Emily

2 Chegada dos Serafim


No dia da chegada da família da prometida de Gabriel, a casa inteira estava ansiosa. Os criados corriam de um lado para o outro arrumando os últimos detalhes. Os quartos já estavam limpos e devidamente prontos para a hospedagem, o cardápio de todo o mês preparado com deliciosos pratos e várias atividades foram escolhidas para entreter os visitantes. Carlos ficaria encarregado pelos negócios com Sebastian, junto com Gabriel, era necessário a mão de seu filho na preparação da herança, Amélia mostrou-se extremamente disposta a tricotar e fofocar com Jorian. Sobrou para Bruno manter a prometida ocupada quando Gabriel não pudesse acompanhá-la e o assunto das mulheres não fosse para seus ouvidos. Não gostou, mas faria pelo irmão.

Às nove horas todos estavam em frente à casa, esperando com grande expectativa que o automóvel despontasse na entrada da propriedade. E isso não tardou a acontecer. Eram quatro pessoas ao todo, os pais, a garota e uma ama. Filha única e, ao que tudo indicava, bastante mimada.

–Apresento a vocês minha filha Emily. -disse Sebastian com um sorriso orgulhoso no rosto.

A garota que saiu do carro era linda e Gabriel teve que admitir isso, contudo o nome lhe era familiar. Não foi esse nome que Bruno deu à sua amada do baile aquele dia? Não lembrava ao certo, o whisky e todo o champagne da festa tinha nevoado sua mente. Mas foi só olhar para o irmão que sua pergunta foi respondida. Bruno estava branco como cera. Sentindo o olhar de Gabriel sobre si, virou com cautela para olhá-lo. Era ela.

Após cumprimentos desajeitados e sorrisos forçados, todos entraram e os criados indicaram os aposentos para que os convidados se preparassem para o almoço. Gabriel correu para o quarto do irmão, mas a porta estava trancada.

–Bruno, abra a porta. Sei que está aí. -disse Gabriel após bater.

Não houve resposta. Bruno estava chocado demais para fazer qualquer coisa. Deitou-se na cama e olhou para o teto, pensando. No baile ela usava um vestido azul de mangas, tinha os cabelos presos e sua máscara branca brilhava por causa das milhares de pequeninas pedras. No primeiro instante ele havia pensado exatamente como o irmão. "Máscaras escondem muita coisa". E escondia mesmo, a beleza encantadora que ela tinha.

–O que uma donzela tão bonita faz sozinha aqui fora? -perguntou curioso, aproximando-se. Podia ser uma mentira, mas nada melhor que um elogio para ganhar uma mulher.

–O que o faz pensar que sou uma donzela? -Ela sorriu e Bruno deu de ombros.

–Foi apenas um palpite, acertei?

–Talvez.

Bruno pegou sua mão e inclinou-se para beijá-la, como um exemplar cavalheiro. Seus pais lhe haviam ensinado muito bem e ele tinha total consciência de que pequenos gestos eram capaz de fazê-lo ganhar milhares de corações.

–Bruno Archanjo. É um prazer conhecê-la... -Deixou a frase no ar para que ela lhe dissesse seu nome.

–Emily Serafim.

Bruno apaixonou-se no instante em que tocou a mão da garota, desconfiava até de que ela pudesse ser uma feiticeira. Não era possível um amor tão instantâneo, se é que a amava devidamente. Agora, qualquer esperança que pudesse ter estava quebrada. Ela era a prometida de seu irmão. Gabriel, o primogênito, que tinha toda a riqueza, todo o amor da família e conquistaria também a mulher que ele pensava amar.

Emily parecia ainda mais linda do que no dia do baile. Usava um vestido salmão e seus cachos castanhos estavam soltos, ele pode ver o reconhecimento em seus olhos quando ela lhe sorriu. A inocente garota não sabia que deveria casar com seu irmão. Bruno já arrependia-se de ter aconselhado Gabriel a aceitar a decisão de Clara, mas não tinha coragem de voltar atrás.

Na hora do almoço, declarou estar indisposto e, apesar de seu pai ter lhe dito palavras horríveis, conseguiu livrar-se daquele doloroso momento de confraternização. Não aguentaria ver seu irmão cortejando Emily, como se já a amasse, quando na verdade, era Clara que queria. Todos viviam uma grande mentira e Bruno estava de mãos atadas, seria extremamente castigado pelo pai se estragasse tudo para Gabriel.

O irmão estava frustrado. De tantas garotas na festa seu pai escolhera logo aquela pela qual Bruno havia se interessado, e ele não se interessava por muitas. Gabriel sabia que o irmão caçula não olhava para as garotas, só queria saber de seus livros e declarava que nunca encontraria o amor verdadeiro sobre o qual lia, não aceitava menos que isso. Por muito tempo, tentou fazer com que Bruno se interessasse por alguma garota. Apresentava várias a ele em todos os bailes, mas o garota as ignorava.

O garoto era bonito e garotas atrás dele eram comuns, os dois irmãos tinham essa sorte. Gabriel ficou realmente surpreso quando Bruno lhe segredou sobre Emily, finalmente seu irmãozinho estava tornando-se um homem. E então é jogado novamente para dentro da casca. Sabia exatamente o que ele estava fazendo trancado no quarto. Só encontrava refúgio em seus livros, onde dizia poder ser o que quisesse.

Naquela primeira tarde, enquanto passeava com Emily pelo jardim, Gabriel só conseguia pensar em Clara e no irmão. Era Clara que amava e Bruno sabia disso, não podia ficar com raiva de Gabriel por aquilo, podia?

Mas estava. Gabriel soube disso na manhã seguinte, quando Bruno sentou-se à mesa sem lhe dirigir o olhar. Ficou o tempo inteiro calado, evitando o irmão e sua prometida. Não fazia de propósito, mas sentia que poderia desabar no momento em que colocasse os olhos sobre os dois.

Bruno seguiu para a biblioteca assim que acabou de comer e Sebastian, Carlos e Gabriel trancaram-se no escritório. As mulheres fariam um passeio pelo jardim para aproveitar o sol da manhã, mas Emily não queria ir, a deixaram no quarto com a ama. Beata fora criada como se fosse irmã de Emily, apenas três anos mais velha, era filha da ama de leite da garota, a irmã mais nova de Bea, que nasceu uma semana antes de Emily, morrera de uma febre quando tinha quatro anos.

–Terminei. -disse Emily fechando o livro vinte minutos depois.

–A senhorita lê cada dia mais rápido. -Bea sorriu, sem tirar os olhos de seus afazeres. -Por que não vai à biblioteca e procura um novo livro? Ouvi dizer que eles têm muitos bons.

–É uma boa ideia. -Emily levantou da cama e guardou o livro em sua caixa ao pé da cama. -Não precisa me acompanhar, posso encontrar o caminho sozinha.

Então saiu, sem deixar que Bea protestasse. Seguiu pelo corredor até a sala, onde encontrou uma criada espanando os móveis. Era apenas uma garota, talvez tivesse a sua idade. E que lindos cabelos loiros ela tinha, Emily pegou-se com inveja. Pigarreou para chamar a atenção.

–Desculpe senhorita, não a vi chegar. -A garota inclinou-se em uma reverência como se Emily fosse uma rainha, segurou o riso.

–Onde é a biblioteca?

–Posso acompanhá-la. -A garota fez menção de deixar o espanador de lado, mas Emily a impediu.

–Não, apenas me diga onde é.

–Última porta à direita, seguindo esse corredor.

–Obrigada.

Seguiu as instruções da garota. Era realmente a biblioteca, mas não estava vazia. O filho mais novo dos Archanjo encontrava-se sentado em uma das poltronas vermelhas viradas para a janela. Emily fechou a porta fazendo barulho para se fazer notada. O garoto virou-se para ver quem o incomodava e pôs-se de pé quando a reconheceu.

–Precisa de ajuda? -disse enquanto aproximava-se dela com receio.

–Pensei que se lembrasse de mim. -Deu-lhe as costas e seguiu para a estante com ele seguindo seus passos a uma distância segura.

–Impossível esquecer. -disse Bruno tentando controlar a voz.

Emily analisou os livros. Sim, eram bons títulos, Bea estava certa.

–Não sabia que tinha um irmão. -Seguiu para a janela, pegando o livro que ele havia deixado em cima da pequena mesa.

–Não sabe muitas coisas sobre mim. -"E nunca irá saber", pensou com pesar.

O livro que Emily segurava era uma coletânea de poesias de diversos autores, estava surpresa com o gosto de Bruno. Poesias eram consideradas literatura de tolos. Abriu na página onde ele havia parado e leu em voz alta.

–Morrestes achando que amava. Matastes pensando que era amor. Dominado pelo egoísmo da paixão, nos fez ver que não te conhecíamos como deveríamos e, por tua atitude, demonstrou que não conhecias o amor...

–Descansem em paz.–Disseram os dois juntos.

–Shakespeare. -Disse Emily e fechou o livro sem desviar os olhos de Bruno. Estava encantada.

Aproximou-se de Bruno devagar, ele apenas ficou parado esperando por ela. Foi envolvido pelo cheiro da pele dela e de seu perfume de jasmim. Queria tocá-la, abraçá-la e dizer para todos que ela era sua. Gabriel não podia tê-la. Quando Emily já estava perigosamente próxima, a porta da biblioteca foi aberta ruidosamente e ela deu um pulo para trás, enquanto Bruno virava-se amaldiçoando quem quer que tivesse aberto a porta.

–Aí está você, querida. -disse Carlos entrando na biblioteca. -Espero que Bruno esteja sendo agradável com a senhorita. -Lançou um olhar significativo para o filho, um olhar que o mandava manter-se afastado da mulher do irmão.

–Está sim, senhor. -Emily sorriu para Carlos.

–Venha, Gabriel quer lhe mostrar uma coisa. -Estendeu o braço para Emily e ela o segurou, lançou um último olhar para Bruno antes de sair da biblioteca.

Sozinho novamente, Bruno jogou-se na poltrona e suspirou. Onde estava com a cabeça? Quase estragara tudo, não devia ficar sozinho com Emily nunca mais. Para seu próprio bem, precisava esquecê-la. Devolveu o livro ao seu lugar na estante e saiu da biblioteca.

Queria tanto poder conversar com o irmão, mas não podia nem olhar para Gabriel sem sentir-se culpado pelo ódio que sentia. Não tinha coragem de ir atrás de Clara para que a garota voltasse atrás e insistisse no amor que sentia, era insano usar as pessoas dessa maneira e sentiu-se sujo só de pensar na hipótese. Precisava urgentemente aceitar que ele era o que era assim como o irmão não pediu para nascer com todos os privilégios.

Bruno sabia que se fugisse, não faria falta para ninguém, mas naquele momento estava preso. Gabriel precisava dele, era seu irmão. Carlos precisava dele, mesmo que apenas para manter a fachada de uma família feliz e perfeita. Apesar de tudo, o garoto não queria decepcionar ninguém. Mas assim que Gabriel e Emily estivessem casados e o pai preocupado com a herança dos netos, Bruno procuraria um novo caminho para sua vida, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.