— Acalme-se, está tudo bem. Algum familiar presente? – Ela sentiu as mãos negras e macias sobre ombros a lhe dar conforto, mas mesmo assim, estava difícil se sentir tranquila. –

— Não, ela perdeu a mãe há poucos anos, e o pai não faz muito tempo – O bolor em sua garganta se tornou ainda maior ao constatar que sua menina era uma pessoa sozinha… – Não me esconda nada, por favor –

O médico chegou a sorrir ao ouvir o último comentário de Vitória, não podendo crer em tal despautério

— Vitória!!! Muito me espanta uma obstetra renomada como você não ter observado uma simples ameaça de aborto. É comum nos primeiros meses…. –

— O que disse? – Lhe faltou o ar quando ela ouviu tais palavras. E teve que ouvir novamente, só para confirmar se seus ouvidos não estavam começando a ficar defeituosos com a idade. Ok, ainda era nova demais pra isso, mas…

— Isso mesmo que a Sra ouviu, a Sra Sartorini está grávida. Sofreu uma ameaça de aborto, que sabemos que é comum nas primeiras semanas, mas está tudo bem. Preocupante era a sua pressão, estava num pico muito alto, mas já está regularizada –

Vitória mal podia crer nas surpresas que a vida ainda lhe reservava. Um neto…. era bem mais do que merecia. Não se importou em deixar que as lágrimas viessem aos olhos. O sorriso aberto, genuíno, de puro contento a moldar seus lábios de canto a canto, e que evidenciavam as covinhas graciosas, que intensificavam o brilho das iris castanhas. Ela mal podia se conter de alegria. Se jogou nos braços de Romeo, abraçando, com uma força exagerada. Mas era ela, era ela que precisava de um abraço, precisava botar pra fora toda a emoção que enchia seu coração de alegria.

— Por Deus, Dona Vitória, parece avó de primeira viagem – Alheio as emoções, Romeo sorria ao se afastar, sem entender a motivação de tal encantamento.

— Desculpe.. foi apenas um susto.. eu… Por favor, ignore, chega uma fase da vida que os idosos não sabem o que dizem, nem o que fazem –

— Categoria a qual a senhora ainda pertence – Ele fez questão de dizer, e o sorriso dela se alargou com elogio.

— Eu posso vê-la? – Tentar disfarçar toda a sua aflição e desespero era quase impossível. Ela precisava ver Emília, precisava estar ao seu lado quando ela acordasse.

— Hum.. Não seria melhor um copo de açúcar antes? – Ele brincou, e Vitória riu, conseguindo até mesmo relaxar um pouco – Pode sim, mas ela ainda está dormindo, acho conveniente que ela descanse. Precisa que eu te acompanhe? –

— Não, por Deus.. Que exagero, não, eu sei o caminho – Ela riu ainda mais nervosa. E então se despediu do colega, com mais um abraço.



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Ela adentrou ao quarto. Estava acostumada a entrar em ambientes assim quase todos os dias. Mas hoje era diferente.. Sua menina estava lá dentro. Agora ela entendia os familiares de seus pacientes, principalmente os futuros papais e avós que chegavam ali em plena euforia e preocupação, coisa que ela achava não ter sentido. Riu da ironia do destino, olha quem estava bancando a eufórica e preocupada, agora? O que ela achava piegas, natural, estava sendo uma das maiores alegrias da sua vida.

Ela se aproximou da cama onde Emília dormia serenamente. Parecia até sorrir, talvez essas horas de sono realmente fizessem a bem a ela.

— Milly, minha menina – A voz já embargava pelo choro que queria romper, e as pequenas lagrimas anunciavam cair pelos seus olhos castanhos.

— Que susto você me deu, minha filha – A canhota, um pouco enrugada, afagava o rostinho de Emília, sentindo a pele macia e bem cuidada. Os dedos se embrenharam pelas mechas claras, numa caricia suave. As lágrimas finalmente escorriam pelos seus olhos, ela não conseguiu segurar.

— Um neto, minha filha, um neto… Eu achando que estava em plena felicidade só por encontrar você … Deus.. – Um soluço escapou de seus lábios, mas ela conseguiu manter o choro mudo. Não queria atrapalhar o sono da filha, com ceninha de avó de babona…

— Eu te amo tanto, tanto Milly…. – Declarou, continuando a falar num tom suave e baixinho, quase num sussurro

— Eu preciso do seu perdão, minha pequena… Tenho tanto medo que não me entenda – Ela continuava a afagar a pele macia de Emília, numa caricia suave. E ela nunca se sentiu tão próxima.

Tão perdida, se assustou quando o celular vibrou no bolso da calça do uniforme. Limpou as lágrimas, e deixou Emília por um momento, podia ser Rosa em busca de noticias. Mas ela não conhecia o número

— Alô? –

— Dona Vitória, graças a Deus, é Gema! – Gema estava mais do que aflita no outro lado da linha

— Oi, Gema, como vai? –

— Num desespero só. Eu estava tentando ligar pra Emília porque queria convidá-la pra jantar aqui em casa, mas só da desligado Ligo pro Ministério e Rosa me dá essa noticia. Céus!! Ela tá bem, Dona Vitória? O médico já a viu? Falou alguma coisa? – Gema parecia nem respirar entre uma pergunta e outra.

— Sim, agora está tudo bem, fique tranquila. É que… Ah nem sei como contar isso..Você vai ser tia, Gema – Contou, sem esconder a alegria em seu tom de voz

— Então o bebê está bem? Deus seja louvado!!!! – Gema estava tão nervosa que nem se preocupou em forjar surpresa

— Sim, Emília só sofreu uma ameaça de aborto, comum nas primeiras seman…. Como você sabe se?.. Emília já estava sabendo? – Vitória não pode deixar de perguntar depois da brecha deixada por Gema. Se Emilia sabia.. porque nunca comentou nada? Pior, por que agia como se não estivesse grávida?

Gema se calou no outro lado da linha, percebendo a indiscrição que cometeu

— Gema? –

— Temos muito o que conversar, Dona Vitória. Vou dar uma passadinha aí, saber mais da Emília e vê-la nem que seja um pouquinho. Aí comemos alguma coisa, o que acha? –

— Acho ótimo, estou a sua espera –

Ao desligar, parecia que Gema tinha sugado sua alegria via telefone. As suspeitas que surgiam em sua mente.. Por que ela esconderia a gravidez senão para… Não, nem sequer podia imaginar essa hipótese.

As palavras de Gema a fizeram lembrar que ela não havia comido nada ainda, durante todo o dia. Não tinja fome pela manhã e quando foi almoçar… Seu estômago até reclamou de um jeito desconfortável.

Ela voltou para o quarto, sua filha ainda dormia. Não pode evitar se aproximar novamente

— Minha menina, o que você está arrumando pra sua vida? – Os dedos suavemente contornavam os traços do belo de rosto de Emília. E ela perguntou, mesmo sabendo que não haveria resposta