Encanto
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Acordei na manhã seguinte com uma dor dilacerante em minha cabeça, o quarto ainda entregue a escuridão, cortinas fechadas, o ar pesado e frio. Em outro tempo aquele fora um lugar alegre, uma caixinha de lembranças calorosas. Virei para o lado e o vislumbre de Leo esparramado em minha cama, os cabelos castanhos e revoltos sobre os olhos brilhantes, o ar de fascínio ao prestar atenção em mim me fez estremecer, consternada. O medo puro e irracional de nunca mais tê-lo comigo tornara-se minha companhia mais constante, pulsando em minhas veias, atormentando meu sono. Naquela noite, como em todas as outras, eu pouco tinha dormido. Pensei tanto em Léo que tive sonhos e pesadelos com ele. Não sabia mais o que era real, sonho, pesadelo ou ilusão. Não estava indo para a escola desde seu enterro na semana anterior, mal levantava da cama. Me deixei mergulhar fundo, muito fundo na tristeza. E de vez em quando, nos meus poucos momentos de lucidez plena, eu atinava para o que havia acontecido, como se meu inconsciente, compadecendo-se de mim, ligasse o botão de raciocínio dentro do meu cérebro. Não fora um simples pesadelo. Tinha mesmo acontecido. A morte de Léo, o ritual...
Mergulhei nas águas torrencialmente quentes do chuveiro. A cascata desceu por meu corpo, aliviando por um momento as dores que me ferroavam a alma. Eu precisava voltar para a escola. Tinha que encarar a todos, todos os nossos amigos, professores e suas famílias. Nada poderia ser mais martirizante do que os olhares penosos deles, as palavras que sairiam por seus lábios...
– Meus pêsames, Emi..
– Sinto muito por sua perda, Emi...
A menção disso acontecer fez meu estômago revirar, enojado. Só eu sabia o que estava sentindo. Só eu carregava aquela perda.
Encontrei Lena, minha madrasta, na cozinha. Eu sabia que ela não estava frequentando o trabalho há dias, e que hora e outra espreitava pela porta de meu quarto, certificando-se de que eu ainda estava lá, inteira. Viva. Uma ideia sombria me perpassou os pensamentos e eu engoli em seco, temendo a mim mesma. Até onde eu poderia chegar sob o efeito daquela dor irreparável?
– Filha... – Lena, a quem eu chamava carinhosamente de mãe, virou em minha direção, o ar sufocado dentro da boca. Seus olhos castanhos irradiaram um brilho quase esperançoso por me ver ali, de banho tomado, sem o pijama, os cabelos escovados. Limpa. Humana. Ela largou o telefone sobre a bancada da cozinha sem desviar a atenção de mim, um risinho sem humor estampando-lhe os lábios. – Tudo bem?
Meus pelos se arrepiaram e meu coração inflou, angustiado. Nunca estaria tudo bem. Mas movi a cabeça em afirmativo, poupando-me de seu interrogatório mais do que inconveniente. Lena era psicóloga e sua especialidade era analisar o meu comportamento, o de papai e o de Aimée. Aquilo devia ser proibido por lei.
– Sente-se – A pele de Lena enrubesceu e para disfarçar a precariedade de nosso primeiro diálogo em dias, ela enrolou os cabelos negros num coque acima da cabeça. Eu obedeci sob seu olhar plácido, me acomodando no tamborete junto à bancada. De imediato, ela providenciou um prato, copo, talheres e retirou do forno uma travessa com torta de frango, repousando-a sobre o apoio a minha frente. – Fiz para o jantar, mas você pode comer um pedaço agora.
Lena estava fazendo um esforço enorme para manter-se calma e controlar sua vontade de me entulhar com perguntas. Na tentativa de evitar seu olhar aguçado e o questionário que eu sabia que estava à caminho, cortei uma generosa fatia de torta, coloquei em meu prato e garfei alguns pedaços, sem real vontade de comer. No fundo, a única coisa que eu queria era sair do enclausuramento de meu quarto e das lembranças que ele me proporcionava.
– Ei, saiu do casulo? Mal posso acreditar!
Aimée largou-se ao meu lado no sofá, cortando o silêncio da sala. Me perdi em pensamentos tão profundos que mal a vi chegar. Minha irmã alisou meu rosto com delicadeza e suspirou, entristecida. Vestia jeans e All Star, o tipo de roupa que preferia para ir para a escola.
– Você vai sair dessa, Emi – Murmurou próximo ao meu ouvido e pude sentir o cheiro de baunilha de seu xampu de cabelo.
Eu sairia? Eu conseguiria abandonar minhas lembranças, os últimos acontecimentos?
Os últimos acontecimentos. A ideia me fez enjoar. Estava um pouco perdida, sem saber ao certo o que tinha feito e quais seriam as consequências. Recordava muito vagamente das palavras da dona da loja de artefatos místicos, mas como esquecer sua expressão aterrorizada diante de minha intromissão em seu feitiço? E a voz? A estranha voz suave e ameaçadora que falara ao meu ouvido assim que o feitiço fora completado?
– Um tributo... Um tributo deve ser pago...
Que tributo? O que deu errado no ritual? Por que diabos eu aceitei fazer aquele ritual, afinal? No fundo, algumas dessas perguntas tinham respostas, mesmo que eu me recusasse a acreditar. A simples ideia de ter o meu Leo novamente em meus braços, ali, sorrindo, me fez perder a razão, me fez crer em ritos mágicos, onde se pode dar vida a quem já não está mais entre nós.
– E então? – Aimée me trouxe de volta de meus devaneios, os pés balançando entre o sofá e a mesa de centro. – Já sabe o que vai fazer no sábado? Sei que parece meio mórbido agora, mas... é uma data importante, você não acha? É preciso comemorar!
– Como? – Eu pisquei, sem entender.
– Dã! – Aimée martelou a própria testa com a mão em punho, uma risadinha divertida nos lábios, os olhos cor de ouro derretido, como seus cabelos, cintilando. – Sábado, bobinha. Seu aniversário.
Décimo oitavo aniversário... Um arrepio subiu-me pela espinha, eletrocutando-me por dentro quando uma voz etérea e fantasmagórica assombrou meus pensamentos.
Sábado eu completaria dezoito anos. Afundei mais no sofá, encolhendo-me dentro de meu moletom cor-de-rosa. E agora estava com medo. Muito medo.
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