Notas iniciais
[Quem quiser pular isso aqui, fique à vontade, porque não tem informação importante, sou só eu me justificando.] Olar, er... Tudo bem? hehehe Ai, gente, vamo pará, que nossa relação é mais íntima que isso, né? Vocês sabem que de vez em quando eu dou uns sumiços, mas não faço por mal. Dessa vez, aconteceu! ACONTECEU! Aconteceu aquilo que nunca tinha acontecido comigo: travou. Travou o cérebro, travou a imaginação, a mão e etc. A questão é que eu já tinha escrito 70% do capítulo há dois meses, só que no final de semestre me deixou TÃO cansada que eu não tinha forças para desenvolver o resto, embora já tivesse criado o roteiro e soubesse de tudo que queria colocar aqui. Pois é, eu estava exausta e odeio escrever com a mente apenas 50%. Preciso estar 100% pra ficar satisfeita e escrever coisa boa pra vocês! Admito que ainda acho que algumas partes deste cap não saíram como eu queria, mas to devendo a vocês e no próximo vou compensar. Acredito que tudo isso me gerou um enorme bloqueio, porque, mesmo quando entrei em férias, não consegui escrever. Bom, ainda estou de férias, já to escrevendo o próximo. Na verdade, o próximo cap, de acordo com o roteiro que eu fiz, deveria estar neste capítulo, porém eu preferi dividir. Até porque vocês não precisam esperar mais e eu posso trabalhar nele sossegada :D De qualquer forma, queria me desculpar. Este capítulo não tá orgásmico e também não tá com muita ação, tá um pouco parado em comparação a outros, porém ele é necessário pra fechar algumas lacunas e dar continuidade. Estamos entrando em reta final, mas ainda há muito que rolar! PS.: deve ter alguns erros por falta de atenção, porque, minha nossa, revisar capítulo de 10 mil palavras cansa, viu, galera. Às vezes, as coisas fogem do nosso olhar, especialmente quando já conhecemos o cap de cabo a rabo. Então, se encontrarem os errinhos, podem me dizer nos comentários, ok? Depois vou revisar direitinho. Enfim, pessoa, desejo boa leitura pra vocês!

Capítulo 66 –

Clio fitou o canto superior direito da parede da janela, na qual a cama em que estava deitada encostava. Aquele canto não tinha sido analisado ainda, muito embora não houvesse nada a ser analisado. O que ela analisava era puramente mental, resquícios de um dia inesperado, de encontros indesejáveis e descobertas ambíguas. E era a primeira vez que se permitia ficar deitada além do horário habitual – o relógio já alcançava a metade da manhã.

Na mente da musa, Tenma predominava. O garoto só podia ser um tolo. Embora tivesse trazido o rosário em segurança, mantinha uma marra dispensável na execução de suas demais tarefas que priorizavam – ou deveriam — a proteção da deusa Athena. Contudo, Clio estava satisfeita por terem o rosário em mãos, originado do único lugar com vida no submundo: a árvore de Mokurenji. Era fantástico que uma árvore do mundo dos mortos oferecesse frutos que, juntos num maleável fio, impediam a ressurreição dos espectros.

Ainda assim, Clio se mantinha irredutível na opinião de que Tenma de Pégaso precisava de aulas de prudência. Reconheceu um poder maior no garoto, maior do que ele demonstrava a partir de suas iniciativas, porém o que o impedia de atingir mais alto nível era sua pressa ao reagir aos fatos. Não havia equilíbrio entre mente e coração, infelizmente.

Urânia, entretanto, surpreendeu a musa da história ao manter-se controlada diante de um Sísifo profundamente adormecido. Foi um tanto doloroso vê-la lutar contra a própria necessidade de ampará-lo, por isso a admirou. Não poderia interferir caso Urânia decidisse correr até o cavaleiro, portanto passou um bom momento torcendo para que a irmã permanecesse forte. Enquanto isso, Tenma procurava sucesso na derrota de Cérbero e na tentativa de atacar Hades, algo que Clio constatou imediatamente impossível naquele momento.

Graças aos selos que o Grande Mestre repentinamente lançou no espaço, a vida do cavaleiro de bronze foi “salva”. Clio sabia que Hades não o mataria ali, pois, assim como Urânia, notara a forte presença de um sentimento humano nas ações do imperador. O que deixou a musa da história intrigada, no entanto, foi a existência de selos de duzentos anos de idade. Surpreendeu-se com isso, mas fez sentido ao se lembrar de que quem o tinha guardado havia sido o único cavaleiro de ouro sobrevivente da última guerra santa: Sage, cavaleiro de ouro de Câncer a atual Grande Mestre — sabia disso porque havia lido na biblioteca do décimo terceiro templo. Contudo, era esperado que os selos antigos não conseguissem reduzir drasticamente o poder do Imperador do Inferno. O que não esperava, porém, era a carta na manga que o Grande Mestre e Athena tinham: a suspensão do templo da deusa. Mais do que isso, não apenas suspenderam o espaço, mas o uniram a outro: a torre com cento e oito estrelas malignas do exército de Hades...

...Clio e Urânia sabiam que Sísifo estava vivo, mas não poderiam dar-lhe atenção naquele momento, pois algo as prendeu de imediato: a presença de Pandora, comandante das hordas do inferno ao lado de Hades. A gritante necessidade dela em tirar o imperador dali não passou despercebida.

Certamente, Clio não foi a única a despertar uma intensa ira interior ao ver Pandora sair da carruagem. Imediatamente, virou-se para o imperador dos infernos para vê-lo com um semblante amargo devido à frustração em ter o momento interrompido.

— Parece que ainda há resquícios do humano em seu nobre coração — Pandora disse.

Clio já havia percebido. Era um tanto óbvio que a demora de Hades se devia a algum sentimento escondido nas profundezas do receptáculo humano. Ele não estava tão isento de humanidade quanto seus aliados queriam.

— Eu deveria ter nascido como a irmã mais velha do jovem que incorporaria a santa alma, para proteger e cuidar do corpo destinado a meu senhor — Pandora encarou Athena. — Mas houve um obstáculo inesperado nesta encarnação! — com um sorriso sarcástico e o báculo negro em mãos, continuou: — Um plano tão vil e traiçoeiro só podia vir de uma deusa que nasceu da cabeça de Zeus, o deus supremo, que segundo as lendas dominou todas as outras divindades na era mitológica.

— Não me lembro de ter feito nada para ser chamada de traiçoeira por você — Athena revidou, séria.

— Ora, mas que atrevida... – Pandora, determinada, adiantou passos até a deusa, com um ódio palpável e tão incentivador que sequer reparou no silêncio incomum do imperador. — Mesmo sendo uma deusa, você nasceu do ventre de uma humana e, como se isso não bastasse, ainda ousou nascer como irmã do Imperador Hades. Jogou o orgulho fora e se rebaixou à mortalidade só para vigiar de perto o jovem que serviria de recipiente para a alma do meu senhor — com nervos à flor da pele, exclamou: — Muito próprio de uma ladra vulgar!

— Não acho vulgar e nem acredito que me rebaixei só por ter nascido como mortal. Mesmo agora que despertei como Athena, eu prezo muito a época em que vivi ao lado de Tenma e de meu irmão, Alone.

Diante da fala da deusa, Clio mentalmente pedia: “continue falando, Athena”... Ao contrário dos demais, via perfeitamente a influência de tais palavras na hesitação do semblante do imperador.

— Então essa é a estratégia que planejou para confundir meu senhor Hades?

— Não foi estratégia nenhuma! — Athena rebateu com firmeza. — Eu realmente acreditei que seria uma felicidade poder viver como mortal junto com meu irmão, Alone e Tenma!

— Maldita deusa sem vergonha!

Clio se surpreendeu ao ver a tentativa de Pandora de estapear Athena, mas, por um instante, a aparição de Tenma para levar o tapa no lugar da deusa lhe pareceu perfeitamente esperada. Já conhecia a relação existente entre os dois desde eras mitológicas e, por mais impróprio que fosse o momento, sentiu-se animada por presenciar sinais que ressaltavam isso. Estava vivendo a repetição de uma história viva em diferentes gestos, porém de igual essência.

— Basta, Pandora — a voz do Imperador ecoou no espaço, enquanto se dirigia para a carruagem. — A ocasião perdeu a graça. Basta que eu retorne ao castelo, não é isso mesmo? Já descobri o que queria saber e confirmei o que queria confirmar... — sua voz tornou-se sombria. Clio teve a impressão de que um enorme conflito interno tomou forma na mente do imperador. — Não tenho mais nada a fazer no Santuário nem nesta torre.

E novamente Clio viu o cavaleiro de pégaso agir por impulso ao correr até Alone e fracassar. Hades não fez o menor esforço ao lançar o cavaleiro longe, ao chão. Observando-o de cima e retomando o ar de superioridade, disse:

— Ainda não conseguiu entender? Nem sua voz nem seus punhos são capazes de me alcançar agora... Tenma — deixando-o para trás, Hades impulsionou o corpo até a carruagem parar a alguns metros acima. — Athena, Mestre do Santuário, cavaleiros de ouro... — olhou de relance para onde Clio e Urânia estavam — musas...

No momento de pausa do Imperador do Inferno, Clio observou nuvens claras rapidamente se formarem ao redor do espaço, no céu, como um amontoado de fumaça tomando formas de rostos e silhuetas, gradativamente. Aos poucos, as figuras adquiriram grandes asas e multiplicaram-se por todo o espaço, organizando-se em uma imagem caótica e um tanto opressora. Uma enorme pintura incompleta no céu. E novamente a voz do imperador foi ouvida, triunfante:

— Voltem às pressas ao Santuário e anunciem as boas novas: Hades, o Imperador do Inferno, irá presentear o mundo com uma pintura — sua expressão foi indecifrável e seguida de um sorriso. — Vou chamar de "Lost Canvas", o quadro perdido. E quando este quadro estiver completo, o mundo perderá todas as formas de vida existentes neles.

As expressões horrorizadas de quem assistia tornaram-se mais enfáticas, Clio percebeu. Mordeu o lábio com a sensação desesperadora de impotência diante daquela drástica decisão imperial. Hades havia apresentado um belo método de tortura: enquanto estivesse pintando, todos no Santuário poderiam acompanhar o trajeto de infortúnio da guerra santa. O enorme jogo psicológico que Hades havia criado era arriscado para os envolvidos. Clio não deixou de admirar a decisão do imperador, ainda que achasse aterrorizante.

— Já deve saber que tudo aquilo que pinto acaba morrendo — Hades continuou. — Por isso, pintarei tudo que se encontra sobre a face da Terra em meu Lost Canvas.

— Idiota! Não foi para isso que aprendeu a pintar! — Pégaso ascendeu fortemente o cosmo antes de pular em direção à carruagem.

No entanto, numa velocidade incalculável, ao ouvir as palavras rasas de Pandora chamando pelo ser que aguardava nas sombras, Clio se colocou na frente de Tenma e agarrou os punhos de Violet de Behemoth.

Talvez os outros estivessem com preocupações específicas demais enquanto Hades estava por perto; para Clio, porém, o espírito de luta havia despertado e, portanto, aguçado todos seus sentidos no momento em que entraram em suspensão, conseguindo que captasse mais uma presença no espaço. Apenas considerou-se tola por não ter pensado que a presença escondia-se nas sombras que recheavam as nuances da carruagem do inferno.

— Imagino o que você seja – Violet disse, rudemente, enquanto seus olhos ferozes encaravam os de Clio. – Essa guerra não é sua.

— É, mas estou aqui, não estou?

— Musas sempre me passaram impressão de fraqueza.

— Não precisamos de força física para demonstrar influência, mas não me importo em lhe mostrar se achar indispensável para levar a sério – revidou, sem se intimidar pela puxada de ar da serva de Hades.

— Você responde demais – cuspiu.

— É a arte da retórica – Clio permitiu um sorriso levado escapar. – Pégaso, ande logo!

Rapidamente, o cavaleiro tomou impulso de volta aos ares, atrás da carruagem um tanto distante. Violet de Behemoth virou-se furiosamente para a musa, deixando óbvia sua incredulidade diante de tamanho atrevimento, e, antes que pudesse ir atrás do Tenma, sentiu o braço ser violentamente puxado. Ao se virar novamente, viu o braço ser torcido com grande força pela musa miúda e mal acreditou. Tentou puxar com igual determinação, porém, devido à surpresa de ver o cosmo da musa acentuar em disparada, pausou a ação, com receio de se prejudicar antes da hora.

— Cosmo maldito.

— Olhe lá como fala comigo – Clio rosnou. Odiava o fato de ninguém esperar ação por sua parte, especialmente no que dizia respeito do cosmo. Era uma divindade e devia ser vista como tal!

Num segundo inesperado, Clio viu de longe uma silhueta ser lançada da carruagem e se distraiu. Pégaso encontrava o chão. E uma brisa fraca causada pelo rápido afastamento de Violet de Behemoth deixou-a consideravelmente frustrada. Havia deixado a criatura escapar, logo no momento em que mostraria uma de suas habilidades. Ficou ali, observando o cavaleiro de Pégaso de longe...

Clio observou o teto do quarto, à procura de partes minimamente descascadas ou rachadas. Desejou que a mente estivesse tão limpa quanto o teto. Lembrar-se do dia anterior a deixou tonta, especialmente ao pensar nas irmãs: Terpsícore e Erato tinham se machucado bastante num dos ataques de Hades, ao contrário de Euterpe e Polímnia, que conseguiram se salvar; Urânia provavelmente estava devastada com tudo; e Tália parecia a única feliz em meio ao caos – por ela, Clio até se sentia satisfeita, afinal, reconhecia que a irmã da comédia merecia alegrias em seus dias.

Respirou fundo e finalmente se levantou da cama. Parou para se observar no espelho, trocou de roupa – optou por uma toga branca e um pouco abaixo do joelho e sandálias de couro -, ajeitou o cabelo numa trança e seguiu para o corredor dos dormitórios. Caminhou a passos lentos, ainda um pouco perdida em pensamentos, até chegar à porta que queria. Ali, permaneceu do lado de fora, apoiada na porta, silenciosa, enquanto ouvia duas irmãs conversarem.

~

Mais um suspiro pesado ecoou na sala — Euterpe havia parado de contar no décimo. Observou a irmã mudar o apoio do queixo para a mão esquerda, já que a direita estava dormente. E, na janela, Urânia encarava o céu como se pudesse expulsar, dele, a cruel pintura.

— Que ódio.

— Finalmente você falou alguma coisa – Euterpe ajeitou o corpo num dos divãs.

— Estou com tanto ódio. Sinto-me incapaz de todas as coisas de que sou capaz.

— É realmente ruim.

— Essa maldita pintura atrapalha completamente minha leitura celestial, Euterpe. Isso é horrível!

— Sim, sim, muito horrível...

— E me nego a sair do Santuário para procurar um lugar apropriado para ler estrelas, não quero deixar Sísifo num momento tão crítico. Mal sei distinguir minhas preocupações, meus desesperos...

— Aham, estou triste por você – Euterpe continuou em seu tom de pouco caso, dessa vez olhando para o formato dos próprios joelhos.

Urânia se virou para a irmã, com fúria:

— Ah, está? Pois não parece. O que faz aqui? Parece que sequer se importa com o que digo!

Euterpe se levantou lentamente e caminhou até o bule de chá, serviu-se um pouco e bebericou da xícara. Finalmente seus olhos afiados se voltaram para a outra:

— Urânia, sabe o que estou ouvindo? Blá-blá-blá em exorbitante quantidade. Choramingo de uma musa que parece fraca, mas não é. Sinceramente? Tedioso. A verdade é essa.

— Desde quando se tornou uma insensível? Antes você conseguia ao menos respeitar a dor alheia.

— Dor: ótimo tópico! Se está sentindo dor, ao invés de reclamar e se lamentar, deveria procurar uma forma de reverter o caso, Urânia. Conheci você mais determinada e ativa!

— Eu nasci antes de você. Eu que lhe conheci antes – Urânia corrigiu. Bufou ao ver Euterpe revirar os olhos.

— Pare de bufar! Você está contentada demais. Duvido que seja isso que Sísifo tenha despertado em você, tenho certeza de que sua vontade de ajudar se tornou mais feroz após conhecê-lo e é nisso que penso que você deveria focar. Use toda a sua força de vontade para buscá-lo, onde quer que ele esteja, e pare de se lamentar!

— Euterpe, eu não sei o que devemos fazer! – Urânia passou as mãos pelo rostoe desceu-as pelas negras madeixas de cabelo, angustiada. — Sequer sei por que estamos aqui!

Euterpe pousou a xícara na mesa, causando um estrondo intencional.

— Não importa mais! Se não há motivo para estarmos aqui, crie um! E se há, procure-o, sei lá, transforme-o. Faça do seu jeito. Faça por merecer o cavaleiro que você escolheu, Urânia. Às vezes as respostas vêm através das ações e não dos pensamentos.

Apesar das palavras românticas e cheias de paixão, na face de Euterpe havia enorme seriedade. Seu olhar afiado se encontrava tão azul quando um mar agitado em tardes tempestuosas. Urânia sentiu certa confiança brotar em seu interior.

— Por que nossas conversas sempre são assim?

— Pergunte-me outra. Você sempre adorou um debate – Euterpe bebeu o resto do chá da xícara, procurando esconder o rosto levemente corado.

Num ritmo suave, Urânia se sentou numa poltrona de cor creme que havia no centro da sala, ao lado do divã em que antes Euterpe estava. Suspirou pesadamente e encarou a pequena mesa de centro.

— Eu não sei o que fazer por ele. Não me deixaram vê-lo. Minha mente está tão negativa que não consigo serenidade para pensar e encontrar as respostas das suas provocações, Euterpe. Entendo seu ponto, mas-

— A primeira coisa que deve fazer é parar de falar “mas”. Pare de encontrar seus empecilhos, por mais existentes que sejam. Se a cada iniciativa sua você optar por prestar atenção no que a dificulta, estará perdida – Euterpe retornou ao divã, sem o chá. – Talvez eu esteja sendo vaga e poética demais, reconheço. Sendo assim, posso lhe dar uma sugestão?

— Desde quando pede permissão pra isso?

De fato, para Euterpe não importava se a irmã consentiria ou não.

— Sísifo é mais uma preocupação no Santuário. Digo, o atual estado dele, que com certeza é desanimador para os cavaleiros de menor patente. Acredito que, por mais valioso que ele seja, o foco será a raiz do maior dos problemas da guerra. Se alguém tiver que ajudá-lo provavelmente terá de fazer voluntariamente. Com sua óbvia disposição, acho que deve unir forças com alguém igualmente disposto a salvar Sísifo. Já adianto que na minha cabeça só vem uma pessoa: o cavaleiro sem expressão de capricórnio.

Urânia não conteve um fraco riso ao ouvir a característica ressaltada pela musa da música:

— Você sabe ser cruel.

— Tenho tido bastante inspiração, aliás – Euterpe sorriu, orgulhosa. Em sua mente, a figura de Kárdia a reprovava. – Só não mencione isso a Clio, por favor.

— Tudo bem. Há alguma coisa do tipo, algum apelido maldoso, em relação a Sísifo?

— Oh, estou vendo seu humor voltando! Mas vou lhe dizer, irmã, que nunca saberá – novamente sorriu com orgulho.

— Cruel! – Urânia jogou uma das almofadas na mais nova, que agarrou e riu da atitude. – De qualquer forma, sua sugestão é bastante válida. Só não sei como abordar isso com El Cid, já que não temos aproximação o bastante.

— Ora, Urânia, você tem todo o direito de pedir algo assim! A não ser que esse cavaleiro de capricórnio não saiba da sua relação com Sísifo, e é claro que, se não soube pelo grande amigo, sabe pelo Santuário todo, porque ouvi dizer que foi óbvio desde o início. Não estive aqui para comprovar, porém... – Euterpe continuou, apontando um dedo para a irmã, em sinal de alerta: — Por conveniência, não se engane com esse povo, todo mundo fofoca sobre todo mundo, céus!

— Ou talvez você dê muito o que falar – Urânia levantou uma sobrancelha enquanto mirava a outra com insinuações.

— Eu não dou nada a ninguém a não ser que eu queira! – Euterpe rebateu, de nariz empinado e abanando o pescoço.

Após um espaço para risadas amigáveis, Urânia finalmente adquiriu uma dose de tranquilidade no semblante, relaxando, inclusive, os ombros.

— Gosto disso em você. Essa segurança toda nas decisões, convicções e precauções. Você é muito clara, Euterpe, e isso lhe torna única.

— Você também tem isso, só está fragilizada. Lembro-me de como era uma louca atrevida nos tempos de Kagaho.

— Ugh, nem o traga na conversa. E de onde veio “tempos de Kagaho”? Aqueles tempos possuíam mais do que isso – franziu levemente a testa.

— Estamos todos resolvidos já. Não há para que ter receios diante de um nome.

— Mas é passado.

— Mas continua existindo, ora. Urânia deixe de ser sensível um pouco, não é hora para isso – Euterpe espreguiçou o corpo sinuosamente no divã.

— Depende, acho que está na sua hora de ser um pouco.

As duas se entreolharam, questionadoras.

— Pois isso nunca me trouxe melhores agrados – Euterpe afirmou.

— Fiquei sabendo do parto da vaca – embora tenha tentado travar a boca, Urânia sorriu ao mencionar o que havia ouvido.

Argh! Esse parto vai me perseguir para o resto da vida agora.

Mais uma vez, Urânia se permitiu rir. Havia se esquecido de como era refrescante conversar com Euterpe. Sempre tivera a irmã ao lado, seguindo-lhe para os cantos na infância, admirando-lhe por decisões que nem sabia se eram corretas, apoiando-lhe mesmo nos erros. Euterpe sempre fora a irmã com quem mais tivera forte laço, pois tudo compartilhavam. Atualmente, reconhecia a ignorância que lhe afastara dela, no tempo em que Kagaho dominava-lhe o coração. Porém, naquele momento, naquela sala, sentia o laço pulsar como antigamente. Euterpe não precisava lhe consolar para conseguir lhe deixar melhor, bastava ser o que sempre era.

— Euterpe, quero pedir algo a você – Urânia começou. Euterpe aguardou a sequência, atentamente. – A atmosfera está ficando cada vez mais pesada, considerei até em mandar Terpsícore e Erato de volta para o Monte Parnaso, mas algo me diz que precisamos ficar unidas, já que Calíope e Melpomene andam distantes. Contudo, preciso que você distraia as duas, Terpsícore e Erato, por enquanto, especialmente após o ocorrido.

— Acha que vai dar certo? Está subestimando-as, em minha opinião.

— Estou, assim como estou superestimando você.

Euterpe revirou os olhos.

— Sério, Urânia, repense. Terpsícore e Erato sempre se revoltaram por tentarmos deixá-las alheias aos acontecimentos. E eu não penso que falte razão nisso – opinou, em tom mais comedido.

Concordo.

Imediatamente, Urânia e Euterpe viraram os rostos em direção à porta, e, em seguida, Clio entrou, em seu semblante indecifrável. Parecia serena, porém havia uma ruga pouco visível entre as sobrancelhas – era o bastante para as duas musas constatarem que havia um turbilhão de pensamentos em Clio.

— Se está preocupada em manter o laço entre nós, Urânia, não deve optar por afastar duas musas do eixo que nos guia aqui dentro, mesmo que este seja desconhecido até agora – sem olhá-las, dirigiu-se à mesa onde o bule de chá se encontrava e procurou uma xícara limpa para se servir.

— Estava ouvindo por detrás da porta? – Euterpe indagou, um tanto incrédula com a pouca ética.

— Isso não vem ao caso agora – Clio revidou. “Nunca vem, quando é você”, Euterpe pensou. – Tenho sugestões de algumas mudanças, porque sim, concordo que devam existir. Considerando minha recente ida ao Templo da Tragédia, defendo que Polímnia deveria ir para lá, onde será mais útil do que aqui. Para mim, é claro que Melpomene necessita de atenção maior do que a oferecida por seus servos.

— Por quê? O que há com ela? – Euterpe se ergueu no divã com prontidão. Observou o silêncio de Urânia com olhos desconfiados, o que aumentou quando Clio novamente respondeu. Conhecia muito bem a arte das palavras da musa história; muitas vezes interpretava como a arte de enrolar os outros.

— Isso também não vem ao caso agora.

— Não é você que defende a transparência entre nós? Por que está escondendo algo agora?

— O que escondo não condiz com nosso eixo atual – revidou normalmente.

— Não me venha com eixos! – Euterpe fechou os punhos. Odiava ser feita de boba, especialmente por Clio. Porém, “Te conto depois, prometo”, ouviu Urânia entrar em sua mente e a encarou. Como não tinha como duvidar da irmã da astronomia, aceitou se aquietar.

— Bom, Clio, eu entendo sua colocação, mas ainda acho que Terpsícore e Erato devem desopilar um pouco. Elas não possuem total controle do cosmo e receio que possam tomar atitudes imprudentes e impulsivas. Sabemos como elas se envolvem.

— Assim como nós – Euterpe comentou.

— Ressalto que elas não possuem controle total do cosmo – Urânia cortou.

— Basta – Clio retomou a palavra. – Antes de seguir nesse tópico, concordam com a ida de Polímnia ao Templo da Tragédia?

Euterpe pensou um pouco, por mais que estivesse curiosa quanto ao motivo. Talvez fosse melhor para Polímnia se afastar do que a lembrava de seu amigo Aldebaran. Como ninguém, Euterpe sabia que ela cuidava do que podia com carinho, mas com grande tristeza também.

— Concordamos.

— Bom. Encontro sentido no que sugere, Urânia. Acho que há motivo para distraí-las, porém não para afastá-las da realidade, que fique claro.

— Seria impossível fazer isso, já que elas estão inseridas nessa realidade, Clio.

— Sei disso, Euterpe, mas como encarregada da ideia, deverá entender direito a intenção por trás.

Euterpe arregalou os olhos, processando as palavras recém-ouvidas.

— Encarregada da ideia?

— É a mais festiva, portanto a mais apta a fazê-lo – Urânia piscou com malícia para a musa da música, que, ao ranger os dentes, mostrou a indignação.

— Euterpe, suas habilidades de comunicação com certeza serão influentes nisso. Tenho conhecimento de que já interagiu com muitas pessoas em Rodório – Clio bebericou o chá que tinha em mãos. Euterpe não deixou de sentir um tom de insinuação nas palavras dela.

— Oh, tenho sim, mas você também tem, Clio. Acho que será ainda mais influente se vier conosco – respondeu, com uma dose de sarcasmo.

Clio pensou um pouco e, para a surpresa da mais nova, assentiu:

— Que assim seja. Pense em algo eficiente e me proponha depois. Não há tempo a perder, acredito. Acho mais conveniente deixar Athena e Grande Mestre decidirem os próximos passos antes de oferecer ajuda, então me manterei à margem – virou-se para a musa da música. — Talvez seja melhor descer e falar com Terpsícore e Erato desde já. A segunda já se recuperou.

— E Terpsícore? – Euterpe a encarou.

— Seria ótimo se você nos trouxesse a resposta – Clio respondeu sem rodeios e aguardou, extraindo um suspiro irritado da irmã.

— Clio, às vezes você é detestável.

— Vou levar como um elogio. Sei que você tem estranhos hábitos de adicionar características às pessoas. Não se esqueça de pedir passagem na casa do cavaleiro sem expressão de capricórnio.

— Você estava ouvindo tudo!

— Até mais, Euterpe.

Assim que Euterpe, emburrada, deixou a sala, Clio se virou para Urânia com maior atenção:

— Ontem, comprovei algo que me deixou em alerta: Hades não está isento de sentimentos humanos por completo. Provavelmente, isso está deixando Pandora numa posição crítica de risco. Não há outra explicação para ela ter ordenado que Violet de Behemoth ficasse às sombras dele. Afinal, foi loucura ele vir até o Santuário sozinho. No entanto, imagino que ela vá aumentar esforços para afastá-lo de encontros com Athena. E que vá tentar agir de longe o máximo que puder.

— Ou então vai aprisionar Hades.

— Como isso seria possível? – Clio se sentou no divã antes ocupado pela musa da música.

— É só olhar nos olhos dela para ver que há muita pressão e planejamento naquela mente. Eu não havia pensado nisso desde ontem, mas, no fundo, estive com essas possibilidades em mente também. Fui impedida de pensar em Sísifo por causa da insistência desses pensamentos – Urânia mordeu o lábio inferior, enquanto olhava para o nada.

— O que anda em sua mente, Urânia?

A musa da astronomia entrou num rápido, porém sepulcral, silêncio, enquanto respirava com calma. Após um tempo, perguntou:

— Entre a realidade e um sonho em que você poder ser você mesmo, qual dos dois é melhor?

— Que tipo de pergunta é essa? – Clio se alarmou. Aquela negatividade da irmã era tremendamente perigosa para o atual contexto em que se encontravam.

— Não quero que Sísifo morra.

— Sísifo não está morto, está adormecido.

— E quando a morte e o sonho parecem a mesma coisa? – automaticamente, juntou os joelhos e passou a roer a unha do polegar esquerdo, angustiada. Não continha o nervosismo ao pensar na possibilidade de seu amor nunca mais acordar.

— O sono só é diferente da morte porque oferece a oportunidade de viver novamente, por mais distante que pareça ser.

Clio se juntou ao silêncio sofrido de Urânia, porém seus pensamentos não se prenderam à trágica condição do cavaleiro de sagitário. Ao parar para pensar no rumo da conversa, inquietou-se com uma inesperada constatação: só há um caso em que Morte e Sonho se parecem. A semelhança é tanta, que, em claros termos, “gêmeos” é como são considerados. Por um momento, Clio parou de respirar. Pensar nos dois nunca era saudável para a mente e tampouco seria para o coração.

~

Terpsícore, de olhos fechados, tomou consciência do intenso frio que sentia. Era um bom sinal, pois não sabia por onde a mente andava vagando enquanto não abria os olhos, podia apenas visualizar vários vultos e linhas multicoloridas se formando e dissolvendo a cada segundo. E muito frio. Os pelos, arrepiados ao máximo, causavam dor. Era um bom sinal, pois estava tomando consciência do corpo, mesmo sem conseguir movê-lo.

Havia passado por um momento semelhante, no qual não conseguia se mover e sentia dor, ainda que não fosse tanta e o ar estivesse densamente quente. Não era fogo, dessa vez. A fumaça era gelada, tão gelada que se tornava insuportável com o tempo. Insuportável a ponto de Terps ter a impressão de que seus pelos cairiam e nunca mais conseguiria mover o corpo congelado.

Através do desespero por seus pensamentos serem, talvez, verdadeiros, abriu os olhos com rápida necessidade.

Não perdeu tempo olhando o espaço, seus olhos miraram a enorme banheira de gelo em que estava. Nenhuma parte a tocava, pois Terps repousava sobre uma longa e macia toalha vermelha, porém os enormes blocos de gelo em volta liberavam uma fumaça densa e gelada, agressiva ao contato com a pele.

Terpsícore gritou por ajuda ao não conseguir se mover e perceber-se nua. Num segundo, uma serva apareceu à porta, num semblante horrorizado:

— Senhorita, o que houve?!

— Q-Q-Q-Quem... V-você? – Terps se frustrou ao notar que o frio arrebatador atrapalharia suas palavras.

— Perdão, sou Elmire, servente da casa de-

— Me tire daqui, eu imploro! – gritou, com lágrimas acumuladas.

— S-Sim, senhorita! Perdão!

Apressadamente, a serva tratou de entrar na banheira e enrolar o corpo nu de Terps com uma toalha mais espessa. Seus gestos delicados conseguiram passar pouca confiança na musa.

— Ufff. Não sou própria para isso, me perdoe — Elmire curvou-se entristecida. Não conseguia levar Terpsícore no colo. Era um tanto menor que ela e não acostumada com trabalhos pesados. Sua rotina limitava-se à limpeza dos quartos. – Vou chamar o senh-

— Não! – Terps exclamou com esforço. – N-Não quero n-n-nin-nguém q-que não seja... Era-to-to.

A serva abraçou o corpo da musa em sinal de apoio e culpa por não poder ajudá-la, e, baixinho, informou:

— Sua irmã está bem e já se recuperou. Precisamos cuidar de você, que se machucou muito mais. Se me deixar chamar o senhor da casa, poderá se aquecer mais rápido e encontrar sua irmã. Compreende, senhorita? – alisou um pouco dos cabelos úmidos e louros. Ao sentir a dona deles assentir, continuou: — Pois aguente firme que volto já!

E Elmire cumpriu. Não demorou muitos minutos para voltar ao lado do senhor da casa, que Terps descobriu ser Degél, o cavaleiro de ouro de Aquário. Isso explicava o gelo. Deixou-se ser erguida pelo sério cavaleiro e levada até um quarto qualquer, para, em seguida, ter as feridas analisadas por Elmire. Para isso, a serva pediu timidamente para que o aquariano se retirasse do quarto, a fim de deixar o ambiente confortável para ela. Degél saiu sem dar uma palavra. Terps agradeceu em silêncio e deixou o corpo relaxar na cama.

— Esse senhor Degél possui um gelo milagroso, senhorita. Suas feridas foram impedidas de maiores infecções. Claro que nós passamos pomadas e álcool, mas aquela dose de gelo certamente foi gloriosa! – Elmire comemorou. Seu entusiasmo sincero confortou Terps. – Está mais aquecida neste quarto? – viu-a assentir – Que bom, que bom. Confesso que essa casa é fria, mas pode ser só o jeito que olhamos para ela, mesmo. Olhe só você aqui, muito melhor! Quem disse que coisas frias precisam ser ruins, certo?

O barulho de uma batida na porta captou as duas atenções e Terpsícore abriu um sorriso ao ver a irmã mais nova, Erato, parada, à espera de uma aprovação para entrar no quarto. Assim feito, Elmire se afastou e Erato pulou na cama para se aconchegar ao lado da irmã.

Terps riu ao ver farelos ao redor da boca da pequena ruiva.

— Está se sentindo melhor? Uau, você está gelada! Eu estive também, sabia? – Erato tagarelou, feliz. – Sabia que o osso do seu pé foi deslocado? Não sei bem qual, porém Polímnia o botou no lugar com maestria antes de ir embora, foi muito bonito. Está com dor?

— N-Não... Um pouco, mas não no pé. Na verdade, mal o sinto...

— É porque está dormente devido ao gelo, senhorita. Não se assuste – Elmire sorriu com gentileza.

— Mas, hm, Polímnia foi, hm, embora?

— Eu não devia contar, até porque não sei do que se trata ainda, mas parece que Mel está com problemas. Clio pediu para que Polímnia fosse até lá ajudar – Erato informou.

— Que tipo de problema? – Terps se ajeitou ligeiramente na cama.

— Não me disseram. Euterpe me avisou quando passou aqui. Pela cara dela, acho que também não sabe do que se trata esse problema. Ou então problema originou a cara dela. Bem, quem sabe...

— Euterpe passou aqui?

— Sim. Euterpe passou por aqui e disse que queria nos levar num lugar hoje, mas que só daria certo se você estivesse disposta. Pois espero que você melhor, Terps. Não pude responder por você, claro, mas fiquei repetindo um mantra de melhoras, juro – cruzou os dedinhos da mão para enfatizar a palavra. Nos orbes avermelhados, podia-se ver grande animação pela irmã ter acordado.

— Senhorita Erato, talvez a senhorita Terpsícore não se recupere a ponto de sair para programas agitados... – Elmire não queria ser negativa, porém precisava ser realista. Surpreendeu-se ao ver que não houve desânimo por parte das musas.

— Acredite, Elmire, Terps se recupera rápido. Aliás, todas nós. Aliás, é preciso que ela saia deste quarto. Aliás, pensei num belo lugar para passarmos a tarde! – Erato disse, entre respirações mal terminadas.

— Erato, eu gostaria de passar a tarde aqui... Prometo que estarei melhor para depois.

— Hmm, mas se alimente – a mais nova ordenou, em meio à habitual meiguice, e mirou a serva: — Vai passar a tarde com ela?

— Se for ordens do meu senhor, com certeza.

— Tá certo. Então me vou, mas eu volto – Erato saiu, saltitante.

Elmire, em lento ritmo, sentou-se ao lado de Terpsícore na cama. Seu semblante preocupado deixou a musa em alerta. Elmire percebeu.

— Senhorita, não sei se compreendo o que sua irmã quis dizer com a rápida recuperação de vocês, mas acredito que não são isentas de cicatrizes...

Terpsícore silenciosamente negou. Elmire continuou:

— Pois... Receio que seus cortes tenham sido fundos o bastante para se transformarem em algumas. As suas pernas me pareceram bastante frágeis, se me permite.

Terps não esperou mais palavras. Tirou violentamente a espessa toalha de cima e viu o espetáculo de riscos avermelhados nas regiões laterais das pernas. Virou o corpo, entortando-se um pouco, e notou mais algumas alcançando a parte de trás das coxas. Aproveitou para especular o corpo todo e se deparou com os braços ralados em estado de recuperação.

— Onde mais?

Elmire sentiu pena ao ouvir a voz tremida de Terpsícore, beirando ao desespero, e, entristecida, apontou para a sobrancelha direita.

— Você pode se recuperar, senhorita, mas quererá sair assim? Diga sim e darei um jeito.

~

Kárdia limpou o suor da testa com as costas das mãos e sorriu, não porque estava animado, mas por ter confirmado quem havia enxergado de longe. Devido ao sol escaldante e o árduo treino que acabara de finalizar, sua mente originava certas alucinações, provocadas por constante movimentação dos olhos e um notável cansaço. Não havia se machucado o bastante na noite anterior para ser impedido de treinar. O incidente não passou de mais uma consequência de sua realidade dura de cavaleiro de Athena. Mais que isso, uma realidade de guerra, formada por perdas e desilusões. Porém Kárdia sabia se munir contra isso. Perder as esperanças significava perder a razão do próprio caminho, algo que nunca poderia acontecer a alguém de tão notória influencia naquele contexto.

Após lavar o rosto suado com todo o conteúdo de uma jarra de água já morna, ele subiu apressadamente os degraus de uma arquibancada rochosa e, ao chegar onde queria, curvou-se em sinal de respeito, com um grande fundo de brincadeira.

Euterpe revirou os olhos, entediada. Ao dar uma discreta analisada no corpo pouco coberto do cavaleiro de escorpião e notar alguns vergões, perguntou:

— Como passou a noite?

— Sem você, infelizmente – Kárdia se sentou ao lado dela e respirou fundo. Seus olhos prenderam-se ao pescoço fino que possuía uma pequena mazela. – O que foi isso aí? Foi de ontem?

— Sim. Não é nada de mais – Euterpe elegantemente tapou o pescoço com o cabelo, ainda que sentisse calor.

— Onde mais tem?

Kárdia aguardou resposta. O silêncio denunciador de Euterpe foi certeiro em deixá-lo irritado. Era insuportável quando ela escondia as coisas, ainda mais as importantes. Para ele, era quase uma questão de orgulho mantê-la sempre a salvo, ainda sabendo que ela preferiria a pose de quem se defende sozinha. E saber que havia falhado, mesmo que causando um simples arranhão, deixava-o desolado.

— Vou arrancar esse seu vestido e procurar sozinho pelo resto, Euterpe.

Ela sorriu de canto. Kárdia não soube dizer se o motivo do sorriso era malícia. Não havia ameaçado por brincadeira e esperava que ela soubesse disso.

— Vamos mudar de assunto. Já passou. Estou viva – virou-se para olhá-lo nos olhos. – Não sabia que encontraria você treinando.

Kárdia, apesar de feliz com a presença da musa, não deixou de observar o jeito manso com que ela falava com ele. Era incomum ver Euterpe, em toda sua forte personalidade, tão absorta em uma atmosfera neutra. Ele quase podia sentir a nuvem que a rodeava; hostil e misteriosa. E então se sentiu ofendido ao perceber a fala recente da musa.

— Argh! Aquilo de ontem não foi absolutamente nada perto do que já passamos nessa vida. Se uma coisa daquelas acontecer e me deixar incapacitado de lutar, ou apenas treinar, pode me expulsar do mundo. Não treinei para ser subestimado.

— Que resposta arrogante foi essa, escorpião? – Euterpe perguntou, falsamente indignada.

— Uma que você merece por insinuar algo tão idiota – Kárdia coçou a nuca. – Ora “não sabia que encontraria você treinando” – imitou-a com a voz em falsete. — O que achou que eu estaria fazendo?

— Correndo atrás de um rabo de saia para pedir consolo.

— Deixe de ser cretina, Euterpe. Atualmente, só corro atrás do seu.

Euterpe olhou incrédula para a cara séria de Kárdia, que logo se abriu num sorriso zombeteiro. Ela revirou os olhos e se levantou, decidida.

— Não finja que não gostou de saber disso, Euterpe – ele disse, um pouco alto demais, fazendo-a se virar antes de descer um degrau. Sorrindo de forma infantil, ele continuou: – Quero que me encontre hoje à noite.

— Ah, você quer?

— Quero sim.

— Pois não vai dar. – Euterpe girou o corpo, de costas para o escorpiano, deixando os cabelos dançarem e o bumbum empinar ainda mais.

— Ehh! Você só me provoca – Kárdia emburrou-se. — Estou começando a ficar com raiva.

— Não é minha culpa. Fui designada à tarefa de cuidar de minhas irmãs – revelou, com pouco caso, enquanto descia a arquibancada com cuidado. Seu rebolado atraía o olhar faminto do escorpiano.

— Sei. Onde estará cuidando delas? Na Casa de Aquário?

Kárdia havia sabido que Erato e Terpsícore estavam na casa de seu colega, Degél, sendo examinadas e cuidadas. Ficara surpreso ao saber do ocorrido, principalmente por nunca ter acreditado na garra da musa loira.

— Num bar.

— O quê?! – Kárdia saltou da arquibancada e parou em frente a ela, surpreso.

— Vou levar minhas irmãs à Toca do Desafinado. Lembra-se desse lugar? – Euterpe sorriu com malícia. A lembrança do dia em que conheceu Kárdia e com ele conversou pela primeira vez avivou-se em sua memória. – Lá elas desopilam, com certeza.

Kárdia mal processou a informação. Balançou a cabeça para os lados três vezes até entender, porém Euterpe já estava longe. Em seu interior, um ciúme acumulado pulsou e cresceu. Não tinha ciúme das irmãs da musa, mas da possibilidade da mais velha encontrar alguém interessante para dividir um vinho, como havia feito com ele.

Kárdia simplesmente não queria dividir.

Na mesma arena, próximo à fonte de água fresca, localizada sob uma tenda e uma convidativa sombra, Régulus matava a sede. Sua vontade era de limpar o pensamento angustiante acerca da situação do tio, o cavaleiro de Sagitário, de quem ninguém sabia informar com total certeza sobre o tal sono profundo. Nem todos sabiam o que havia acontecido, por fim, com Sísifo de Sagitário, e por causa disso Régulus ouvia frequentemente burburinhos pelos cantos, contendo boatos sobre o tio, quando não eram perguntas feitas diretamente a ele.

Régulus incomodava-se com a impotência diante dos fatos. De acordo com o Grande Mestre, ninguém poderia ter noção da dimensão do abismo em que Sísifo se encontrava, mentalmente falado, se não entrasse diretamente nela para reconhecer alguma solução. Contudo, tudo era ainda imprevisível e arriscado demais. E Athena estava convencida a não arriscar a vida de seu querido conselheiro sem uma prévia pesquisa. Régulus estava convencido de que ela agiria assim com qualquer um de seus cavaleiros, mas não deixou de sentir certa admiração com a determinação da deusa diante de um caso tão desconhecido. Por um instante, ele quis acreditar que ela colocaria ainda mais força para tirar seu tio de onde quer que estivesse.

O que Régulus queria, em sua mais profunda esfera, era acreditar.

Tão distraído, enquanto seus olhos azuis e infantis miravam o céu, foi puxado pelo pulso grosseiramente e, por reflexo, ao se virar para revidar, deparou-se com dois enormes olhos vermelhos o fitando de forma ansiosa, como se o convocasse com urgência para algo. Nada disse, apenas se deixou ser guiado até o meio de uma clareira, a alguns metros de uma trilha que havia ao lado da arena, próxima aos banheiros masculinos.

Como sempre, foi sem questionar, porque mais uma vez aqueles olhos o envolveram num misto de hipnose e fascinação. E a quem o cavaleiro queria enganar? Estava aguardando um encontro daqueles.

Ao sentir o corpinho pequeno de Erato parar abruptamente no meio das árvores, fez o mesmo. Esperou-a se virar e sorrir. Régulus não conseguiu fazer o mesmo, porém. Descobriu que ainda sentia aflição pela falta de notícias do estado dela, que havia caído devido a uma explosão próxima a umas ruínas. Não conseguiu controlar as rápidas batidas do coração ao receber uma expressão zombeteira em resposta ao seu silêncio.

— Eu te puxei até aqui e você não vai falar nada? Eu sei que puxar alguém para conversar no meio da floresta pode ser um tanto clichê, mas parece, cada vez mais, que as pessoas aqui se multiplicam!

Régulus nada disse. Preferiu manter a postura de observador daquela adorável musa que não parava de falar. Quis que ela continuasse, mas, ao vê-la esperar uma resposta, decidiu falar:

— Não me importo com isso... – Régulus disse. E então travou. Observou Erato, que estava inclinada para a frente, com as mãos dadas nas costas e o lábio superior mordendo o inferior.

— E...? Então com que se importa? Precisa me dizer, porque estou tentando te deixar bem aqui. Eu sei o que houve com seu tio.

— Do meu tio eu também sei. Já de você... – Régulus desviou o olhar. Por dentro, arrependeu-se do tom que usou.

— Você está brabo comigo ou algo assim? – Erato perguntou, sorrindo de canto.

— Não brabo...

Erato, na hora, percebeu que sim, o leonino guardava rancor por algo que ela havia feito – ou não feito. Cogitou que tal rancor se derivava da pouca pressa que ela teve ao se mostrar bem para ele. Talvez Régulus tivesse a estranha necessidade de saber tudo no momento em que queria – Erato achou divertido. Se fosse o caso, seria complicado, pensou ela, pois um leão orgulhoso e egocêntrico era difícil de lidar.

— Que bom que não está brabo então, pois eu trouxe algo para você!

Régulus procurou o objeto no corpo de Erato. Desistiu ao ouvir o estralo de dedos da musa perto de sua orelha.

— Ei! Nem sempre as coisas que damos são materializadas. O que eu trouxe para você só poderá ser guardado em lembrança, se for importante. Se você se importar com isso...

“É claro que me importo”, Régulus quis dizer. Quis dizer até mais: “me importo com todos os seus gestos, ações e palavras”, mas temia receber uma frase dura como resposta. Não seria novidade partindo da mais jovem musa. Havia até aceitado o jeito dela, porém, por vezes, sentia o orgulho se ferir quando ela agia despretensiosamente diante de suas investidas. Era desafiador procurar entendê-la.

— Estou curioso.

— Então, chegue mais perto.

Erato abriu os braços para recebê-lo, o que, de início, deixou o leonino hesitante, mesmo com a enorme vontade de ali se jogar. Régulus foi com calma. Deixou-se ser abraçado delicadamente pelos frágeis braços da musa, até sentir uma abertura para deitar sua testa na curva entre o pescoço e o ombro direito dela. Sentiu um indício de cafuné, na nuca, que se estendeu até o topo da cabeça. Podia sentir as curtas unhas de Erato enfatizando o cafuné, de forma relaxante e suave. E, logo depois, ao pé de seu ouvido esquerdo, sentiu um lábio macio se encostar e iniciar uma organização de palavras melodiosas. Um poema.

Como reação imediata, os pelos do cavaleiro se eriçaram, o coração já acelerado deu a impressão de que sairia correndo por onde desse e algumas partes do corpo passaram a transpirar. Régulus estava nervoso demais por conta da aproximação com Erato – especialmente após um treino que provocou um bom suor em seu corpo. Suor que aumentava com a intervenção da musa. Além disso, por conta desses fatores, não conseguiu prestar atenção em todas as palavras. Talvez conseguisse dizer sobre do que se tratava o poema – superação, crença e aromas, algo assim -, porém pescava a informação em poucas palavras, enquanto sua mente procurava não abandoná-lo em meio ao nervosismo. De superação, pensava no tio; crença o levava a alimentar sua necessidade de acreditar nas soluções; no que se referia a aromas, só conseguia pensar no doce cheiro do pescoço de Erato.

Ele mal percebeu quando fechou os olhos, assim como não percebeu quando Erato terminou de declamar o poema em seu ouvido. Estava cansado e frustrado com o rumo da Guerra, e estar parcialmente no colo da única garota que havia chamado sua atenção no Santuário era acolhedor e quente.

Erato percebeu os ombros do cavaleiro relaxarem. Sentiu-se satisfeita ao ver que havia conseguido relaxá-lo por um instante. Havia dias que o observava de longe e o percebia tenso e preocupado, fosse pelo empacado avanço nos treinos, ou pela considerável distância que Sísifo de Sagitário havia tomado dele para resolver outras coisas. Erato podia ser boa observadora quando seu alvo verdadeiramente lhe interessava. Passou a ser um bom desafio tranquilizar o pequeno e destemido leão.

— Não sei o que dizer... Como agradecer – Régulus de repente disse, sem se mover. Continuava desfrutando do carinho suave que recebia na nuca.

— Finalmente. Você parece sempre achar que tem resposta para tudo!

— E você parece sempre menosprezar quando respondo.

— Que bom que nem tudo é o que parece, não? – Erato riu sonoramente. Régulus, sonolento, sorriu ao ouvi-la.

— Eu supostamente não devo fazer esse convite que estou prestes a fazer, mas farei porque acho que você precisa se distrair um pouco. Sei que, a princípio, o movimento racional e primordial das pessoas ao se depararem com um problema é se esforçar para resolvê-lo, sem se importar com os fatores – Erato, em tom mais empolgado, continuou: — Mas, em minha opinião, ninguém consegue pensar o seu melhor quando está dominado pela negatividade do problema, então eu acredito que o movimento emocional deve vir antes do racional – ao ouvir o corpo do leonino chacoalhar, acompanhando uma risada, ela revirou os olhos. — Estou falando demais, eu sei!

— Não é só isso – Régulus finalizou a risada, mas manteve o sorriso, e virou o rosto para vê-la. – É também o jeito com que você fala. Me agrada bastante.

O que se seguiu o leonino não pode acreditar e não acreditaria se não fossem seus olhos constatando o evidente rubor escarlate que tomou conta das brancas bochechas da musa, quase ocultando o charme das sardas e dando espaço a outro. Régulus mordeu o lábio com a visão – consequentemente, corou também.

Erato, em rápida velocidade, desviou o olhar, porém tarde demais. Régulus já estava feliz.

— Então... Estou te convidando para ir comigo e com minhas irmãs num lugar hoje. Não sei bem o que é, só sei que Euterpe conhece e achou legal... Ehm... – estranhamente, Erato engoliu seco antes de continuar. – Podemos nos encontrar na praça principal de Rodório. Oh, sim, o lugar é em Rodório, claro. É um tipo de, hum, bar, eu acho. Não é lá muito romântico, mas eu confio nos gostos de Euterpe, se quer saber!

Régulus diretamente pensou na Toca do Desafinado. Era possível que Euterpe quisesse ir lá, considerando que era um dos bares mais procurados e recomendados pelos passantes da vila. Régulus havia ido com o tio e El Cid numa das vezes; nas outras, geralmente tinha Kárdia como companhia, embora muitas vezes tivesse ido embora logo por ter sido trocado por uma formosa dama.

O cavaleiro sorriu ao pensar em Erato lá. Devido à enorme imprevisibilidade da mais jovem, não fazia ideia de como ela se sentiria num ambiente como aquele. E adoraria estar presente para ver por conta própria.

Erato, que aguardava resposta, surpreendeu-se ao senti-lo se afastar e ajeitar a camisa de treino, como se fosse partir em instantes. Permaneceu quieta até sentir os lábios serem preenchidos, numa velocidade absurda, pelos do leonino. E então ouviu:

— Estarei na praça esperando por vocês – Régulus respirou fundo. – Afinal, é nosso dever acompanha-las até os lugares – disse. Num tom cândido, finalizou: — Obrigada por tudo, Erato.

Erato ficou parada, vendo-o se afastar (novamente numa velocidade absurda) e tocando no lugar do peito onde o coração batia. Havia sido rapidamente beijada, podia sentir o arrepio na espinha e a pele do rosto esquentar, e podia sentir como tudo isso era estranho. Como uma romântica incorrigível, sabia o que estava acontecendo. Sabia que estava se envolvendo um pouco mais do que queria, mas não se importou. Ficou empolgada, finalmente estava acontecendo. Finalmente estava tendo contato com um tipo diferente de amor. Ela podia sentir. Podia quase enumerar todos os fatores consequentes desse tipo em específico. Precisava anotar tudo isso, precisava escrever poemas e poesias sobre isso, precisava fazer desenhos, contar flores, rodopiar e declamar para qualquer pequeno animal que ali estivesse.

Mas não conseguia se mover nem se concentrar, pois, em sua mente, o formato da boca recém-degustada do leonino se desenhava sem parar.

~

— Que grande bosta. Grande, enorme, gigantesco monte de merda.

— Não me importo com seu ódio, mas mantenha-o longe de mim, Kárdia – Degél pediu, falsamente encarecido, enquanto ajeitava os óculos.

Ambos descansavam num dos caramanchões construídos a alguns metros da arena, erguidos por pilastras gregas perfeitamente esculpidas e detalhadas nas extremidades. O espaço contava com uma aconchegante sombra e aberturas que proporcionavam refrescantes brisas para os que repousavam nos divãs, ou simplesmente nos bancos, existentes ali. Nada muito sofisticado, porém a organização do espaço era agradável. E naquele horário o caramanchão ocupado por Degél e Kárdia estava vazio. O primeiro encontrava-se sentado comportadamente num dos bancos, com um livro de capa verde aberto no colo; o segundo estava jogado nos poucos degraus que elevavam o local, com as costas apoiadas numa das pilastras. Kárdia observava o nada, numa expressão endurecida.

— Não estou entendendo mais nada! – Kárdia desabafou.

— Espero que esteja se referindo à guerra.

— Sabe que não estou.

— Então pragueje em silêncio.

Kárdia bufou diante da pouca reação do amigo. Coçou o nariz, incomodado, e passou os olhos pela linha horizontal à sua frente. Nada o interessou, nem mesmo a chegada repentina de um leonino agitado e vermelho. Mas isso mudou em alguns instantes; Kárdia sorriu com malícia.

— Diga nome e informação de experiência – o escorpiano pediu, atraindo um olhar de reprovação de Degél.

Antes de responder, Régulus procurou controlar a respiração. Sua vermelhidão certamente não era por correr – algo que já estava acostumado a fazer.

— Não vou dizer nada.

— Está ficando ousado, garoto! – Kárdia riu.

— Ei, vocês acham que é recomendável ficar andando nas ruas de Rodório à noite atualmente? – Régulus perguntou normalmente.

Degél moveu a atenção do livro para o jovem cavaleiro e, em tom sério, porém curioso, respondeu:

— Qualquer local nos limites do Santuário passou a ser perigoso, nem por isso menos frequentável. A questão é com que fim você vai andar e ao lado de quem – por fim, ergueu uma sobrancelha, deixando implícito o que queria saber.

— Não seria uma tarefa sistemática – Régulus respondeu.

— E seria o quê? Um encontro? – Kárdia se meteu, mais atento. Por pouco tempo, chegou a uma estranha conclusão. – Vai levar a garota com quem estava agora? Não pense que eu não sei o que há por trás desse semblante virgem aí.

— Kárdia – Degél o reprovou novamente, mas o escorpiano pouco ligou.

— Ehh, é assunto delicado agora? Pois eu acho é bom que você saia com alguém, pra ver se distrair. Só não me convido pra ir junto porque o mundo é uma grande e tremenda bost-

— Kárdia precisa aprender a lidar com a rejeição – Degél interrompeu. – Apenas isso.

— Enfim, nenhum de vocês respondeu minha pergunta – Régulus retomou, impaciente.

— Você não estava correndo atrás daquela musa bipolar?

— Poucas saídas com você já me convenceram de que o ideal é manter algumas informações guardadas, Kárdia. Há quem diga que você é linguarudo, já parou para escutar?

— Degél, está vendo isso? – Kárdia riu, divertindo-se. – O leãozinho tá crescendo. Mas sabe... Há quem goste de um linguarudo. Geralmente, na matéria de língua, muitas moças aparecem para se informar.

— E é só isso que você consegue me dizer?

— Está esperando algo mais romântico?

Régulus não conteve a risada, assim como Kárdia. Para o leonino, era ótimo desopilar com aquelas pessoas que considerava mais que colegas de batalha: amigos e companheiros que compreendiam sua dor. Sentia-se feliz por poder contar com um pouco de gentileza em meio a dias de brutalidade. Sabia que havia muito que acontecer e que, no fundo, Kárdia estava certo: precisava se distrair.

— Vou acompanhar Erato em sua saída com as irmãs hoje – Régulus informou, normalmente. Quis compartilhar aquela alegria e contar mais, porém, ao ver a expressão paralisada do escorpiano, hesitou.

— Impossível – Kárdia disse.

Degél se ajeitou no banco, atento ao cavaleiro de escorpião.

— Euterpe me disse que sairia com as irmãs.

— Sim, Erato me disse o mesmo.

— Com as irmãs – Kárdia enfatizou, engolindo seco. – Não poderia ir mais ninguém.

— É, mas Erato me convidou mesmo assim – Régulus revidou, apreciando certo gosto na superioridade diante do amigo. Geralmente, era Kárdia quem se gabava dos convites. A oportunidade de fazê-lo agora era única.

— A senhorita Euterpe disse que não poderia ir mais ninguém? – Degél, de repente, questionou, mirando Kárdia.

— Não, eu que disse.

Régulus riu, embora o amigo parecesse decepcionado, e continuou:

— Enfim, dessa vez vai dar certo. Por isso perguntei sobre andar à noite por Rodório. De qualquer forma, estarei com elas. Pra falar a verdade, não sei se Euterpe precisa de proteção, mas Erato e Terpsícore... Não há com que se preocupar – orgulhosamente, colocou as mãos na cintura e inflou meramente o peito.

Você não vai, Régulus.

Os três presentes imediatamente se viraram para uma das aberturas do caramanchão, onde, no lugar, outro cavaleiro fazia sombra. Pela pesada energia que rondava seu semblante prepotente, todos já sabiam que ele havia ouvido a conversa. Em sua dura face, uma expressão séria voltada para Régulus denunciava a parte que havia lhe incomodado na fala do mais novo.

— Você não vai porque estará de ronda comigo – Defteros disse.

— Ahhh, Defteros – Kárdia encostou as costas novamente na pilastra e cruzou os braços atrás da cabeça -, deixe o garoto em paz. Deixe ele ir, se divertir, como é, desopilar com a musa bipolar. Tenho certeza de que Degél poderá fazer a ronda no lugar dele, eh?

— Não me lembro de ter citado essa opção, Kárdia – Degél disse. Entre suas excêntricas sobrancelhas, uma ruga surgiu.

— Seja lá o que for, Régulus vai me acompanhar – Defteros revidou, quase num rosnado. Nada passou despercebido para o escorpiano.

— É mesmo? Pois não veria problema em você acompanhar Régulus então, já que é óbvio que, além da musa da música e da bipolaridade, mais uma musa estará lá. Por sinal – Kárdia abriu um enorme sorriso zombeteiro e encarou o geminiano -, eu sei que você ouviu isso. Tenho certeza de que Terpsícore vai afinar aquela toca de desafinados!

Sem demonstrar, Defteros rangeu os dentes. Seus olhos azuis faiscaram contra o escorpiano, que fez questão de aumentar a largura do sorriso. Régulus e Degél se entreolharam.

Como uma chama crescendo em seu interior, Defteros tomou impulso para sair dali, procurando não deixar a raiva consumir a mente.

— Ele vai me dedurar – Régulus jogou a cabeça para trás, frustrado. Já previa o sermão do Grande Mestre sobre o dever de um cavaleiro de Athena e a dor que adquiriria no pescoço por concordar seguidamente.

— Ele não vai te dedurar – Kárdia retrucou. Seu olhar cortante sempre significava que, em sua mente venenosa, uma fonte inesgotável de conflitos se formava. Régulus conhecia aquele olhar. – Porém...

~

Manigold cuspiu a cerveja na parede, arrancando uma sonora gargalhada de Tália, que observou a cena a alguns metros da mesa de jantar. Como estava perto da cozinha, saiu para pegar um pano e limpar o ponto então molhado. Enquanto isso, o canceriano processava a novidade.

— Como assim Dionísio se ofendia com isso?! Não vai me dizer que você participara das orgias só para agradá-lo, Tália! – Manigold limpou a boca com as costas da mão esquerda. Seu olhar estava fixo em Tália.

— Oh, e se de repente eu fizesse justamente isso?

Tália desviou de uma bolinha feita com guardanapos, enquanto ria ainda mais da atitude do cavaleiro de câncer. Estava se divertindo contando sobre algumas amizades que tinha, quando ela citou o assunto de Dionísio.

— Não me ataque, arbusto. Você, de curioso, está perguntando o que não quer saber!

— Está insinuando algo, não está? Está sim, porque eu não to louco! – Manigold se levantou abruptamente da mesa e se dirigiu a ela, que, numa tentativa de fuga, acabou batendo o corpo numa bancada. – Viu no que dá fugir de mim? Me explica isso direito.

— Está com ciúme? – ela perguntou, sorrindo, com os olhos espertos arregalados.

Manigold adorava aqueles olhos. Um azul, o outro verde. Adorava a cicatriz e como entrava em harmonia com as caras e bocas que sua musinha fazia ao se divertir às suas custas.

— Eu estou sempre com ciúme de você – rosnou, prendendo-a com os braços. Levou a boca até o ouvido esquerdo de Tália e sussurrou: — Admita se fez parte da orgia ou não.

Havia mais do que um simples desejo em saber, mais do que uma necessidade de matar a curiosidade. Manigold queria saber de algo mais íntimo, algo que duvidava que Tália havia feito devido ao seu jeito tímido e cauteloso. Contudo, diante da extrema espontaneidade da musa sobre o assunto, passou a hesitar. Tália era linda; apenas ele havia demorado a enxergar isso. Ela poderia muito bem ter cativado outros seres com seu jeito e sua beleza.

— Entenda – Tália, com carinho, pousou as palmas das mãos nas bochechas do canceriano -, nos cultos a Dionísio, era desrespeito você se recusar a participar das orgias, especialmente quando você valorizava o que ele pregava. Dentre os valores, ora, está a orgia! Consegue entender?

— Isso eu já entendi. Não foi o que perguntei. Hunf.

— Pois bem, eu não sou devota a Dionísio, Manigold. Não cultuo deus algum – Tália disse. – Oh, deixe-me melhorar a frase: não cultuo, sou cultuada.

Em poucos segundos, Manigold explodiu numa gargalhada, largando o pequeno corpo de Tália e procurando distância para fitá-la. Ela permaneceu observando-o, curiosamente. Sempre se deparava com um novo gesto do canceriano em momentos descontraídos — isso a agradava.

— Que musa esnobe!

— Não pense que não percebi o que quer saber nas entrelinhas...

Manigold, de repente, adquiriu certa seriedade. Havia perdido o foco do objetivo e Tália o havia lembrado, que patético. Talvez ela soubesse desde o início sua verdadeira preocupação. Era só relacionar com o ciúme e estava tudo certo, porém ela era mais esperta que isso.

— E como eu sei do que quero saber? – Manigold se aproximou, a passos curtos, e a olhou nos olhos com sinceridade.

— Você já sabe. Mas se tiver dúvidas, por que não procura descobrir sozinho? Estou aqui, não estou?

Manigold não esperou mais. Puxou o rosto de Tália para um beijo cálido e sem pressa. Um tanto raro entre eles, que costumavam ter nuances nesse tipo de carinho. Tudo dependia do humor que estivesse em harmonia entre eles. Compartilhariam com tranquilidade, sem impor um ritmo ao outro. Haviam encontrar um ritmo próprio. Tália perdia cada vez mais a timidez no beijo – algo que Manigold adorava comprovar – e se deixava embalar pelo corpo dele, sem questionar, na maioria das vezes. E, quando questionava, era para saber uma forma de retribuir.

— Arbusto... – Tália sussurrou em meio ao beijo, sem abrir os olhos. Estava completamente envolvida pelos lábios traiçoeiros do canceriano.

— Hmm... – Manigold murmurou de volta, na mesma condição.

— Aquela coisa... Que você fez noutro dia...

— Qual?...

— Aquela... Lá embaixo...

Manigold se arrepiou ao entender a referência. Sua imaginação – grande fonte de criatividade – teve sua influencia diretamente sentida nas partes baixas de seu corpo.

— Hmm... – ele murmurou, fingindo desinteresse. Para deixá-la falar melhor, passou a desce a boca para a curva entre o pescoço e o ombro direito de Tália, às vezes deslizando a língua.

Tália, com as mãos firmes nos bíceps do canceriano, apertou-o em resposta às carícias.

— Arbusto, eu quero aquilo de novo...

— Que tal se – Manigold traçou um caminho, com a boca, até o lóbulo direito de Tália e o mordiscou, para então sussurrar: — você não me chamar de arbusto pelas próximas cinco horas?

Tália sorriu – por dentro, estava rindo – e assentiu devagar, ainda de olhos fechados.

Notas finais
Não me batam, por favor. Eu sei que é sacanagem cortar nessas partes que nos empolgam, mas a vida é feita de frustrações - tá aí George Martin pra nos provar isso. E eu adoro fingir que consigo ser assim, meio cruel hahaha Brincadeira, a necessidade foi puramente técnica. Precisei mesmo cortar aqui, senão ia estender na parte que eu quero deixar pro próximo! Façam seus palpites, mas cuidem ao expô-los, porque eu não vou confirmar nada, ok? Tô nem aí se vocês suspeitam das coisas, eu não darei spoilers! No próximo, teremos TRETA. Aos sagazes, é isso mesmo que vocês captaram! Beijos, até o próximo :D