Emily
3 Descendência
Dois anos atrás...
Faltava apenas um mês para seu filho mais velho completar dezoito anos quando Carlos foi chamado para ir urgentemente à casa de seu pai. Deveria ir sozinho e foi o que fez, apesar de estranhar tanto a condição quanto a urgência. George não estava velho, recebeu o filho com um abraço carinhoso e um copo de seu melhor whisky.
–Creio que não me chamou aqui apenas para beber, pai. -disse Carlos quando já estavam confortavelmente sentados na biblioteca do pai.
–Não, infelizmente não.
Pela primeira vez aos olhos de Carlos, o pai pareceu velho e cansado. Seus cabelos brancos estavam mais abundantes do que a última vez que haviam se visto, mas George ainda conservava muitos fios castanhos. A preocupação do pai era palpável e Carlos pegou-se sentindo a mesma coisa, sem saber o motivo para aquilo.
–Filho, o que vou dizer a você é complicado e surreal, mas acredito em mim, é a mais pura verdade. -Carlos assentiu, mas não foi o suficiente para George. -Prometa.
–Prometo. -Não sabia se estava falando a verdade, odiava prometer aquilo que não tinha certeza e seu pai o estava assustando.
–Sabe aquelas histórias sobre a Bíblia que eu lhe contava antes de dormir? -Carlos teve vontade de sorrir, mas não o fez por perceber que seu pai estava falando sério.
–Lembro sim.
–Como eram? -George encostou-se no encosto acolchoado da poltrona esperando pelas palavras do filho.
–Uma pequena parte dos anjos expulsos do Céu com Lúcifer caiu sobre a Terra e acabaram originando a raça Nefilim, uma mistura dos anjos caídos e dos humanos. Mas pai, o que isso tem a ver? -Carlos estava inquieto, não entendia onde George queria chegar com aquilo.
–Conhece o resto? -George não lhe deu atenção.
–Sim, quando Deus resolveu dizimar a raça Nefilim e lançar todos os anjos caídos da Terra ao Inferno, Lúcifer escondeu em seu reino alguns Nefilins que lançaria à Terra para continuarem a linhagem, pois era fraco demais para lançar seus próprios anjos caídos. Mas com o tempo essa semente começou a se perder, até que uma só família a conservava. Uma geração era pulada para que o sangue Nefilim aparecesse e apenas o filho mais velho dessa família detinha os poderes dos anjos que só lhe eram revelados ao completar dezoito anos. -Mesmo confuso e sem saber no que aquilo daria, Carlos contou ao pai tudo que sabia.
–Nós somos essa família, Carlos. -disse George, sem rodeios.
Carlos ficou alguns segundos processando a informação e soltou uma risada ao perceber a loucura do pai. Aquilo eram apenas histórias que lhe foram contadas para dormir, derivações da Biblía que há muito tinham se perdido. George sabia disso, não estava caduco a ponto de pensar que detinha daqueles poderes, estava?
–Pai, isso é uma loucura.
–Nós somos essa família, Carlos. -Repetiu George com firmeza. -Sangue Nefilim corre nas minhas veias, com o tempo os poderes foram começando a ficar escassos, a semente começara a perder-se ao misturar-se com mais sangue humano, mas aqui está. -George deu um tapinha no pulso. Por incrível que pareça, Carlos acreditava.
–Gabriel. -Sussurrou ao dar-se conta do que o pai estava tentando lhe dizer.
–Isso mesmo. -George assentiu. -Tenho sangue Nefilim e seu filho também tem. A sua geração foi pulada, mas Gabriel completará dezoito anos e seus poderes se revelarão. E isso acontecerá de geração a geração até que a semente se perca e o sangue fique completamente limpo.
–Não acredito que estou considerando essa loucura. -Carlos deu outra risada sem humor e engoliu o resto de seu whisky.
–Você está acreditando porque eu quero que acredite. -George olhou profundamente nos olhos do filho e Carlos soube. Ele estava certo.
–O que vamos fazer com Gabriel? -Um repentino medo apossou-se de Carlos.
–Não se preocupe, eu o farei acreditar. Só o deixei ciente para que você possa estar ao lado de seu filho nesse momento... doloroso. -George reprimiu uma careta.
–Por que o seu pai não importou-se.
Carlos enfim compreendeu. Então era por isso que raramente via o avô paterno na infância, George não falara com ele por anos, até o dia de sua morte, porque quando mais precisou, o pai não estava lá. Não cometeria o mesmo erro do avô, estaria com o seu filho para o que ele precisasse.
–Como posso ajudar? -perguntou Carlos, tirando um sorriso do pai. George sabia que criara seu filho bem.
Então George lhe explicou tudo. Gabriel ficaria de cama por uma semana a partir do dia seguinte ao seu aniversário. Teria febre, dores e nenhum remédio adiantaria. Esse seria o corpo dele reagindo à transformação do sangue Nefilim. E depois, quando acordasse, acordaria mais forte que qualquer um, mais ágil, com a capacidade de telepatia e outras muitos poderes que descobriria com o tempo. Mas era no momento de dor que Carlos deveria estar ao lado dele.
Como previsto, Gabriel aceitou tudo tranquilamente, pois George o controlava como tinha feito com Carlos. Aquele era um segredo de família, apenas entre os mais velhos, sendo assim, guardaram segredo de Bruno, já que o garoto não tinha o sangue Nefilim.
A festa de dezoito anos de Gabriel aconteceu naturalmente. Era sua transição para a vida adulta... e seu último dia como um humano normal. Carlos fez o melhor que pode para fazer com que seu filho se divertisse na festa, mas quem fez melhor que ele foi o irmão mais novo.
Foi só então que Carlos se deu conta de que tão preocupado em não fazer com Gabriel o que o avô havia feito com o pai, acabou o fazendo com o filho mais novo, que não tinha culpa de nada e nem estava envolvido no assunto. E agora só poderia consertar depois de uma semana ao lado de Gabriel.
Todos ficaram surpresos quando no dia seguinte nada aconteceu. Nada. Gabriel acordou normalmente e em todos os outros dias seguintes também. Nem um grau a mais que o normal, nem um enjoo, nada.
–O sangue está limpo. -disse George quando nada aconteceu após um mês.
Gabriel sentiu-se aliviado. Seria alguém normal. Tão normal quanto o querido irmão Bruno. Poderia viver com Clara sem esconder nada dela, pois nada tinha que precisasse ser escondido. Não era e nunca seria um Nefilim. A família Archanjo não era mais a descendente da semente.
O sangue estava limpo.
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