Encanto

6 Capítulo 5


Notas iniciais
Olá, sejam todos bem-vindos! =)

Os apelos de Aimée, meu pai e Lena não surtiram efeito sobre mim, afinal. E me vi por mais um dia recolhida na segurança quente de minha cama, curvada como uma bola embaixo das colchas de algodão. O sábado inteiro. Não que eu fosse perder um dia memorável. Chovia lá fora, um dia de chuva incomum para aquela estação do ano. Não me importei de ficar em casa. Em verdade, era apenas o que eu queria. Ficar em casa. Ficar sozinha.

O tempo não melhorou durante a tarde, fato incomum para aquela estação do ano. Deixei o conforto de minhas cobertas e me aproximei da janela embaçada. O vento balançava as copas das velhas árvores lá fora. Observando a paisagem por alguns minutos, perdida em pensamentos, senti um arrepio percorrer-me a espinha. Meus olhos fixaram-se no vidro enfumaçado e lentamente algo começou a ser moldado. Apertei os olhos, buscando decifrar a inscrição que se formava, quando tudo ficou mais claro.

Décimo oitavo aniversário. Morte.

Pisquei por diversas vezes, numa tentativa desesperada de dissipar as palavras. Talvez aquilo fosse fruto de uma mente fértil e perdida, certo?

– Pelo menos arraste esse seu traseiro deprimido lá para baixo no jantar – Reclamou Aimée batendo o pé diante da porta de meu quarto. Ela trançara os cabelos cor de mel sobre um dos ombros e me lançava um olhar reprovador. – É seu aniversário, Emmeline! Mamãe fez um bolo!

Eu retribuí seu olhar com uma indignação silenciosa. Por que diabos Lena tinha feito um bolo? Não tinha sido clara o suficiente? Qual a parte do “não tem nada para comemorar” eles não haviam captado? Aquilo me chateou, mas como Aimée continuava a me encarar sem dar sinais de desistência, eu bufei e fiz que sim com um aceno rápido.

– Ótimo! – Ela suspirou, irritada, e bateu a porta depois de sair.

Acordei de repente, assustada e alerta, um tanto desorientada em meio ao escuro de meu quarto. Não tinha me dado conta de que prendia o ar na boca e o soltei em seguida, desconfortável e inquieta, como se acabasse de voltar de um pesadelo. O ar gelado que batia contra as paredes me fez virar para a janela. Aberta – As cortinas ondulando numa dança fantasmagórica.

Que diabos! Levantei cambaleante, estremecendo quando o vento frio vazou por minha camisola branca, roçando indecentemente pelo meu corpo. Corri até a janela e a abaixei, observando a garoa estalar contra o asfalto na rua. Contudo, foi algo vindo do interior das sombras que enegreciam meu quarto que realmente me surpreendeu.

Eu me virei, as costas coladas ao vidro da janela, minhas retinas focando a escrivaninha, a cama, os criados-mudos, o guarda-roupas, enquanto se acostumavam com a escuridão. O sangue corria ralo e quente em minhas veias, meu estômago revirando, refletindo minha apreensão ou apenas me provocando náuseas pela quantidade exagerada de bolo que Aimée e Lena me obrigaram a comer no jantar.

Deus! Eu vibrei no mesmo lugar quando um livro de minha estante caiu em um baque surdo no chão. Com o coração martelando na altura da garganta, eu tateei as paredes até encontrá-lo, perto da cama. Engolindo seco, peguei meu exemplar de A Branca de Neve e o recoloquei na estante, empurrando-o mais para o fundo e afastando da cabeça a deliberação repentina sobre como um livro daquela grossura fora parar no chão, mesmo sob nenhuma corrente de ar.

Virei de novo, enterrando-me na estante de livros atrás de mim, o sangue subindo até meus ouvidos, me deixando tonta. Um lamúrio triste arrastou-se pelo quarto, subindo pelas paredes na forma de uma grande massa negra e sumiu, entrando no banheiro.

Cacete! Eu tampei a boca com as mãos, sufocando um grito aterrorizado. Mais que diabos foi aquilo? Eu tinha visto mesmo um vulto pairando no meu teto? Um arrepio gelado correu-me pela espinha e meus pés congelaram no lugar.

Eu não tinha certeza sobre o que tinha visto, mas o medo que ressoava dentro de mim me fez correr para longe de meu quarto. Atravessei o corredor, os olhos sobre os ombros. Para onde estava indo? Empurrei a porta do banheiro sob o silêncio de minha casa adormecida e um grito se prendeu em minha garganta quando a massa negra esticou-se para fora, os tentáculos tomando as paredes como cobras se contorcendo acima de minha cabeça.



– Não...! – Eu expirei, sem forças para gritar tamanho meu horror. Tinha mesmo alguma coisa lá, presa dentro de minha casa, disposta a colocar todos os meus medos à prova. Recuei alguns passos e me vi deslizando no ar, os braços abertos, os pés em total desequilíbrio. Minha testa bateu contra o degrau da escada e eu capotei miseravelmente até o hall de entrada, no andar debaixo.



Arrastei-me para o corredor, arregalando os olhos no escuro, um tanto desorientada por conta da queda. Meu cérebro fervia dolorosamente e passando os dedos pelo rosto senti o rastro quente de sangue escorrendo de algum corte em algum lugar. Me encolhi junto aos balaústres do corrimão, tremendo de medo.


Não era real, não era real, não era real. Não podia ser real.


Notas finais
Espero que tenham gostado e não deixem de comentar antes de ir. Até logo!

Seja legal e não copie!