Emily
4 Festa de Boas Vindas
Já fazia uma semana que a família Serafim estava hospedada na casa dos Archanjo. Carlos e Sebastian passavam a maior parte do tempo trancados no escritório bebendo, Amélia e Jorian viraram grandes amigas e já conversavam sobre o casamento dos filhos. Gabriel passava a maior parte do tempo monopolizando a atenção de Emily, mas os dois eram seguidos por Bea em todos os seus passeios, que eram muitos já que ele queria ficar o mais longe possível dos olhos de Clara, tudo estava sendo doloroso o suficiente para os dois.
Emily mostrou-se uma garota encantadora e nada mimada, como os irmãos haviam imaginado a princípio. Conforme a conhecia, mais Gabriel encontrava características de Bruno e a certeza de que aquela garota não era para ele aumentava. Mas ultimamente o irmão caçula andava tão distante, só o via nas refeições e não lhes era possível conversar. A verdade é que fugia de Emily para não cair na tentação, deixando assim o caminho livre para que ela e o irmão se amassem.
A festa de boas vindas aos Serafim estava marcada para domingo à noite. A movimentação da casa aumentou, como sempre acontecia. Novamente seria no salão menor e Bruno desconfiava de que o maior estava sendo reservado para o noivado de Gabriel e Emily.
Naquela noite a garota usava um vestido azul bebê que a deixava com uma suave aura angelical, seus longos cabelos castanhos estavam soltos e tinham leves cachos, usava uma tiara prateada. Suas bochechas estavam rosadas e o sorriso dela fez o coração de Bruno bater mais rápido, até ver o irmão ao lado de Emily. Os dois faziam um belo casal. Os cabelos de Gabriel eram mais escuros que os dela e seus olhos negros.
Bruno respirou fundo antes de aproximar-se para cumprimentar os dois e foi abraçado pelo irmão. Sentiu-se desconcertado e com vergonha dos sentimentos que passou a nutrir pelo garoto que parecia o amar tanto. Contudo, a inveja a consumia.
–Estás sumido, irmão. -Sussurrou Gabriel em seu ouvido, mas afastou-o sorrindo. -Sentimos a sua falta em nossos passeios, Bruno.
–Senhorita. -disse Bruno pegando a mão de Emily e inclinando-se um pouco para beijá-la. -Ando muito ocupado. -Completou olhando para o irmão.
–Faço questão que junte-se a nós amanhã. -Emily apertou sua mão levemente e sorriu. Bruno sentiu-se vazio quando ela a soltou.
–Claro. -Não pôde evitar consentir com aquela loucura.
–Irmão, peço que faça companhia a Emily enquanto resolvo algumas coisas. -Gabriel mandou um olhar significativo para o caçula, mas esse o ignorou.
–Temo que não poderei fazer o que meu irmão pediu. -disse assim que foi deixado com Emily.
–Foges de mim? -perguntou com um olhar provocativo que encabulou Bruno.
–De jeito nenhum. -Não conseguiu colocar segurança em suas palavras.
–Então fique. -Emily lhe deu as costas e dirigiu-se à varanda, Bruno olhou para os lados antes de acompanhá-la.
A garota admirou a noite. Estava tão linda iluminada pelos raios prateados da lua, a pele dele brilhava quase como a tiara em seu cabelo. Bruno aproximou-se a ponto de sentir o cheiro doce de sua pele, mas não se atreveu a tocá-la. Observou-a em silêncio, esperando que lhe revelasse o motivo para tê-lo levado até ali.
–Ficaremos aqui até o seu aniversário. -disse virando-se para olhá-lo. -Será um dia muito especial.
–Como qualquer outro. -Bruno não importava-se com seu aniversário de dezoito anos, assim como todos na casa. Todas as atenções estavam voltadas para Gabriel, e agora Emily.
–Não fale assim. -disse ela o repreendendo com o olhar, aproximou-se do garoto, que ficou apreensivo. Lembrava-se muito bem do que quase havia acontecido da última vez que ficaram tão próximos. Pegou a mão de Bruno e sussurrou-lhe no ouvido: -Dance comigo.
Ele não podia recusar. Levou a mão à sua cintura fina, enquanto a outra estava presa pelos dedos dela. Tudo o que via era Emily, agora sem a máscara, mas com a mesma quantidade de mistério. Não sabia nada sobre aquela garota nem sobre sua família, assim como Carlos e Gabriel também não sabiam. Mas estavam cegos pelo dinheiro, assim como Bruno estava cego por ela. Cegamente apaixonado por seu cheiro e o calor de seus mãos.
–Você é tão jovem. -disse ela enquanto balançavam-se no ritmo da música suave.
–Falas como se fosse muito mais velha. -Bruno sorriu, afinal a garota era ainda mais nova que ele.
–Mas é assim que me sinto. -Deu um sorriso cansado e, pela primeira vez, evitou olhar nos olhos de Bruno.
E parecia mesmo, Emily tinha um brilho de experiência nos olhos que faltava a todos que o garoto conhecia, como se ela tivesse vivido muita dor. Bruno estava curioso, mas não achou que seria sensato perguntar, esperaria pelo tempo dela. Tempo que ele não passaria ao seu lado para descobrir a história completa. Dançaram em silêncio, olhando nos olhos um do outro.
Ao deixar Emily e Bruno juntos, Gabriel sabia que aquela era uma das poucas oportunidades que tinha para fazer alguma coisa certa na sua vida toda errada. Com cautela, seguiu para a cozinha atrás de Clara, dando ao irmão a oportunidade de passar algum tempo com a garota que amava, achava que todos mereciam essa chance. Encontrou Clara lavando os pratos. Em uma festa daquele tamanho, Carlos não achava digno dar a honra de servir os convidados aos empregados mais novos, eles teriam a sua chance mais tarde.
–O que faz aqui? -perguntou Clara quando o viu, olhando para os lados para ver se algum reparava nos dois, mas não parou o seu trabalho.
–Eu não desisti de você, Clara. -disse Gabriel ignorando a pergunta da garota. Ela vestia roupas limpas, mas que já estavam molhadas por causa de seu trabalho. Gabriel sentiu o cheiro do sabonete que havia lhe dado. Rosas, delicadas como ela.
–Não devia estar aqui. -Evitou olhá-lo, a dor demais.
Clara tentava se fazer de forte, mas estava sofrendo. Desde que entrou em um relacionamento proibido com o filho do patrão, já sabia que isso uma hora iria acontecer, só não esperava que fosse tão cedo. Sua decisão sempre esteve tomada, abriria mão dele no momento que fosse necessário. Mas ali estava Gabriel, ainda querendo lutar por ela.
–Sim, eu devia. -Puxou a garota pelo queixo com delicadeza, fazendo com que ela o olhasse. -Meu lugar é ao seu lado, Clara.
Sem conseguir evitar, lágrimas caíram dos olhos dela. Belos olhos castanhos. Seus cabelos estavam trançados como sempre, ainda assim absorviam toda a luz do lugar. Gabriel queria beijá-la, porém os olhares dos criados ao seu redor o fizeram soltá-la.
–Encontre-me mais tarde no estábulo. -E com a promessa, voltou à festa.
Não procurou por Emily e Bruno, os dois precisavam se acertar. Bruno e Gabriel seriam ainda mais fortes juntos contra Carlos. Querendo Clara, Gabriel abriria mão de Emily e da herança, que consequentemente iriam para o irmão, concedendo ao Bruno tudo o que ele sempre quis. E assim, Gabriel estaria livre das responsabilidades para casar-se com Clara. Todos sairiam felizes, Carlos só substituiria um filho pelo outro. Acabou encontrando o irmão e sua prometida sem querer. Os dois riam de alguma piada, confortáveis com a presença um do outro.
–Aí estão vocês. -Estava feliz com o seu progresso. Percebeu o irmão afastar-se da garota, com medo de uma interpretação errada por parte de Gabriel.
–E aí está você. -disse Emily com um sorriso um pouco triste no rosto. Feito, a garota já apreciava mais a presença de Bruno do que a dele.
–Vou deixá-los a sós. -Bruno dirigiu-se para a porta, mas Gabriel o segurou.
–Faço questão que fique.
–Gabriel, por favor, convença seu irmão de ir cavalgar conosco amanhã. -disse Emily com um leve tom de súplica. Bruno suspirou imperceptivelmente, pareciam já ter discutido aquele assunto.
–Ele estará lá, eu lhe garanto. -Gabriel sorriu para Emily e em seguida enviou um olhar duro ao irmão. O que ele estava pensando?
Os três conversaram por bastante tempo. Gabriel tentava incluir Bruno na conversa, mas ele esquivava-se querendo dar privacidade ao casal, ignorando os planos do irmão mais velho. Quando a festa acabou, seguiram todos aos seus aposentos, os pais para conversarem sobre a festa, Gabriel para esperar todos dormirem e fugir ao estábulo, Bruno para ler e Emily para conversar com sua ama.
–Vi que já fez uma amiga, Bea. -disse Emily enquanto a garota ajudava a tirar o vestido.
–Sim, o nome dela é Clara, filha da cozinheira.
–Dê meus elogios à mãe da garota, a comida é ótima. -Bea assentiu, mas sentiu que Emily não queria falar de suas amizades nem da comida do lugar.
–Aconteceu alguma coisa? -As duas eram grandes amigas e Emily dispensava o relacionamento entre criada e patroa, contando-lhe segredos de seu coração que não podia revelar a mais ninguém.
–Não estou apaixonada por Gabriel. -disse com um suspiro.
–Mas é com ele que o senhor seu pai quer que se case. -Bea ajudou-a a vestir a camisola e passou a pentear seus longos cabelos escuros.
–O que sabe sobre o Bruno? -Emily virou-se para ficar de frente para Beata.
–Não muita coisa. -Bea a fez virar novamente para que terminasse de escovar seus cabelos.
–Então procure saber. Pergunte a essa sua amiga Clara, qualquer pessoa. Quero saber de tudo. É com ele que quero me casar.
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