— Então ela quer mesmo fazer isso? – Era notável o semblante triste na expressão da Ventura ao ter suas suspeitas confirmadas. Porém, mais do que isso.. saber que era motivo da amargura tinha lhe minado qualquer esperança

— Não a julgue. Emília ás vezes se perde nos próprios medos e inseguranças. É como lhe falei, ela... ela culpa a mãe pelo pão que o diabo amassou que ela passou com Maria, que vivia desprezando e a humilhando, fazendo pouco caso de sua situação com o filha adotiva. O pai viajava muito, pelo que ela conta, e nem sabia das barbáries que a esposa cometia. E mesmo se soubesse, cá entre nós... ele não era homem de ter voz ativa. –

— Bom, mas talvez ele realmente não soubesse, afinal ele deixou uma carta dizendo a verdade não foi isso? – O garfo brincava com a comida sobre o prato. Vitória tinha perdido todo o apetite

— Sim, ele deixou. Mas sabe que eu lembro até hoje do dia em que ela descobriu? Acho que tínhamos uns 8 ano na época. Estava chovendo muito, e o Seu Alberto foi lá em casa procurar por ela. Ele tinha acabado de chegar de uma viagem e Emília ainda estava sumida desde manhã cedo.... Bernardo estava na casa do nosso avô. Eu fui procurá-la. E a encontrei na nossa casinha na árvore que criamos bem no fundo do meu quintal… Ela estava tão transtornada…

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Flashback On

Gema escondida, ouvia toda a conversa do pai e do “tio” Alberto, curiosa quando ouviu a palavra Emília. Preocupada, pois até onde entendia sua amiga estava desaparecida, Gema saiu de casa, sem pedir permissão para os pais, a procura de Milly.

A loirinha foi em todos os lugares “secretos”, “só deles”, sem se importar com a chuva que ensopava seu corpo pequeno, mas não tinha nenhum sinal de Emília. Sua última esperança era a casinha na árvore que eles (G, B e E) criaram bem nos fundos da casa dos Sartorini, quase não dava para enxergar. Moleca, ela pulou a cerca dos fundos… e ao entrar na casinha, finalmente a encontrou.

Os olhos de Emília estavam inchados de tanto chorar…. o rosto marcado pelas lágrimas secas que sequer foram enxugadas. Quando Emília viu Gema, ela se atirou nos braços da loira, sem se importar se a amiga estava molhada e certamente se molharia também, em soluços intermináveis e agonizantes.. até para quem ouvisse

Sem saber o que fazer, Gema simplesmente a abraçou, deixando que ela chorasse em seu ombro..

— Eu não sou filha deles, Gê, eu não sou. Por isso ela não gosta de mim… ela não é minha mãe, não é minha mãe.. não é – Gema teve que abraçá-la mais forte, assustada com tamanha força dos seus soluços. Emília suspirava tanto… parecia que algo ia sair das costinhas da amiga em qualquer momento

— Eu não estou entendendo, Milly, fica calma, por favor – Mesmo com dificuldade, pois Gema conseguir ser menor que Emília, mesmo ambas tendo a mesma idade, a loirinha tentava acalentá-la em seus braços pequenos

—Gê, a minha, a minha mãe, ela.. Ela me deixou na porta.. Minha mãe me abandonou.. — Emília não conseguia articular uma frase conexa, tamanha era sua dor e desespero

— Shiu… shiu…estou bem aqui…. – Gema entendia, mas ao mesmo tempo, não conseguia compreender... Fez a única coisa que podia, dar o seu ombro e esperar que ela se acalmasse… – O seu pai, Mih.. Ele... –

— Por favor, agora não, por favor, por favor. Eu não quero, Gema -

— Shiu.. Tá certo, tá certo! Só fiquei calme, por favor. Vem, vem cá –….

Gema se sentou sobre o chão mesmo, e Emília se deito sobre o colo da amiga. Gema ficou lhe fazendo cafuné, a distraindo com conversas vãs e piadas sem graça. Então, Emília confidenciou que Maria revelou que a verdeira mãe de Milly a abandonou como "mera coisa" na porta dos Beraldini. Gema tentou consola-la em seu dialeto infantil. Anoiteceu e elas nem sentiram….

— Vou dormir com você aqui esta noite, está bem? –

— Eu te amo, Gê –

— Eu sei, impossível alguém não me amar – Declarou convencida, arrancando o ultimo sorriso de Emília antes que vencida pelo cansaço, adormecesse em seu colo.

Flashback Off

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— Mas no dia seguinte ela desconversou, dizendo ter sido uma brincadeira de mal gosto da “ mãe”... – Discretamente, Gema enxugava as pequenas lágrimas que vieram junto com as lembranças – Mas no fundo, a carta do pai só confirmou o que a mãe contou… Eu também acho errado sabe? Mas Milly já sofreu tanto que… –

— Você é uma ótima amiga, Emília tem sorte em ter pessoas como você ao lado dela –

— Desculpe, eu não queria lhe deixar triste. Emília vai querer minha cabeça por ter lhe contado. Mas você tem sido tão… presente na vida dela. Não queria que tivesse uma concepção tão negativa…–

— Não, não é isso.. eu só estou surpresa. Eu…. Mexe com a gente, sabe? – As primeiras lágrimas desceram, e era incrível que ainda conseguia chorar.

Para Gema, era apenas emoção de uma pessoa que está comovida. Mas para Vitória era a dor… A dor do arrependimento. Era a vida lhe cobrando os erros passados.



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Gema infelizmente não pode esperar que Emília acordasse. Pedro estava febril, aquela virose característica comum em crianças. Porém saiu do hospital mais tranquila quando o médico lhe garantiu que a cunhada estava inteiramente bem.

Vitória ainda ficou, ignorando o pedidos de Romeo de que ela fosse para casa. Ligou para Rosa, tranquilizando-a, mas sem maiores informações. Ela ficou ali, velando o sono da filha, segurando-lhe a mão como se o simples gesto fosse suficiente para lhe transmitir sentimentos bons, plena paz…

— Nunca mais vou te deixar… Nunca… Nunca mais – Prometeu, antes de ser vencida pelo cansaço das emoções… Ainda dormia quando Emília acordou.