Emily

6 Presentes


Faltava uma semana para o aniversário de dezoito anos de Bruno. As festas dos Anchanjo eram conhecidas por toda a redondeza. Grandes bailes, comida boa, muita bebida e ótimos músicos, tudo muito luxuoso. Com o tão esperado aniversário de maioridade do filho mais novo, não podia ser diferente. Todos ignoraram as objeções de Bruno, que não queria ter nada grande, não sentia que o momento era especial. Como não tinha voz e não conseguia lutar pelo que queria, acabou subordinado aos exageros dos pais e dos Serafim.

Naquela última semana, passou a maior parte do tempo na biblioteca, estudando seus livros e suas músicas. Músicas eram sua terceira paixão, depois de estrelas e livros. Quando fizera dez anos, os pais o fizeram aprender flauta. No início não gostava, mas com o tempo passou a amar o instrumento. Seu amor era a transversal, desde os dez anos usava a mesma flauta, que já estava bem velha e gasta. Ultrapassada, a flauta de Bruno ainda era feita de madeira, enquanto todos os melhores e mais ricos músicas já usavam as de metal. Os pais não importavam-se com nenhum dos amores de Bruno.

Seu telescópio, ele conseguira com um artista de circo (e astrônomo) que fora convidado pelo pai para o aniversário de Gabriel. Enquanto todos bajulavam o irmão, o garoto encantava-se pelos artistas. Quase fugira com eles, mas Gabriel o pegou quando subia na carroça. Os livros da biblioteca era todos da época de seu avô. Carlos Archanjo considerava como dispensáveis e não adquirira mais nenhum. Sempre que procurava algo novo, Bruno visitava o avô, que guardava ainda mais livros na biblioteca de sua atual residência.

O garoto vivia como lhe convinha, ao contrário de Gabriel, não tinha ninguém o controlando para ser um filho perfeito. O que lhe obrigavam era apenas a comparecer às festas e às refeições da família, tinha as horas livres para si e, por esse lado, não invejava o mais velho, que aprendia todo o trabalho do pai para sucedê-lo.

Enquanto Bruno mergulhava em seus livros durante horas e horas, passava noites em claro admirando suas estrelas e tocava sempre que quisesse, Gabriel estava trancado no escritório com o pai, organizando as finanças e aprendendo suas obrigações como um homem de família, que seria quando se casasse com Emily.

Às vezes, olhando pela janela da biblioteca, Bruno via o irmão passeando com Emily e a ama Bea pelo jardim. E quando riam, seu peito parecia rasgar-se ao meio. Não conseguia escutar, mas imaginava com perfeição a risada de Emily. Ela parecia tão leve, quase um anjo andando pela grama verde, e Gabriel ao seu lado, um perfeito cavalheiro. Uma família perfeita. Emily com seus cachos castanhos até a cintura e Gabriel com seus cabelos negros enrolando-se no colarinho da camisa. Não suportava olhar por mais do que alguns poucos minutos.

Isolou-se até o dia de seu aniversário. Saía do quarto apenas para comer e quando era obrigado pelo pai a comparecer à alguma reunião entre as duas famílias, a maioria dizendo respeito à Gabriel e Emily. E ao casamento, que dentro das famílias já estava certo, só faltava anunciar à todos. Preferiram deixar passar o aniversário de Bruno. E quando a família Serafim fosse embora, só então começariam a organizar a festa para o anuncio do noivado.

No dia de seu aniversário, Bruno foi acordado pelo irmão, que pulava em sua cama e o sacudia. Tentou ignorar, mas Gabriel insistiu, estava mais animado que o aniversariante. Não parou de atormentar Bruno enquanto ele não decidiu levantar.

–Pelo amor de Deus, Gabriel. O que você quer? -disse ele irritado.

–Parabéns maninho, já é um homem. -E Gabriel o abraçou o mais apertado que conseguiu. Bruno reprimiu um gemido de dor.

–Obrigado. -disse mais decepcionado do que animado.

–Quer saber o que comprei pra você?

Gabriel colocou o embrulho no colo de Bruno sem esperar pela resposta. O pacote era do tamanho exato de um livro e foi impossível ele ignorar. Rasgou o papel marrom e encontrou um volume sobre astronomia, um dos raros. Seus olhos brilharam e Gabriel ficou mais feliz ainda, tinha acertado no presente mais uma vez. Bruno abraçou o irmão, um pouco mais animado e, dessa vez, sincero e agradecido, em todos os seus aniversário, Gabriel era a única pessoa que se importava de verdade, os pais só fingiam pelo dever.

Os irmãos se arrumaram e desceram para o café da manhã. Todos já estavam na mesa e, ao contrários do que esperava, Bruno recebeu abraços e beijos de todos, que prometeram entregar os presentes mais tarde, inclusive dos seus pais, mas provavelmente os dois só estavam atuando para os convidados. Emily lhe lançou um sorriso tão lindo que, a partir desse momento, Bruno passou a sorrir mais sinceramente para todos e se sentir mais confortável com o seu aniversário.

Como já era sua rotina, Bruno foi para a biblioteca namorar seu mais novo livro. Foi interrompido minutos depois de começar a leitura. Emily entrou na biblioteca com um livro nas mãos.

–Estou atrapalhando? -perguntou aproximando-se receosa.

–Não, claro que não. -Bruno fechou o livro sem nem se importar em marcar a página.

–Não tive tempo de embrulhar, espero que não se importe. -Ela sorriu minimamente, parecia até envergonhada.

Bruno pegou o livro de capa vermelha e letras douradas. "A Queda dos Anjos". Ele nunca tinha ouvido falar do livro, mas parecia ser bom e, vindo de Emily, ele não esperava outra coisa. Agradeceu genuinamente, não pensou que ganharia um presente de Emily, apenas um em nome de toda a família Serafim, como era comum.

–Ganhei esse livro do meu avô quando tinha apenas sete anos de idade. Eu ainda estava aprendendo a ler e esse foi o primeiro livro que li. -Ela sentou-se na poltrona em frente a de Bruno. -Apaixonei-me pela história.

–Tenho certeza de que vou gostar.

–Não tenha tanta certeza assim, é uma história meio maçante. -disse Emily com um sorriso brincalhão no rosto.

–Gosto de coisas maçantes. -Bruno deu de ombros e um silêncio constrangedor pairou entre os dois.

–Acho melhor eu ir, seu irmão deve estar me esperando. -Emily levantou e deu alguns passos de costas.

–É claro. -Bruno assentiu, tentando esconder a decepção.

–Nos vemos à noite? -Ela sorriu.

–Com certeza. -Ele retribuiu o sorriso e observou enquanto ela saia da biblioteca.

Bruno abriu o livro que Emily havia lhe dado e encontrou um recado.

Enquanto ainda houver estrelas no céu, nada estará perdido.

Ele não sabia quem havia escrito o recado, mas a letra tinha um toque masculino e provavelmente o avô da garota havia escrito para ela. Sentiu-se extremamente especial, mas indigno daquele presente. Contudo, sabia que Emily ficaria chateada se ele tentasse devolver. Continuou lendo o livro que ganhou do irmão, mesmo que A Queda dos Anjos atraísse seus olhos.

Notas finais
O próximo capítulo promete. hahá