Notas iniciais
Já está acabando, aguenta aí

O cheiro de merda e o calor da cidade eram insuportáveis, e de forma alguma Sebastião conseguia entender como Jacó adorava estar ali. Observou o patrão pinotando pelo calçamento das ruas, debaixo do chapéu amarelo de abas largas. As bochechas vermelhas de calor e euforia esticavam-se todas as vezes em que ele inclinava a cabeça para cumprimentar quem quer que passasse, num gesto demasiadamente simpático.

Depois de feitas todas as visitas formais e terminadas as compras, os dois pararam próximo ao mercado de escravos. Sebastião suspirou e abanou-se com as mãos, tentando aliviar o suor que escorria pelo colarinho apertado da camisa de botões. — Vou botar a caixa na carroça — avisou a Jacó, que assentiu.

Apanhou o caixote de tecidos recém comprados e o levou até a carroça, algumas ruas atrás do centro que fervilhava de gente. Embora o mar estivesse apenas algumas ruas abaixo, não corria sequer uma brisa no meio de tanta pedra. Desceu as ruelas com o peso sobre o ombro, satisfeito por notar que a quantidade de pessoas diminuía à medida em que se afastava.

Deixou a mercadoria no carro e voltou em direção ao mercado. Enquanto afrouxava o colarinho, notou um movimento na rua à frente, discretamente afastado das pessoas. Observou por um momento, reconheceu o colete cinza e o chapéu comprido de Jacó entre três outros garotos bem vestidos, notoriamente intimidadores ao redor dele. Apressou o passo. Viu quando o primeiro, agressivamente, arrancou o chapéu amarelo e o arremessou no chão, deram risadas e um empurrão no ombro que colocou o patrão contra a parede. — Ei! — Sebastião chamou, tentando alertá-los. Os garotos, dentro das suas roupas arrumadas e expressões aristocráticas, riram ao vê-lo se aproximar.

— Ele trouxe um crioulinho — debocharam, e as risadas soaram novamente. — Ele bate tua punheta, patrãozinho?

Jacó avançou contra ele, mas foi empurrado com violência de volta à parede. Sebastião entrou na sua frente, superior em altura e força, e se impôs sobre o garoto que o ameaçava. Foi empurrado por outro, mas permaneceu no lugar, incapaz de agredi-los.

— Tu chupa o pauzinho do teu patrão, preto? — Sebastião não viu, mas sentiu o líquido quente escorrendo pela maçã do rosto quando o garoto cuspiu nele.

Jacó pulou contra ele, a mão fechada na direção do seu sorriso de escárnio, e sentiu seu punho acertando os dentes com força suficiente para que o rosto estremecesse. Quase imediatamente, outra mão voou de volta em sua direção, abrindo seu super cílio e deixando-o desequilibrado ao ponto de cair.

Quando Sebastião viu o sangue escorrendo pelas bochechas de Jacó, esqueceu que era escravo, que aqueles rapazes, além de brancos, estavam bem vestidos e deveriam ter bons sobrenomes, esqueceu do tronco e do chicote. Seu punho fechado acertou primeiro o garoto que havia derrubado Jacó, o suficiente para derrubá-lo também; o segundo, que já havia levado o golpe na boca, levou outro, engasgando no sangue que brotou entre os dentes.

Não teve tempo de alcançar o último, quando a comoção das pessoas transformou-se num burburinho alvoroçado e histérico. Sebastião foi agarrado e imobilizado, jogado contra o chão enquanto uma multidão se reunia ao redor. Apagou quando a sola de uma bota acertou sua têmpora, sob os gritos enfurecidos de Jacó.

— Tronco — o martelo bateu a sentença. Embora seu patrão assumisse a responsabilidade pelo problema, e Jacó houvesse sido agredido, um negro não poderia sair impune depois de atacar homens bons. Não seria morto, nem preso, o que era um começo — sessenta chibatadas.

Insistiram para que ficasse na casa grande, mas Jacó não ouviu.

O tronco esperava, imponente na frente da senzala, sobre seu pedestal de pedra e barro, como quem solenemente aguarda para cumprir seu testemunho de justiça. E quem caminha em sua direção, como Sebastião agora fazia, o faz com as costas nuas, expostas como se nunca houvessem estado descobertas, e prevalece a sensação de que não há pele sobre o corpo e todos podem ver o que você guarda por dentro.

Observaram, todos os escravos e funcionários do engenho, o capataz guiando o negro pelos degraus, amarrado pelas mãos como não estivera desde que caíra sob a tutela de Jacó. Vestindo apenas uma calça de algodão cru, não era Sebastião, nem Tião, nem o aprendiz do açúcar, nem o moleque sorridente que crescera com terra nos pés. Era o escravo, submisso ao tronco.

O sol sobre suas cabeças parecia acentuar o desespero que Jacó experimentava, principalmente quando seus olhos encontraram os do negro, e não havia nenhum vestígio de arrependimento neles.

Depois de bem amarrado, o peito junto à madeira nua, Sebastião segurou a respiração. Na primeira vez em que a chibata lambeu suas costas, ele engoliu o grito e fechou os olhos. Segurou até a sexta, e então começou a berrar.

Os joelhos de Jacó tremiam, e começou a chorar quando a voz de Sebastião encheu o pátio. Usava tudo o que tinha para reprimir o impulso de interromper o capataz, assim como Sebastião interrompera os garotos na rua, mas o oficial de justiça estava bem ao seu lado para garantir que a pena seria cumprida. Obrigou-se a assistir todos os sessenta golpes, como se de alguma forma aquilo também o punisse. Pareceu durar mais tempo do que um dia inteiro no rio.

Quando a chibata cessou e o capataz virou-se na direção do patrão, estava acabado. O silêncio que perdurou foi claustrofóbico. De joelhos, caído contra o tronco, Sebastião era um trapo de sangue e pele, e ao redor todos os escravos que o assistiram crescer, e cresceram com ele, observavam coléricos. As expressões de que estavam presos ao chão por nada mais que um fio, e bastaria um sopro para que eclodissem em raiva e uma rebelião tomasse o engenho. Com os dentes cerrados e olhos fixos no tronco, permaneceram imóveis.

Sem esperar, Jacó apanhou a toalha que a ama segurava para ele e acorreu a Sebastião. Cobriu suas costas laceradas com cuidado e puxou uma faca do cinto para cortar por si só as cordas que prendiam os pulsos do escravo. Segurou o engodo bem fundo no peito para não desabar na frente dele. Ouvia seu choro baixinho, quase desmaiado, e sentia o cheiro do sangue escorrendo pelas calças brancas de algodão cru.

Com a ajuda de Afonso, ergueram-no pelos ombros para levá-lo pra casa do mestre, onde as escravas cuidariam de seus ferimentos.

Jacó não o deixou até que parasse de chorar.

Notas finais