EmMusas - The Lost Canvas

19 Um veneno impede outro


Notas iniciais
Bom, chegamos num dos capítulos mais especiais pensados até agora. Sério, eu escrevi a essência desse capítulo antes até da primeira caçada, mal podia esperar o dia de postá-lo. Espero que vocês apreciem lê-lo tanto quanto eu apreciei escrevê-lo. (até chorei aqui relendo kkk). Enfim, uma música foi especial pra me acompanhar nessa escrita: Mon Amour, Meu bem, Ma Famme (versão de Fernanda Takai), mas também li com All Of Me de John Legend, e o efeito foi devastador no âmbito da emoção ahahaha Enfim, vocês que sabem! Beijos e boa leitura!

Capítulo 19

Na Casa de Virgem, os planos mudaram. Num espaço do altar, Asmita meditava tranquilamente, transbordando a energia divina que fazia parte de sua essência e emanando-a com concentração elevada. Todo cuidado era pouco em tempo de guerra. Do outro lado, no mesmo altar, Calíope o acompanhava no hábito.

Se alguém os visse, não acreditaria, pois Asmita nunca deixaria alguém participar de suas meditações, muito menos no seu altar. Entretanto, a troca de energia dos dois era tão admirável que chegava a inspirar maiores concentrações, ou seja, era totalmente benéfica. Não havia motivo para deixarem de compartilhar tal momento. Mas, no fundo, havia outro detalhe que os motivava.

Finalmente estavam entrando em harmonia. Quem diria? Os dois que antes se estranhavam profundamente pareciam trocar não apenas energia vital, mas algo maior, mais intenso. De qualquer forma, admitir era um passo maior do que a perna para os dois. Preferiam manter a paz que criavam aos poucos; e quando Asmita a convidou para meditar, Calíope impulsivamente aceitou, deixando os planos de meditar na cachoeira de lado. Ainda tinham tempo para provarem novas possibilidades.

~

Defteros a olhava desmaiada em sua cama. Dessa vez, não fora planejado. Não sabia dizer o que a havia feito desmaiar. Dor? Prazer? Falta de ar com o beijo? Infelizmente, os palpites não fariam diferença. Observando o corpo nu da musa, pôde ver suas marcas; uma mordida na barriga fortemente marcada parecia ter sido feita por um animal. De fato, ele se considerava quase isso. As coxas tinham vergões por causa das arranhadas, alguns hematomas também se formavam por tais regiões. Ele então a virou cuidadosamente e percebeu mais marcas nas costas e no bumbum.

Estava surpreso. Não apenas por ter submetido a musa àquilo, mas por não sentir tesão ao vê-la assim. Certo, deliciava-se com os gemidos dela e com as demonstrações de dor e prazer, mas, agora, deitada e machucava, Terpsícore parecia...

Não quis terminar o pensamento. Em vez disso, pegou-a no colo com o mesmo cuidado de antes e a levou até a banheira, que a serva havia preparado logo cedo. A água estava fria, como esperado, ideal para aliviar um pouco a quentura do corpo dela. Ele arrumou a cabeça de Terpsícore na borda da banheira e tratou de massagear um pouco suas coxas e braços, parando assim que viu seus pulsos.

Onde estava com a cabeça para submeter um corpo tão sensível a uma corrente tão impiedosa? Boa pergunta. Ultimamente, não sentia que estava em si. Sentia que Terpsícore apenas aparecera para tirar sua sanidade, o que ela fazia com muita facilidade. Ao mesmo tempo, sua delicadeza despertava o lado mais sádico dele. A ironia era puramente má nesse caso.

Defteros se pegou acariciando os pulsos da musa e mexeu a cabeça em reprovação ao ato. Era só o que faltava ter pena de sua presa. Levantou-se e procurou uma pomada caseira que as servas costumavam fazer para os cavaleiros se tratarem em dias pesados de treino, sabia que tinha alguma pela estante. Assim achado, tirou Terpsícore da banheira e a levou para a cama, não se importava em molhá-la, mas secou a musa em seguida. Arrumou-a de bruços e iniciou a passagem da pomada nos vergões, vermelhos e hematomas que se espalhavam pelo corpo dela.

A pele da musa era tão macia que ele não deixou de aproveitar o momento para assediá-la um pouco, mas logo parou, irritando-se consigo mesmo. Uma coisa era proporcionar prazer para ela e sentir ao mesmo tempo, outra era ter prazer sozinho à custa do corpo dela. Voltando-se para o foco, esperou um tempo para que a pomada penetrasse a pele e virou-a de barriga para cima para que pudesse fazer o mesmo. Mordeu o lábio com força quando passou pelos seios dela, sentia uma ereção mal vinda se manifestar e apertar a calça. O pior era ver o efeito que a pomada fazia no corpo dela, parecia que passava óleo em vez de pomada... Tentador.

Novamente, ele mexeu a cabeça em reprovação e, assim que terminou o cuidado, vestiu a musa. Tirando os pulsos, quase todas as marcas estavam escondidas pelo vestido; terminou de colocar o calçado dela, ajeitou um pouco os cabelos e a pegou no colo. Só havia um caminho a ser feito: o que os levasse até a décima terceira casa. Diria que a encontrara em sua escadaria, desmaiada por provável insolação.

~

O dia já entardecia, era possível ver a cor laranja pintar, aos poucos, o céu e alguns pássaros voarem para seus aconchegos. Na vila de Rodório, mais precisamente na loja de flores, Redka servia um chá para Melpomene, que se recuperava de mais uma dose de elixir. Com os bons resultados, as duas decidiram aumentar um pouco a dose diária, às vezes fazendo duas vezes no mesmo dia por ordem de Mel, mas sempre com muito cuidado e observação.

– Acho que vou ter de lhe ensinar a fazer os elixires, Mel. – disse Redka, após tossir um pouco e se apoiar no balcão. Sentia-se um pouco tonta.

– Acho que entendi... – respondeu a musa, com um sorriso triste. – Bom, pude observar seu processo alquímico de perto, então tenho alguma noção. O problema é que não terei outro lugar para fazer os elixires, então... Posso continuar voltando?

– Sim, só não poderei ficar por perto, estou começando a sentir os efeitos de seu veneno. – tossiu mais uma vez.

– Eh... Você está meio pálida, Red. Acho melhor eu ir embora. – Mel preocupada, observava a amiga com olhos mais atentos. E se começasse a causar isso em todos à sua volta?

– Besteira. Tenho um remédio caseiro que me ajuda quando fico assim. – comentou, extraindo uma expressão de surpresa e intriga de Mel. Acabou rindo. – Você não é a única flor venenosa que ando criando, Mel. Tenho que estar prevenida com as outras também...

– Ah, sim, faz sentido. – ela riu de volta. Sentia-se mais aliviada quanto à amiga, mas, ao mesmo tempo, suas irmãs não tinham o tal remédio. Poderia muito bem sentir o mesmo que Redka quando chegassem perto de si.

Redka aliviou-se com o remédio citado, depois se voltou ao preparo das Bromélias que cresciam num canto do jardim.

– Que flor enorme. – disse Mel, maravilhada com os tons da flor.

– Sim, acho que ela combina com você. Sabe por quê? Significa inspiração e resistência. – Red sorriu para a musa, que a abraçou em seguida.

– Acho que nem a flor com o mais belo significado poderia fazer jus a você, querida amiga. – respondeu Mel emocionada, afastando-se um pouco. – Não sei se conseguirei agradecer algum dia pelo apoio que me dá. Até me envergonho por ser tão limitada nisso...

– Eu apoio sem esperar algo em troca, Mel. Além do mais, você já me oferece a sua amizade, não há nada que pague isso!

As duas se abraçaram novamente e riram depois.

– Acho que atrapalho. – uma voz seca, porém levemente divertida interrompeu o momento. Quando as duas viraram, o cavaleiro de aquário as observava um pouco intrigado. A florista e a musa se entreolharam e riram.

– Não, cavaleiro. – Mel tomou a resposta. – Mas acho que vou atrapalhar se continuar aqui...

Redka sorriu timidamente e corou totalmente. Degél não conseguia tirar os olhos dela, sua graciosidade parecia gritar por atenção dele, mas o propósito de sua visita dessa vez era outro.

– Infelizmente, a senhorita não poderá continuar aqui, pois vim justamente lhe buscar para voltarmos ao Santuário. – disse ele, um pouco frustrado. Viu o sorriso de Red se desfazer.

– Ah, entendi. – Mel mordeu o lábio. – Bom, já que precisamos mesmo, poderia permitir minha rápida ida ao padeiro? Esqueci que queria provar um dos pães típicos daqui, já que não o fiz naquele festival. Seria preferível que me aguardasse aqui, não acha?

Alguma coisa no tom de voz de Mel deixou Degél desconfiado, mas ele aceitou, afinal, se ela o estivesse ajudando, seria bem vinda. Ele assentiu, então, e a musa saiu rapidamente da loja, dando apenas uma piscada para a amiga ruiva.

Sem cerimônias, Degél se aproximou de Red e pegou sua mão, depositando um leve beijo. Antes que pudesse fazer mais, ela riu baixo e o encarou profundamente com seus olhos negros. Segundos que demoraram horas se passaram e ela o puxou para um beijo.

– Você adivinhou o que eu ia fazer. – disse ele, finalizando o beijo por falta de ar.

– Na verdade, fiquei com medo que não fizesse...

– Por quê?

– Pensei que não chegaria me dando um beijinho na mão, cavaleiro... – o ar cômico de sua voz era adorável.

– Alguns costumes não devem ser perdidos se forem agradáveis. – respondeu ele, enquanto deixava um sorriso crescer. – Gostaria de ficar mais tempo com você, mas tenho que acompanhar a senhorita Melpomene. – a decepção em sua fala era evidente, mas Redka acabou rindo alto. – O que foi?

– A senhorita Melpomene já voltou para o Santuário há tempos, cavaleiro. – disse ela, entre risos.

– O quê?! – ele aumentou a voz, incrédulo, fazendo a florista rir mais ainda.

– Acho que a única musa que aceita companhia para a volta é Clio. Você, como o cavaleiro sábio que é, deveria perceber que elas se sentem melhores quando estão soltas por aí. – disse ela, dessa vez mais calma e acariciando o rosto do aquariano.

– Em tão pouco tempo, sabe tanto sobre elas? – ele ainda estava bobo pela enganação de Mel, mas, no fundo, achou engraçado. Além disso, admirava a garota que o tocava por ter tanto conhecimento de forma tão singela.

– Pura observação. – arrumou a armação dos óculos dele, enquanto se aproximava.

– E convivência. – deu um sorriso esperto e a puxou para outro beijo.

~

Na entrada da décima terceira casa, El Cid terminava de acompanhar Clio na volta. Os dois haviam passado o dia relativamente juntos, com ela permanecendo mais tempo na arena das amazonas e escrevendo contos, mas num ponto onde ele pudesse vê-la. Clio gostava da companhia do capricorniano, ainda mais quando o fazia deslizar em sua postura fria e seca. Era interessante ver El Cid sem reação. Pôde vê-lo como mestre — oportunidade muito satisfatória — e nela brotou uma admiração após descobrir esse lado dele. Para ela, apenas Shion, Dohko e Sísifo pareciam aptos o bastante para desenvolver novos cavaleiros, mas El Cid se mostrou impecável nessa função. Tinha tudo que Clio achava importante, como foco, espírito de luta, conscientização, clareza, respeito, firmeza e incentivo, assim como outras características.

– Agradeço muito sua companhia, El Cid. – disse ela, um pouco tímida. Não era de se sentir assim, mas percebera sua própria mudança nesse pouco tempo de aproximação. – Gostaria de tê-la novamente.

El Cid controlou a vontade de expressar sua felicidade diante de tais palavras – as quais, convenhamos, eram raríssimas. Obviamente, não perderia a oportunidade de acompanhar Clio de novo.

– Faço de suas palavras as minhas, senhorita.

– Clio, me chame de Clio, El Cid. – ela sorriu. Sentia-se bem com ele.

E, por um milagre, El Cid devolveu o sorriso.

– Sei que os treinos não são muito atraentes, mas, caso queira assisti-los novamente, por favor, me informe. Terei o prazer de... Tê-la como observadora. E... Caso precise de proteção para ir até a vila, não hesite também. – curto e seco, ele disse o que queria, mas com uma pontada de constrangimento. Pensava que tinha sido um pouco ambicioso, mas, para sua surpresa, a musa assentiu sorrindo.

– Ao contrário do que pensa, os treinos me atraem sim. Acho que tudo que possui movimento me atrai. Para uma musa inspirar, ela deve se sentir inspirada também...

Dito isso, ela depositou um beijo na bochecha do cavaleiro, que se encontrava sem seu elmo, e se afastou, deixando um capricorniano entorpecido e sem saber como voltar para a casa.

Clio sorria sozinha um sorriso travesso, provocador. Era estranho, para ela, sentir o que estava sentindo. Como uma satisfação por provocar um cavaleiro tão fechado quanto ela. Os dois pareciam se abrir um pouquinho entre eles, mas Clio sabia que havia uma grande chance de ser uma especulação equivocada. Não era de se atirar ao romantismo, mas até que era possível se apaixonar por alguém como ele. Entretanto, ela não criava expectativas, preferia deixar os fatos acontecerem para depois observá-los direito.

Quando Clio entrou no quarto, percebeu que Terpsícore estava deitada na cama e fitando o teto descontraidamente. Achou que a irmã fosse notar sua presença, mas em vez disso ela se manteve como estava. Assim, Clio a observou intrigada até parar os olhos nas marcas vermelho-arroxeadas nos pulsos da irmã.

– Terpsícore! – gritou ela, tirando a musa da dança de seu devaneio imediatamente.

Terps pulou e se encolheu, escondendo os pulsos numa tentativa falha. Clio se aproximou e descobriu os braços dela, levando os pulsos mais perto para que pudesse vê-los melhor. A loira até tentou se livrar das mãos da irmã, mas sem sucesso.

– O que foi isso, Terpsícore? – Clio incrédula. – Quem fez isso com você?!

– N-Ninguém. – tentou tirar os braços novamente.

Nesse momento, Tália entrou no quarto ao ouvir as exclamações de Clio.

– Por que essa gritaria? – perguntou confusa. Seus olhos azul e verde depararam-se com o mesmo ponto que Clio observava: os pulsos de Terpsícore. – Terpsícore, o que foi isso?!

Na outra vez, Terps não explicara, quem o fizera fora Tália, mas dessa vez a musa da comédia não sabia de nada e, se soubesse, ficaria furiosa, pois pedira o afastamento de Terpsícore com Defteros. E Ela não cumprira.

– Eu não... Eu apenas... – Terpsícore não sabia o que dizer perante os olhares julgadores das irmãs.

– Se está preparando uma mentira, é melhor que pare agora e fale a verdade. – a voz de Clio estava mais autoritária. – E não quero que você explique por ela, Tália.

– Eu não vou explicar nada. Dessa vez, eu realmente não sei o que aconteceu. – defendeu-se a musa da comédia.

– E na outra vez você sabia realmente ou inventou a explicação por Terpsícore? – perguntou Clio para Tália com o mesmo tom de antes.

– Ei, o foco aqui é Terpsícore! – foi a única desculpa que arranjou, até porque estava realmente preocupada com a irmã menor. – Terps, fale a verdade. Você estava com ele?

– Que ele? – Clio impaciente.

Terpsícore percebeu que dessa vez não teria ajuda. Mas pudera! O fato era inegável e a confiança estava abalada. Tália virou a cabeça em reprovação, sentia-se mal por ter desviado sua atenção de Terpsícore. Bufou em tristeza ao ver que suas palavras foram ignoradas pela irmã.

– Você estava com quem, Terpsícore? – Clio parecia uma mãe brava com seu filho, até as mãos na cintura estavam ali. Terps tremia.

– Com o cavaleiro de gêmeos, Clio. – Tália interveio. Não aguentaria mais isso, não cobriria Terpsícore novamente, para o bem dela, e não mentiria de novo para Clio.

– E ele fez isso com você por quê? – a musa da história não estava entendendo ainda. – Vocês têm um caso, é isso? Ou ele te maltratou por algum motivo? Quero saber, Terpsícore!

– Ele parece ter uma adoração em provocar Terpsícore. – Tália falou.

– Tália, eu pedi pra você não explicar por ela. – Clio mordia os dentes por não saber do que se tratava o caso. Odiava ficar sem informação sobre suas irmãs.

– Pare com isso, estou te falando a verdade! – a musa da comédia se colocou na frente da musa da história. – Não percebeu que Terpsícore não vai falar?

– E como é que você sabe disso tudo, hein, Tália? – Clio se virou para ela.

– Ugh, eu já tinha alertado Terpsícore, pedi para que ela ficasse longe dele. – bufou.

– E você mentiu pra mim? As duas mentiram pra mim? O que está acontecendo com vocês?

– Ei, não me dê bronca! Sei que está chateada, mas isso não é motivo para você se descabelar, Clio. – Tália dessa vez engrossou a voz.

– Vocês duas... – a voz baixa de Terpsícore finalmente foi ouvida, puxando a atenção totalmente. – Perdoem-me, mas eu quero tratar desse assunto sozinha.

– Você não tem maturidade pra isso, é evidente. – Clio falou grosseiramente, já estava furiosa pelas descobertas recentes. Se esse cavaleiro fica lhe maltratando, acho bom você ficar bem longe dele. Caso contrário, relatarei o caso à mãe e pedirei a ela para que você retorne ao vale.

– Não! – a loira protestou. – Não voltarei ainda e não tomei minha decisão ainda, vocês não me deixam pensar!

– Não há o que pensar, Terpsícore! – Clio falou mais alto. – Se você não vai se afastar, então ele vai porque vou falar com ele agora!

Tanto Terpsícore quanto Tália olhou incrédula para Clio. Dessa vez, ela estava aumentando a cena consideravelmente, mas, para a segunda, era necessário, pois a irmã menor parecia não levar a sério a situação. Clio não esperou resposta, deu meia volta e saiu em disparada em direção às doze casas.

– Fique aqui. – Tália ordenou, e antes que Terps pudesse protestar, reforçou: – Estou falando sério. Você já me viu séria? Pois estou séria. E odeio ficar séria! Fique aqui, Terps.

Realmente, era uma raridade ver Tália sombria desse jeito. Logo ela que era tão alegre e compreensiva. Talvez a melhor opção fosse obedecê-la para não piorar o caos que havia criado. Mas, no fundo, Terps tinha medo do que seria dito ao cavaleiro de gêmeos. E seu medo de estendia na possibilidade de ele não querer mais nada com ela, por mais que fosse melhor mesmo...

~

Mel subiu as doze casas com a pressa que nunca teve antes, encontrava-se um pouco tonta por causa do experimento de Redka, mas a ansiedade alimentava a curiosidade e, consequentemente, a vontade de encontrar o guardião da última casa zodiacal.

Encontrou Clio e Tália descendo raivosamente as escadas da Casa de Escorpião, mas nem parou para entendê-las, sua necessidade era maior naquele momento.

Perto da décima casa, a musa sentiu o ar faltar e se apoiou numa das colunas. O coração batia forte, ela não sabia dizer se era por causa do veneno ou da esperança. Não poderia ficar parada, a vontade de tirar a dúvida era grande, mas antes que pudesse dar o próximo passo, viu o cavaleiro de capricórnio se aproximar preocupado.

– Melpomene, está se sentindo bem? – a aparência séria de El Cid era intrigante para ela, que apenas assentiu e deu o passo, mas se desequilibrou. Ele a amparou e, ao tocá-la, sentiu um choque, e se afastou rápido.

– Desculpe-me, cavaleiro, não tinha intenções de lhe preocupar. Posso passar? – perguntou com certa dificuldade, a respiração lhe custava. El Cid assentiu, mas não deixou de se preocupar; algo estava errado. No entanto, não tomaria o tempo da musa pedindo explicações.

Mel puxou ar e voltou a subir a escadas com pressa, estava mais animada por estar quase lá. Assim que chegou em Peixes, tratou de respirar fundo e controlar o processo, não queria assustar Albafica e deixá-lo curioso com seu estado. Adentrou, calmamente, a casa, esperando pelo protetor.

– Melpomene? – ele logo apareceu, mantendo a distância de sempre. Observava a musa, encostado numa coluna. Viu um belo sorriso no rosto dela, daqueles difíceis de vê-la dando, e estranhou.

– Albafica. – ela se aproximou dele, que se afastou imediatamente.

– Já disse que não deve se aproximar de mim! – a raiva presente em sua voz era esperada por ela, mas não se intimidaria dessa vez. Mel continuou em direção a ele.

A raiva em Albafica aumentou com a tolice da musa, não entendia o motivo de ela insistir em algo que ele já havia alertado – parecia que fazia de propósito, só para vê-lo sofrer. E ele sofria, sim, por não poder corresponder ao desejo dela.

– Quero experimentar uma coisa. – revelou ela, ignorando a ordem do cavaleiro. Albafica não esperou mais e, usando uma velocidade maior, contornou cuidadosamente a musa, parando atrás dela, mas numa distância considerável. Ela bufou de frustração, provavelmente ele faria isso mais vezes. – Melhor me ouvir, Albafica.

– Não, melhor você me ouvir e sair logo daqui.

– Ou o quê? – virando-se para ele.

– Ou eu saio.

– Não pode.

– Em casos extremos, posso sim. – informou, já aflito com a teimosia dela. Por que ela não entendia?

– Albafica, preciso que confie em mim... – o olhar penoso dela era sincero, e ele sentiu um arrepio ao ouvir aquelas palavras. Como poderia confiar nela quando ele não era confiável? O perigo que oferecia a um ser tão frágil como ela era digno da maior desconfiança de todas.

– Não me peça algo assim, Melpomene. Peça-me qualquer coisa, menos isso... – ele já se esgotava em paciência, queria tirá-la logo dali.

– Cavaleiro, acha mesmo que irá me matar caso me toque? – não resistiu e se aproximou dele, mesmo sabendo que seria em vão. E foi, ele logo se afastou. – Albafica!

Os dois, afastados, trocaram um profundo olhar; nenhum deles pôde ler algo no olhar do outro, mas os dois compreendiam a triste cena que estava se desenrolando. Ela, com a ansiedade consumindo a sanidade, e ele, com o venenoso coração na mão.

– Melpomene, por que insiste? Não percebe que não há solução? Apenas me esqueça e siga seu caminho.

– Como, se você acaba destruindo tudo que há nele para mim? Aliás, destruiu meu caminho no momento em que apareceu nele! – ela gritou, queria que ele se desprendesse das amarras, mas imaginava a dificuldade. Entretanto, não desistiria do pisciano, ainda mais sem saber se seu experimento havia dado certo. Ela precisava apenas tentar, apenas isso...

– Ótimo, encontre outro. É o melhor que fará. – virou-se para entrar num dos cômodos da casa.

– Albafica, volte aqui! – ele não o fez, mas se virou para ela com um olhar furioso. – Você não me intimida. – ela disse, ele levantou uma sobrancelha. – Certo, prometo uma coisa... Se você me deixar experimentar algo, se confiar em mim apenas desta vez, e algo der errado, eu procurarei outro caminho. Mas, se rejeitar, permanecerei aqui, perdida, até você aceitar.

Albafica estava perplexo com a proposta, parecia quase um pedido suicida dela. Nele, não havia sequer uma gota de segurança que incentivasse a aceitação dessa proposta; no entanto, o olhar da musa, ao fazê-la, oferecia um mar de segurança que o atraiu. No fundo, ele queria, desde o início, aceitar qualquer coisa que viesse dela, mas não conseguiria viver se a colocasse em risco. Respirou fundo, sem saber o que fazer.

– Por favor... – Mel queria chorar, mas se conteve. – Eu sei que não vai me machucar!

– Por que tem tanta certeza? – virando-se para ela, o indício de choro da musa quase o chamava.

– Apenas confie em mim.

Albafica se puniria depois, com certeza, mas não resistiu novamente àquelas palavras. Caminhou, sem desviar o olhar, até a musa, mantendo um metro de distância. Ela sorriu diante dele, mal acreditando que conseguira tal façanha, porém, quando tentou se aproximar, ele se afastou novamente.

– Melpomene... – havia dor na voz dele agora e ele sentia a mesma vontade de chorar.

– Quero você mais perto. – Mel manteve a voz firme, não pararia em meio caminho andado. Albafica, por outro lado, sentiu o corpo tremer e passou as mãos pelo rosto, na tentativa de se acalmar. Tudo estava sendo difícil, ainda mais com a musa tão perto e seu aroma doce...

Para a surpresa dos dois, Albafica caiu de joelhos na frente dela, que aproveitou e se aproximou sem hesitar. Mel, de frente para ele, ajoelhou-se, deixando apenas uma distância de aproximadamente vinte centímetros entre eles. Albafica deixou os braços caírem lentamente e se pôs a encarar a musa à sua frente.

Vê-la tão próximo de si possibilitou-o de admirar os detalhes que formavam o belo rosto dela. A franja caída sugeria os olhos castanho-escuros profundos e misteriosos, tristes e felizes, com cílios curtos os protegendo; os lábios claros e finos meio abertos, revelando um belo formato; a pele branca e frágil, quase quebradiça, que exalava um perfume doce e leve... Albafica estava admirado com ela e acabou corando ao vê-la admirando de volta.

Os olhos azuis-escuros de Albafica estavam perdidos nos dela; as sobrancelhas franzidas, sugerindo um misto de preocupação e intriga; os lábios eram pressionados pela tensão que o pisciano sentia – Mel quase se sentiu mal por submetê-lo a isso -, o lábio inferior era um pouco mais espesso que o superior; o perfume dele remetia a imagem de uma rosa na mente da musa – o que não era novidade. Mas havia uma novidade no momento: Albafica estava corado! Ela sorriu.

Ele quase rejeitava a realidade do momento, não acreditando direito que estava nessa circunstância com Melpomene. Os pensamentos o enchiam de novidades e detalhes, até sentir a ponta do dedo tocada. Albafica congelou com o toque, mas não conseguiu se mover, apenas olhou para baixo e viu que o indicador dela tocava no seu. Subiu urgentemente os olhos para ver a repercussão do toque nela, e, para a sua surpresa, ela parecia perfeitamente bem.

Mel sorriu e tocou com a ponta dos outros dedos nos de Albafica, desdobrando-os em um entrelaço. Com as mãos juntas, ele esperava o pior, mas apenas sentia o melhor; a sensação que esquecera há anos o surpreendia novamente. Deixou-se sorrir timidamente, o que fez Mel explodir de felicidade por dentro. Com a outra mão, ela tocou no queixo dele, fazendo-o olhá-la.

– Viu como estou intacta? – disse, oferecendo o maior sorriso. Outra vez, ele se encontrou extasiado com aquele sorriso. Ela deslizou a mão pelo rosto dele, passando pela bochecha e chegando na lateral da testa. O pisciano fechou os olhos com o carinho, quase liberando uma lágrima com a nostalgia do ato.

Os dois corações batiam rapidamente, pareciam se ouvir e conversar entre si. Enquanto isso, Albafica aproveitava o mais belo deleite, até sentir seus lábios tocados pelos dela. Sem reação, permaneceu a encarando. Havia sido apenas um selinho, mas fora intenso o bastante para despertar o sentimento dele. Albafica, então, não resistiu e puxou o rosto delicado da musa para repetir o ato. Dessa vez, os dois aprofundaram o beijo, deixando as línguas se encontrarem e dançarem em sintonia com o que sentiam.

Albafica deslizou a mão, tirando-a da mão de Mel, pelo braço dela até chegar no pescoço, e o encaixou em sua mão, deslizando o polegar pela bochecha da musa. Com o toque, ela fez o mesmo, puxando-o mais para si. Finalmente, os dois saciavam uma parte da vontade que tinham um do outro. A possibilidade de tocá-la desencadeou em Albafica uma felicidade inimaginável.

Ao longo do beijo, o ar lhes faltava e uma pequena tontura se apossava de Mel, então se afastaram, mas ela não deixou Albafica perceber seu estado. Os dois respiraram fundo, ela não conseguia parar de sorrir e logo incentivou um sorriso nele.

– Eu disse para confiar em mim... – Mel conseguiu dizer, entre o pouco fôlego que restava.

Albafica, sem reação e o que dizer, puxou-a para outro beijo – o que Mel adorou. Ele a sentiu se desequilibrar e decidiu se afastar.

– Está tudo bem. – disse ela, sem tirar as mãos do rosto dele. Por mais que se sentisse um pouco mal, não queria parar esse momento tão mágico. Mas, antes que pudesse beijá-lo de novo, os dois ouviram uma voz chamando o cavaleiro. Os dois se levantaram rápido e Mel se afastou, assustada, mas seu pulso foi preso pela mão dele.

– Eu quero saber como fez isso. – disse ele, olhando-a nos olhos. Mel sorriu e se soltou delicadamente.

– Talvez eu não tenha feito nada. – e saiu em direção à 13ª casa. Ele a acompanhou com os olhos e a viu piscando, juntamente com um sorriso atrevido. O pisciano não hesitou em devolver o sorriso.

– Albafica! – Dohko se aproximou, esperando que o pisciano estivesse longe. Para sua surpresa, Albafica estava no meio da sala da Casa, com uma expressão entorpecida. O libriano estranhou a falta de preocupação dele para com sua aproximação. – Albafica?

O cavaleiro de peixes logo voltou à realidade e se pós numa distância maior entre eles.

– Só lhe avisando de minha passagem, amigo. – Dohko informou simpaticamente, e atravessou a décima segunda casa, ainda pensando no comportamento de seu protetor.

A sós na Casa de Peixes, o pisciano permitiu a lágrima de felicidade descer – outra sensação que não sentia há tempos. Ele estava extremamente emocionado com o milagre que acontecera; pôde tocar em Mel, pôde beijá-la, sem causar danos em sua preciosa vida. E, depois de muito tempo, a chama da esperança foi acesa dentro de seu coração adormecido.

Notas finais
Nesse corpo meigo e tão pequeno Há uma espécie de veneno Bem gostoso de provar Como pode haver tanto desejo Nos teus olhos, nos teus beijos No teu jeito de abraçar E foi com isso Que você me conquistou Com esse jeito de menina E esse gosto de mulher (Mon Amour, Meu Bem, Ma Famme - Fernanda Takai) The treta has been planted, so has the love...