Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

18 Capítulo 18: Amor Surpresa.


Notas iniciais
Antes de lerem (ou depois, cada um decide o que prefere fazer) aconselho-os a darem uma passadinha na galeria para conhecerem o novo professor e entenderem melhor a reação de todos (isso soou estranho...). Mas é isso, se quiserem vê-lo para visualizar melhor. Boa leitura o/

Mais uma manhã de aula. Estávamos todos sentados em nossos lugares, — ou pelo menos a maioria – conversando e bagunçando, obviamente, esperando a professora de artes chegar. Eu prefiro ignorar, mas o olhar de Pedro me incomoda. Hoje Thiago está na minha sala de aula. Estranho, não? Mas ele nos contou que a professora de artes saiu do colégio e hoje será nosso primeiro dia com a professora nova, então ela não perceberá que há um aluno de outra turma aqui porque ela não nos conhece. Eu penso que, com a aparência dele obviamente chamará a atenção e ela o reconhecerá na hora de dar aula para a outra turma, mas Thiago não se importa com isso e eu também duvido que ela irá querer ter problemas em seu primeiro dia.

Bufei, soprando a franja que incomodava meus olhos. Não tenho muito o que fazer com Thiago e Erick conversando bem felizes e me ignorando completamente. Bem, isso incomoda um pouco, mas não me sinto mais mal.

–Bom dia.

Não fui somente eu que me surpreendi quando um homem jovem adentrou nossa sala. “Jovem”... Jovem e gostoso! Muito gostoso! Alto, cabelo castanho com luzes, olhos azuis, traços faciais perfeitos, barba rala, um óculos de sol na cabeça e uma bolsa cruzada com um estilo de fazer qualquer garota enlouquecer! O típico professor perfeito com que todas as garotas sonham.

E é claro que com um cara tão perfeito assim entrando em nossa sala o silêncio tomaria conta do lugar.

Ele retirou sua bolsa cruzada e largou encima da mesa do professor, em seguida virou-se de frente para a turma, encostou-se na classe e cruzou os braços.

–Você é o nosso novo professor de artes? – perguntou um dos garotos do fundo da sala, provavelmente amigo de Pedro.

–Não, eu somente gosto de invadir salas de aula sem professores.

A turma riu. Talvez pelo modo sério com que ele falou ou com a beleza exagerada dele.

–Não tem cara de quem já se formou na faculdade e está apto a dar aula.

Ele mal esboçou uma expressão de simplicidade.

–E você tem cara de quem já se formou no ensino médio, mas cá estamos nós, então me parece que as aparências enganam.

Ele sorriu maravilhosamente e toda a turma riu. Alguns soltaram interjeições como “Aii, que queima”.

–Meu nome é Rafael Lima, tenho 24 anos e me formei em Artes. Estou aqui substituindo sua professora Marta que saiu para fazer mestrado.

Ajeitou-se melhor, cruzando as pernas e apoiando a palma das mãos na mesa, esticando os braços.

–Eu não vou mandar-lhes desenhar, pois é um desperdício do tempo de vocês. Se artes fosse desenhar, então seria mais útil que vocês tivessem esse tempo livre ao invés de ter aula. Sendo assim, quem sabe me dizer o que é artes?

Olhei de relance para a turma. Alguns alunos levantaram a mão, em maioria meninas; em maioria coradas.

–A loirinha da terceira fila.

Alice.

–Aquilo que olhamos e achamos que somente pouquíssimas pessoas conseguem fazer?

–Bom, se fosse assim então... Um complicado cálculo de matemática seria uma forma de arte.

Alice abaixou a cabeça, constrangida. Quando percebi que estava de boca aberta, quase babando fechei-a e tentei disfarçar. Não importa o que o professor diga, ele já ganhou 1.000 pontos por beleza.

–Mas está certa, garota. A arte não tem definição, ela é o que você disser que é. Não há uma lei que defina o que é arte e o que não é, são as pessoas quem decidem. Mas aqui, para trabalharmos necessitamos de uma definição de arte, então darei a minha. Arte, para mim é aquilo que pode nos passar sentimento, como uma espécie de amor.

Que inteligente... Que lindo... Que gostoso...

–Tais como: filmes, pinturas, musicas...

–Uma cirurgia de peito aberto... – acrescentou um dos garotos. Me segurei para não estapear minha própria testa com tamanha a bobagem que ouvi. Uma cirurgia de peito aberto não nos passa sentimento!

–Médicos podem ser artistas, em sua percepção. De forma social eles fazem parte daquele grupo de pessoas que arrisca m suas próprias vidas para salvar as dos outros.

–Arriscar suas vidas? Desde quando? Eles vão lá, fazem merda, matam as pessoas e eles continuam bem e saudável.

–Algum dos pais de alguém aqui é médico?

Ninguém manifestou-se, então o professor sentiu-se obrigado a mudar de estratégia.

–Então alguém daqui tem mãe ou pai advogado?

Minha vez. Nervoso, eu ergui a mão, chamando a atenção daqueles olhos voraz.

–Meu pai é advogado.

–Qual seu nome?

–Bryan – respondi, mas estranhei ele não ter perguntado o nome de Alice.

–Só por curiosidade, Bryan. Sua mãe trabalha em que?

–Secretária.

O professor soltou um riso perfeito e toda a turma riu. Eu entendi o porquê, mas como é verdade não faz mal. Contando que não comentem maldosamente, como eu sei que estão fazendo em tom baixo os mesmos garotos de sempre.

–Conte para a turma sobre seu comentário – o professor intrometeu-se, mas não deveria fazer isso. Somente será motivo para discussão... Ele não entende que é implicância?

–Eu?

–Sim, você mesmo. Não está fazendo seus amigos rirem? Faça-me rir também. Se conseguires lhe darei meio ponto na média.

Meio ponto para me queimar? Professor Rafael, se o senhor não fosse tão gostoso e perfeito estaria me decepcionando.

–Ah, eu estava dizendo que o Bryan deve ter sido feito encima da mesa do escritório do papai, por cima de um monte de processos.

Olhei para trás, boquiaberto e lá estava o engraçadinho. E qual fora minha surpresa ao encaixar as peças e perceber que mais cedo eu ouvira uma conversa muito útil para esse momento? Era ele mesmo falando aos amigos que não poderiam mais comprar bebidas alcóolicas em um determinado posto porque agora o pai dele trabalha lá.

E eu não vou perder essa oportunidade.

–Pelo menos o meu pai tem um escritório. Melhor que o seu que trabalha enchendo o tanque do carro importado do meu papai.

Ah, isso sim foi um belo queima! Agora sim me sinto plenamente satisfeito. Quem mandou tentar me irritar?

–Meio ponto para o garoto que me fez rir – anunciou o professor. Espantei-me ao perceber que se referia a mim. –Bryan?

Maneei a cabeça, em sinal afirmativo.

–Vou me lembrar de anotar isso. Mas voltando ao assunto. Bryan, seu pai nunca presenciou um caso de alguma pessoa processando um médico, culpando-o pela morte de algum paciente?

–Várias vezes.

–Então isso demonstra que os médicos arriscam sua própria vida para salvar as dos outros.

–‘Viadinho de merda – resmungou alto o mesmo garoto que eu passei por cima minutos atrás.

–Falta de respeito significa um passe obrigatório para passear pelos corredores do colégio e conhecer a tão frequentada diretoria.

–Quanto a isso está tudo bem. Sou gay mesmo, então com isso não me atingem.

–Viu só? Baita ‘viado! Só quer saber de dar!

–E ainda é nojento e faz questão de mostrar para todos. – Os garotos implicaram, juntando-se contra mim.

–É gay? – o professor sedução perguntou em um tom pouco surpreso.

–Sim.

–Então Bryan, venho a lhe fazer um convite...

Ele descruzou as pernas e moveu-se para o lado. Puxou a cadeira do professor, deixando-a ao lado da classe maior que todas as outras, com a cadeira de frente para a turma.

–Convido-lhe a sentar aqui, ao meu lado para conversarmos sobre essa arte chamada “amor”.

Preciso comentar do espanto da turma e de todas as interjeições e comentários que surgiram?

Eu parei por um segundo, analisando a oferta. Dei de ombros e me levantei, indo sentar ao seu lado. Se eu encarei dois colégios, duas diretoras, grupos homofóbicos, amigos e, acima de tudo minha mãe e meu pai, por que não conversar um pouco sobre isso na aula de artes? Já discuti o mesmo assunto em história e fui para a diretoria.

Daqui da frente dá para ver todos com precisão. Com certeza nenhuma atitude da turma passa despercebida pelo professor.

–Desde quando ser gay é arte?

–Amor é arte. Homossexualidade é uma forma de amor, tornando-se, assim, arte.

–Que merda é essa?! Vou mandar meus pais virem aqui!

–E eu vou dizer-lhes que você precisa frequentar uma psicóloga porque homossexualismo não é doença, homofobia é.

–Eu não entendo o porquê de vocês estarem reclamando – intrometeu-se uma das garotas. Acho que se chama Amanda. Que bom, já estou lembrando os nomes. –Debocham, mas não querem que o garoto se defenda? Agora vão ter a chance de realmente o conhecerem ao invés de formar o preconceito estúpido de vocês.

–Puta merda, não acredito que isso é a nossa aula... – um dos garotos do fundo resmungou e escorregou na cadeira, sentando de mau jeito.

–Alguém quer perguntar alguma coisa?

Algumas garotas ergueram as mãos, mas Alice intrometeu-se, já perguntando.

–Tem namorado?

–Não – respondi.

–Gosta do Pedro? – meteu-se Laura.

–Por que o Pedro?

–Porque vocês formam um casal bonitinho.

Os garotos xingaram.

–Gosto dentro do possível.

–“Dentro do possível”?

–Ele me irrita quando diz algo homofóbico.

As garotas riram. Ajeitei-me na cadeira tentando esconder o nervosismo ao tratar de tal assunto. Eu gosto mais do que qualquer um aqui pode imaginar.

–O que você gosta nos garotos?

–O que vocês gostam nos garotos? – repeti no plural, pois foi a mesma garota de antes quem perguntou, Laura.

–Gostaria de ser uma menina? – perguntou Alice.

–Não. Gosto de ser um menino.

As três garotas, Amanda, Alice e Laura mantinham seus corpos embalados para frente, eufóricas, interessadas demais na conversa. Uma esperava ansiosa que a outra terminasse para, assim poder fazer a sua pergunta.

–Que tipo de garoto você gosta?

–Os que não parecem uma garota e sejam “normais”.

–Como o Pedro.

–Como a maioria dos héteros – terminei sorrindo.

O “debate” ia continuar, porém o professor interrompeu-as, prevendo que aquilo não teria fim tão cedo.

–Por que tudo leva a este tal “Pedro”? – perguntou o professor Rafael, curioso. –Quem é esse cara?

–Não veio – respondeu Alice.

–Eu não sei por que insistem tanto nele. Nós nunca tivemos nada, ele é hétero. As garotas que ficam insistindo – protegi-o, mentindo. Foi um aperto em meu peito, mas eu não quero obrigar alguém a passar pela tortura que eu passo. Na verdade agora não chega nem aos pés de como foi no início, mas para ele agora seria o início.

–É que o Pedro fez amizade com o Bryan e eles formam um casal tão lindo! – comentou Laura, animada e com um ar de romance.

–Eu discordo. Pra mim é o Bryan quem tem interesse no Pedro – respondeu Alice, menos amigável.

–Eu acho que o Bryan merece alguém melhor, mas é verdade que eles ficam fofos juntos – respondeu, por último, Amanda.

–Entendi... Mas agora eu quero um garoto fazendo alguma pergunta.

As garotas bufaram, irritadas. Como já era esperado nenhum menino se manifestou.

–Então devo deduzir que se não possuem perguntas para fazer é porque já entendem tudo sobre o homossexualidade, certo?

O professor pode ser novo, mas realmente entende sobre dar aula. De imediato os garotos começaram a se manifestar.

–Para que perguntar? Homossexual: gosta de dar. O que mais é necessário saber?

–Então considerarei que você não quis participar da aula por vontade própria. Mais alguém quer zerar nessa aula?

Todos se exaltaram, inclusive eu mesmo. Discutir sobre homossexualidade na aula vale nota? Acho que esse ano passo em artes.

–Certo, certo. Sei lá o que vou perguntar, eu só não posso tirar nota baixa ou minha mãe me mata! ‘Hã... Seus pais sabem?

–Tanto meu pai quanto minha mãe.

–Coitados...

Eu sorri. Se fosse antes eu não me sentiria bem com tal comentário, mas agora que já conversei com meu pai está tudo bem.

–Já pegou algum garoto da nossa sala? – perguntou um garoto que eu não faço a mínima quem é. Não é do grupo do Pedro, mas também não é nerd, nem emo, nem gay... Não faço a mínima o que esse garoto é.

–Já – fui sincero.

Os alunos se exaltaram. Fui bombardeado com perguntas de várias formas e estilos, mas sempre focadas no mesmo assunto: quem.

*

O sinal anunciando o inicio do intervalo ecoou pelos corredores. Pouquíssimos segundos depois surgiu Thiago na porta de nossa sala, adentrando alegremente, ignorando os sussurros a seu respeito. Ele rumou para próximo de mim e Erick e, obviamente foram conversar. Sorrateiramente eu me levantei e saí da sala, tentando chamar a atenção o mínimo possível. Saí para o pátio do colégio procurando pelos garotos, até um loiro escandaloso gritar meu nome “discretamente”, como ele sempre faz.

–BRYAAAAAAAAAAAAAAN, olha o que eu ganhei!

Sorri para Lucas quando ele parou na minha frente, mostrando-me uma caixa de bombons da marca cacau show. A embalagem tinha o formato de um coração.

–Que lindo! – exclamei. – E esse chocolate é delicioso. Que inveja... – disse, sentindo uma pontada de inveja, pois nunca recebi nada. Mesmo assim fiquei feliz por Mi comi, ele merece mais que eu. – Quem lhe deu?

–Não sei – ele respondeu fazendo um biquinho infantil – Eu só encontrei encima da minha classe dizendo “Te amo”. Não é lindo, Bryan? Tem alguém que me ama secretamente, mas tem vergonha demais para contar! Isso é tão fofo...

–Sim...

Sorri, permitindo que ele segurasse em minha mão e me arrastasse para a grama. Lá estavam Luke e Matheus, conversando. Sentamos com eles.

–Aposto que viu o presente do Lu – comentou Luke, cruzando as pernas. –Ele está carregando isso para todos os lados a manhã toda.

Fitei Lucas. Ele estava agarrado àquela caixa em formato de coração, feliz do seu modo infantil. Apertava junto ao seu peito, quase desmanchando os bombons.

–Só esperamos que não seja de Alex...

Eu mesmo olhei feio para Luke enquanto Matheus o acotovelava.

–Ai, tá! Desculpa!

Revirei os olhos. Droga. Tinha mesmo que falar do demônio perto do Mi comi? Acho que eu tenho que parar de chama-lo de Mi comi, mas é automático.

–Não é dele. Ele não me ama. E eu vou encontrar essa pessoa que disse que me ama! – ele disse com um olhar tristonho, mas um sorriso na face.

Lucas abriu a caixa de chocolate facilmente. Os bombons pareciam botões de flores vermelhas e já faltava alguns.

–Quer provar, Bryan?

Concordei. Se fosse antes eu não aceitaria comer os bombons que ele recém ganhou, mas seu sorriso foi tão fofo... Eu sei que Lucas gosta de compartilhar as coisas, pois ele é uma boa... Criança...

Lucas pegou um bombom e retirou o papel. Em seguida colocou-o por metade dentro da boca e a outra metade deixou para fora. Aproximou-se um pouco de mim, erguendo o queixo e oferecendo o doce. Eu ri e aceitei.

Rocei nos lábios de Lucas e mordi o chocolate, ficando metade com cada um de nós. Mas, inesperadamente dentro do chocolate havia um líquido rosado e meloso que escorreu pelos lábios de Lucas, sujando seu queixo e continuando a escorrer.

Eu ri, pois o líquido ficou todo com ele e eu apenas comi a casquinha do chocolate. Ele me fitou com os olhos arregalados e começou a rir, perguntando o que fazer enquanto o doce escorria para seu pescoço.

Rindo, puxei-lhe pelo braço para mais próximo e lambi seu queixo, onde havia o doce meloso. Bem gostoso, até. Segui com a língua para cima, lambendo de leve seus lábios, enquanto ele ria e me atrapalhava. Desci o rosto e lambi lhe um pedacinho da pele quente de seu pescoço que possuía doce, fazendo-lhe rir. Enquanto fazia vi, por um ângulo de 90 graus a expressão de desagrado de Matheus, surpreendendo-me.

Parei.

–Pronto.

Retribuí o sorriso de Lucas. Ele fechou a caixa e segurou-a junto do peito, aproximando-se de mim enquanto mordia o lábio inferior.

–Você adora me beijar, né Bryan?

–Sim – respondi para não magoá-lo. Lucas é fofo e tem que ser protegido como uma criança. Acho que ele é a primeira criança de quem gosto.

Ele sorriu a chegou mais perto, fazendo um bico com os lábios. Beijou-me a bochecha esquerda e, em seguida depositou um selinho em meus lábios. Sorri sem graça, sabendo que estávamos sendo observados por Luke e Matheus.

–Que doce – lhe disse sorrindo, fazendo-o feliz.

Antes que MI comi pudesse fazer qualquer outro movimento eu me afastei, chegando mais perto de Matheus que sorriu de leve.

–Tudo bem com você e Pedro?

Dei de ombros, demonstrando que não sabia. Recostei minha cabeça em seu colo, fitando-lhe de baixo.

–Ele não veio falar comigo. Já estou me irritando. Acho que eu deveria deixa-lo em paz e desistir. Pedro é hétero... – pausei, percebendo o erro em minha frase. – Bem, hétero mesmo ele não é, mas não tem interesse em mim.

Ergui os pés e coloquei-os no colo de Luke. Ele me mirou e eu sorri.

–Que folgado, ‘ein? – Luke brincou, rindo e deixando meus pés ali.

–Eu acho que você não deveria desistir logo agora, Bryan. Porque se você realmente o ama tem que investir em sua felicidade – Matheus impressionou-me ao dizer aquilo. Eu poderia esperar uma resposta assim de Luke ou Mi comi, mas de Matheus...?

–Eu também acho que você deve esperar, Bryan — intrometeu-se Lucas, recostando sua cabeça encima da minha barriga com seu rosto mirando o meu. –Porque ele não fez nada de ruim, ‘né.

–Eu acho que deve desistir – opinou Luke. –Tem tantos caras bonitos por aí e você fica se amarrando a um que nem te dá bola.

–Luke está certo. Eu lhe disse que vou ter de dormir com outro garoto para proteger a “imagem” dele e Pedro não fez nada. Ele não se importa.

Matheus segurou minha mão e observou minhas unhas que estão deploráveis. Bem curtinhas e com um esmalte preto completamente descascado.

–Queria que ele fizesse o quê? Contado para todo o colégio que ficou com você? – Matheus defendeu-o, surpreendendo-me mais ainda.

–Não... Mas... Bem, ele podia pelo menos ter tentado falar contigo.

–Talvez... – Matheus disse, aproximando minha mão de seu rosto e beijando a palma. –Mas, acima do que você decidir estamos todos aqui, certo?

Sorri e Matheus retribuiu o sorriso, alegre como sempre, porém com alguma coisa diferente que eu não soube dizer. Será somente eu que estou percebendo atitudes diferentes ou sempre foi assim e agora que percebi?

–Demônio a vista – avisou Luke.

Curioso, eu observei as pessoas a volta, procurando pelo demônio, mesmo já tendo uma noção de quem seria. Lá estava Alex, sentando próximo ao portão de entrada com um garoto em seu colo.

–Esse garoto não é daqui, é? – perguntei para qualquer um.

–Não – Matt me respondeu. –Com certeza não é.

Percebi porque é um emo e os únicos emos deste colégio somos nós. Um garoto do tamanho de Lucas, mas moreno de olhos azuis parecidos com os meus. Pequeno, afeminado, olhos marcados, bochechas avermelhadas de blush e lábios brilhosos cheios de gloss. Um short curto demais, uma bota passando o joelho e uma blusa listrada branca e preta com suspensório.

–Não quero ver – resmungou Lucas, permanecendo com a cabeça virada em minha direção, de costas para Alex e o garoto.

–Bem puto. Combina com o Alex – Luke comentou em voz alta. Eu e Matheus concordamos. O garoto estava rebolando no colo de Alex, enquanto lambia-lhe o pescoço. Este sim é um “Mi comi” da vida.

–Demônio hétero à vista – anunciou Luke. Olhei curioso e inesperadamente soltei o riso pelo nariz ao perceber que se tratava de Pedro.

–Bryan, posso falar contigo?

Fitei-o confuso. Pedro olhava firme para mim; somente para mim, mantendo-se a uma certa distancia dos meninos. Ergui um pouco meu corpo, apoiando-me nos cotovelos.

–Falar comigo?

Ele confirmou com a cabeça. Eu olhei para os garotos, confuso. Luke deu de ombros, Lucas sorriu e levantou de cima da minha barriga. Matheus não teve nenhuma reação, surpreendendo-me mais uma vez naquele mesmo dia.

–Tubo bem... – eu respondi um tanto receoso. Apoiei as mãos ao lado de meu corpo e quando fiz menção de me levantar Matheus segurou meu braço direito, apertando-o com força.

–Quando você cair todos estarão aqui, menos eu. Você tem que se foder para aprender – ele sussurrou entredentes, com tanta raiva que me assustou e doeu em meio peito.

Quando ele largou meu braço eu encarei-o, completamente confuso e assustado. Matheus nada disse.

–Você não vai, Bryan? – Lucas perguntou. Quando virei o rosto Luke e Mi comi fitavam a mim, sem entender. Será que eles realmente não viram? Quero dizer... Não pode ter sido coisa da minha cabeça. Mas é o Matheus...

–Bryan? – Pedro me chamou e, confuso eu me levantei, completamente distraído e alheio. Cambaleei, quase caindo e segui para onde Pedro me esperava, sério demais. Quando me aproximei ele se virou de costas e eu o segui.

–O que foi? – perguntei assim que paramos de andar. Ele se virou para mim, ainda serio. Eu olhei para os lados. Há alunos na nossa volta, mas nenhum próximo demais para escutar. Posso ver os garotos daqui, sentados e deitados na grama.

Quando voltei a olhar para Pedro ele abaixou o rosto, parecendo constrangido. Disse-me algo, porém baixinho demais para que eu entendesse. A única coisa que consegui ouvir foi um “...ado”.

–Desculpe, não entendi.

Mas antes mesmo que ele pudesse repetir eu encaixei as peças. Em uma questão de segundos meu coração disparou drasticamente. Meu rosto ficou mais quente do que em qualquer outro momento, por mais que eu lutasse contra e tentasse a todo custo me convencer de que não estava com vergonha.

Ele fez sinal de que era para que eu me aproximasse e assim o fiz, dando um passo para frente. Ele me fitou nos olhos e sorriu sem graça, um pouco vermelho. Tentei normalizar minha respiração, mas parecia ser impossível.

...Ado...Ado... Namor...Ado...

–Você quer ser meu namorado? – ele repetiu e eu juro que foi por pouco que eu não enfartei. Apensar disso, de sentir meus batimentos na garganta e estar mais vermelho que um tomate eu tive de me desculpar.

–Pedro, é por causa que o Matheus nos viu, não é? Eu... – apertei os olhos com força, tentando me acalmar. Respondi-lhe de olhos fechados, querendo sumir –Eu estava brincando. Não precisa fazer algo tão radical assim.

Ele se aproximou mais, ficando muito perto de mim. Ergui meu rosto e arregalei os olhos, assustado demais para pensar com clareza.

–Eu prefiro pensar que tenho que fazer isso ou nunca mais vou ter coragem. Eu gosto de você, Bryan.

Nossa...

Ele se aproximou mais e ia me beijar, mas eu virei o rosto, forçando-o a beijar somente minha bochecha. Vi que ao nosso lado muitos alunos nos observavam e mais uma vez eu serrei os olhos com força.

–Pedro, você vai se arrepender!

–Então olha para mim.

Sua mão puxou meu queixo, obrigando-me a fita-lo nos olhos de perto. Forcei-me ao máximo para tentar me manter calmo, mas eu juro... Deus, eu nunca passei por algo assim antes em toda a minha vida. Pedido em namoro? Logo por Pedro? Parecem aquelas conversas programadas que passamos o dia pensando...

–Então você não quer namorar comigo?

–Pedro...

Sua mão escorregou para minha bochecha, acariciando de leve. Me senti mais envergonhado ainda nele tocando em minha bochecha quente, observando-me de perto.

–Você disse que só ficaria comigo se eu admitisse na frente de todos. Se é assim, se tenho que dizer que gosto de garoto, então conto de qual garoto é. Se vai ser assim então quero ficar só com você, tá bom?

Ainda em choque e com o coração a mil eu virei o rosto para o lado e contornei seu pescoço com meus braços, abraçando-lhe.

–Tem certeza?

–Eu passei noites pensando. Eu quase enlouqueci com isso. Tenho certeza absoluta.

Apoiei meu queixo em seu ombro e minha bochecha em chamas no seu pescoço. Fechei os olhos para não ver todos aqueles olhares negativos que estragariam o momento.

Senti-me perfeitamente bem quando seus braços contornaram minha cintura, apertando carinhosamente e abaixando a cabeça.

–Você me ama? – perguntei, martirizando-me por manter a voz trêmula e oscilante.

–Sim.

–Por quê?

Ele riu.

–Bryan! – me repreendeu, seguido de uma risada. –Com tanta coisa pra dizer...

Engoli o choro, me sentindo um idiota. Nos afastamos e eu levei as duas mãos ao rosto, na frente da boca, escondendo meu sorriso.

–Tem certeza? – repeti, mais para convencer a mim mesmo do que qualquer outra coisa.

Porque tudo parecia como uma bela cena de filme com roteiro pronto e eu nunca imaginei que isso seria real para mim, uma vez na vida. E por mais que eu repassasse mentalmente tudo que ele havia dito ainda parecia completamente fora da realidade. Porque é o Pedro! E eu juro pela minha vida que eu poderia esperar qualquer coisa, menos uma declaração vista como o espelho de meus sentimentos.

–Absoluta.

–Então tá – respondi com simplicidade, apavorado demais para bolar uma resposta mais complexa.

–Vai namorar comigo?

–Sim.

Ele sorriu e eu sorri de volta. Fiquei ali, como uma criança retardada – ou um Mi comi – dando pulos mentais para tentar dissipar um pouco da alegria que tomava conta de meu corpo. A felicidade e o nervosismo estavam me aterrorizando e eu nunca fui muito bom em encarar sentimentos, principalmente de amor. Até porque, são nesses momentos em que eu me dou terrivelmente mal. Não sei o que dizer ou o que fazer; me senti amedrontado.

–Bryan pegador! – gritou Luke de longe e eu até me envergonharia se já não tivesse chegado ao nível máximo.

–Tenho que ir buscar umas coisas com o Erick, já volto – e antes mesmo de dar tempo para ele responder eu saí correndo, aterrorizado.

Eu poderia me castigar mentalmente por ter saído, poderia rir, chorar, pular ou cantar, mas eu simplesmente não consegui pensar em qualquer coisa. Não consegui! Meus pensamentos ficaram presos no “te amo” e no “vai namorar comigo?”. As palavras ficaram se repetindo de novo, de novo e de novo, prendendo minha mente e impossibilitando-me de ver, agir ou reagir a qualquer outra coisa.

Notas finais
Momento confissão: me deu uma enoooorme vontade de palar o cap em "Ado... Ado... Namor...Ado...", mas aí eu morreria .-. Mil e uma desculpas pelo atraso, mas o que me atrasou foi a parte da aula. Tinha coisas que era importante colocar, certos pontos. Daí tinha que ligar um ponto no outro e foi complicado. Então, para foder com tudo de vez eu esqueci quais eram os pontos principais ^^' Mas está aqui o capítulo, lindo e maravilhoso! Muitíssimo obrigado a Kinwe que recomendou! 7 Recomendações... Que moral a história tá, ein? Kkkk Muitos obrigados a Jully_fofa15 que fez várias capas lindas demaaaaaais *-* Está tudo na galeria! E vivas para Amaya Sempai que além de me dar muitas ideias ficou cobrando e por isso não atrasei mais ainda o cap!