Emily

7 Dezoito Anos


O salão menor estava belamente decorado especialmente para o aniversário de Bruno. Ele gostava de velas e haviam muitas ali. Apesar de não querer nada daquilo, estava feliz. Era muito mais do que esperava dos pais que, internamente, o desprezavam. Todos aqueles que se diziam seus amigos estavam ali e muitas outras pessoas que não conhecia, mas sabia serem homens importantes, amigos de seus pais. Carlos não havia organizado a festa em comemoração ao aniversário de Bruno, mas sim para mostrar a todos a nova aquisição de sua família, a doce Emily e o dinheiro dos Serafim.

–Isso é tudo seu, irmãozinho. -disse Gabriel aproximando-se de Bruno e o abraçando lateralmente.

–É o que vocês querem que eu pense. -O mais novo quase revirou os olhos.

–Não seja difícil, Bruno. Você sabe que não é assim. -Gabriel repreendeu o irmão, assim como esse o fazia quando ele estava sendo rebelde demais.

Emily aproximou-se dos dois com um belo vestido azul marinho bordado com milhares de pedrinhas brilhantes, parecia um céu estrelado. Os cabelos estavam presos em um coque mau feito, que deixava várias mechas soltas caindo por seus ombros, que ela os deixara nus, diferente da maioria das mulheres da festa. Um fio prateado adornava sua cabeça com pequenas presilhas brilhantes que acrescentavam pontos de luz naquele mar castanho.

–Algum segredo que não seja para meus ouvidos? -Ela sorriu quase maliciosamente.

–Claro que não. -disse Bruno reconhecendo suas palavras na voz dela.

–Desculpem-me, preciso ir cumprimentar algumas pessoas. Vou deixá-los a sós. -disse Gabriel olhando significativamente para Bruno e sumiu entre os convidados.

Emily e Bruno ficaram alguns segundos em silêncio, pensando no que dizer. Foi o garoto que falou primeiro.

–Estás linda. -Observou meio encabulado.

–Você também está incrível. Podemos ir para um lugar mais reservado? -perguntou receosa de como seu pedido seria recebido. Bruno olhou para os lados antes de responder:

–Acho que não teria problema. -Ele sorriu e ofereceu seu braço a ela.

Pela primeira vez estava se arriscando por algo que desejava. Levou Emily para uma das varandas como a que ficaram da última vez. A lua estava crescente e brilhante na medida do possível, mas Emily ofuscava qualquer outra coisa. Ficaram algum tempo em silêncio, observando as estrelas.

–O que pretende fazer a partir de agora? -A voz de Emily estava um pouco esperançosa.

–Em relação à...? -Bruno indagou.

–Ao futuro. -Emily sorriu com a palavra carregada de expectativas e esperança.

–No futuro não sei o que farei, mas agora...

Bruno virou o rosto de Emily para que ela olhasse em seus olhos. Estavam próximos demais, ele inclinou-se para frente, pronto para encostar seus lábios nos dela.

–Bruno? -perguntou alguém interrompendo os dois.

Afastaram-se o mais dignamente que conseguiram. Era apenas um amigo de Bruno que o havia reconhecido e, para a sorte dos dois, parecia ter ignorado o que quase presenciara.

–Francis!

Bruno sorriu ao reconhecer o amigo que muito provavelmente tinha vindo da França apenas para vê-lo. Ignorou a interrupção e abraçou o garoto de cabelos cacheados e olhos verdes. Fazia alguns anos que não se viam e ele estava muito diferente, agora tinha bigode e cavanhaque.

–A cada dia que passa ficas mais velho que teu irmão. -O francês pousou a mão no ombro do amigo e discretamente apontou para Emily com um olhar de indagação.

–Ah, esta é Emily, a futura esposa do meu irmão. -disse Bruno apresentando a garota, que sorriu simpaticamente.

–Irmão, sim? -Francis arqueou uma sobrancelha para Bruno, deixando claro que sabia que a história não era bem assim. -Mademoiselle*.

O gringo segurou a delicada mão de Emily e ali pousou um inocente beijo. Francis não demonstrou qualquer interesse pela garota, mas se Bruno estava certo, a cobiça faiscou nos olhos dela. Ela pediu licença e saiu para que os amigos pudessem recuperar o tempo perdido.

–Qual a história da beau fille*? -perguntou o amigo assim que Emily os deixou a sós.

–Ela está prometida a Gabriel, o clássico casamento por negócios continua aqui na Inglaterra, meu querido amigo. -Bruno deu de ombros, mas não conseguiu esconder o que desejava.

–Você gosta dela, não é?

Francis sempre foi muito perspicaz. Não adiantaria Bruno negar, o garoto tinha visto que ele quase a beijara. A negativa de resposta foi confirmação suficiente para Francis, que reconhecia o amor de longe, mas para não constranger o aniversariante, mudou de assunto.

–Trouxe um presente para você, frère*. Espero que goste.

–Vou gostar, com certeza. -Bruno sorriu.

A festa estava sendo bem melhor do que o garoto esperava. Passeou pelo salão cumprimentando os outros convidados e seu pai o apresentava orgulhosamente às pessoas. Mesmo que nunca tivesse reconhecido, exaltava para os grandes homens de negócios, as qualidades intelectuais de Bruno. Abusava do seu amor por livros, astronomia e flauta.

Não teve mais nenhuma chance de ficar a sós com Emily, mas quando encontravam-se por acaso, a garota lhe mandava um sorriso cúmplice. Os dois compartilhavam um segredo que ainda não havia sido consumado. Gabriel estava feliz pelo desenrolar do romance tímido e inocente dos dois, quando esbarrava em Clara por acaso, sorria para a garota e admirava sua beleza.

Antes do bolo, seu pai subiu onde estavam os músicos e discursou, para a surpresa de Bruno e Gabriel. Disse belas palavras sobre seu filhos mais novo, que os dois nunca imaginaram que ouviriam um dia. Agradeceu por sua vida e disse que o garoto trouxe mais alegria para a casa quando nasceu, a casa que estava tensa pelas atuais exigências do filho mais velho e mimado Gabriel. Parabenizou o filho pelas qualidade que nunca reconheceu, mas admitiu que nunca incentivou o garoto à leitura e, mesmo assim, a paixão por livros só cresceu enquanto o tempo passava. Contou sobre o cômico episódio dos artistas, quando ele conseguiu seu telescópio e provocou risadas nos convidados, até Bruno teve que rir. E, por fim, disse ao filho que o amava e que estaria ao lado dele nessa mais nova etapa de sua vida.

Eram palavras vazias. Cada uma foi ensaiada para passar sentimento e emoção aos convidados, talvez até fossem inspiradas em Gabriel, Bruno não duvidava. Mas ali estavam todos aplaudindo, sorriam e algumas pessoas até tinham lágrimas nos olhos. Carlos havia cumprido seu papel de pai amoroso e preocupado com o futuro do filho mais novo. Agora era a vez de Bruno cumprir o papel de um filho amado, subiu os degraus e abraçou o pai, como se realmente o falso discurso o tivesse emocionado.

–Aqui está seu presente.

Carlos pegou um embrulho com um dos músicos e o entregou ao filho. Era bem óbvio que queria que o garoto o abrisse ali, na frente de todos, para que vissem a riqueza do presente. Bruno não fazia a mínima ideia do que poderia ser, mas abriu o embrulho e encontrou um caixa retangular preta, abriu-a e seu queixo caiu. Apoiada nas almofadas de veludo vermelho, havia uma bela flauta transversal dourada.

–Toque para seus convidados, todos queremos ouvi-lo. -disse Carlos e gritos de consentimentos ecoaram da platéia que os assistia.

O garoto não sabia o que fazer. Esperava qualquer presente do pai, menos aquilo, algo que ele gostava realmente. Muito provavelmente tinha sido obra de Gabriel. Olhou para o irmão, mas o mais velho parecia tão surpreso quando ele e, quando assentiu para Bruno, só então o garoto teve coragem de pegar a flauta nas mãos. Parecia ter sido feita exatamente para ele, encaixava-se perfeitamente em suas mãos. Então tocou.

As notas o preencheram de uma felicidade que ele nunca imaginou ser possível. Aquele dia, seu aniversário de dezoito anos, era um martírio mais do que qualquer outra coisa. Mas enquanto seu irmão ganhara responsabilidades enormes, ele ganhara liberdade. Sentiu-se um tolo por sua inveja, tinha tudo o que queria e só agora enxergava que Gabriel que passava por apuros, não ele. Bruno podia não ter o amor dos pais, podia não ter o dinheiro da família, podia não ter a mulher que amava, mas tinha liberdade para fazer suas próprias escolhas. Se quisesse casar-se com uma criada, o pai não se importaria, se quisesse casar-se com uma meretriz, o pai apenas o colocaria para fora de casa, afinal não era herdeiro de nada enquanto seu irmão estava vivo.

Gabriel nada podia fazer. Amava uma criada, mas estava sendo obrigado a casar com outra, uma garota de família rica, alguém que seu pai aprovava. Estava preso no dever de filho mais velho e dinheiro nenhum no mundo pagava a liberdade que Bruno tinha. O mais novo tocou com todo seu coração, sentia-se leve e pronto para, ao lado do irmão, lutar pelo que os dois queriam.

Notas finais
*Mademoiselle: senhorita; *Beau fille: garota linda; *Frère: irmão ou companheiro, como desejar. Tudo bem, eu admito, sei que o beijo está demorando, mas não me batam, sou da paz. T.T