Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
17 Capítulo 17:Vamos, me beije heterossexual!
–Ahh paaaai, só mais um pouquinho...
–Já foram muitos desses "pouquinhos". Aliás, a Clara fez o café da manhã, não vais comer? Porque faltar ao colégio eu não vou deixar.
–Tia Clara? — citá-la foi o suficiente para que eu acordasse. Sentei-me na cama, ainda sonolento e vi que meu pai já tomara banho e estava arrumando a manga da camisa social na frente do espelho. -Ela está aqui?
–Obviamente.
Na verdade Clara não é minha tia, somente trabalha aqui. Mas eu a amo como uma tia de verdade. Pulei para fora da cama e calcei meus tênis, correndo para fora do quarto.
–Bryan, amarra os cadarços!
Ignorei meu pai e desci as escadas, sentindo o cheiro delicioso de comida. Corri para a cozinha e encontrei a senhora que tanto amo preparando um suco de laranja.
–Bom dia Bryan.
–Tia! Que saudade!
Corri e abracei-a com força, sendo retribuído na mesma intensidade. Senti meu peito explodir em felicidade. Tudo na minha casa estava perfeito!
–Também senti saudades sua. Como você cresceu! Cortou o cabelo, fez piercings... Nem parece mais o meu Bryan, está muito moço!
Eu ri da sua forma de falar. Era sempre assim.
–Que cheiro bom, tia. Se for você quem preparou vou ter de comer.
–Então se apresse que já são 7:25 e vamos sair 7:45 — respondera meu pai adentrando a cozinha.
Corri escada acima e fui para meu antigo quarto. Tentei entrar sem dar muita atenção a tudo, mas é claro que não consegui. Inconscientemente eu fiz uma pausa para observar todo o meu verdadeiro quarto. As paredes brancas, com exceção da do fundo que eu insisti que se tornasse preta com o desenho de caveiras. A cama ficava com o comprimento encostado na parede preta e a cabeceira à direita. Meu guarda roupa que ocupa quase toda a parede esquerda, ultrapassando um pouco na parede preta, pois ele faz o contorno da parede. Aqui sim cabem todas as minhas roupas. A Esquerda, antes de começar o guarda-roupa há a porta de meu próprio banheiro, com as minhas coisas, meus cremes, minhas maquiagens... Do lado direito tem uma escrivaninha encostada na parede e, encima dela um armário. Na parte de baixo do armário há várias luzes redondas, como em um camarim. Tudo do jeito que eu escolhi.
–Certo... Roupa para ir ao colégio...
Segui para meu guarda-roupa. É claro que aqui ainda está cheio de roupas, pois o que eu levei para a casa de minha mãe já se espalha pelo chão, se eu levasse tudo meu quarto seria só roupa.
Bem... Quando eu me tornei emo gostei tanto que saí comprando tudo que via pela frente. Foi bem engraçado, principalmente a fúria de meu pai, mas não o mandei me entregar seus cartões.
Peguei um moletom azul marinho com uma frase em inglês. Uma calça jeans mais justa e o meu all star preto que estive ontem. Fiz minha higiene matinal, troquei de roupa rapidamente e penteei o cabelo as presas. O interessante é que acabei por escovar os dentes antes de comer, distraidamente.
Desci muito apressado e comi rapidamente, mesmo a comida estando deliciosa.
–Pai, a gente vai passar lá em casa, ‘né?
–Sim. Tens que pegar teu material. Por quê?
–Nada de mais. Só para ter certeza que vamos pegar meu material.
Mentira. Eu queria saber para poder fazer chapinha. Obvio que eu não vou lhe dizer, ou fará um escândalo dizendo que vamos nos atrasar, etc, etc, etc...
–Então vamos – apressei-lhe enquanto me levantava da mesa.
–Por que a pressa?
–Antes que a minha mãe saia para trabalhar e tranque a casa. Eu estou sem chave – menti novamente, mas adiantou. Ele terminou de tomar seu café e levantou-se, indo pegar as chaves da casa e do carro.
Abracei tia Clara fortemente e depositei-lhe um beijo na bochecha. Corri para alcançar meu pai enquanto este ligava o carro.
Simplesmente a vida em minha casa é mil vezes melhor do que sozinho com Amanda, que só me faz mal. Por outro lado a vida fora de casa é muito melhor agora, com os meninos, mesmo com um monte de complicação. O fato é que eu gosto dessa agitação, mesmo que muitas vezes acarrete em desastres. Em meu outro colégio era só desastres, tristezas, brigas...
No caminho do colégio nossa conversa foi bem legal. Meu pai não perguntou mais nada sobre eu ser gay, ter depressão e essas coisas, foi simplesmente uma conversa distrativa e agradável.
Fomos para a casa de minha mãe. Felizmente ela estava saindo. Pude lhe dar um beijo rápido e fingir que não tinha chave para entrar. Ela abriu para mim e entregou-me a reserva; fiquei com duas.
Fui para meu atual quarto, que na verdade é um quarto de hóspedes. Fui direto pegar minha chapinha e alisar um pouco o cabelo para não ficar tão horrível. Tive de colocar na temperatura de 220°. Arrumei principalmente a franja, pois estava muito rebelde.
E é claro que meu pai ficou buzinando e me apressando, dizendo que iria para o trabalho e me deixaria para ir sozinho ao colégio. Quando terminei peguei minha mochila e voltei para o carro.
–Alisou o cabelo, não é?
Dei de ombros. Mentir não iria adiantar de nada, pois dá para perceber que meu cabelo está muito melhor. Ele disse-me algumas coisas que eu preferi não dar atenção.
Da casa de minha mãe até o colégio o caminho foi bem curto, tanto que eu o faço a pé todas as manhãs. Chegando ao portão os alunos ainda estavam espalhados pelo pátio, ou seja, ainda não havia batido.
–Tchau pai.
Agi automaticamente e depositei-lhe um beijo na bochecha. Abri a porta do carro e saí com a minha mochila em um só ombro.
–Bryan – ele me chamou e eu voltei-me para o carro.
–Vou te buscar para almoçarmos, ok?
–Certo...
Fui me virar, mas voltei um passo.
–E a minha mãe? Ela disse que tentaria ir para casa hoje para almoçarmos juntos.
–Eu ligo para ela e aviso.
–Ok.
Ele esticou-se um pouco para o meu lado, observando algo atrás de mim.
–É mesmo esse o colégio que você quer estudar?
Suspirei, pensando no que responder. Ontem de noite quando ele me perguntou se eu queria voltar para casa eu respondi que sim, mas que também queria ficar no colégio, por isso teria de pensar. Foi um choque para ele que eu tivesse de pensar na possibilidade de trocá-lo por um colégio público.
–Sim...
–Bom dia Bryan!
Olhei para o lado para ter certeza de quem me cumprimentara e, de imediato o nervosismo tomou conta de mim. Ele definitivamente não pode ficar perto de meu pai!
–Quem é? – meu pai perguntou curioso.
–Ninguém – respondi rápido.
–Pedro! Aqui!
PUTA QUE PARIU! O garoto tinha mesmo que chama-lo agora?! Pelo amor de Deus, que merda! Agora sim estou completamente vermelho! Eu tenho muita sorte!
–Ninguém... – meu pai repetiu, debochado. Soltou uma risadinha irônica antes de voltar a sentar-se normal no banco do motorista. –Me espere aqui no colégio, Bryan. Dentro.
–Tá pai, tchau.
Saí de lá batendo o pé e bufando. Passei reto por todos que encontrei no pátio do colégio e fui para minha sala de aula. Me surpreendi ao encontrar Erick e Thiago conversando animadamente. Para minha desgraça eu tive de me aproximar, pois sento atrás de Erick, bem onde Thiago estava sentado.
Quando me aproximei e larguei a mochila em minha classe ambos me fitaram, assustados.
–Bom dia.
–O que aconteceu? – perguntaram quase ao mesmo tempo. Foi aí que entendi que o problema eram meus curativos.
–Caí encima de um espelho.
Fora evidente que ambos desconfiaram. Preferi ignorar e... Ficar de pé porque Thiago continuou sentando em minha cadeira.
.
–Erick!
Erick e eu estávamos indo para a biblioteca fazer o trabalho de dupla que a professora de matemática passou quando encontramos Thiago no corredor. Fiquei chateado, mas guardei para mim mesmo. Como vamos fazer algo com o Thiago sempre pendurado no Erick? Essa linha de raciocínio me levou a Matheus, quando ele disse-me aquelas coisas. Estou sendo tão idiota a ponto de querer que Erick não faça amigos, ainda mais Thiago que é tão animado e deixa Erick tão feliz.
–Está matando aula?
–Não, meu professor de física não veio. Você eu nem vou perguntar! Alguma coisa houve, porque matar aula é que não vai – Thiago disse sorrindo, aproximando-se demais de Erick, deixando-o sem jeito. Eu me afastei um pouquinho, somente para não fazer parte da cena.
–E você também não matará aula! Eu não deixarei.
Que gracinha! Ainda mais com o Erick tão vermelho. Eles fariam um casal tão bonito... Mas acho que Erick ainda gosta da Alice e pode estar tratando Thiago somente como um amigo. Um de seus únicos amigos. Também deve estar se envergonhando tanto por saber que Thiago é bi.
–Sim senhor. Não vou mais matar aula, a não ser por uma emergência.
–A não ser que você esteja quase morrendo! Daí eu vou levar a matéria na sua casa.
Talvez Thiago esteja interessado em Erick, mas não seja recíproco. Não sei. De qualquer forma eles ficam felizes juntos, rindo e conversando. Eu não deveria atrapalhar isso.
Quando entramos na biblioteca sentamos Thiago, Erick e eu. Erick nem se importou que não estávamos fazendo o trabalho e isso é um sinal. Desde quando Erick não se preocupa com os trabalhos ou os deixa de fazer para conversar? Isso realmente é uma atitude estranha da parte dele.
Aos poucos fui me sentindo excluído da conversa. Não é culpa deles, estão se dando tão bem e agora, pensando bem eu gosto disso. O Erick é muito fofo e envergonhado, é bom que ele socialize, sendo com ou sem segundas intenções, principalmente com alguém legal como o Thiago. Resolvi, por fim me levantar e rumar para outra mesa. Quando estava saindo Erick puxou meu braço.
–Onde vais?
–Outra mesa. Quero estudar e como vocês estão conversando... Mas, por favor, não parem. Erick, outro dia podemos fazer o trabalho, não precisa entregar hoje – disse sorrindo. Erick corou e abaixou o olhar, mas não se impôs. Quando estava prestes a dizer algo Thiago interrompeu-o.
–Tudo bem, mas se quiser conversar vem pra cá.
Concordei e saí de perto, indo para uma mesa mais afastada. Do lado direito a parede e atrás uma estante cheia de livros. Sentei-me e abri meu caderno do Simple Plan. Folheei sem uma mínima vontade. Para ser sincero nem sei que matéria é essa. O que faço? Tento ler alguma coisa? Que saco.
–O que houve com seu rosto e braços?
Ergui o olhar só para encontrar um Pedro assustado que sentou-se ao meu lado, revirei os olhos tentando ignorar o nervosismo que apoderou-se de mim.
–Mordi.
–Sério Bryan.
–Como achas que isso aconteceu?
Fitei-o, mas logo desviei o olhar. Pedro me deixa tão nervoso que não consigo pensar direito.
–Não sei. Tentou se matar? Porque eu li na internet que emos fazem isso.
Mas desta vez foi necessário. Fitei-o e estreitei os olhos.
–Por que eu tentaria me matar?
Ele deu de ombros.
–Não sei. Por causa do que eu disse?
–Olha bem pra minha cara e repete. Repete que você acha que meu mundo gira em torno de ti.
–Ai Bryan! Eu não sei e você não me conta.
–Tanto faz.
Bufei e continuei a fitar meu caderno, desinteressado. Pior ainda é agora que meu pai sabe que eu gosto dele e Pedro não faz a mínima! Nervoso, levei a mão direita aos lábios e comecei a mexer em meus piercings, fingindo ler alguma coisa no caderno. Senti meu braço esquerdo ser puxado para o lado.
–Parece bem feio...
–E o que te importa?
Percebi que estava começando a respirar com dificuldade e me levantei, puxando bruscamente a cadeira para trás e sendo repreendido. Fugi para entre as prateleiras vazias do corredor com os livros didáticos.
–Bryan, por que fica fugindo de mim? Além do mais só me queima!
Ignorei-o e fui procurando um livro qualquer. Em qual matéria meu caderno estava aberto mesmo? Química ou Biologia... Mas quando fui pegar um livro de Biologia Pedro meteu a mão na frente, impedindo-me de passar.
–Pelo menos me responde o que fiz agora!
Com dificuldade eu me virei de frente para ele. Pedro prensou-me mais na estante e eu realmente não gosto disso. Como se eu fosse uma garotinha.
–Quer mesmo saber?
Ele fez sinal positivo com a cabeça. Eu tomei fôlego e tentei ouvir outra coisa que não fosse meus batimentos cardíacos.
–Eu gosto de ti. Mas, Pedro, olha pra mim! Sou um garoto querendo um hétero! Não tenho uma chance de verdade e... Não quero me machucar – eu disse-lhe tudo rápido, baixinho e de uma vez só. Ao terminar a frase ergui meus braços juntos, batendo cotovelo a cotovelo. –Mais do que já estou.
Ele riu e eu acabei por sorrir. Olhei para nossos pés sem realmente prestar atenção e quando finalmente achei que poderia ser solto sua mão estava em meu queixo, erguendo meu rosto e... No segundo seguinte eram seus lábios sobre os meus, sua mão em meu rosto e sua língua na minha. Nossas línguas, nossos lábios úmidos, seus puxões em meu piercing quase me enlouquecendo.
Aconteceu e eu não tenho mais dúvidas de que estou perdidamente e irrevogavelmente apaixonado pelo Pedro. E eu deveria parar para pensar nos prós e contras de sua mão em meu cabelo, sua saliva inundando minha boca, seus lábios tão deliciosos a estalar com os meus de novo e de novo de uma maneira tão gostosa... Mas eu simplesmente levei minha mão ao seu rosto e dei continuidade a insanidade de nossas ações. Que eu enlouqueça, mas por céus, isso é melhor que qualquer coisa! Palpita meu coração, inebria meus pensamentos e leva-me a um estado de êxtase surpreendente. Os batimentos de meu coração são tão fortes que passam para meu corpo e me fazem tremer, perdendo a firmeza, firmeza esta que me deixara por completo e me fez ir ao chão, impulsionado por Pedro.
Ri de forma boba e desligada ao perceber que Pedro vira ao chão comigo, ficando por cima de mim, ajoelhado entre minhas pernas e apoiando as mãos na parede ao lado de minha cabeça.
–Tudo bem? — ele perguntou preocupado, mas eu fiquei sem entender. Somente quando ele esfregou minha cabeça foi que senti uma pontada. Ou seja, com a queda eu bati com a cabeça na parede.
Soube, por um breve momento que eu deveria deixar de ser idiota e dar ouvidos a minha consciência. Mas, ignorá-la e deixar-me levar por todo aquele entorpecimento soava mil vezes melhor.
Contornei seu pescoço com ambos meus braços e puxei-lhe para mais um beijo. Desta vez ambos estávamos sentados no chão, com nossos corpos em um contato maior. E nunca foi tão delicioso beijar; principalmente porque Pedro sabe beijar muito bem. Eram vários beijos, uns seguidos dos outros, ora beijo longo, ora selinhos, puxões nos lábios e em meus piercings, proporcionando-me uma leve dor, deliciosa e viciante.
Os passos de alguém que se afastava e esbarrara em algo interrompeu-nos, fazendo Pedro afastar-se de mim bruscamente. Não foi um azar, propriamente assim, pois somente uma interrupção poderia parar-nos, pelo menos por parte minha.
–Que merda — ele disse enfatizando bem as duas palavras e pausando entre elas.
Suspirei, soprando minha franja.
–Desta vez não fui eu quem começou, garoto hétero.
Serei bem sincero: estou nem 'aí. Quem vai se fuder é Pedro, ele é o hétero. Eu sou gay independente dele, então para mim tanto faz como tanto fez.
Pedro levantou-se rapidamente e correu para o final do corredor, único lugar por onde alguém poderia ter passado e nos visto. Eu fiquei sentado ali mesmo, sem pressa. Juntei as solas dos tênis e esperei ele voltar.
–Foi o seu amiguinho que viu! Vai falar com ele.
–Que amiguinho?
–O emo de olhos verdes.
–Matheus? — questionei para ter certeza, mas ele fez sinal de que não sabia o nome. –Ah, se é ele nem precisa... — interrompi a mim mesmo, raciocinando. Tudo bem tentar fazer ciumes, certo? Se ele não gosta de mim não tem nada de mais. -Tudo bem, eu falo com ele. Talvez só precise que vá para a cama com ele.
Levantei-me e estapeei minha calça, forçando para não rir. Eu sabia que ele estava fitando-me, incrédulo. Terminei de me limpar e levantei a cabeça, encarando-o.
–Que foi?
–Isso é sério?
–Sim.
–Desde quando você é puto, Bryan?
Foi minha vez de me surpreender. Aproximei-me dele, furioso com uma mão na cintura e a outra apontando para ele.
–Puto? Porque caso você não saiba eu vou fazer isso por ti! Não sou eu quem vai ter problemas se ele contar para todo o colégio que estávamos ficando, vai ser você! Eu já sou gay, você é o hétero de faixada.
Ele se acalmou e sua expressão foi de desolado.
–Desculpe Bryan, mas eu... Merda! Que merda!
Pedro virou e saiu de lá xingando todos os santos existentes, resmungando coisas que prefiro não entender. Depois que ele finalmente deixou a biblioteca eu saí do meio dos livros e segui para a mesa onde outrora estivera. Juntei meu material e guardei-o dentro da mochila. Voltei para e mesa onde Thiago e Erick conversavam animados até demais, deixando de lado os estudos. Coloquei a mochila em uma das cadeiras.
–Cuidam para mim? Vou dar um passeio.
Erick acenou com a cabeça, em sinal afirmativo. Sorri e saí de lá antes de interromper coisas importantes. Passeei pelos corredores um tanto tonto e desnorteado. Por mais que queira raciocinar o que houve entre mim e Pedro eu não consegui. Minha atenção fugiu, vagando entre coisas bobas.
Talvez eu deva procurar Matheus. É provável que Pedro decida achá-lo ele mesmo para pedir a Matheus que não conte, mas Matheus não pretende contar, de qualquer forma.
Fui para o pátio, vendo o sol claro da manhã incomodar minhas pupilas. Segui por fora ainda sem rumo, vendo alguns alunos que matavam aula passear pelo pátio despreocupadamente. Quando fui olhar atrás do prédio da biblioteca, sem razão alguma foi que encontrei Matheus, com Lucas em seus braços.
–Oi meninos.
Eles me cumprimentaram. Mi comi de um jeito mais... "Mi comi", em seguida pulou em meu colo, abraçando-me forte.
–Que houve Bryan? Como se machucou tão feio? — perguntou Mi comi, mas Matheus também estava interessado, esperando uma resposta.
–Caí encima de um espelho. E, por favor, acreditem em mim porque estou cansado das pessoas acharem que é mentira.
–Foi muito horrível? Dói muito? Quer que a gente te ajude com alguma coisa? Quer que visite?
Enquanto Lucas fazia mil e uma perguntas Matheus aproximou-se, sentou do nosso lado e beijou minha bochecha machucada.
–E então Bryan? — Matheus perguntou, deixando Lucas sem entender. Eu entendi; ele queria saber sobre eu e Pedro.
–Fugiu quando você apareceu.
Mi comi fitou-me curioso.
–Do que vocês estão falando?
–Eu estava ficando com Pedro.
O queixo de Lucas foi lá embaixo e só então eu lembrei que nunca contei nada a ele, então acrescentei:
–Pela terceira vez.
–QUEEEEEEEEEE? E por que nunca me contou nenhuma dessas vezes?
Eu não teria como respondê-lo. Como vou lhe dizer agora que eu o achava um grande falso e que o odiava, sendo que confia totalmente e cegamente em mim.
–Bem, na verdade foram duas, um selinho roubado e... Como posso explicar... Uma transa com roupa.
Se ele já estava surpreso antes, agora estava embasbacado. Olhando pelo seu ponto de vista eu até entendo que pareça um monte de coisas. Na verdade foi o nosso primeiro beijo que acarretou na minha primeira vez, depois o selinho quando ele machucou o pé, a parte no banheiro e o hoje. Bem, ele estava bem estranho hoje.
–Desculpe por tê-los interrompido.
–Não foi nada. Se não fosse você seria outra pessoa, daí seria pior. Aliás, Pedro veio falar contigo?
–Não. Por quê?
–Porque eu disse para ele que para você não espalhar por todo o colégio que eu e ele ficamos eu teria de dormir contigo.
–Mas isso não é verdade, né? — perguntou Lucas, intrometendo-se.
–Claro que não, Lu. É só para tentar enciumá-lo — eu respondi, mexendo em seu cabelo. A raiz escura já está nascendo novamente.
–Então eu tenho uma ideia! — ele respondeu sorrindo alegre. Eu lhe retribuí o sorriso, tentando ter o máximo de paciência possível com ele. Não é difícil, pois gosto dele, mas às vezes bate aquela vontade de implicar ou chamá-lo de Mi comi...
–Conta.
–Assim, quando o Pedro estiver por perto o Matt pode te dar um selinho e sorrir malicioso para o Pedro achar que vocês estão combinando, mas na verdade não estão — a frase veio seguida de uma risada um tanto infantil e divertida.
–Boa ideia! Você faz isso para mim, Matheus?
Ele deu de ombros, fazendo sinal afirmativo com a cabeça. Levantei-me, levando Lucas comigo, porém sem deixá-lo cair.
–Agora?
Ele se levantou também. Não sei se é impressão minha, mas Matheus parece estar calado e isso não é o estilo dele... Ah sim, claro! Ele gosta de mim! Como pude esquecer?
–Tudo bem mesmo, Matheus?
–Sim, sim. Tudo bem — ele respondeu sorrindo, mas pareceu menos animado que o Matheus normal.
–E eu? Vão me deixar? — perguntou Mi comi manhoso, puxando meu moletom.
–Claro que não. Você vem junto. Tem que ajudar para ver quando o Pedro estiver olhando.
O loiro sorriu e segurou em minha mão. Em seguida pegou a mão de Matheus e foi nos puxando pelo pátio, em busca de Pedro. O encontramos conversando com um grupo de garotos, na frente do prédio das nossas salas de aula. Ficamos a, mais ou menos uns 7 metros do grupo dele. Lucas deixou a mim e Matheus um de frente para o outro e foi andando para trás, se afastando. Eu o fitei, intrigado.
–Espera o meu sinal — ele sussurrou baixinho e piscou para mim, seguindo para trás. Deus, o Mi comi vai chamar a atenção... Mais do que ele já chama!
Virei de frente para Matheus, nervoso. Ao olhar em seus olhos verdes me lembrei de que ele está apaixonado por mim e somente isso me deixou mais nervoso ainda. Fitei a seus olhos verdes e ele sorriu, mas não me pareceu ser o Matheus. Havia algo de estranho. Talvez ele somente esteja sem jeito pelo que me disse. Para ser sincero nem sei se ele ainda gosta de mim, pois ele disse "não foi por esse garoto que eu me apaixonei". Então não está mais apaixonado por mim?
–BRYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN!
Certo, seu sinal é bem claro. Olhei-o rapidamente. Ele estava do lado contrário ao de Pedro e seus amigos. Obviamente que chamou a atenção de Pedro.
–Só um pouquinho Lucas, já vou!
Quando me virei novamente para Matheus ele me segurou pela cintura e me deu mais que um simples selinho. Ele sugou meu lábio inferior para dentro de sua boca e mordiscou. Separamos-nos, eu como o idiota que sou já comecei a arfar com meus batimentos acelerados.
–Amanhã à noite, certo? — ele disse sorrindo malicioso e piscando para mim. Matheus realmente se sairia bem mentindo.
–Certo... — pensei em sorrir, mas lembrei de que meu papel é de "que droga, terei de dar para um garoto lindo e carinhoso" então abaixei a cabeça, fitando o chão a nossos pés.
Fiquei nervoso e acabei me esquecendo de me afastar. Como não fiz foi Matheus quem seguiu para próximo de Mi comi. O loiro ficou confuso, mas aceitou acompanhar Mat. Eu me senti mais nervoso ainda em saber que Pedro poderia se aproximar de mim e me encher de perguntas. Felizmente fugi a tempo, de volta a biblioteca, mais desnorteado do que antes. Que se passa com Matheus? E Pedro, pois desta vez foi ele quem me beijou, mesmo depois daquilo no banheiro. Será que o Pedro está começando a gostar de mim? Não pode, pois se não ele não deixaria que eu transasse com Matheus.
Ou será que...
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