Emily

5 Estrelas


Notas iniciais
Uma música fofinha para o capítulo é Never Say Never - The Fray.

Gabriel saiu de casa pela porta da frente sem que ninguém o visse. Encolheu-se de frio assim que pôs os pés do lado de fora e rezou para que Clara aparecesse. Passara a acreditar mais em Deus depois do incidente Nefilim, como chamava. Seu avô era uma pessoa incrível e tirava bom proveito dos poderes angélicos, mas Gabriel não desejava isso para si, achava o irmão sortudo por não ter a possibilidade de receber a semente. Ao chegar no estábulo, para sua surpresa, encontrou Clara. Os olhos dela estavam vermelhos, como se tivesse chorado e ele não duvidava disso.

–Desculpe se a fiz esperar. -Tomou-a nos braços sem esperar consentimento.

–Senti tanto a sua falta. -Sussurrou ela deixando-se levar.

Ele também sentira falta dela. Estava inebriado pelo cheiro de seus cabelos e o calor de sua pele. Ao lado dela, sentia-se capaz de fazer qualquer coisa, ser qualquer coisa por ela. Não aguentando, Gabriel a beijou com paixão. Como queria aquela garota! Era apaixonado pela maciez dos fios dourados, seus olhos brilhantes e seu sorriso sincero. Queria passar o resto da vida ao lado de Clara.

–Isso é tão perigoso. -disse ela quando se afastaram, mas não o soltou, sentia-se segura nos braços dele, como se nada pudesse atingi-la.

–Não se preocupe, estou aqui com você. -E dizendo isso, a beijou novamente.

Juntos podiam qualquer coisa. O amor que sentiam um pelo outro ia muito além das ordens de Carlos e do encanto de Emily. Gabriel queria Clara, assim como ela também o queria. Mesmo sendo de mundos diferentes, ao lado um do outro criavam um mundo só deles. Tudo ao redor conspirava contra eles, mas enfrentavam qualquer coisa para estar nos braços um do outro e mesmo separados, estavam juntos, é possível separar dois corpos, mas nunca dois corações.

O que Gabriel mais queria além de ficar com Clara, era fazer o irmão feliz, mas sabia que não seria nada fácil. Os dois nunca foram de ir contra a palavra do pai, porque ele sempre pareceu justo o suficiente para que não fosse possível uma discussão. Só que naquele momento, o garoto via que era a única forma de conseguir o que ele e o irmão queriam.

Tudo o que Bruno queria era o melhor para seu irmão. Tinha certeza de que Gabriel não seria capaz de ganhar uma disputa com Carlos, mesmo que seu irmão fosse teimoso e tivesse bons argumentos. O pai era o mais certo, seguia a tradição de achar uma família financeiramente à altura da sua para aumentar ainda mais a riqueza, e assim seria com Bruno.

O mais novo sempre foi contra a desobediência, preferia abaixar a cabeça e aceitar tudo como lhe era imposto. Nunca gostou das conversas de madrugada no escritório para que Gabriel bebesse o whisky escondido, contudo mais do que ser um garoto exemplar, Bruno queria ver o irmão feliz e fazia qualquer coisa por ele. Lembrava-se até hoje de quando foi culpado por abrir o estábulo para os cavalos fugirem quando na verdade havia sido o irmão mais velho. Ficou uma semana sem sobremesa e ainda teve que passar horas e horas procurando os cavalos. Nunca reclamou.

Pela primeira vez, o irmão tinha algo pelo qual ele faria de tudo para ter e mesmo assim não tinha coragem de lutar. Bruno sentia-se fraco, principalmente perante seu pai. Era medroso e sempre abaixava a cabeça sem contrariar, diferente de Gabriel que sempre encarou o pai de cabeça erguida. Talvez por isso ele fosse o filho preferido, não tinha medo de ir contra Deus e o mundo pelo que queria e Bruno sabia que o irmão mais velho não tinha desistido de Clara, ele a amava e faria qualquer coisa por ela, coisas que Bruno nunca seria capaz de fazer por Emily.

No dia seguinte, depois do café da manhã, Bruno foi convocado para cavalgar com Emily, já que Gabriel precisava ajudar o pai e Sebastian no escritório, assuntos que não eram para os ouvidos do filho mais novo. Clara disse que a garota o esperava no estábulo, não parecia ter nenhum ressentimento quanto a Emily.

–Não a deixe escorrer entre suas mãos, Bruno. -disse ela quando ele passou ao seu lado para sair do quarto. Tinha um sorriso cansado no rosto e por trás de suas palavras o garoto encontrou um segredo, mais uma coisa que não era para seus ouvidos.

Encontrou Emily fazendo carinho em uma égua branca. A garota tinha um sorriso sereno nos lábios e seus cabelos estavam presos. A cada vez que a via, Bruno a achava ainda mais linda. Percebendo a aproximação dele, ela sorriu.

–Obrigada por me fazer essa gentileza.

–Onde está Bea? -perguntou estranhando a ausência da ama.

–Ela não nos acompanhará. -Emily deu de ombros.

–Então acho melhor irmos mais tarde. -Bruno ficou um pouco desconcertado com a situação.

–Bruno, suba nesse cavalo e relaxe. -Emily subiu na égua e Bruno não pôde fazer outra coisa a não ser obedecê-la.

Cavalgaram por horas e divertiram-se mais do que Bruno imaginou ser possível. Já estava quase na hora do almoço quando Emily pediu para parar debaixo de uma grande árvore. De onde estávamos era possível ver a mansão a quilômetros. Sentaram na grama sentindo a brisa fresca, o sol já estava quente demais.

–Acho melhor voltarmos.

Bruno não estava nada satisfeito com aquela situação. Não deviam ter saído sem Bea, capaz de Carlos achar que ele roubou a prometida do irmão. Mas Emily estava tranquila e a presença do garoto ao seu lado não a deixava nada nervosa, para Bruno, isso era um claro sinal de que ela não sentia nada por ele e ele não tinha nenhuma chance. Ela suspirou.

–Bruno, por que você é tão preocupado?

Ele não a olhou, apenas deu de ombros. Também não sabia por que era tão preocupado, apenas era. Foi criado com o irmão desobedecendo regras e mesmo assim não tinha o espírito forte do mais velho.

–Apenas não quero que Gabriel fique preocupado.

–Ele não vai. Não gosta de mim.

–Por que diz isso? -Bruno olhou para Emily espantado, como uma garota tão linda podia pensar que alguém não gostasse dela?

–Eu o vi com aquela criada. -Não olhou para Bruno, mas ele pôde ver sua expressão levemente decepcionada.

–Clara. -Sussurrou Bruno.

–Ele a ama.

O que Gabriel estava fazendo? Colocando tudo a perder por uma aventura que nem sabia se daria certo no futuro. Mas Bruno entendia, queria ter coragem de fazer o mesmo por Emily. Quando a garota deixou claro que sabia do amor de Gabriel por Clara, foi impossível Bruno não acender aquela chaminha de esperança. Fazendo por ele, Gabriel estaria fazendo pelos dois. Com o filho mais velho casado com Clara, só restaria Bruno para casar com Emily. Ficou pensando nisso em todo o caminho até a casa e seu humor estava bem melhor na hora do almoço. Gabriel soube na hora que o seu plano mal feito estava dando frutos.

À tarde Gabriel foi procurar pelo irmão na biblioteca. O garoto tinha um livro aberto pousado nas pernas, mas seu olhar concentrava-se na janela. Conhecia isso muito bom, seu irmãozinho mais novo estava sonhando acordado e ele apostaria seu braço direito que era em Emily que ele pensava.

–Apaixonado? -Gabriel encostou-se na poltrona de frente para o irmão de cruzou os braços.

–Não. -Bruno fechou o livro e levantou para colocá-lo no lugar, sem olhar diretamente para o irmão.

–Pensei de já tivéssemos passado dessa fase. -Gabriel ficou um pouco chateado ao perceber a indiferença do irmão.

–Temo que não. -Bruno virou-se para o irmão e também cruzou os braços.

–Estou tentando te ajudar, Bruno.

–Me ajudaria muito se cumprisse o seu papel como filho mais velho. -Bruno estava bastante irritado, mas não sabia o motivo.

Gabriel respirou fundo, seu irmão estava passando por algo difícil e ver o irmão abrindo mão de tudo que ele sempre quis não devia estar sendo nada fácil, mesmo que fosse para deixar tudo para ele.

–Bea procurou Clara.

–E daí?

–Emily está recolhendo informações sobre você. -Gabriel viu a máscara de indiferença do irmão vacilar e ele era novamente o garoto que havia lhe revelado que estava apaixonado depois do baile de máscaras. -Acho que ela está gostando de você.

Evitou sorrir, mas estava feliz com aquela pequena vitória. Sem esperar por uma resposta de Bruno, saiu da biblioteca, deixando o garoto sozinho com seus pensamentos confusos. Será mesmo que Emily estava interessada nele? Se não, por que motivo pediu a Bea para recolher informações?

Teve vontade de correr atrás do irmão, lhe abraçar e agradecer, mas apenas sorriu sozinho. Também quis ir até o quarto de Emily e perguntar por que estava querendo saber sobre ele, qual a intenção dela? Mas continuou trancado na biblioteca, porque era covarde demais. Ainda estava com medo de Carlos e, era duro admitir, deixaria seu irmão cuidar de tudo sozinho, assim como ele recebeu o castigo pelos cavalos perdidos.

O jantar parecia estar mais agradável para todo mundo. Amélia e Jorian nunca se abalaram pelos conflitos dos homens, Emily estava levemente bronzeada pela cavalgada da manhã, Carlos e Sebastian contavam piadas e riam espalhafatosamente, Gabriel mandava olhares discretos para a garota na lateral da sala de jantar e Bruno, esse estava quieto, apreciando sozinho suas mais novas revelações e ninando sua recente esperança. Gabriel sorriu ao perceber o sorriso discreto nos lábios do irmão, isso era tudo o que queria, vê-lo feliz. Assim como ver Clara sempre radiante da forma como estava.

Bruno dirigiu-se à biblioteca enquanto os outros terminavam suas conversas para irem dormir, estava agitado demais para deitar e fechar os olhos. Abriu a janela e puxou o telescópio para perto. Olhou as estrelas, era o que mais gostava de fazer depois de ler. Foi interrompido pelo rangido da porta abrindo, pensou que fosse o irmão, mas foi surpreendido, Emily sorriu para ele e estava sozinha.

–O passeio de manhã não foi o suficiente? -perguntou com certo tom atrevido, ele mesmo ficou surpreso com suas palavras.

–Nunca é. -Ela aproximou-se devagar. -O que estás fazendo?

–Olhando as estrelas, quer ver? -Ele indicou o telescópio, sentia-se tão leve com ela, não mais culpado e com medo.

Emily assentiu e olhou. Era fascinante, tantas estrelas que ela não conseguia contar, todas brilhavam, umas mais que outras, mas cada uma tinha sua importância naquele céu imenso. Foi surpreendida pelas palavras de Bruno:

–Duvida do brilho da estrela e até do perfume da flor, duvida de toda a verdade, mas nunca do meu amor.

As palavras saíram antes que pudesse impedi-las. Nada melhor do que uma carta de Hamlet à Ofélia, um amor terminado em tragédia, clássicos de Shakespeare. Emily sorriu, ninguém nunca tinha lhe dito palavras tão bonitas. Bruno estava mostrando-se ainda melhor do que a pequena Clara descreveu à Bea. E ali estavam os dois, sozinhos, com todos da casa em seus aposentos, ninguém iria interromper, ninguém atrapalharia. A garota inclinou-se para frente, mas Bruno recuou.

Emily sentiu-se rejeitada. Teve vontade de chorar, mas respirou fundo e para esconder os olhos marejados, olhou no telescópio novamente. Culpado, Bruno não sabia o que fazer para concertar o que havia feito. Eles estavam sozinhos, ninguém nunca saberia o que houve ali, seria como se não tivesse acontecido, apenas um sonhos dele.

–Não é que não quero. -disse em voz baixa, pensando melhor no que dizer.

–Eu sei, sou prometida à seu irmão. É com ele que devo casar. -Ela voltou a olhar para ele e deu de ombros.

–Perdoe-me.

Levantou a mão para tocá-la, mas Emily lhe deu as costas e saiu da biblioteca apressadamente. Não queria que ele a visse chorar. Foi só fechar a porta atrás de si que as lágrimas caíram. Seguiu para seu quarto sendo cegada pelos seus sentimentos que estavam sendo sufocados pelas mãos de seus pais. Ela precisava dar um jeito nisso, o que eles pensavam que estavam fazendo? Só ela sabia o que era melhor para si e, naquela momento, o melhor era Bruno.