EmMusas - The Lost Canvas
37 Viajar é preciso
Notas iniciais

Capítulo 37
– Como assim viajou?
Mel estava parada na frente do balcão que servia de caixa, na loja de flores de Redka. Saiu correndo do do Templo do Grande Mestre após ver que seus elixires haviam acabado – com exceção de um, que ela definitivamente não usaria ainda – e chegou ofegantemente no local de objetivo, porém quem a atendeu foi uma senhora um pouco mais alta que ela, com a mesma tonalidade do ruivo de Redka e uma quantidade menor de sardas. A senhora sorriu para Mel.
– Redka teve de viajar para Delfos, onde geralmente consegue novas sementes para plantar no jardim da loja, moça. Ela costuma receber por encomenda, mas dessa vez houve algum problema com quem transporta e daí ela seguiu de barco, a coitada.
– Ah, entendi... – Mel assentiu, cabisbaixa e frustrada. Não ter elixir significava não ter Albafica. Teria de permanecer sem vê-lo até a amiga voltar, pois, apesar de ter acompanhado o processo da alquimia, não tinha autorização para mexer em seu precioso jardim. E, obviamente, pedir para que a senhora fizesse algo desse tipo estava fora de cogitação.
– Não desanime. Há algo que eu possa fazer por você? Redka só volta daqui a uns dias, infelizmente. – a senhora disse com doçura.
– Não, não. Agradeço a atenção, mas voltarei daqui a uns dias, então. – em seguida, Mel se retirou do local, da vila, do espaço, do mundo. Perdeu-se em pensamentos profundos. Só de pensar em ficar sem o pisciano, tão tentadoramente próximo dela, doía o coração.
Com o pouco de veneno que ainda restou no corpo desde a última dosagem, a musa se infiltrou nas pilastras gregas da décima segunda casa e esperou seu protetor vir acariciá-la. Albafica não demorou em enlaçá-la com ternura e beijá-la na extensão do pescoço.
– Hmmm, por que lhe sinto tão aflita? – ele perguntou, em meio às passadas de lábios pelo colo liso de Melpomene. Ela, de olhos fechados, suspirou profundamente, num misto de prazer e tensão.
– Apenas... – jogou a cabeça para trás, lentamente, liberando o espaço frontal do pescoço para ser mordiscado pelo cavaleiro, que passou também a massageá-la nos cabelos. Como esperado, sentiu dificuldade de se concentrar devido às carícias. – Redka viajou. – foi tudo que conseguiu dizer.
– E? – Albafica beijou suavemente a bochecha esquerda da musa e depois desceu apenas encostando os lábios até o ombro do mesmo lado.
Justo. Como relatar a importância da presença de Redka no devido contexto? Mel sequer pensou que suas palavras necessitariam de uma continuidade que fizesse sentido; aliás, mal pensou na justificativa para se manter distante nos próximos dias. Albafica, com certeza, não aceitaria um motivo qualquer.
– Faz tempo que não a vejo... – Mel disse, após um arquejo solto por causa da mão ousada de Albafica. Aquele apertão na cintura não foi meramente carinhoso.
– E?
Mel se permitiu rir de leve, enquanto Albafica serpentou seu corpo com as mãos e deslizou os lábios pelos seus.
– E eu sinto falta dela.
Albafica parou. Lentamente, porém com precisão, ele se afastou e a encarou, deixando claro seu estranhamento diante da fala da musa. Tudo isso sem deixar de soltá-la.
– Vai continuar falando dela enquanto eu lhe cortejo? – perguntou ele, num tom de brincadeira, porém querendo saber. Mel, com o rosto corado, ofereceu seu melhor sorriso e tomou o rosto fino do pisciano com as pequenas mãos.
– Não... Mas não poderei ser cortejada por muito tempo hoje. – ela se afastou com cuidado para não ser agressiva. O estranhamento do cavaleiro apenas se intensificou mais ainda. – Eu... – Mel engoliu seco e respirou fundo, no intuito de incorporar uma segurança maior para sua próxima fala. – Estou pensando em ir até meu templo, no vale, para ver como andam as tarefas por lá... Sinto falta de minhas outras irmãs também...
Mentira, ela sentiria falta de Albafica, e isso só aumentaria se continuasse dormindo num templo que é o lado da décima segunda casa, sem poder visitá-lo por alguns dias. Se fosse para passar um tempo sem ele, que passasse se distraindo com algo de seu próprio gosto. E, pensando bem, visitar o vale não foi uma má ideia.
Ao contrário da reação esperada por ela, Albafica sorriu e afagou o rosto da musa com doçura.
– É claro. Consigo imaginar a falta que seu espaço lhe faz, Melpomene. Admito que só posso imaginar, pois sentir falta da Casa de Peixes nunca tive realmente oportunidade de sentir. – Albafica seguiu até uma das janelas da Sala Principal de sua casa e observou o belo horizonte ornamentado por árvores, pequenas construções e um belo mar no fundo. Uma cena tão melancólica quanto o tom usado em sua recente fala.
– Eu adoraria lhe ter em meu vale. – Mel deixou escapar, mas baixo demais para ele ouvir. Seus olhos foram atraídos pela áurea melancólica que emoldurava a imagem do mais belo de todos os cavaleiros. De fato, Albafica era lindo de morrer.
– Melpomene... Por que você é a única que consegue ficar perto de mim?
Por um segundo, Mel ficou estática, mas uma resposta rápida veio em sua mente:
– Como pode saber disso? A única que tentou fui eu. – sua voz meio enrolada não dedurou seu nervosismo, mas quase. – Por acaso está querendo que alguma outra musa se aproxime?
A pergunta, que era para sair como brincadeira, foi encarada, por Albafica, como um palpite horrendo e ele fez questão de demonstrar isso ao arregalar os olhos e encará-la com incredulidade. Mel se frustrou, não quis que ele se virasse assim para ela, mas deveria ter adivinhado o efeito, pois todos sempre a levavam à sério demais.
– Estou brincando. – ela tratou de esclarecer. E ele respirou com sofreguidão, expirando todo o ar como se esvaziasse bruscamente o pulmão. – Pelo seu nervosismo, havia um ponto de verdade nisso.
Albafica a encarou novamente.
– Estou brincando! – a musa disse, alarmantemente, subindo uma oitava.
– Pare com isso, Melpomene!
– Desculpe-me...
Os dois ficaram mais um tempo juntos até o meio da tarde, quando Urânia, através do cosmo, chamou a musa da tragédia para um lanche com ela e Sasha. Mel aceitou prontamente e se despediu com um beijo recheado de saudade em Albafica. Uma bela ideia brotou em sua mente assim que saiu da Casa de Peixes!
~
Nada satisfeita com suas últimas meditações, Calíope aceitou a própria proposta de variar as atividades. Chegou a ir à vila e dar uma volta, sozinha, só para dar aos olhos um cenário diferente dos usuais.
Depois de ter revelado o motivo por trás da cicatriz de Tália, juntamente com outras irmãs, entrou numa profunda sessão de pensamentos negativos, nada saudáveis para suas concentrações diárias, por isso tomou coragem para desopilar. Só que não desopilou, sequer parou de pensar no que a deixou insatisfeita nos últimos dias. O pior problema adquirido foi a dívida divina com Tália, por ter falado sobre algo pertencente à outra musa – isso definitivamente influenciou em seu mau humor, mas algo, no fundo, dizia-lhe que valeu a pena relatar isso ao canceriano.
Mesmo com muito calor, a musa seguiu até a arena onde viu Terpsícore treinar com a amazona de Grou – a mesma amazona que lançou um olhar irritado para o cavaleiro de Áries na noite da fogueira. Provavelmente os dois tinham algo, mas Calíope preferiu não confirmar. No entanto, ao chegar na arena, não foi avistada pela irmã, e sim pela amazona, que acabou lhe lançando um olhar hostil. Bom, isso confirmou bastante coisa.
Calíope não estava com humor para aguentar amazona insatisfeita, então deu meia volta e seguiu em direção às doze casas, até porque se sentiu um pouco cansada depois da visita à vila.
Novamente, encontrou-se sozinha, apenas com pensamentos que insistiam em voltar no tempo. Ainda assim, era melhor estar sozinha do que em má companhia. Da última vez que aceitou a companhia de alguém não tão interessante, arrumou um conflito definitivo com um dos deuses mais poderosos do Olimpo. Sim, chegou a aceitar os cortejos de Apolo, mas o dispensou rápido o bastante para evitar um problema maior. Maior, pois problema ela não evitou. O deus continuou profundamente rancoroso com ela depois, influenciado pelo ego ferido – condição que ela compreendia perfeitamente, pois também dava valor a essa característica crítica. No fim, bastou ficar longe. Mas sempre carregaria o peso dessa inimizade, que veio duplamente, pois, arrumar briga com Apolo vinha de brinde um conflito com Ártemis.
Calíope não se importava, porém.
Ao chegar à primeira casa zodiacal, deparou-se com Shion e Dohko, apoiados num balcão, conversando e devorando uma espécie de bolo. Os dois desviaram seus olhares para ela e largaram rapidamente os talheres, endireitaram-se e fizeram uma breve reverência. Calíope riu graciosamente com a cena.
– Boa tarde, senhorita. – os dois disseram juntos.
– Boa tarde, cavaleiros. Posso passar, certo? – perguntou, acompanhada de um sorriso singelo.
– Claro que pode! – Dohko tomou a frente. – Inclusive, posso lhe acompanhar nessa subida? Preciso falar com o Grande Mestre.
– Apesar de ser eu quem deva responder à pergunta, desejo-lhe boa travessia, senhorita. – Shion falou, com olhos estreitos para o libriano, que sorriu sem graça. Calíope abafou o riso.
– Ah, não se incomodem, acabei interrompendo a refeição de vocês, certo?
– Shion, não vai oferecer um pedaço a ela? – Dohko mordeu o lábio para conter o riso diante do constrangimento do amigo, que ficou totalmente vermelho.
– É claro. – o ariano disse, duramente, e virou-se para a musa. – Aceita um pedaço de bolo de milho?
– Com calda de framboesa. – o libriano acrescentou.
– Com calda de framboesa. – o ariano repetiu, após bufar.
– E pedaços de castanha. – o outro novamente se intrometeu.
– Quer que eu diga como o bolo foi feito também, Dohko? – Shion revidou com uma irritação evidente.
Calíope não evitou mais o riso e acabou se permitindo diante daqueles dois cavaleiros. A inconveniência deles, ao contrário do normal, foi tão agradável que ela se sentiu inspirada; ainda mais por ver dois amigos tão confortáveis um do lado do outro.
Shion e Dohko observaram Calíope rir. Nunca a tinham visto daquele jeito, com um sorriso tão espontâneo e ombros tão relaxados. A musa da poesia épica ficava ainda mais bela sorrindo daquele jeito. Era questionável se ela tinha noção da beleza que possuía.
– Agradeço – a musa finalizou a risada, com uma mão no peito e a outra sinalizando que não, e deu espaço para uma ofegante respiração. -, mas não tenho fome, no momento.
Em seguida, Calíope e Dohko se despediram de Shion e iniciaram a subida, conversando pouco e observando muito o espaço ao redor. O libriano quis perguntar sobre Tália, mas deduziu que a musa não falaria sobre isso, então achou melhor nem comentar, talvez ela também estivesse sofrendo. A musa, por sua vez, focou-se em manter o corpo naturalmente tranquilo até passar pela Casa de Virgem, mas isso deixou de ser natural no momento em que foi pensado. Ela simplesmente se viu envolvida na própria tensão e cuidou ao máximo para não deixar transparecer. De qualquer forma, agir sozinha não bastaria, então partiu para uma opção menos agradável, porém mais eficaz:
– E então, o que me conta, cavaleiro?
Sim, puxar assunto com Dohko parecia ideal para manter a mente distraída, afinal o cavaleiro de Virgem não pararia sua meditação para bater papo, então não haveria silêncio desconfortável para ninguém. E como o libriano era bom de papo – algo que Calíope observou em determinados momentos passados -, a solução pareceu perfeita.
Depois de um tempo, ela se viu real e sinceramente engajada numa conversa bastante agradável com Dohko, e mal percebeu a aproximação da Casa de Virgem. Ao adentrarem o local, imediatamente pararam a conversa, pois a onda de energia hostil que os recebeu foi tão estranha e incomum que chegaram a duvidar de sua origem. Asmita, repentinamente, mostrou-se irritado?
Calíope observou rapidamente o virginiano meditar quando passou pela abertura que dava brecha à Sala Principal da casa, e pôde ver, de longe, uma marca de franzida entre as sobrancelhas finas e loiras dele, ou talvez tenha sido impressão dada pela franja. Ela não fez questão de confirmar, apenas tomou o braço do libriano e seguiu o caminho.
No outro lado, Asmita não quis nem pensar no maldito motivo que tornou Dohko a companhia de Calíope...
~
– Não acredito no que meus olhos estão vendo! – Dora exclamou, quase derrubando a bandeja que tinha em mãos. – Pensei que tivesse se esquecido de mim, olhos-de-mel!
Clio esperou Dora colocar a bandeja na mesa de um rapaz, que logo reclamou o equívoco da senhora, já que não havia pedido aquilo. A musa riu discretamente e esperou Dora acertar a mesa.
– Como está, Dora? – Clio abriu os braços e recebeu uma forte apertada na cintura ao ser abraçada pela senhora.
– Trabalhando que nem louca e produzindo vinho para os humildes, como sempre. Sente-se, querida, me conte tudo. Como anda meu querido Cid? Não pretendem vir jantar aqui novamente? – ela disse, enquanto puxou Clio para que sentasse numa das mesas de fora, perto da grande sacada. – Oh, não gostou da minha comida, querida? Quais são as reclamações? Vou anotar imediatamente!
– N-Não, Dora. Pare com isso. – Clio se preocupou, mas respondeu rindo. Dora a colocou sentada na cadeira, sem muita delicadeza, porém com um sorriso extremamente doce que denunciou sua alegria pela visita.
– Espere um minuto, Clio, Volto já!
A senhora não demorou muito, voltou com uma taça de vinho cheia e entregou para Clio, junto a um sorriso.
– Dora, não pretendo beber a essa hora! – Clio riu, mas pegou a taça por educação.
– Que bobagem, querida. Até parece que se tem hora exata para beber! Mas, se quiser, posso trazer uns petiscos também. Tudo por conta da casa!
Clio se lembrou, imediatamente, do relato de El Cid sobre Dora e sua grande felicidade por satisfazer seus amigos, mesmo que lhe custasse certa dose de problema financeiro. Como estava sem dinheiro para pagar, a musa apenas informou que já havia comido, por mais que não fosse verdade.
– Oh, tá certo, então. – Dora virou-se para uma mesa onde dois rapazes estavam. – Já vou, queridos! – e novamente encarou a musa. – Me perdoe, Clio, mas não vou poder te acompanhar por enquanto. Pode ficar à vontade, viu? E me chame quando quiser! – sorriu, por fim.
Clio sentiu o coração amolecer ao ver o quanto Dora trabalhava para manter todos os clientes de seu estabelecimento, era de se admirar a disposição dela diante de tanta correria. A senhora passava alegremente com taças de vinhos, garrafas de cervejas – raramente, pois a bebida dionisíaca era a mais pedida -, diversos pratos em bandejas – às vezes, levavas duas de cada vez – e panos coloridos, com os quais limpava constantemente as mesas vazias.
A musa acabou pensando em seu próprio vale, onde tinha seus servos que, provavelmente, trabalhavam bastante também. Só que o que os diferenciava de Dora era o fato de terem mais braços os ajudando, já a senhora era apenas uma no meio de tanto movimento. De onde Dora tirava essa força ela não sabia, mas um pequeno broto de curiosidade inquietou levemente Clio.
– Dora? – ela chamou, em frente ao balcão, onde depositou sua taça vazia. A senhora logo apareceu, limpando uma vasilha.
– Sim, querida? Quer outro? Levo já!
– Não, não. Na verdade, gostaria de pedir um favor.
Antes que Dora pudesse dizer alguma coisa, Clio se virou ao ouvir o início de conversa de dois rapazes sentados na mesa de dentro.
– Ela era tão linda, tinha um corpo todo bonito e usava um vestido meio roxo. Só que acho que tava acompanhada de um cara. Enfim, só sei que era linda e tinha uns olhos azuis e cabelos pretos da cor da noite. Te juro. – o loiro disse, enquanto bebia uma caneca de cerveja.
– To achando que tu bebeu demais e viu coisa, isso sim. De onde uma mulher dessas aparece aqui na vila? As que têm aqui são tudo mais ou menos. E tu ainda me disse que ela apareceu do nada. Acho que não, hein... – o moreno revidou e arrancou uma risada debochada do outro.
– Não mesmo. Ela provocou o dono da Toca e ele até tocou lá com o cara que parecia acompanhante dela. Os dois pareciam disputar a companhia dela, sei lá o que foi aquilo, mas valia a pena, sinceramente. Me senti até inspirado. – o loiro finalizou o conteúdo da caneca e a bateu na mesa. – Dora, traz outras aí! Ho-hoo... – ele exclamou, assim que viu Clio o encarando estranhamente.
Dora riu.
– Pode parar que ela não é pro teu bico, Ícaro! – a senhora falou, divertidamente, e virou-se para a musa. – Sim, querida, o que ia pedir?
– Quero lhe oferecer minha ajuda por hoje! Parece-me interessante essa sua função aqui no restaurante, sem falar que atribuiria muito conhecimento às minhas práticas. – Clio sorriu, pidona.
– Ehh... Só entendi que quer me ajudar, mas não posso aceitar. Não mesmo! – Dora já ia se virar e voltar para a cozinha, mas a musa soltou um muxoxo. – Hmmm... – virou-se para Clio. – Só se você me falar quem é essa moça aí que tá causando esse tumulto todo nesses rapazes depravados.
Clio ficou boquiaberta, indagando-se como é que ela sabia...
– Ah, claro, quase me esqueci de que é tão observadora quanto eu. – deduziu por fim, arrancando uma risada gostosa de Dora. Em seguida, as duas seguiram para a cozinha.
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– Ah, que ridículo. Me sinto feliz e infeliz ao mesmo tempo. – Kárdia disse, amargurado, e bufou.
– E por quê? – Degél perguntou, porém com indiferença.
– Feliz porque você finalmente aceitou meu convite pra beber, infeliz porque nunca mais encontrei aquela morena linda da Toca.
Os dois cavaleiros seguiram até chegar no restaurante de Dora e sentaram direto numa mesa da parte externa.
– Eu ainda acho que essa moça não existe. – Degél comentou, com as mãos cruzadas em cima da mesa.
– Ah, é, ganhei o cistre porque simplesmente decidi desafiar o dono do bar, sem motivo algum. – o escorpiano respondeu ironicamente. – E se você prestar atenção vai ouvir vários caras falando dela por aí. – essa última frase saiu com certo rancor, e Degél se permitiu pigarrear.
– Hunf. – no intuito de chamar Dora, o aquariano passou os olhos pela parte interna do local e avistou um rosto perfeitamente conhecido. – Aquela é Clio? – arqueou espontaneamente uma sobrancelha. – O que ela está fazendo servindo aqueles rapazes?
Kárdia se virou bruscamente para onde Degél estava olhando e soltou uma gargalhada ao constatar a verdade da fala.
– CLIO! – berrou, acenando. A musa se virou assustada, porém sorriu ao vê-los e seguiu até a mesa.
– Olá, cavaleiros. – cumprimentou docemente.
– O que está fazendo aqui? Arranjou um emprego? – Kárdia brincou.
– Não, apenas ajudando Dora.
– Para adquirir conhecimento da função? – Degél perguntou, ajeitando os óculos, sem tirar os olhos dela.
– Exatamente. – ela sorriu, enquanto Kárdia bufou.
– Fala sério.
Dora chegou em instantes com uma bandeja contendo duas taças de vinho e a depositou na mesa dos dois.
– Estou brava com vocês. – ela informou, fingindo um bico. – Principalmente com você, senhor Kárdia, que me trocou pela Toca. – virou o rosto para enfatizar seu teatro, mas se derreteu ao sentir o abraço amigável do escorpiano.
– Dorinha, que saudade de você! – Kárdia a apertou. – Emagreceu?
Dora gargalhou gostosamente e deu um tapa no ombro dele.
– Você não muda, cretino.
Kárdia riu e voltou a se sentar para beber o vinho.
– Será que pode liberar Clio pra sentar conosco, Dora? – Kárdia perguntou.
– Não, não. – Clio logo se colocou, antes que Dora abrisse a boca. – Quero terminar minha tarefa.
– De jeito nenhum, senhorita! – a senhora exclamou e tomou o pano das mãos da musa. – Já ajudou o suficiente. Pra começar, nem deveria ter ajudado. Agora que sei quem é a moça, pode sentar aí e aproveitar a companhia desses dois garanhões, mas nem tanto porque Cid-
– Dora! – Clio a interrompeu, profundamente corada. – Por favor, ainda não terminei. O trato foi outro!
– Pois estou desfazendo esse trato besta. Sente logo!
– Você não deveria ir contra as palavras desta adorável senhora. – o escorpiano falou, com malícia.
– Concordo.
Clio, Dora e Kárdia se viraram para Degél, que se mostrou um pouco incomodado após a fala.
– Mas olha só! – a senhora colocou as mãos na cintura e encarou os dois. – Vocês tomem cuidado, viu? Tô de olho em vocês, melhor tratarem a senhorita Clio muito bem, até porque Cid-
– AH, tá bom, Dora! – Clio interrompeu novamente, um pouco mais alto do que o planejado, e entregou o pano para ela. – Vou me sentar com eles e lhe deixar trabalhar em paz. – soltou um riso sem graça.
– Maravilha! Vou providenciar a terceira taça! – Dora saiu correndo, com medo de que Clio rejeitasse o vinho. A musa negou com a cabeça, rindo da situação, e se sentou na cadeira vaga.
– Clio, de que moça Dora estava falando quando disse que você conhecia? – Kárdia perguntou, tremendamente interessado, pois, em sua mente, apenas uma moça apareceu. Degél o reprovou com o olhar.
A musa se acanhou imediatamente. Não foi difícil juntar as informações e constatar a quantidade de influência que esse assunto causou nos rapazes da vila; sem falar no fato de que todos viram a “moça” no mesmo local, o qual era justamente onde Kárdia disse que havia conseguido o instrumento musical. No entanto, talvez não fosse interessante informar quem era, pois se a “moça” não havia dito seu nome, provavelmente era porque tinha uma intenção. E Clio que não se envolveria nisso. Ainda.
– Ah, apenas uma moça que me chateou quando passeei pela vila ontem. – ela respondeu, convincentemente. Kárdia não questionou, mas Degél estranhou a pequena ruga que se formou entre as sobrancelhas de Clio rapidamente.
– Entendi. Que pena. – o escorpiano bebericou o vinho. Seus olhos travaram ao ver uma figura conhecida logo atrás da musa. – Ahhh, olha só quem decidiu se exibir por aqui, jurei que você tinha engravidado e se mudado para-
– Poupe-me de suas ladainhas, seu cretino. – a voz mais que conhecida (e detestada) por Clio, mostrou-se bem atrás dela.
– Tá todo mundo pra me chamar de cretino hoje, hein. – Kárdia sorriu sarcasticamente. – Já pode ir, Cléo.
A moça bufou em desgosto, mas se recuperou em seguida que viu a conhecida musa.
– Mas olha só! Já está saindo com outro. Aliás, outros. – Cléo jogou o veneno.
Com um espesso pingo de raiva, Clio ignorou aquele comentário estúpido e bebericou seu vinho. Nem se deu ao trabalho de mirar a garota, que soltou um leve rosnado devido à reação de Clio.
– Nossa, estou tão bonita assim que você não consegue nem me olhar de tanta inveja? – Cléo disse, entre dentes.
Clio se virou lentamente para ela e, com delicadeza, mexeu a taça, causando um redemoinho no conteúdo.
– Eu me lembro de como gosta de vinho. – a musa a encarou com sarcasmo, sem deixar de mexer a taça. Óbvio que não jogaria a bebida na garota novamente, mas ameaçar foi inevitável.
Cléo bufou e mirou o objeto na mão de Clio, lembrou-se imediatamente do dia em que recebeu, de surpresa, uma quantidade grande de vinho que estragou seu belo vestido, e tudo por culpa daquela musa maldita. Fingiu, então, não ter ouvido a fala dela.
– Permita-me informar que sua presença não é bem-vinda aqui, senhorita. – Degél se colocou. – Poderia fazer a gentileza de demonstrar educação e se retirar?
Cléo se virou para ele com um sorriso zombeteiro, aproveitou para cruzar os braços na altura dos seios – o que os inflou notoriamente e chamou a atenção de Kárdia.
– A sua namorada sabe que está aqui, cavaleiro de Aquário? Que eu saiba, ela está viajando. Aproveitou para pular a cerca, hãn? – inclinou o rosto em direção à Clio. – Pena que escolheu uma péssima companhia para realizar o ato.
Degél quase se comoveu negativamente com a fala, porém parou assim que viu o que viu, e ainda se permitiu sorrir friamente para a garota mal educada.
– Saia daqui, a-go-ra. – Dora falou, atrás de Cléo, com uma vassoura maior que ela nas mãos. Seus olhos furiosos estavam tão expressivos e vibrantes que os três na mesa sentiram certo orgulho daquela dona baixinha.
– Mas, antes – Clio se levantou calmamente. –, saiba que essas suas palavras venenosas não surtirão efeito se espalhadas por aí, pois Redka possui amigos confiáveis e nós confiamos nela. Degél é um homem nobre, diferente dos que você provavelmente conhece e tem ao lado. E se há tanta amargura em sua vida, deveria tentar transformá-la e deixar que a dos outros se transformem por si só.
Cléo não esperou mais nada e saiu completamente transtornada por mais uma humilhação. Ah, essa musa iria ver só.
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Uma leve brisa rodeou o espaço da Sala Privada do Grande Mestre, levantando algumas folhas de papéis depositadas em cima da grande mesa e fazendo com que as janelas rangessem agudamente. Junto dela, a fumaça fina que escapulia da xícara de chá quente, que se encontrava em cima de um livro grosso, misturava-se. Bonito de ver, até. Uma pequena lagartixa adentrou um buraco no canto do armário posicionado atrás da cadeira do patriarca, que respirou fundo antes de falar:
– Autorizo.
– Sério? Não vai nem me perguntar o motivo?
– Eu sei o motivo, conheço-lhe muito bem.
– Hunf. Posso partir agora? Agora mesmo? – o outro perguntou, com olhos esperançosos.
– Vá logo que essa ansiedade estampada em sua face não me permite negar o pedido.
Sage viu o cavaleiro se levantar com velocidade e pisar forte no chão, quase se desequilibrando. Acabou rindo baixo.
– Antes, prometa-me que não piorará o caso. – viu o cavaleiro assentir e, em seus olhos, pôde adquirir a garantia que precisava. Conhecia bem aqueles olhos, principalmente aquele coração. – Então, boa viagem e tome cuidado, Manigold.
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