Eminente
1 Entro em Eastway
Acordei com minha mãe, gritando da cozinha.
– Dini! O almoço já está pronto!
– Ah, mãe! Só mais cinco minutinhos! – supliquei. – Por Zeus!
Recebi o silêncio como resposta. Acho que é melhor eu ir. Levantei da cama, relutante, calcei meus sapatos e coloquei a primeira blusa que vi pela frente. Amarrei o cabelo em um rabo de cavalo e fui para a cozinha almoçar. Hoje é o primeiro dia de aula no meu colégio novo, chamado Eastway. Já o vi no máximo umas quatro vezes, mas só por fora. Nunca entrei.
– Você não vai assim pra escola, vai? – Minha mãe olhou pra minha roupa, incrédula. – É o seu primeiro dia de aula. Porque não usa uma das blusas novas que eu comprei pra você?
– Por favor! Será que eu não tenho o direito de vestir o que eu quero? Que saco! – Gritei. Assim que as palavras saíram da minha boca senti uma pontada de culpa. – Desculpa. É que...
– Não não, tudo bem. Eu entendo. – Ela me interrompeu. – Só achei que você poderia usar uma roupa mais bonita. Se não quer, não tem problema.
Perdi totalmente o apetite. Resolvi que iria sozinha pra escola, afinal, já conhecia o caminho. Entrei no meu quarto, peguei minha mochila e saí porta afora.
Quando adentrei os portões da escola, perdi o fôlego. Era tudo muito lindo. Haviam estátuas dos deuses gregos por todos os lugares. Não sei se já contei, mas minha família é de origem grega. Nasci na Grécia e me mudei para os Estados Unidos quando completei quatro anos. Meu nome é Dinartea, que significa heroína forte. Minha mãe se chama Cibele, grande mãe dos deuses. Meu pai, por sua vez, se chamava Zeus, o pai dos deuses, em homenagem ao deus grego. Ele morreu um ano antes de eu e minha mãe nos mudarmos pra cá, então não tenho muitas lembranças dele. Depois disso, minha mãe, de tempos em tempos, tem distúrbios psicóticos. Neles, ela fala coisas estranhas, do tipo “seu destino está traçado, minha querida”, “não acredite, o alimento deles é a fé”, ou até mesmo uma sequência de números sem sentido. Nunca dei muita bola pra isso, mas fiquei curiosa depois de descobrir o significado do nome do meu pai. Ele é “grande pai dos deuses” e minha mãe, “a grande mãe”. Será uma coincidência os significados se encaixarem? Parei de me questionar assim que alguém me chamou.
– Senhorita Martinez? Meu nome é Juanita, sua nova coordenadora disciplinar. Venha, vou lhe mostrar sua sala. – Segui a moça sem hesitar. Quando chegamos, ela disse: – Boa aula, querida. Tenho certeza que você vai adorar Eastway. – Assenti com a cabeça e murmurei um obrigado, mas ela já estava longe demais pra me ouvir.
O tempo nunca passou tão devagar. Minha professora, a Sra. Newell, nos fez sentar em uma roda no chão e, um por um, falar pra classe seu nome completo, idade, onde mora, nome dos pais e qual escola frequentava. Achei um pouco estranho, mas como ela era professora, não pude discordar. Lembrei-me da vez em que minha mãe me disse pra nunca, jamais, em hipótese alguma, falar o meu endereço. Quando chegou minha vez, achei que não havia problema algum.
– Meu nome é Dinartea Martinez, eu, hã, tenho 13 anos, moro em Winter Falls, meus pais são Cibele e Zeus e eu frequentava a Athena’s Children.
Quando terminei de falar, todos me olhavam com um olhar confuso. Até que a minha professora perguntou.
– Winter Falls fica, hã, em Nova York? Nunca ouvi falar.
– É claro, professora. Ela fica duas ruas atrás daqui. – falei, mas os olhares continuaram perdidos.
Ninguém falou nada, então resolvi quebrar o gelo.
– Temos um mapa, certo? Porque, hã, não damos uma olhada?
– Certo, querida. Trevor – ela apontou pro menino do meu lado – o mapa está dentro do armário. Pegue-o, por favor, querido?
Trevor hesitou, mas se levantou e fez o que Sra. Newell havia mandado. Enquanto todos esperavam, uma menina sentada ao meu lado que se apresentou como Jess me peguntou:
– Então o nome do seu pai é Zeus. Zeus tipo o deus grego?
Não tive tempo de responder porque Trevor chegou com o mapa nas mãos e o entregou para a professora, que me olhava como se eu fosse louca.
– Winter Falls... Vamos ver. – Ela abriu o mapa. Meu coração disparou e as palavras da minha mãe me vieram à cabeça. Nunca, jamais, em hipótese alguma, fale o nosso endereço.
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