Encanto

10 Capítulo 9


Notas iniciais
Bem-vindos! Ficamos felizes com suas visitas, então, volte sempre! rs
Enfim conseguimos postar mais um capítulo, qualquer erro avisem!


Era estranho saber que eu dividia a vida com o Cayden-assustador. Foi assim que o apelidei, porque ele me transmitia uma sensação horrível de medo. Contudo, nada estava diferente, apenas a metade de uma vida alheia pulsando dentro de mim e me fazendo funcionar. Normal. As lembranças da morte de Leo, o feitiço, o fantasma chamado Abadah, Cayden e Julien, a velha dona da loja de artefatos místicos e minha própria quase morte agora só me pareciam lendas urbanas, enterradas num passado distante. Mesmo que Abadah ainda passeasse à solta pela cidade, eu sabia que nunca estaria sozinha. O pedaço de alma dentro de mim me fazia lembrar disso. No final, ele sempre estaria comigo.

Depois de escalar com dificuldade a trepadeira que subia ao longo da parede dos fundos de casa e invadir meu próprio quarto pela janela, escorreguei para debaixo das colchas e fechei os olhos. Passava das seis da manhã e Lena não demoraria a bater em minha porta para me acordar. Muito consciente do quanto estava suja e molhada, virei de bruços e tentei dormir um pouco.

Como era de se esperar, Lena me acordou e fui obrigada a me descarregar do conforto quente de minha cama e me arrumar para a escola. Antes de sair do quarto, escondi as roupas sujas, na tentativa de decidir o que fazer com elas mais tarde, afinal, como eu poderia explicar toda aquela bagunça?

Aimée estava na cozinha, concentrada em sua tigela de cereal, mas sorriu torto quando sentei ao seu lado minutos depois.

— Não está atrasada para pegar o ônibus escolar? — perguntei, me servindo com torrada e geleia de morango. Sentia-me renovada depois do banho e até mais disposta para a aula de geometria daquela manhã.

— Hum — ela pigarreou enquanto mastigava, os olhos brilhando para mim. — Não posso ir à escola hoje. Estou doente.

— Doente? — indaguei, observando-a devorar o café da manhã como só uma pessoa em plena saúde poderia fazer. — O que você tem?

— Gripe — murmurou ela, dando de ombros. — Você também devia ficar em casa hoje.

— E por que eu faria isso? – ergui a sobrancelha em descrença.

— É perigoso sair sozinha – sussurrou ela, enchendo a boca com leite.

— Perigoso? — Repeti.

— É — ela disse sem me direcionar o olhar.

— Que bobagem!— eu ri com ironia.

— Tome cuidado.

Me levantei e fitei Aimée antes de seguir para a sala. Aquilo parecia um aviso. Na verdade, Aimée parecia estranha. Talvez estivesse mesmo doente, no fim das contas. Sem perder mais tempo com minha irmã e seu tom excepcionalmente soturno, levantei-me da banqueta e corri para a sala. Depois de atirar a mochila sobre as costas, me despedi de Lena no jardim da frente e corri para calçada banhada pelo sol ameno. Ainda fazia frio e enrolei um cachecol branco no pescoço, amarrando-o com um nó frouxo. Enquanto caminhava, coloquei os fones nos ouvidos e liguei o Ipod. Estava tão distraída que não notei a sombra que caminhava sorrateiramente ao meu lado.

— Minha nossa! — gritei assustada, e por pouco não me estatelei no chão ao vê-lo. — Cayden!? O que faz aqui?

— Que pergunta é essa? — Resmungou ele, mal-humorado. Os cabelos castanho-alourados caiam-lhe sobre os olhos, rebeldes e vibrantes. Um sobretudo preto cobria boa parte de suas roupas, dando-lhe uma aparência quase sombria. Mesmo assim, pude ver a calça jeans e os tênis All Star surrados. Ele escondeu as mãos nos bolsos do casaco de lã e ergueu os ombros, sem entender, seus olhos verde-dourados pelo sol espelhando meu rosto surpreso.

— Por que está me seguindo? — questionei baixinho, temendo que ele não estivesse na mesma sintonia que a minha e que desabasse sua avalanche de mau-humor sobre mim às sete da manhã.

— Pense bem, Emmeline. Sua memória foi apagada? Esqueceu o que aconteceu nos últimos dias? — resmungou ele, estreitando os olhos naquela expressão que me fazia encolher de medo. — Você precisa de proteção extra.

— Quer dizer que passará o dia todo me seguindo feito um cachorrinho? — Boquiabri, perplexa com a possibilidade de ser milimetricamente seguida pelo senhor-assustador.

Ele trincou o maxilar e pude ver seus olhos escurecerem, tomados por algum sentimento obscuro. Engoli seco e instintivamente recuei alguns passos. Meu corpo todo foi eletrocutado por sua expressão severa e me vi preparada para correr dele ao som de suas próximas palavras. Porém, o sorriso falso que brotou em seus lábios logo depois me fez relaxar e suspirar, aliviada.

— A ideia também não me agrada, acredite — sibilou ele, inclinando a cabeça para a direita e deixando os cabelos caírem ondulados sobre os olhos.

Abri e fechei a boca, sem saber como discutir aquela questão. Enquanto pensava em algo para dizer, Cayden avançou e segurou-me pelo braço, nos fazendo andar. – Agora vamos, se ainda quiser chegar na escola hoje.

Não pude reivindicar meus direitos. A expressão zangada de Cayden dera cabo de todo e qualquer argumento que eu quisesse retrucar. Ele continuou me arrastando pelo braço até a esquina e me soltou quando paramos diante de uma moto Yamaha R6, preta.

— Coloque — Mandou ele, oferecendo-me um capacete preto e pegando outro para si.

— Acha mesmo que vou subir nisso? Com você? – A ideia me fez gargalhar. Eu nunca havia andado numa moto em minha vida, e sem dúvidas não era meu meio de transporte preferido. — Não vou subir nisso!

— Se você não colocar esse capacete e subir em dez segundos, eu mesmo o farei por você — vociferou ele, impaciente, os olhos vibrando num verde profundo. – Agora ponha logo isso!

À contragosto, eu ajeitei o capacete na cabeça e me sentei atrás dele, sem saber direito onde me segurar. Talvez as pessoas tivessem que ter muito senso de equilíbrio para sentarem numa moto. Coisa que me faltava, aparentemente. Depois que sentei, tateei o banco em busca de alguma parte onde pudesse me segurar, mas Cayden puxou minhas mãos, colocando-as ao redor de sua cintura.

— O quê...? — Ruborizei de imediato e meu corpo enfraqueceu, mole como gelatina. Meu coração retumbou tão forte que achei possível Cayden perceber as batidas aceleradas contra suas costas.

— É melhor se segurar em mim — murmurou ele antes de arrancar com a moto.

Seus cabelos foram jogados para trás com toda força pelo vento. Pude sentir o perfume amadeirado arrastando-se com o vento em minha direção, invadindo minhas narinas de modo inebriante. O efeito era alucinante, e me deixou completamente perdida. Era, com toda certeza, o melhor cheiro que já havia sentido. Foi então que Cayden freou, me impulsionando contra suas costas e me arrancando ferozmente de meus devaneios.

— Chegamos — ele disse enquanto eu ainda tentava me recompor.

Por quanto tempo eu tinha ficado fora de órbita? Segundos? Minutos? Nunca tinha feito o trajeto para a escola num tempo tão curto. Entontecida pelo cheiro suave e marcante de Cayden, desci da moto e tirei o capacete, repousando-o no banco. Ajeitei os cabelos com os dedos, enquanto os olhos estreitos de meu motorista-vigia me observavam sem piscar pelo visor transparente do capacete.

— Obrigada pela carona – murmurei, envergonhada, a mochila presa sobre um dos ombros.

— Estarei aqui na hora da saída – respondeu ele em seu tom rígido e habitual. Eu o vi endireitar a moto e dar a partida — Não saia sem mim, você me entendeu?

Algumas meninas que entravam no pátio em grupos de cinco e seis nos viram juntos e lançaram risinhos indiscretos em nossa direção. Os olhares curiosos iam de mim a Cayden e o corriam de cima a baixo. Meu subconsciente me dizia que ele era o maior incentivador de gritinhos entre elas. Eu bufei, me odiando pelo pensamento inesperado, mas tinha que concordar com elas. Ele era atraente. Sacudi a cabeça com discrição e percebi que Cayden ainda me encarava, esperando, impacientemente, por minha resposta.

— Sim – murmurei zangada.

— Ótimo — Pude perceber o sorrisinho amargo dele mesmo sob o capacete — É melhor você entrar. Não quero ter que esperar você passar pela detenção mais tarde por se atrasar pra aula.

Antes que eu pudesse pensar numa resposta inteligente para cuspir contra ele, Cayden equilibrou-se na moto e desapareceu, virando na rua seguinte.

Quem ele pensava que era para falar comigo daquele jeito? Como era odioso e irritante! As coisas não podiam estar ganhando um rumo pior. Ter que dividir a vida com Cayden, um cara que me dava medo e raiva, tudo em grandes proporções. E ainda por cima precisava aceitar ser vigiada por ele. Ele? Mas quem era ele? Ou melhor... O que ele era? Estava tão perdida em pensamentos que mal havia notado Luke, meu amigo, parado em minha frente, os lábios crispados numa expressão curiosamente sombria.

— Ei, tudo bem? – perguntou-me ele, mas sua atenção estava em algum lugar além de mim. — Quem era o novato?

— Hãn... Ninguém importante — dei de ombros, mas minha voz fraca e trêmula entregou meu nervosismo. Luke estreitou os olhos negros, avaliando-me em silêncio. Forcei um risinho desinteressado e ajeitei a mochila sobre o ombro. — É só um amigo.

— Amigo, é? – Ele pareceu mais interessado. Encostou-se em um dos armários do corredor e afastou a franja de cabelos pretos dos olhos com um abano da mão. — Que amigo? Como o conheceu? Eu nunca a vi com esse cara...

Luke era mais que um amigo, era praticamente um irmão. Porém as vezes ele tomava algumas atitudes que me deixavam intrigada. Essa era uma delas. Seus olhos negros ganhavam um brilho desconhecido e quase cruel. Movimentando os dedos pelos cabelos negros e curtos ele questionou novamente:

— E aí, vai me dizer como o conheceu ou terei que adivinhar?

— Bem, foi mais ou menos... É... Assim, nós estávamos, é... É que ele e eu, nós...

Luke ergueu a sobrancelha, descrente. Senti meu sangue ferver e o rosto queimar de vergonha. Precisava aprender a mentir melhor que aquilo.

Para minha sorte, o sinal ecoou forte e estridente por toda a escola. Os grupos de estudantes que ainda conversavam pelos corredores se desfizeram e cada um tomou o rumo de sua sala de aula. Luke ainda me fitava com uma desconfiança ferida, como se soubesse que o estava enganando.

Eu não queria esconder-lhe a verdade, mas não podia contar o que realmente tinha acontecido. Ele nunca entenderia.

— Olha, Emi, eu não me importo que faça novos amigos — o tom dele denunciava seu rancor e saber que Luke não estava contente me entristeceu. Ele caminhou de costas, na direção de nossa sala de aula, no fim do corredor, a expressão séria e inflexível. — Mas tome cuidado com esses seus novos amigos. Nem todos serão como eu sou com você.

Notas finais
Obrigada por vir! Não esqueça de comentar antes de ir! Até o próximo capítulo =)

Não copie!