EmMusas - The Lost Canvas

67 Noite de rejeição - I


Capítulo 67

Clio enrolou a trança castanha em sua cabeça até formar um coque firme que prendeu com alguns grampos. Havia pegado-os por precaução, sabendo que a descida das Doze Casas e o trajeto com pouca árvore até as arenas eram acompanhados por um sol agressivo. Sua pele branca cheirava a um creme estranho que conseguira com uma criada do Grande Mestre para manter a pele hidratada. Embora estivesse havia um bom tempo no Santuário, adaptar-se a uma rotina de poucas sombras era estressante. Muitas vezes, para se refrescar, tinha de se afastar de onde quer que estivesse até encontrar uma boa árvore, alta o bastante para oferecer um recanto.

Chegou suada, mas isso não importava. El Cid já a havia visto assim. Olhou-o discretamente até ser notada. Demorou longos minutos devido à seriedade das feições do cavaleiro, que denunciava suas preocupações para com os jovens aprendizes. El Cid havia agregado à sua supervisão alguns pupilos de Sísifo, contando com ajuda daqueles que chamava de “assistentes de treino”. Basicamente, eram os aspirantes a cavaleiro que não haviam adquirido uma armadura ainda e que tinham capacidade de ajudar os mais novos a aperfeiçoarem técnicas de menor categoria.

Assim que houve um intervalo, El Cid tomou Clio pela mão e a levou para uma das entradas da arena, onde um arvoredo se estendia e uma fonte oferecia água fresca. Havia sido sagaz o bastante para dar o intervalo antes dos outros cavaleiros e apontar para o lado oposto de onde ia. Os aprendizes obedeceram, dando a chance que o capricorniano tanto almejava.

El Cid se virou para Clio.

— O que quer me dizer?

— Como sabe que quero lhe falar? — Clio perguntou com timidez.

Ser observada pelos olhos ambíguos de El Cid não era algo fácil.

— Suas mãos não sossegam, seu olhar vibra e você está ansiosa. Não é comum, portanto é óbvio que quer me falar algo — ele disse, insinuando impaciência, embora estivesse confortável na presença da musa.

Clio inspirou fundo, inflou o peito e o encarou com coragem.

— Pelos conhecimentos que adquiri aqui no Santuário, posso afirmar que, se em momento de risco, houver necessidade de um cavaleiro de ouro sair de seu posto, ele pode fazer, contanto que haja o dobro de cavaleiros fora do posto presentes no posto, correto? — Clio não esperou afirmação, apenas continuou: — Considerando que, há mais de quatro cavaleiros presentes no Santuário, dois podem sair para, digamos, nos acompanhar, no intuito de nos proteger, seja qual for o evento.

— Clio, você costuma ser mais objetiva.

Clio pigarreou.

— Se eu quisesse, quero dizer, precisasse de sua companhia até um local de Rodório hoje à noite, seria viável? É claro que há um interesse familiar nisso — Clio começou a se explicar apressadamente. — Eu estou pensando em minhas irmãs. Não faria questão de ir à uma taverna, mas é necessário. Eu estou… sem muitos recursos por aqui e, bem, talvez fosse prudente acompanhá-las. Não que Euterpe não seja de confiança, mas bem…

— Existe apenas interesses familiares nesse pedido? — El Cid se aproximou com os olhos fixos no rosto escarlate dela. Não soube dizer se o sol do Santuário a havia deixado assim ou ele mesmo. — É um fator pouco motivante para que eu aceite. Se é de interesse familiar apenas, seria mais adequado um cavaleiro menos atarefado.

De repente, Clio sentiu o estômago embrulhar e uma vergonha avassaladora bombear seu pensamento.

— É claro, me desculpe. Eu não havia considerado sua atual situação. Foi um tremendo egoísmo de minha parte. — Ela se encolheu diante dele, estranhando a própria reação.

— Não é isso que estou querendo saber, Clio.

Era óbvio, para ela, que não era apenas isso que ele queria saber. As entrelinhas diziam outra coisa por si só, uma insinuação imediata que colocava palavras em sua boca. Palavras que ela teria que negar e o faria com sinceridade, porém simplesmente não encontrou coragem. Era decepcionante agir feito uma tola na frente do cavaleiro de capricórnio e nem ao menos saber o porquê.

— Eu gostaria que nos acompanhasse — ela cuspiu as palavras.

El Cid estranhou, mas algo naquela insegurança o atiçava. Era como ver um lado vulnerável de Clio, menos cheio de si e mais aberta a suas investidas. Clio provavelmente estava confusa com o relacionamento que estavam criando e isso era perfeitamente manipulável. Não. Não faria isso com ela, como já fizera com outras. Era mais excitante provocar Clio aos poucos, com investidas objetivas e vê-la encontrar o próprio prazer. Aquele era, inclusive, um momento ideal para tal. El Cid não esperou mais palavras e avançou, enroscando fortemente o corpo de Clio e a tomando num beijo explosivo. Movimentou a boca rapidamente, faminto e com um desejo à beira de uma crise. Desejava-a havia um bom tempo e os momentos íntimos que tiveram com ela apenas o maltrataram internamente. Culparia-a por isso, embora a verdadeira culpa fosse sua por tê-la provocado.

Ele percebeu que ela não o acompanhava no beijo. Parecia até dispersa e hesitante. Isso o revoltou e desencadeou numa investida maior, dada pelo afago numa das nádegas de Clio.

E ela se afastou educadamente, empurrando-o com as duas palmas da mão no peito dele. Sequer o olhou nos olhos ao dizer:

— Espero que nos acompanhe.

— Eu vou — ele disse imediatamente. Seu tom era feroz e afetado.

Clio assentiu, fingiu um sorriso e se virou para o lado oposto, afastando-se a cada angustiante segundo. Não havia gostado do beijo.

No final da tarde, quatro mulheres, reunidas em um espaço aconchegante e refinado, sentiam os pensamentos se agitarem em conflitos particulares, contrastando com o silêncio ditatorial daquele quarto. Terpsícore, pela primeira vez em sua existência, sentia dificuldade de se admirar no espelho. Observava as próprias cicatrizes como se fossem frases negativas a seu respeito, cravadas na pele com sangue e terra. Um lembrete de o que sua vida se tornara. Apesar da perspectiva dramática, estava esperançosa devido aos tratos da serva da Casa de Aquário, que, com cuidado e carinho, tomara conta de cada cicatriz do jeito que pudera. Ainda assim, elas estavam ali, dificultando que Terps as ocultasse com o vestido longo. Algo devia tapar as marcas do braço, que mais parecia uma pintura em tons avermelhados.

Erato, do outro lado do quarto, observava a musa da dança com tristeza. Era gritante a forma com que Terpsícore se sentia afetada pela aparência. E Erato não conseguia deixar de se culpar por ter dado tanto trabalho à irmã e ter sido um atrapalho no fim das contas. Era tão poderosa quanto as outras, mas ainda não conseguia ascender enquanto musa. Se mal controlava os próprios impulsos ao se sentir enraivecida, como poderia cuidar de si mesma numa guerra? De repente, levantou-se e foi até o quarto que agora ocupava com Euterpe e procurou algo em seu baú. Assim que o encontrou, embolou-o em mãos e o lançou de surpresa nas costas de Terps.

— Acho que vai ficar bem e cumprir a função — Erato disse, de forma meiga.

— É, Terps, embora seja meu e ninguém tenha dado permissão para você pegar, Erato, realmente funciona — Euterpe opinou.

— Eu… — Terps vestiu o xale de seda semi-transparente azul royal, cobrindo-se até as mãos, e se virou para analisar de outros ângulos. — Vai servir.

— Realça seus cabelos — Clio comentou. Todas notaram sua voz murcha.

Clio ainda pensava no beijo agressivo de El Cid. Estava intimamente magoada e não sabia direito o porquê. Sentiu, de certa forma, violada por não ter dado espaço para que ele a beijasse daquela forma. Simplesmente não havia contexto, lógica ou motivo sensato para que ele se comportasse daquela maneira. Fora uma surpresa desagradável e ela se sentiu como uma massa a ser apalpada, sem voz. Não quis acreditar que El Cid se aproveitaria de sua timidez diante dele, mas algo fazia sentido em tal teoria. E o aperto na nádega! Clio já havia trocado carícias mais eróticas com o cavaleiro, porém sempre havia deixado claro o consentimento e, sobretudo, o contexto. Nunca havia sido em locais públicos e El Cid sempre se mostrava atento às suas reações. E, dessa vez, ele sequer observara sua insatisfação em meio ao beijo. Ele apenas a beijou como um animal faminto.

Clio suspirou, frustrada.

Euterpe sentia a vibração de todas. Suas irmãs estavam evidentemente chateadas com algo. Todas. Menos ela. Era insensível de sua parte? Talvez, mas achava que não poderia vencer se entregasse-se ao desânimo. A guerra era assim, todas deveriam saber, e, se não sabiam, deveriam se esforçar para aprender — assim como ela. Euterpe ergueu as ondas escuras do cabelo até formar um coque alto e o prendeu com três fitas brancas, deixando-as caírem por entre os fios que se soltavam. Olhou-se no espelho, ao lado de Terps, e sorriu, gostando da própria imagem. Sentia-se estranhamente viva, com bons pressentimentos, como se algo de importante fosse acontecer a cada uma, embora não acreditasse nisso. Tanto fazia para ela. No final, se estivessem todas juntas, estariam fortes. No entanto, não admitiria os pensamentos, pois tinha perfeita noção de que as irmãs precisavam de seus espaços particulares.

Em passos saltitantes, Euterpe puxou delicadamente a mão de Clio e de Erato e as conduziu até o espelho, para se juntarem à Terpsícore. Silenciosamente, as quatro se observaram pelo amplo reflexo do objeto. Terpsícore terminou de ajeitar o xale azul royal por cima do vestido longo e rosa claro, enquanto Clio, que realçava o tom escuro da boca com o vestido verde oliva, observava Erato amarrar a fita grossa e amarela que fazia parte de seu vestidinho magenta. Euterpe admirava a composição harmônica que seu vestido azul marinho fazia ao lado de Erato. Com os braços nas costas da mais nova e de Clio, puxando o xale de Terps com o mindinho de uma das mãos, Euterpe as abraçou.

— Nós vamos nos divertir hoje. Somos fortes e temos esse direito. Permitam-se, irmãs. Uma hora tudo isso irá acabar e nós estaremos firmes.



Numa sala de corredor oposto ao da sala das irmãs, Urânia, solitária, procurava a própria indulgência em meio ao caos de seus pensamentos. Sentia um gosto contínuo e conhecido de cinzas na boca, reflexo de sua agonia pelo alarmante fato de não conseguir ler as estrelas. E era culpa daquele tenebroso céu, estampado pelo Lost Canvas. Mirava-o com fúria e desespero. Seu orgulho ferido estava estampado em suas feições totalmente marcadas por tensões, principalmente na área dos olhos. Passara a maior parte do dia de maxilar travado, sentindo uma raiva incomum, desregular e destrutiva.

Tinha a perfeita noção de que se não conseguisse dominar os sentimentos haveria turbulência e, provavelmente, não pescaria mais nada nas entrelinhas das estrelas. Torcia para que suas palavras conseguissem ultrapassar os limites daquela película incompleta de imagens que era o Lost Canvas. Torcia para que os deuses estivessem ofendidos por terem de ver algo tão temível. Porém o temível também era belo e o tal ideal era mais pertinente na existência do universo do que o próprio ser humano. Certamente, a espécie humana se considerava um centro, sem saber nem uma mínima porcentagem sobre o Universo que a regia, porém Urânia não a culpava por isso. Culpava unicamente os deuses covardes que não interfeririam numa guerra, não dariam oportunidade de os humanos mostrarem suas capacidades.

Urânia relaxou as mãos que antes se fechavam em punhos. Os nós dos dedos retomaram a cor original enquanto os ombros relaxaram superficialmente, pois a vontade era de continuar inclinada cada vez mais, na tentativa de sair pela janela, subir até o céu e procurar as palavras perdidas nos recantos do Universo. Nada podia ser feito dali. Ou pior, nada poderia ser feito enquanto aquela pintura devastadora existisse nos céus.

— O que faço com estes calendários astronômicos? Não conseguimos desvendá-los… — Sasha disse. Urânia quase se esquecera de que a deusa se encontrava na sala. Na sala de Athena.

— Guarde-os. Eu os desvendei, mas não há nada que possamos fazer. Está incompleto e não é difícil de se imaginar o porquê — Urânia respondeu, sem se virar da janela.

— Você poderia me explicar como desvendou?

A musa assentiu enquanto se virava para a deusa, mantendo as costas encostadas na janela. A brisa era um conforto naquele triste início de noite.

— Quando Kagaho apareceu pela primeira vez, senti que já sabia que isso aconteceria. Contudo, não fazia ideia de como. Quando ele apareceu novamente, eu desvendei. Talvez você não se lembre, Sasha, mas nas pesquisas, existem marcações da antiga reencarnação de Athena que insinuam algum evento. São siglas que me intrigaram e não as desvendei, porém deduzi que se tratava de uma possibilidade de eventos semelhantes referentes à Guerra Santa anterior. Como se Athena estivesse nos avisando que havia uma organização de ataque, ou poderia haver, considerando que Hades havia perdido mais uma vez. Montei teorias, e continuam sendo teorias, mas a mais próxima que me fez sentido foi a de que tivemos tempo para nos preparar para esses ataques, embora não tenhamos entendido naquele tempo. Já havíamos percebido que era um calendário de ataques, mas não sabíamos exatamente de que lado e só poderíamos comprovar com fatos, e os ataques de Kagaho ocorreram em poucos dias de diferença dos originais registrados. Talvez tenha sido uma coincidência, porém, nesse caso, não acredito muito nisso. E me pergunto se Athena não as deixou justamente porque recebera algo parecido em sua época e percebeu que havia esperança de defesa se pudesse passar a informação adiante.

Sasha processou por longos minutos e Urânia esperou pacientemente.

— Isso significa que, se o calendário está incompleto, a reencarnação anterior teve um desfecho precoce em relação a o que teremos? — A deusa perguntou. Em sua voz não havia medo, mas valentia. Como se o pensamento a encorajasse.

— Ou significa que os documentos se perderam, o que acho difícil. E, sabe, Sasha, acredito que o único que saberá falar desse possível desfecho está em sua sala, exercitando sua soberania e esperando que você o questione — Urânia disse.

— Não sei se o Grande Mestre revelará muito mais do seu passado do que já o fez por mim — Sasha respondeu, esfregando as mãos delicadamente, em sinal de hesitação e anseio. Urânia percebeu.

— Quando o assunto vem à tona, é mais fácil conduzi-lo às perguntas e, às vezes, às respostas. Você já possui um bom domínio de seu estado em sua própria Guerra Santa, pelo menos dentro de sua zona de conforto. E eu acredito que esse seja o primeiro passo, Sasha. Domine o que já é seu, exija saber o máximo. Você é a deusa deste Santuário, afinal, e em algum momento terá de tomar uma decisão imprescindível. A questão é: você terá coragem?

Urânia viu Sasha arfar com a provocação e sorriu. Sorriu não por ela, dessa vez, foi apenas por si mesma. Ainda conseguia discursar sobre princípios gerais sentindo incentivo das estrelas. Tinha bastante domínio do que lhe inspirava e podia buscar, internamente, as palavras que definia perdidas. Algo dentro dela se acendeu. De repente, pareceu possível ler as estrelas, embora elas estivessem ocultas pelo Lost Canvas. Mas talvez não precisasse observá-las, mas imergir dentro de suas lembranças e leituras diárias. Estava tudo dentro dela, já fazia parte do que a compunha. Mas precisava da coragem que havia insinuado para Sasha. Esse era o problema. Urânia sentia falta de Sísifo, e estava com medo.

— Há mais um mistério que ainda paira no ar, Urânia…

— Sim, eu sei. Para esse, não tenho suspeitas — ela disse, mas imediatamente repensou. — Na verdade, eu suspeito que exista uma única pessoa que tenha desvendado o motivo. Eu a provocaria se pudesse, porém ela insiste em se resguardar em uma gruta e eu ainda não descobri o porquê. Sequer sei em que gruta ela está.

De repente, Sasha observou a musa se entristecer. Havia algum ressentimento, ou talvez uma apertada saudade, para com essa pessoa a qual ela se referia.

— Se Clio não desvendou, ela deve ter desvendado — Urânia comentou, tão baixo que Sasha teve a impressão de que falava para si mesma. — Ela não deveria se esconder!

Sasha suspirou, sentindo-se mal pela musa. Podia não ter desvendado absolutamente nada, mas havia desvendado a quem Urânia se referia.



A noite não poderia ter começado pior para o jovem leonino que fora escalado para a ronda ao lado de uma montanha nebulosa. Defteros não o deixara escapar e Régulus suspeitava que havia uma insatisfação pessoal do colega e da qual ele estava sendo vítima. Definitivamente, Defteros estava descontando seu desgosto nele e era óbvio o porquê. Afinal, também queria estar seguindo para a Toca do Desafinado para beber e desfrutar da companhia de sua musa. Só que Defteros não tinha mais uma musa. No fundo, Régulus mal sabia de podia dizer que tinha também, principalmente depois da noite que se seguiria.

Sem dúvidas, Erato iria ignorá-lo no dia seguinte e reduzi-lo a nada. Se ela havia feito tal sem ele dar muitos motivos, não queria nem imaginar após desfazer um compromisso sem avisá-la. Logo ela, tão temperamental. Mas ele sabia que ela podia ser doce e contava com isso quando fosse de desculpar. Erato se destacava entre o pequeno grupo de cinco, formado pelas quatro musas e El Cid. E o leonino apenas a observava de longe — de onde Defteros havia delimitado por pura maldade — e a via procurando-o com a cabeça em constante direção para todos os lados. Só que ela não o encontraria, pois ele não se revelaria, por ordens superiores.

Régulus rosnou mentalmente. Era tão cavaleiro de ouro quanto Defteros.

— Você trouxe sua máscara? — Régulus perguntou por perguntar, quis quebrar o gelo e tirar o foco de cima de Erato.

— Não.

A resposta intrigou o leonino.

— Mas o Grande Mestre sugeriu-

— Exato — Defteros interrompeu. — Foi uma sugestão que não acatei.

Regulus bufou. Como Defteros conseguia ser daquele jeito? Rejeitar uma sugestão, que era praticamente uma ordem do Grande Mestre, era o mesmo que desafiá-lo numa tarefa. Praticamente inaceitável. Mas nem tudo era tão prático no Santuário, de fato. Defteros tinha uma liberdade que não condizia com suas condições mentais e isso era sabido pela elite dourada. Entretanto, nenhum cavaleiro de ouro questionou essa liberdade quando o Grande Mestre a ditou. Régulus passou a se perguntar de onde vinha aquela confiança para com um homem tão animalesco. Não era preconceito na cabeça do leonino, era apenas preocupação, afinal gostava do colega. Tinha simpatia, mas, de vez em quando, receio.

O Grande Mestre havia sugerido o uso da máscara porque provavelmente tinha percebido, através da respiração pesada e gutural de Defteros, que algo o incomodava profundamente, de forma um tanto arriscada para quem estivesse por perto. Ou seja, Régulus. Mas nenhum dos dois acreditava que Defteros realmente o atacaria, seria mais uma ação preventiva contra os instintos um tanto selvagens do cavaleiro de gêmeos, instintos que nem o Grande Mestre ousava negar. Seria insensato, de qualquer jeito, fingir que o problema não existia.

Para Defteros, havia sido um alívio ouvir a palavra “sugestão” na frase do patriarca. Nada era mais humilhante do que perambular com aquela máscara pelo Santuário — especialmente se encontrasse-se com ela. Ninguém entendia, a não ser o Grande Mestre. E, portanto, Defteros compreendia — e respeitava — a liberdade que recebia, de forma que lutaria até a morte para continuar merecendo. Mas ninguém precisava saber disso. O medo era uma política controlada importante onde quer que estivesse. Aspros o havia ensinado algo útil, afinal.

Após um silêncio eterno, Régulus perguntou:

— Por que não acatou a sugestão?

Defteros apenas o encarou, decidindo se responderia ou não.

Assim que pisou dentro da Toca do Desafinado, Euterpe estancou, causando um encontro entre os corpos das irmãs que seguiam atrás dela. Não esperava o que via. Não o queria ali, naquela noite. Seria uma enorme dor de cabeça, podia sentir sem sequer ter trocado palavras. Quem precisava de palavras quando sabia usar um sorriso presunçoso e ousado como ele? Kárdia não possuía limites e, pelo visto, queria provar a ela de todas as formas.

— Oh, mas que coincidência! — Kárdia se aproximou animadamente de braços abertos.

Euterpe o encarou furiosa, mas logo relaxou as feições, negando-se a se sentir atingida com aquela presença forçada.

— Não é hora de ir para a cama, escorpião? — Euterpe perguntou, passando por ele.

— Se for com você, sim — ele sussurrou no ouvido dela. — Mas se a senhorita Erato está aqui é porque o horário de dormir foi extinguido da face da Terra e isso é motivo de comemoração! — Levantou o volume da voz e a caneca de cerveja que segurava.

— Estou ofendida — Erato esclareceu, de mau humor.

— Mas foi um elogio!

— Não sei como. — A mais jovem virou o rosto e seguiu comportadamente atrás da musa da música.

Kárdia bufou em desgosto e bebeu um gole da cerveja.

— Você sempre adiantado, não? — Clio brincou.

— Foi para ajudar a processar algumas coisas, Clio. — Kárdia foi sincero. Sentia-se chateado por Euterpe tê-lo excluído de seu programa.

— Eu recomendo que você permaneça em outra mesa por hoje, embora eu goste da sua companhia.

— Eu sei domar algumas feras.

— E você já começou errado ao relacionar a palavra “domar” com Euterpe — disse Clio, enigmática, e se retirou normalmente.

Kárdia olhou, intrigado, as musas se sentarem numa mesa redonda e mediana de madeira próxima a uma das laterais do pequeno palco, onde alguns músicos afinavam seus instrumentos de corda, sopro e percussão. Se não fosse a influência de sua frustração, teria certeza de que vira Euterpe sorrindo para um flautista. Optou por supervisionar do balcão de bebidas, sozinho e com um enorme desejo de interagir com Euterpe.

Erato ergueu a mão para chamar atenção de um homem que aparentava servir o local. Quando ele chegou, ela não se demorou em pedir uma garrafa de vinho para ser compartilhada entre ela e as irmãs. O homem a encarou, estranhando que uma jovem tão nova tivesse feito o pedido. Assim que ele deixou a mesa, Erato resmungou algo qualquer e cruzou os braços.

— Com o que a florzinha está emburrada? — Euterpe perguntou com manha exagerada.

— Ninguém.

— Um ninguém importante?

— Um ninguém ninguém. — Erato inflou as bochechas.

— Assim você me faz dar razão ao homem que lhe olhou torto, Erato — Clio disse, na tentativa de fazer a irmã falar. Sabia que o insulto à idade a incomodaria.

— Eu chamei o cavaleiro de leão para nos acompanhar hoje e ele prometeu que viria.

— Nunca dependa de homens — Euterpe disse. E acrescentou, orgulhosa: — Nunca dependa de ninguém.

— Nem de você? — Terpsícore perguntou, achando divertido.

— Isso, claramente, não é válido para nós, entre nós, Terps — Euterpe respondeu. — Clio, por que está tão calada? Onde está o cavaleiro sem expr-

— Não diga isso na frente delas — Clio se inclinou para frente, com olhos alarmantes.

— O quê? — Quis saber Erato. — Cavaleiro sem expressão de capricórnio? Se for isso, já sabemos.

— Sim — Terps agregou à fala -, estávamos com Euterpe quando ela inventou o apelido. — E sorriu normalmente.

Euterpe não segurou um risinho ao ver a expressão um tanto cética de Clio. Não era sempre que a irmã mais velha tinha seus assuntos comentados de modo gozado.

— De qualquer forma — Clio retomou -, não sei responder.

— E não parece se importar muito — Erato opinou.

Euterpe permaneceu calada, observando Clio pegar a taça que havia sido servida e trazida naquele exato momento. Viu que a irmã não estava confortável com o assunto e era para minimizar qualquer incômodo que estavam ali. Não seria Euterpe a trazer assuntos daquele cunho à tona.

— Irmãs, ergam as taças — Euterpe disse, animada, atraindo olhares, com a taça erguida na mão direita. — Evoé!

— Evoé — as musas repetiram num tom respeitoso, embora a intenção da musa da música fosse um tanto contrastante.

Terps percebeu o olhar dos músicos e, dentre eles, um olhava atentamente para ela. Assim que percebeu o braço destapado, ela se curvou e se cobriu inteiramente, sem deixar sequer o colo para seu admirador. Nada passou despercebido por Euterpe. A musa da música discretamente se inclinou e sussurrou no ouvido da irmã:

— Não há por que esconder suas marcas, Terpsícore. Elas contam histórias e mostram que você tem experiências misteriosas. As suas derivaram de uma luta da qual você deve ser orgulhar, assim como a de Tália, que é o melhor exemplo disso. Se tiver dúvidas, pense em Tália.

Terps se emocionou ao pensar em Tália, sim, mas isso não ocultou sua vergonha. Tália tinha passado por isso anteriormente, então era um estágio existente daquela aceitação. Afinal, era uma mudança. Entretanto, havia cicatrizes mais profundas. E Terps não queria pensar nelas.

Clio se levantou de repente, atraindo os olhares das irmãs. Estava insuportável não saber o motivo de El Cid ter ficado no lado de fora da taverna quando ela o havia convidado para se juntar, usando como pretexto a necessidade de uma guarda. Uma proteção. Ora, havia admitido que queria a companhia dele para além de uma proteção. Claro que havia acontecido um momento desconfortável entre eles, mas Clio acreditava no diálogo, nos argumentos, até numa conversa informal. E, portanto, motivada pela própria maturidade, decidiu encontrá-lo do lado de fora.

Rapidamente o encontrou. Fora auxiliada pela armadura reluzente que refletia as luzes dos candelabros e das lamparinas que enfeitavam o lado de fora da taverna. Poucas pessoas passavam por ali. Apesar de escuro, estava cedo o bastante para haver passantes pelas ruas. Clio caminhou até El Cid, que a acompanhou com os olhos, sem expressar nada. Ela o analisou antes de falar.

— Você sente necessidade de ser convidado a entrar? Achei que tivesse deixado a intenção clara.

— Clara até demais.

Clio sabia que ele não se referia ao pedido. Estava decidida a fazer perguntas e achar soluções que rompessem com o clima hostil entre eles, mas, tão ligeiro quanto veio, sua coragem se foi e ela apenas o encarou com olhos calmos.

— Minha responsabilidade se limita a estar por perto, caso algum acontecimento arrisque a integridade de vocês. E a acompanhá-las de volta.

Aquilo também era insuportável para Clio. El Cid estava totalmente fechado e fazia questão de deixar claro. E ela conhecia esse tipo de jogo, era como um ato político diante de algo que orgulho impede de resolver. El Cid estava com o orgulho ferido e Clio reconhecia sua culpa. E embora reconhecesse a própria culpa, não concordava totalmente com ela — o que tornava tudo mais difícil e de extremo cálculo.

— Está me dizendo que ficará aqui até terminarmos nossa noite?

— Provavelmente.

Algo na falta de promessa de El Cid desagradou Clio.

— Vou optar por ficar aqui, no lado de fora.

Mas você fica tão bem no lado de dentro, Clio pensou, amaciando o colo, acima do coração. Não foi um ato proposital ou percebido por ela. Simplesmente, seus olhos não estavam mais calmos, estavam sentidos.