Encanto
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Luzes passeavam por sobre minha cabeça. Lindos fachos cintilantes clareando a chuva. Eles passavam fugazes por minhas retinas irritadas. Eu podia vê-los entre as piscadas de olhos. E então, as luzes viraram sombras e uma massa disforme desceu sobre mim, escondendo-me, como um cobertor pesado e úmido, sugando todo o meu ar. Meus olhos saltaram nas órbitas, queimando e lacrimejando, em minha ânsia de encontrar a luz. Podia sentir meu corpo sendo esmagado pelo cobertor de trevas, tremendo, os ossos estalando nas articulações. Uma dor tão profunda que me levara à beira de um desmaio.
— Aguente — Ouvi um sussurro, uma voz fraca, mas firme, de alguém que eu não conhecia ou sabia onde estava. — Apenas aguente.
Aguentar? Aguentar o quê? A dor? Eu mal controlava meu corpo. Me sentia tão apertada e tão dolorida que qualquer esforço era excruciante. Não, eu não tinha mais forças. Não aguentaria por muito tempo.
Mesmo no escuro, pude distinguir alguns sons ao longe. O ranger de uma porta sendo escancarada, estatelando-se contra uma parede. Sinos? Não. Consoles de cristais, talvez, tilintando sem parar, mas tão distantes que deveriam estar pendendo do céu. Havia vozes ao meu redor, e elas conversavam rápido demais para eu compreender o que diziam. Estava quente. Eu estava quente. Pegando fogo. Dava para sentir as gotas de suor escorrendo por minhas têmporas, passeando por meu rosto. Eu queria gritar para que arrancassem de cima de mim aquele cobertor negro e pesado, que me ajudassem a respirar, porém meus lábios não obedeciam.
— Você deixou isso acontecer, bruxa! Agora desfaça! — Urrou a mesma voz que falara em meu ouvido alguns instantes atrás.
— Faça alguma coisa! A culpa disso é sua! — Bradou uma outra voz, masculina, talvez.
— Não há muito que eu possa fazer por ela — Alertou uma terceira voz, mais rouca e contida, a voz de uma mulher, que soou-me remotamente familiar. — Vocês extraíram o mal de dentro dela, mas o mal a quer morta. Talvez seja o caso de deixá-la ir e trancar-lhe o corpo em chamas...
— Está me dizendo que quer atear fogo nela!? — Essa voz parecia não acreditar no que estava ouvindo.
Abri os olhos, assustada. Algo perto de meu ouvido vibrou com força. Mesmo sob camadas e camadas de escuridão, eu podia ouvir um coração batendo, rápido, poderoso, como o coração de um animal forte e sem medo.
— Sabemos que pode reverter essa bagunça! — Rosnou a segunda voz e então ouvi um baque, como algo grande batendo contra uma superfície de vidro. — O que está esperando!?
— Tudo bem, tudo bem! — A mulher choramingou num fio de voz. — Há uma forma de segurar a vida nela. Mas... Vai exigir uma outra vida em troca.
— O que quer dizer? — O coração ao lado de meu ouvido acelerou.
— Ela se refere a um encanto — Explicou a segunda pessoa num tom desconfiadamente calmo. — Um encanto para dividir uma vida... Em duas.
— E um de vocês deve se voluntariar para dividir a vida com essa criança — Avisou a mulher muito baixo. Eu não a via, mas conseguia sentir seu medo.
— Eu farei isso – O coração ao meu lado estufou e murchou, batendo fraco e receoso. – Diga-me o que tenho que fazer.
— Vamos para minha sala – A mulher fez um som estranho com a boca e no minuto seguinte eu estava em movimento, cortando o silêncio e deixando o som dos consoles de cristais ao longe.
Mesmo entorpecida pela dor e pelo medo, pude ouvi-los caminhando em silêncio. Uma das pessoas me embalava nos braços, trazendo-me junto a seu coração que batia num ritmo forte, galopando pesadamente, assim como o meu.
— Vai ficar tudo bem — Senti dedos frios deslizando suavemente por meu rosto e a voz calma de antes penetrar meus pensamentos, eletrocutando meu corpo.
Meu olhar se perdia no ar, e a angústia por não enxergar ou falar devastava-me por dentro. Eu queria desesperadamente saber o que acontecia em meio aquele silêncio, mas tudo o que me restara era esperar. Esperar para que todos eles estivessem trabalhando juntos em uma forma de me salvar daquela escuridão.
De súbito, meu corpo parou de se mover e fiquei só. Ainda sentia frio, ainda submergia nas trevas de algum lugar no fundo de minha mente. Alguns sussurros ecoaram a minha volta, contidos e rápidos. Depois foi o vento, vidros tilintando, portas ou janelas batendo com força. Alguém entoava um cântico estranho, que me deixou aterrorizada. Eu tentei gritar para que parasse, mas meus lábios não eram meus. E como que para fechar a tampa da panela de horrores a minha volta, meu corpo se incendiou, atirado em chamas que eu não podia ver, mas conseguia sentir perfeitamente. Eu estava sendo queimada viva e nem podia gritar por mim mesma.
Um turbilhão de pensamentos me invadiu. Senti fortes dores pelo corpo, grande parte delas se concentrando agora num único braço que ardia, como se chafurdado em ouro derretido, uma dor insuportável, aumentando e diminuindo no ritmo de meus esforços para me mexer. Minha respiração ofegou. Arrepios e tremores percorreram meu corpo em ondas. E, de repente, acabou.
Minha mente era a única que funcionava, um tanto precariamente. Não sentia nenhum de meus membros, nem ao menos o coração bater. Absolutamente nada. O ambiente mergulhara no mais profundo silêncio. Eu estava morta? Ah, com certeza estava!
— Na verdade não — A voz masculina vibrou em algum lugar distante.
— Onde estou? – Cautelosa, arregalei meus olhos e vislumbrei sombras ao meu redor, sombras que, pouco a pouco, formavam silhuetas humanas bizarras no escuro.
— Em um esconderijo seguro — Ele fez uma pausa. — Consegue se mexer?
— Isso é impossível... – Eu choraminguei arfante, meu coração pinoteando tão forte no peito que parecia tentar partir minhas costelas. Forcei a vista em meio ao negrume, buscando colocá-lo em foco, mas o esforço só desencadeou uma horrenda dor de cabeça em mim.
—Tente!
Aquilo era uma ordem. Uma ordem dura e inflexível, do tipo que não aceitaria mais objeção. Puxei o ar pelo nariz e o segurei nos pulmões. Tremendo e com medo, movimentei um dos dedos com dificuldade.
— Ótimo! Agora concentre-se em sua respiração. Esvazie a mente – Seu tom frio e autoritário causou-me arrepios ao longo da espinha. — E faça melhor que isso.
Obediente, segui seu comando. Meus olhos, acostumando-se a escuridão, focalizaram um teto sujo e descamado acima de nossas cabeças. Descendo pela parede, observei prateleiras apinhadas de vidros, potes, livros, uma infinidade de objetos estranhos, jogados uns sobre os outros. Virei-me para o vulto negro ao meu lado e o medo me fez estremecer. Duas safiras verde-oliva brilhavam para mim, sem piscar, como se me enviassem ordens em silêncio. Ordens que me diziam que eu estava perdendo tempo. Suspirando, tentei erguer o braço, porém não surtiu o efeito esperado e ele caiu mole e desajeitado sobre a superfície de metal onde eu jazia.
— Hum — O rapaz bufou, irritado, e eu me encolhi. Queria saber quem ele era, fazer-lhe perguntas, porém não houve brechas para que eu pudesse falar. – Consegue sentir isso? – E meu corpo inteiro se eletrocutou quando seus dedos correram levemente do dorso de minha mão até o braço.
— Sim — Respondi, piscando mais do que o necessário. Foi então que percebi uma coisa. Uma coisa que até então me era surreal demais para acreditar ser verdade.
— Concentre-se Emmeline...
Ele estava dentro de minha cabeça, falando comigo em pensamentos. E eu o estava respondendo! Pisquei algumas vezes mais, num misto de descrença e espanto. O que mais poderia acontecer?
— Muita coisa, acredite!
Entreabri os lábios e balbuciei algo como quem é você? Em resposta, um longo sorriso distendeu-se naquele rosto envolto em sombra.
— Está recuperando o controle sobre seu corpo. Continue tentando.
Notas finais
Seja legal e não copie!
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