Emily
1 Família Archanjo
–Acho que estou apaixonado.
Segredou o garoto ao irmão mais velho, enquanto folgava a gravata que o havia incomodado durante toda a noite. Os dois conversavam no escritório do pai, em segredo, para que Gabriel pudesse desfrutar dos melhores whiskys que eram guardados ali para momentos especiais.
–Não é prudente arranjar uma esposa em um baile de máscaras, irmãozinho. Elas sempre são bonitas com os benditos adornos no rosto. -Sorriu irônico, antes de tomar um gole e a bebida descer lhe queimando a garganta.
–Digo o mesmo sobre as criadas, elas sempre são mais bonitas por serem impossíveis.
O mais velho fechou a cara enquanto o mais novo sorria vitorioso. Se achava que Bruno era um garoto tolo, Gabriel estava muito enganado. Já fazia algum tempo que o caçula acompanhava os olhares e encontros escondidos de seu irmão com a filha da cozinheira. Aquilo não era segredo para os espertos, apenas para o Velho Archanjo, como chamavam o pai.
–Ainda serás castigado pela língua grande e teus olhos ainda o trairão. -As palavras foram ditas em tom de brincadeira, mas havia uma promessa por trás delas.
Gabriel ouviu o relato da noite do irmão, rindo e comentando nos momentos que achava conveniente, com cuidado para não o ofender nem acabar com suas esperanças. Era tão jovem e cheio de sonhos. Bruno contou-lhe todos os detalhes com brilho nos olhos, desde quando entediara-se e encontrou-a sozinha na varanda até quando dançaram juntos e trocaram doces palavras, sorrisos e olhares.
–Emily, era esse o seu nome. -disse Bruno com ar sonhador. Gabriel lhe estendeu o copo de whisky mais uma vez e, como em todas as outras, Bruno recusou.
Ficaram conversando até quase de manhã, com Gabriel tomando cuidado para não esvaziar as garrafas ao ponto do pai perceber o furto. Falaram muito sobre a festa, sobre os grandes senhores que o pai convocara e sobre o romance secreto de Gabriel e Clara, quando ele já estava exaltado o suficiente pela bebida para tocar no assunto.
–Vou me casar com ela. -Era o que dizia todas as vezes.
A família Archanjo era uma das mais antigas famílias que residiam o Vale, ainda conservavam o sangue nobre e a riqueza passada de geração a geração. Nunca seu pai admitiria o casamento de seu filho mais velho, seu herdeiro, com uma criada qualquer. Contudo Gabriel não escutava ninguém, estava cegamente apaixonado pela garota de cabelos claros como raios de sol.
Seu pai, Carlos Archanjo, tinha outros planos para o garoto. Planejava casá-lo com a filha de um senhor de terras qualquer, para continuar a linhagem nobre e rica. Um casamento arranjado para os negócios prosperarem, como era comum. Mesmo que Gabriel não aceitasse, assim eram as regras e seria com a escolhida pelo pai que se casaria. Não importava as traições futuras, contando que a família estivesse sempre de nariz empinado com os bolsos cheios de ouro.
O baile de máscaras preparado na noite anterior foi justamento para que Carlos encontrasse o sogro perfeito para seu filho, pois pouco importava a fisionomia da noiva se conseguisse gerar filhos saudáveis e bastante dinheiro. A antiga casa dos Archanjo tinha dois salões de baile e o menor fora ricamente decorado para a ocasião. O vermelho e o dourado do ouro prevaleciam, leves cortinas foram penduradas nas portas das inúmeras varandas do salão e dançavam com a brisa leve. Tudo estava lindo e o baile tinha sido um sucesso, foi o que declarou o pai no dia seguinte quando a família estava reunida à mesa para o desjejum.
–Encontrei a garota perfeita para Carlos.
–Gabriel, papai. Gabriel. -O garoto o corrigiu educadamente, mesmo que tivesse cansado da insistência do pai de lhe chamar pelo segundo nome que carregava em homenagem ao velho.
–Que seja. -Fez um movimento de indiferença com a mão.
–Espero que seja bonita. -disse a mãe sorrindo para o filho mais velho.
Gabriel estava inquieto, olhou discretamente para os três criados que esperavam no fundo da sala pelo momento em pudessem retirar os pratos. Ouviam toda a conversa da família e isso o deixou preocupado com as conclusões que Clara podia tirar de suas palavras, mas seus olhos se encontraram e ela sorriu minimamente, deixando claro para ele que compreendia os deveres que tinha como herdeiro do pai. Deveres dos quais ele fugiria para casar com ela. Ele desviou o olhar antes que alguém percebesse.
O mordomo Timot trabalhava na casa desde que o pai era pequeno, sendo leal a Carlos sobre todos os aspectos. Não hesitaria em contar sobre o romance de Gabriel com Clara caso desconfiasse de algo. Já a outra criada, Mary, fora contratada quando os garotos eram crianças, sendo quase totalmente leal a eles. Apesar de não saber de nada, Gabriel tinha certeza de que ela ficaria ao seu lado, mesmo que isso custasse seu emprego.
Clara era filha da cozinheira, Gorn, que começara a trabalhar na casa quando Carlos era um bebê. Gorn era praticamente da família e a filha fora criada quase da mesma forma. Nascida cinco meses após Bruno, os três cresceram quase como irmãos, até que a garota foi afastada por questões de riquezas. Não convivia no mesmo meio dos garotos, sendo assim, afastada dos irmãos sem que percebessem.
Então, aos seus quinze anos, Gabriel a encontrara. Com treze anos, Clara já tinha os lindos cabelos dourados que lhe chegavam a cintura, trançados belamente por Mary, e lindos olhos castanhos. Ele apaixonara-se assim que ela lhe sorriu. Passaram a encontrar-se escondidos quando ela fez dezesseis anos. Agora ali estavam, ele com seus vinte anos, já com idade para casar. E ela, como o Bruno, prestes a completar dezoito anos.
Gabriel ainda não tinha um plano, mas faria de tudo para casar-se com Clara, a amava e nada que o pai dissesse mudaria isso. Estava disposto a abrir mão de tudo para ficar com ela e assim, faria a sua felicidade e a de seu irmão.
Bruno, apesar de amar Gabriel, sempre tivera inveja de sua primogenitura. Tudo pareceu se acentuar quando o irmão estava prestes a completar dezoito anos. A atenção do pai redobrou sobre o filho mais velho, queria-o ao lado dele o tempo todo. Faziam tudo sem Bruno, nunca Carlos lhe queria por perto. O garoto passou a sentir-se desprezado pela família e foi nessa época que nasceu seu amor pela literatura, onde podia ser quem quisesse.
Um rei temido por todos, um príncipe idolatrado pelos súditos leais, um caçador destemido ou, o que ele mais gostava, um jovem amado pelo pai. O primogênito, o que teria tudo para si, todas as riquezas, as mulheres mais bonitas e todo o amor da família. Mas esse era Gabriel. Ele era apenas o irmão mais novo, o escudeiro amigo. Com o tempo as coisas voltaram a ser como eram antes e Gabriel já não era o mais amado, seu pai tratava os dois da mesma forma. Não sabia o que tinha causado a mudança, mas sentia-se satisfeito por não precisar odiar o irmão.
Carlos anunciou no jantar que iria convidar a família da prometida de Gabriel para passar algum tempo de férias na casa dos Anchanjo e esperava que todos fossem tratados como reis. Pediu discrição dos filhos sobre o casamento, a garota não saberia sobre o negócio e era missão de Gabriel fazer com que ela se apaixonasse por ele, assim tudo seria mais fácil. Caso contrário, teriam que contar os planos para a garota e, como uma boa filha, ela seria obrigada a casar contra a sua vontade.
Gabriel não estava nada feliz quando apareceu no quarto de irmão depois do jantar, atrapalhando a leitura de Bruno. Tinha ido conversar com Clara na cozinha, enquanto ela lavava os pratos. Gorn já estava dormindo e todo a trabalho noturno era entregue às mãos das mais novas. Mary estava arrumando os quartos.
–Ela me disse que não quer mais me ver. -O garoto andava de um lado para o outro no quarto, frustrado.
–Parece-me que Clara tem mais bom senso que você, querido irmão. -disse Bruno com certa cautela. Não queria irritar Gabriel, mas o irmão precisava ouvir algumas verdades e ninguém melhor do que ele para dizê-las.
–De que lado você está, Bruno?
–Da sua felicidade, é claro. Mas já pensou que papai fará da sua vida um inferno se não fizer o que ele quer?
–Estando ao lado de Clara, não me importo com mais nada. -Gabriel sentou-se na beirada da cama do irmão, seus olhos clamavam por respostas.
–As coisas não são bem assim, Gabriel. -Bruno endireitou-se, sentindo-se no papel de irmão mais velho. -Clara fez a escolha dela, mesmo com você estando disposto a largar tudo para segui-la. Ela está escolhendo o que acha melhor para você e devia fazer o mesmo por ela. Acha mesmo que ela vai gostar de ser sua esposa sabendo que largou tudo para ficar com ela? Acha que papai não a importunará por ter lhe roubado seu herdeiro? Cresça Gabriel, as coisas são muito mais do que o amor que sentem um pelo outro. Há honra envolvida, há dever e dinheiro. Não pense que papai deixará vocês dois viverem em paz no meio do mato.
Gabriel olhou surpreso para o irmão. Não tinha pensado em nada daquilo, só fez planos de como fugiria com Clara. Sabia que Bruno estava certo, tinha muita coisa em jogo. E, como ele mesmo disse, Clara havia feito a sua escolha. Deixou-o livre e sem ela ele já não tinha mais nada pelo que lutar. Aceitaria as ordens do pai, mesmo que seu coração não estivesse satisfeito com elas. Mas lutaria por Clara, até que fosse tarde demais.
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