Encanto
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Ainda me sentia um pouco desconfortável, porém agora administrava melhor meus movimentos. Meu corpo, enfim, estava me obedecendo, o que já era um avanço. Dezenas de dúvidas pairavam sobre minha cabeça, mas o cansaço me impedia de analisar os últimos acontecimentos com mais clareza. Recordava-me vagamente daquela sala escura e cheirando a mofo; alguns rostos entraram em meu campo de visão e forcei um risinho aliviado por não ter sido deixada sozinha.
Havia dois homens parados um pouco adiante, os rostos cobertos de sombra, ambos mergulhados em silêncio. Mas mesmo sob a penumbra via-se o quanto eram altos, atraentes talvez. Um deles tinha cabelos claros e rebeldes, cujo brilho cor de ouro atravessava a escuridão. Seus olhos – duas esmeraldas intensamente vivas – me espiavam com certa curiosidade. O outro parecia mais velho , a barba cerrada, cabelos compridos que lhe caíam acastanhados na altura das orelhas, o nariz fino e empinado. Sua cabeça inclinou para a direita quando nossos olhares se cruzaram e ele me sorriu com placidez.
— Ainda consigo ler sua mente, sabia? — Os olhos verdes do rapaz mais novo se estreitaram, inquisitivos.
Fitei o chão, sentindo minha by Text-Enhance\">pele arder de vergonha. Como se desligava aquela coisa?
— Ainda não fomos apresentados — O mais velho se pronunciou e sua voz tranquila acalmou meu coração de imediato. — Sou Julien.
— E eu sou Cayden — Completou o mais novo, eliminando uma de minhas primeiras dúvidas, sobre quem ele era.
O silêncio perdurou por alguns segundos.
— Sou Emi.
Eles trocaram olhares entre si, com toda certeza já sabiam quem eu era. Foi apenas uma formalidade e me senti bem idiota pela falta de percepção.
— O que aconteceu exatamente? — Respirando fundo, forcei-me a perguntar.
— Você foi possuída por um espírito e salvamos você da morte – Respondeu Cayden com acidez, os olhos apertados fixos nos meus.
— Quanta sensibilidade! — Contrapôs Julien, revirando os olhos e guardando as mãos nos bolsos do jeans escuro. — Na verdade — Julien dignou-se a me explicar claramente as coisas e senti uma pontada de gratidão por ele estar conosco, me poupando da ira silenciosa e, até então, inexplicável, de Cayden. — O feitiço que você e Fionnulla realizaram sofreu uma alteração e acabou por despertar um antigo espírito. O espírito de uma bruxa da Era Medieval. Abadah, pra ser mais exato — Cayden, ao lado de Julien, soltou um suspiro exasperado e eu me encolhi, com medo dele. — Quando você a libertou, pagou o preço pelo feitiço. Um preço que foi pago diretamente à ela. Um tributo. Isso quer dizer que você ofereceu para Abadah algo em troca da concretização do feitiço que você finalizou, e esse tributo é a sua vida.
— O quê...!? — Eu arregalei os olhos, perplexa e descrente. Então, aquela era a explicação plausível para tudo o que havia acontecido até o momento em que despertei? Não, não podia ser verdade!
— Ela deve dominar e exterminar a alma daquele que a trouxe de volta, tomando-lhe o corpo — Julien fez uma breve pausa, no que sufoquei um grito horrorizado com as duas mãos tampando a boca. — Depois que encontramos você, ou melhor, o seu corpo, uma série de fatos ocorreram. Primeiro, uma batalha foi travada entre você e o espírito — olhei-o confusa, e Julien continuou mais devagar. — Quero dizer, seu corpo com a alma de Abadah.
— Isso... É tão... Surreal — Murmurei, mas ainda que a ideia de ter meu corpo possuído por um espírito que eu mesma havia ajudado a libertar me soasse pavorosamente, eu precisava saber o que, de fato, havia acontecido. Era da minha vida que estávamos falando.
— Precisa começar a abrir seus olhos para essa nova realidade, Emi. Do contrário, todos vamos correr grande risco — Ponderou Julien, veemente. Quando fiz que sim com a cabeça, ele continuou. — Bem, depois que seu corpo foi dominado, conseguimos remover Abadah e com ele qualquer vestígio deixado pela bruxa. Porém, o ato exigiu seu preço.
— Como assim? — perguntei ainda mais confusa.
— Vê o símbolo em seu pulso?
Puxei lentamente a blusa e pude notar um desenho entalhado em minha pele, como se tivesse sido queimado a ferro, o contorno negro e sinuoso, formando o símbolo do infinito.
— O que significa isso? — Perguntei enquanto analisava o símbolo, as pontas dos dedos correndo por todo o contorno.
Cayden e Julien trocaram olhares rápidos e percebi que ambos pareciam debater em silêncio sobre a melhor maneira de responder minha pergunta.
— O que significa? — Insisti, meu corpo esquentando e a cabeça começando a girar, seguindo o ritmo de minhas náuseas.
— Uma vida, dividida em duas. Para sempre — A mulher de quem agora me lembrava, Fionnulla, dona da loja de artefatos místicos interrompeu o silêncio, trazendo luz às minhas dúvidas. Cayden, no lado oposto ao dela, suspirou, ligeiramente incomodado, os olhos focados num ponto distante. — O que foi feito, não pode ser desfeito.
— O que quer dizer? — Indaguei, o cérebro pulsando, como se quisesse explodir e vazar por meus ouvidos.
— Você estava a um passo da morte, Emi — Murmurou Julien muito sério. — E foi preciso... Um encanto, para trazer vida a você de novo. Um encanto que repartiu uma vida saudável em duas. E parte dessa vida agora reside em você.
— Como é...!? — Sufoquei o ar dentro dos pulmões, horrorizada. Minha cabeça ardia e latejava, meu estômago revirando perigosamente.
— O menino se voluntariou para partilhar a vida com você. Mostre a ela — Mandou a bruxa, virando para Cayden, escondido no canto mais escuro da sala. Mesmo contrariado, ele obedeceu, vindo para a luz e esticando o braço, cujo pulso exibia o mesmo símbolo do infinito que o meu — Viu? Uma vida, dividida em duas. O futuro de um será o destino do outro. Unidos. Para sempre.
Fitei Cayden sem saber o que dizer ou pensar. Ele forçou um sorrisinho sem humor, mas dava para ver a tensão enrijecendo seus músculos e o medo tremular dentro de seus olhos, refletindo o meu próprio. Nós dois, pólos opostos, agora dividindo a mesma vida. Como as coisas poderiam ficar piores?
Notas finais
Não copie!
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