Encadeado
4 Concepção
Notas iniciais
O que quer que fosse aquele sentimento, não importava. A inquietação que não deixava Jacó dormir, e não era só pela culpa que sentia, o impedia de sentar qualquer minuto durante o dia.
Esperou que apagassem a última lanterna para que pudesse descer pela janela, como se acostumara a fazer tantas outras noites, e correr na direção da casa do mestre de açúcar. No escuro, corria pelo mato como se só daquela forma pudesse suprir a inquietação que corrompia seu dia. Alcançou a janela de taipa ofegante, inclinou-se pra dentro e procurou no breu — Tião? — chamou e o encontrou na cama, deitado de bruços. — Tá acordado?
— To sim — a voz dele soava tensa e distante, embora surpresa.
Jacó pulou pela janela e aterrissou na cama, próximo aos pés dele. — Cadê a vela? — tateou pela mesa de cabeceira, esticando-se por cima do corpo deitado embaixo.
— Deixa assim — Sebastião pediu. Jacó recolheu a mão e procurou pelo rosto dele, mas não enxergava nada naquele escuro.
— Eu quero ver tuas costas.
— Não tem pra quê.
Jacó sabia que, se insistisse novamente, ele cederia, mas não queria insistir. Sentou-se na ponta da cama, pequena demais para os dois, e deixou que o silêncio permanecesse, ora acompanhado pelo farfalhar de folhas do lado de fora, ora por sua respiração pesada. A inquietação que sentia foi substituída por uma agonia explícita. — Sebastião — chamou.
— Que é?
Jacó desceu da cama e ajoelhou-se ao lado dela, sentado sobre as pernas, o mais próximo que pôde do rosto do outro. Encostou a testa no colchão e segurou o choro, temendo parecer com uma criança egoísta. O único com o direito de chorar não era ele.
— Obrigado — resmungou, e a voz tremeu para entregá-lo —, a culpa é minha, quem merecia a punição era eu, mesmo assim... — sua voz sumiu quando dois dedos ásperos encontraram sua bochecha, vindos do escuro, e fizeram círculos gentis. O polegar e o indicador calejados contornavam suas maçãs e seu queixo com calma.
Sem se dar conta do que pudesse ser, Jacó deixou que seu rosto fosse envolvido por aqueles dedos ásperos, e gentilmente puxado na direção da cama. Quando o calor da respiração de Sebastião encontrou seu rosto, seu coração estava pronto para deixar de bater. O breve contato macio entre as duas bocas não deixou espaço para qualquer palavra, e o silêncio permaneceu, calmo e indiscutível, enquanto ele ainda segurava seu queixo por bastante tempo.
Só quando a mão de Sebastião escorregou, e Jacó percebeu que ele havia adormecido, pulou a janela e voltou para casa. A inquietação, substituída pela agonia, havia sido sanada, e em seu lugar havia apenas uma euforia indiscernível, confusa e pesada. Como uma cria crescendo por dentro. Sem que o coração aquietasse, não conseguiu dormir, e o teto do quarto escuro tomava o formato do rosto do escravo toda vez em que Jacó olhava para cima.
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