EmMusas - The Lost Canvas
20 Tempestades
Notas iniciais

Capítulo 20
O escuro do céu já cobria o Santuário juntamente com uma brisa leve e refrescante, para a alegria da maioria que treinava. Nada como voltar para a casa recebendo a sensação fria no corpo pingando como resultado do treino. Para certo casal, o dia passara muito bem refrescado, enquanto esse se divertia num rio tranquilo. Mas havia um local em que nada importava mais do que a energia trocada.
Após mais algumas horas de meditação, Calíope abriu os olhos e se viu sozinha no altar. Um pouco aflita, ergueu-se e varreu a sala principal com os olhos, à procura do virginiano que a acompanhava. Já se sentia inconveniente por ter passado tanto tempo num espaço tão sagrado como aquele, que sequer era seu. Não sabia se andava ou aguardava a chegada do protetor da casa, a dúvida permanecia incomodando-a. Talvez devesse chamá-lo, mas a musa não encontrou a própria voz – acontecimento frequente ultimamente. Asmita parecia tirar-lhe o sentido sem necessitar de golpe algum; fortificava-a ao mesmo tempo em que a enfraquecia em outro aspecto, e a musa continuava sem entender o que tudo isso significava.
Não, era o passo maior que a perna.
Calíope podia sentir o cosmo de Asmita por perto, como se estivesse ali com ela, acabou optando por procurá-lo. Se ele reclamasse da prudência de sua atitude, ela reclamaria do mesmo jeito em relação a “acordar” sozinha. Ainda assim, ela explorou pouco, limitando-se à cozinha e ao jardim externo da Casa, não subiria as escadas, definitivamente. Frustrada, voltou para a sala principal, onde, para a sua surpresa, Asmita a aguardava.
– Me procurando? – perguntou ele, em serenidade. Exibia um sorriso de canto e os olhos fechados.
– Sim. Seria muito atrevimento perguntar onde estava? – ela caminhou até onde ele estava.
Asmita se encontrava de pé, em cima de um tapete de tons amarelados com almofadas, em sua maioria, vermelhas e detalhes dourados; localizado num espaço ao lado do altar, iluminado apenas por poucas velas. Ele mantinha a armadura de ouro no corpo, mas era perceptível sua vontade de tirá-la.
– Estive aqui na Casa de Virgem, mais precisamente num lugar muito especial. – respondeu ele normalmente.
A musa não compreendeu o que havia por trás do adjetivo dado a ele para o lugar, preferiu não perguntar, mas a curiosidade a espetou um pouco. Se a intenção dele era essa, então conseguiu com sucesso. Ela acabou mordendo o lábio com certo nervosismo de não saber o que falar.
– Calíope? Está tudo bem?
Ela apenas assentiu, sem tirar os olhos dele, mas acabou lembrando que ele não poderia vê-la fazendo isso, então respondeu que “sim”. Era incrível como ele a sentia em todas as expressões de emoção.
– Queira me perdoar por deixá-la sozinha aqui. Como minha convidada, não deveria ter despertado dessa forma. Fui inconveniente, me desculpe.
– Não é isso... – respondeu Calíope rapidamente.
E não era mesmo. O problema não estava na inconveniência, afinal Asmita podia fazer o que quisesse em sua Casa, ainda mais depois de ela abusar do tempo.
– Então, imploro para que me diga o que lhe aflige. Sinto que sua energia mudou um pouco.
A musa deu um suspiro pesado e recuperou as forças.
– Estou um pouco preocupada em ter lhe incomodado com minha falta de percepção, acabei passando mais tempo aqui do que esperava. – a voz de Calíope parecia pesarosa, mas logo explodiu: — Mas, há culpa sua nisso também! Quer dizer... Você devia ter conhecimento da áurea convidativa que há em sua Casa. – mordeu o lábio, percebendo a distância de suas palavras.
Asmita ouviu abertamente e não conteve um sorriso. Aos poucos, passava a ver o jeito explosivo de Calíope como um fragmento charmoso. Admitia até que sentia um pouco da falta desses deslizes dela. Calíope, por sua vez, não se esforçava em nada, sabia que muito do que mudara devia a ele, mas admitir era outro caso.
– A única coisa que tenho a lhe dizer, Calíope, é que não se preocupe com isso. – disse ele, querendo sorrir. – Assumo minha parte da culpa, apesar de achar que não há culpados nesse caso. Apenas sinta-se à vontade para passar por aqui, mas sem essa carga preocupante que carrega ao fazê-lo.
– Certo. – Calíope se acalmou. – Bom, vou me retirar. – ela suspirou.
Asmita se aproximou de Calíope com a calma de sempre. Ela permaneceu parada, nervosa demais para obedecer a sua mente. O virginiano, ao chegar próximo o bastante, recebeu o rosto dela em suas mãos e afagou as bochechas com os polegares. Ele acabou sorrindo ao percebê-las mais quentes, provavelmente a musa estava corada.
– Tenha uma boa noite, musa da poesia épica, ciência e eloquência. – disse ele suavemente. Sabia que ela gostava de ser reconhecida por completo em sua representação, já percebera como se arrepia quando ele diz o título completo. E dessa vez não foi diferente.
Com os dois lábios quase juntos, uma movimentação chama a atenção. Clio e Tália passavam pela Casa de Virgem, as duas com cosmos agitados. Calíope estranhou, mas apenas seguiu as irmãs com os olhos, enquanto Asmita não se mexeu, mantendo as mãos nos rosto da ruiva.
– Mas o quê...? – Calíope estranhou, mas teve o rosto voltado para ele. Asmita não hesitou em beijá-la.
O beijo delicado já era a marca dos dois. Intensidade e pureza faziam parte da composição, mas havia também uma pontada de desejo querendo crescer. Entretanto, não era a hora para maiores avanços, os dois pensavam. Asmita achava que ainda precisava fazer Calíope enxergar muita coisa, pois, no fundo, via que ela se controlava diante de certas circunstâncias e escondia bastante coisa dele. A musa dizia que se sentia de tal jeito, mas ele a sentia de outro, seria bom se ela compartilhasse com ele. Do outro lado, Calíope se segurava o máximo diante da onda de novidades que a consumia. Ela tinha perfeita noção de que estava passando por algo diferente, nunca passado, nunca sentido diante de tantos elogios; era vista de outra forma pelo virginiano e isso parece ter desencadeado algo. Contudo, o problema não era a questão de ele ter sido inconveniente ou não ao deixá-la acordar sozinha, e sim a questão: como dizer a ele que o problema era não acordar ao seu lado?
~
Estavam perto e desciam furiosamente. Quer dizer, apenas Clio. Tália descia mais preocupada em acalmar a irmã do que em tirar satisfações com o cavaleiro de gêmeos. Pensava que, se ele era daquele jeito com Terpsícore, poderia ser pior com elas. Ao mesmo tempo, ele que tentasse mexer com alguma musa... Era a mesma coisa que mexer com uma deusa um pouco menos poderosa. Tália riu da própria comparação.
– Do que está rindo? – Clio perguntou bufando.
– Nada, vai com calma.
Ao chegarem na Casa de Gêmeos, sentiram de imediato a áurea sombria que Terpsícore tanto temia. Tália nunca chegara a acreditar, mas parecia ser real ou sentida apenas para quem realmente quisesse ver, ou fosse sensível demais. Clio pisava com agressividade, sua trança balançava com velocidade e seus olhos profundos miravam a sala principal.
– Com licença – Clio falou alto, porém sem gritar. -, eu sei que você está aqui.
Tália se manteve ao lado da irmã, parecia perceber, pela primeira vez, que Terpsícore não era tão burra por temer aquele lugar.
– E a senhorita demorou. – a voz grave, levemente debochada, de Defteros foi ouvida, mas sua silhueta não.
– Apareça logo, cavaleiro!
Defteros obedeceu, aparecendo imediatamente na frente das duas. Tália soltou um gritinho de susto – e se achou estúpida por ter criticado a irmã loira quando ela fez o mesmo tempos atrás. Clio sustentou o olhar desafiador de Defteros e pôs se a falar.
– Se estava me esperando, significa que sabe porquê vim até aqui nesse estado. Se sabe disso, então está quase admitindo que merece o que vou lhe dizer.
– Cuidado com sua interpretação, musa da história. – um pingo de ironia era evidente na fala do geminiano.
– Pode acreditar que vou tomar mais cuidado com absolutamente tudo a partir de hoje. E graças a você, que me ofereceu um belo motivo para maior desconfiança.
– Teve que chegar a esse ponto para você agir assim? – perguntou ele. A ironia só crescia, deixando Clio cada vez mais enraivecida.
– Francamente, cavaleiro. Sua ironia me enoja. Sabe que sua atitude é desprezível e se mantém dessa forma. – ela o olhou de cima a baixo. – Pensei que os protetores zodiacais deveriam proteger os passantes de suas casas, além das próprias.
– E o que tanto eu fiz para merecer tal julgamento, senhorita? – Defteros cruzou os braços, seu semblante era calmo demais.
– Me diga você! Terpsícore mal abriu a boca para falar, o que me faz pensar que o trauma inserido nela pode ser muito grave, cavaleiro. Ugh, mal consigo chamá-lo assim! – Clio fechou os punhos.
– Se está aqui me acusando de algo, diga-me o que é. Não faz sentido que me peça para falar em seu lugar, senhorita.
A calma de Defteros chegou a incomodar até mesmo Tália, que não aguentou se calar.
– Eu sei de vocês, valeu? – disse a musa da comédia, atraindo o olhar de Defteros. – É melhor você admitir logo que andou mexendo com a nossa irmã pra podermos avançar alguma coisa nessa discussão. Ou vocês preferem continuar se provocando?
Defteros gargalhou tão alto que as duas musas perderam totalmente seus semblantes firmes. Ele se aproximou lentamente de Clio.
– Parece-me, corrija-me se estiver errado, que sua irmã excêntrica é mais objetiva que você, menos prolixa e mais sensata. Ou você prefere continuar me provocando? – a voz dele se agravou num tom totalmente ameaçador, mas sem perder a ironia.
Os pelos das duas se arrepiaram intensamente, mas Clio deu um passo à frente com firmeza.
– Vou lhe corrigir. – Clio sentiu vontade de grudar seu nariz com o dele só para intensificar o desafio daquele olhar absurdo. – Tália, musa da comédia, não deveria nem estar aqui, pois, ao contrário de mim, ela parece não querer lhe provocar. Mas eu não me importo, porque comigo você não tem a liberdade que toma de Terpsícore.
– Eu não tomei liberdade alguma, sua irmã me deu. – um sorriso maldoso apareceu no rosto dele.
– Eu não acredito nisso. – respondeu ela, firmemente. Nada quebrava a linha hostil que sugava os dois olhares.
– Realmente, senhorita. É tudo questão de interpretação. – ele abriu ainda mais o sorriso, exibindo o canino saltado. Clio estremeceu levemente com a cena.
– Tem tanto medo assim de me dizer o que fez com minha irmã e sair errado na história? – perguntou ela, um pouco mais calma. Precisava se acalmar, não podia perder as estribeiras, tinha de ser exemplo para Tália.
– Não acha que quem está errada é você por se meter em um assunto que não lhe apetece? – dessa vez ele saiu mais sério.
– Chega! – Clio gritou. Sua paciência tinha limite. – Você não é ninguém para encaminhar meus assuntos, muito menos para julgar minha preocupação para com minhas irmãs. Se você não tem costume de se preocupar e só de trazer preocupação aos outros, é melhor que se mantenha longe de nós. – um dedo fino da musa foi parar perto do rosto dele.
Ah... Como Defteros queria pegar esse braço, cujo dedo apontava para ele, e torcer até a musa implorar por sua piedade. Era quase inacreditável que ela estivesse apontando-lhe o dedo de forma tão pretensiosa. Sua expressão logo ficou séria.
Nesse momento, mais três pessoas adentraram a Casa de Gêmeos e pararam, de olhos arregalados, com a cena que presenciavam. Sísifo, Urânia e Manigold não sabiam o que dizer.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou o sagitariano, apressando-se. Urânia estava logo atrás e fez o mesmo. Manigold focou em Tália.
– Estamos conversando. – Defteros comentou. Pela sua voz, os três recém-chegados perceberam a tensão.
– Não, não estamos. – Clio impaciente. – Sabem por quê? Porque esse cavaleiro não é honrado o bastante para esclarecer o problema que criou. Mas é claro! Ele tem culpa.
Defteros gargalhou novamente.
– Isso não tem a ver com honra, e sim privacidade. – disse ele, entre risos, deixando Manigold e Sísifo confusos.
– Defteros, o que você fez? – Sísifo perguntou.
– É isso que estou tentando saber desde que pisei aqui. Só sabemos que tem a ver com nossa irmã! – Clio bateu o pé no chão. Tália riu do gesto da irmã, atraindo o olhar de Manigold, que piscou para ela, mas logo virou o rosto para a conversa.
– Ahhh! Tem a ver com o dia em que ela saiu correndo daqui? – o canceriano abriu o bico sem querer.
Defteros o fuzilou com o olhar, mas sem dar pistas aos outros.
– Por que ela saiu correndo daqui? – perguntou Tália. – O que você fez tanto para ela voltar assim?
– Você é muito inocente pra entender, musinha. – Manigold riu, mas parou assim que recebeu olhares furiosos de Tália e Clio.
– Afinal, o que a trouxe aqui, senhorita? – Sísifo perguntou para Clio.
– Nossa irmã apareceu no Templo do Grande Mestre com marcas vermelhas nos pulsos e alguns vergões nas coxas, sem falar no hematoma do braço direito. Além de se mostrar emocionalmente desestabilizada e com sintomas de trauma. – respondeu ela seria e calmamente.
– Isso é ridículo. – Defteros comentou baixo, mas todos ouviram.
– E como vocês têm certeza de que Defteros tem algo a ver com isso? – o sagitariano se mantinha atento a cada palavra dos dois, tentando ver alguma falha. Realmente era difícil quando Defteros não fazia questão de se defender, apenas desviar o ponto.
– Eu já sabia que havia um mero envolvimento dos dois desde o festival da vila. – Tália se colocou, Clio deu espaço. – Mas Terpsícore prometeu que ficaria longe do cavaleiro, pois ele a assustava. Nunca soubemos porquê. – havia um leve nervosismo nas palavras dela. Como se a musa não quisesse dizê-las, mas acabou se virando para Defteros. – Por quê?
– Como vou saber? Cada vez mais, parece-me que não compreendem a própria irmã. – a última frase dele foi dita sorrindo sarcasticamente, o que deixou Sísifo bem incomodado.
– Não é assim, cavaleiro. – dessa vez, quem tomou a fala foi Urânia. – Elas estão especulando. Admito que não sei o que está acontecendo, mas gostaria muito de saber. Entretanto, sinto que não chegaremos a lugar algum com essa conversa. Todos parecem enrolar. – o olhar da musa parou em Tália, que apertava a ponta dos dedos. – Continue, Tália.
– Não, era só isso mesmo... – como se evitasse mais palavras saírem, enquanto fitava o chão.
– Não era não. – Clio se meteu. – Ela perguntou para Terpsícore se ela estava com Defteros quando a encontramos há pouco tempo, e o silêncio disse tudo. – virou-se bruscamente para Defteros. – O que, por Zeus, você fez com ela?
Defteros bufou, já estava perdendo a paciência.
– Por que não pedem para Terpsícore contar? – perguntou ele normalmente.
– PORQUE QUERO OUVIR DE VOCÊ! – respondeu Clio, quase rosnando. Urânia engoliu seco.
– E porque Terps não quer falar. – Tália acrescentou, quase encolhida diante da impaciência da irmã. Acabou arrancando uma risadinha de Manigold.
Defteros sorriu de canto.
– Cale a boca, Tália! – Clio mandou.
– Senhoritas. – a voz de Sísifo tomou a posse de qualquer palavra ali. Ele já estava profundamente incomodado com a cena inútil que se desenvolvia. As posições estavam claras o bastante para informarem o rumo da conversa. – Acredito que o esclarecimento é necessário, mas não seria mais justo se a senhorita Terpsícore estivesse presente também?
– Não, quero ouvir o que ele tem a dizer em sua defesa. – Clio ríspida.
– Absolutamente nada, senhorita. – Defteros falou, abrindo os braços. – Como vê, não estou me defendendo. – o sorriso de boca fechada debochado estava ali.
– Por isso mesmo quero que me conte o que aconteceu. Parece não haver problema, certo?
– Errado. Há muito. Mas considero algo íntimo demais para sair contando para meus colegas de batalha e convidados.
– Não se faça de cínico, cavaleiro. – Clio rosnou novamente. Ah, como o estava odiando...
– Clio! – Urânia se meteu. Quando a irmã representante da oratória partia para a ofensa era sinal de que estava chegando no limite. – Não há necessidade disso tudo. Se Terps não falou nada é porque não vê tanto problema no caso, pra mim isso é claro. Caso contrário, teria levado ao Grande Mestre.
– Daqui a pouco, EU vou recorrer ao Grande Mestre. – disse Clio, sem desviar os olhos de Defteros.
Desta vez, o geminiano fechou a cara e Sísifo e Manigold se entreolharam preocupados.
– Calma, Clio, não seja impulsiva. Você não é assim. – Urânia tocou no braço da irmã enraivecida, percebeu o corpo tenso dela. Com sua áurea celestial, conseguiu amenizar o fato.
Clio não gostava de conflitos. Pelo contrário, adorava manter a paz em suas relações; mas quando se tratava de suas irmãs o caso era outro. Para ela, ver Terpsícore naquele estado era absurdo! Não considerava impulso de sua parte, havia observado o bastante as reações da irmã loira para tomar aquela atitude.
– Não sei se compreende o que temos aqui. Um cavaleiro que deveria proteger os outros, pelo visto, está fazendo o contrário. Terpsícore não arranjou marcas nos dois pulsos caindo de uma árvore ou tropeçando enquanto dança. – Clio baixou a voz e o olhar, à procura de apoio no próprio coração.
– Talvez sim, do jeito que ela é. – Defteros ironizou novamente e recebeu um olhar de reprovação de Sísifo, o qual ele ignorou tranquilamente.
– Acredito que eu saiba mais como ela é do que você, cavaleiro. – novamente uma raiva crescia na voz de Clio.
– Jura? Então por que está aqui me julgando? Você já parou para olhar a cara da sua irmãzinha? Encontrou muita insatisfação? Pra mim, ela parecia perfeitamente... Envolvida. – o geminiano sorriu maldosamente.
– Vocês não... — Clio estupefata. Manigold e Sísifo perceberam que Defteros não pouparia.
– Claro que não, senhorita. — disse Defteros, divertindo-se. — Cuidado com sua interpretação, principalmente se for sobre Terpsícore.
– Não me diga uma coisa dessas! Quem deve ter cuidado aqui é você, parece se desviar de sua função! – Clio se exaltou.
– Digo-lhe o mesmo, musa da história. Não estou sentindo sua habilidade na oratória. E cuidado ao me ofender, você está em minha Casa.
– Para a sua informação, não apelo para vias inúteis e baixas. Mas acredito que seja com elas que se identifique mais numa discussão, certo? – revidou ela, mais instigada.
– Por acaso fui baixo? Se sim, perdoe-me. — o pedido do cavaleiro de gêmeos saiu extremamente debochado.
– Só digo que se tocar nela mais uma vez, minha fúria não será nem um pouco humana, cavaleiro.
Clio estreitou os olhos como se o jogassem raios, mas, antes que pudesse puxar o ar para responder, Sísifo tomou a palavra.
– Já chega! – todos se viraram para ele. – Essa discussão não levará a nada, como Urânia disse! – virou-se para Clio. — Acredito que, independente do que aconteceu, a senhorita quer que Defteros se mantenha distante de Terpsícore, certo? – a musa assentiu como resposta, sem tirar os olhos do geminiano. – Certo, então – para Defteros. -, a partir de hoje, mantenha-se longe da Musa da Dança.
– A partir de agora. – Clio corrigiu.
– Certo, a partir de agora. – Sísifo retomou e olhou para o cavaleiro de gêmeos. — Apenas interaja com ela caso necessário e no momento de permitir sua passagem nesta casa. Compreendeu, cavaleiro?
– Sem problemas. — Defteros respondeu tranquilamente, deixando Clio incrédula.
– Você... Ugh! — Tália se meteu. — Está descartando-a tão facilmente? – a pergunta foi quase gritada.
Clio olhou para Tália com a mesma incredulidade, sendo acompanhada por Manigold, Sísifo e Urânia. O que diabo Tália quis dizer?
Sem resposta, a musa da comédia revirou os olhos.
– Tsc. – pegou a mão da irmã. — Vamos embora.
Silêncio. Tália puxava Clio incessantemente para a saída da Casa de Gêmeos que dava para a subida das Doze Casas. Já se sentia tremendamente confusa com a própria seriedade. Era fato que a musa da comédia se sentia sem inspiração caso mantivesse a seriedade. Não que fosse necessário rir o tempo todo ou fazer graça, mas devia evitar sensações ruins e emoções depreciativas.
Sem falar mais nada, Sísifo seguiu com Urânia o mesmo caminho que as outras duas musas seguiram; Manigold ia logo à frente, quase as alcançando. O sagitariano estava tenso, era claro; demonstrava através de sinais no corpo, os quais Urânia leu muito bem. Decidida a acalmá-lo, ela iniciou um afago no braço bem definido dele, o mesmo que a conduzia. Ele, em resposta, sorriu para ela.
Quando os cinco chegaram na saída da Casa de Câncer, Manigold puxou Tália, desvinculando-a de Clio, que estava tomada demais pela raiva para se importar. O outro casal apenas passou, sem questionar o canceriano.
– O que você quer? Não é uma boa hora. – Tália disse.
– Tire essa seriedade da cara já! – ele ordenou, segurando seus braços.
– Não to conseguindo! – ela respondeu, sustentando o olhar que ele lançava.
Manigold pôde ver a agonia e a sinceridade dela. Só não sabia exatamente como ajudá-la, então fez o que fazia de melhor quando estava com ela: puxou-a para um beijo, o qual ela retribuiu sem hesitar.
– E nem continue séria para ganhar mais beijos. – disse ele, fingindo-se de bravo, sem soltá-la de seu abraço.
– Isso é típico de você, não de mim. – ela respondeu divertida. Acabou rindo, para a alegria de Manigold.
– Bem melhor. – o canceriano roubou mais um beijo.
– Tá. – ela se afastou um pouco. – Tenho que ir, senão Clio destroça Terpsícore! – continuava rindo deliciosamente enquanto afastava o biquinho que Manigold fazia. Ele adora provocá-la, ainda mais quando o resultado era essa risada.
– Vai dar uma de heroína agora? Já ferrou com ela mesmo... – ele soltou-a um pouco.
– Você sabe que não é assim! – respondeu ela, no mesmo bom humor recuperado. – E se me chamar de inocente de novo, sentirá o encontro da minha palma na sua bochecha.
– Pare, Tália, você não consegue posar de agressiva. – ele a agarrou novamente, puxando-a totalmente para si, quase a sufocando enquanto ria. – Por acaso não é inocente?
– O que você considera inocência? – perguntou ela, esforçando-se novamente para sair daqueles braços sedutores. Já sentia um calor tomando seu corpo.
– Se você não sabe, é porque realmente é uma. – ele gargalhou e a liberou, mas logo retomou o olhar gentil que lançava, o qual Tália sustentou com agrado. – Se for, vá logo.
– Não vou nem perguntar porquê! – Tália se virou e correu pouco rápido até o início das escadas, em seguida se virou para encarar o canceriano.
– Isso, não pergunte, musinha. – falou um pouco mais alto.
– Musinha é seu arbusto azul mal picotado. Não tenha uma boa noite! – ela falou de volta, alto também, mas ludicamente.
– Tenha uma noite cheia de pesadelos. E se acordar com medo e quiser dormir com alguém, não conte comigo! – gritou mais alto vendo que ela subia mais. Pôde ouvir a risada doce da musa.
– Não dormiria com você nem que fosse o último homem da Terra. Só me assustaria mais com essa cara!
Manigold não aguentou e riu alto, levando Tália a rir também. Rapidamente, ela se virou e continuou subindo as escadas, deixando-o com a visão de suas costas. O canceriano, em baixo tom, desejou boa noite para a musa.
~
Urânia e Sísifo tiraram um pequeno tempo para se despedirem na frente do Templo do Grande Mestre, mas as duas musas seguiram em frente. Clio abriu a porta de seu quarto com uma força bruta desnecessária e entrou com Tália. As duas pararam ao ver Terpsícore triste no colo de Mel, que afagava os cabelos loiros da musa. As duas musas recém-chegadas foram recebidas por um olhar hostil da musa da tragédia.
– O que vocês duas têm na cabeça? – Mel perguntou, num tom quase incrédulo, se não fosse a seriedade.
– Não me questione, Melpomene. – Clio firme, sentando em sua cama, de frente para as outras duas. Tália se acomodou no banco que compunha a penteadeira.
– Por que não? Você sempre questiona todas nós. O que há de tão grave em deixar que vivamos sem interrupções e aprendamos com nossas próprias atitudes? – Mel abordou uma doçura na voz para falar, percebera que era a melhor opção ao ver como Clio estava.
– Não há nada de errado nisso se você vive procurando consciência e maturidade, diferente do que Terpsícore parece fazer.
– Esse é o seu ponto de vista, o qual eu respeito, mas você não pode ditar como devemos procurar tudo isso.
As duas, Mel e Clio, encaravam-se seria e friamente, como se esperassem a outra ceder no argumento, mas sabiam, no fundo, que era improvável. Tália se mantinha como observadora, alguma coisa nela desencadeou na atenção às palavras da irmã gêmea – o que era engraçado, pois, geralmente, quem ouvia era Mel.
– E você acha que era melhor deixar Terpsícore sair por aí para se encontrar com o cavaleiro louco e voltar cada vez pior? Não se você lembra, mas não é a primeira vez. – Clio colocou.
– Acho! – Mel respondeu rápido. – Acho melhor sim. Ela só verá o que é melhor ou não para ela provando tudo isso.
De certa forma, as palavras de Mel descreviam sua própria situação. Tentava convencer as irmãs de outro ponto de vista para, caso a tragédia acontecesse, elas descobrissem de seus elixires. Ao mesmo tempo, realmente entendia Terpsícore, por mais que se preocupasse com suas marcas nos pulsos.
– Espera aí, Mel. Não me faça questionar sua sanidade. – Tália dessa vez entrou na conversa. – eu acompanhei Terpsícore mais de perto do que vocês e pude perceber avanço zero nesse rolo todo!
– Vocês estão ousadas hoje. – Urânia entrou no quarto silenciosamente. – Terpsícore! – foi até ela, agachando-se para ficar com o rosto na altura do da irmã. – Deixe-me ver você.
Terpsícore se levantou, até ficar sentada na cama, e expôs os pulsos e os vergões das coxas. Urânia soltou um suspiro de surpresa, não imaginava que estava assim tão tenso, mas ofereceu um sorriso enquanto massageou os pulsos da irmã. As outras três musas não conseguiam tirar os olhos da cena. De alguma forma, Urânia conseguia impor um respeito sem ao menos tentar.
– Dói? – perguntou a musa da astronomia. Terpsícore negou com a cabeça. Urânia levou a mão até a parte do peito da irmã que cobre o coração. – E aqui?
Terpsícore assentiu timidamente e lançou um olhar de ressentimento às irmãs que a julgaram.
– Viu? – Clio disse. – Ele deve tê-la machucado sentimentalmente também. – bufando.
– Não é isso. – Terps rangeu os dentes. – Não é por ele, é por vocês.
Todas se surpreenderam com o tom hostil da musa da dança.
– Me poupe, Terpsícore! – Tália falou, totalmente chateada. – Nós queremos lhe ver bem!
– E o bem de vocês pode não ser o bem dela. – Mel interveio, Urânia concordou com a cabeça. – Olhem para ela, de verdade. Conseguem ver algum bem aqui? – apontou para a face da loira, que iniciou um novo choro. – Não, não conseguem. Não projetem nela o que vocês tomam para si.
Um barulho de palmas foi ouvido na porta, exigindo cinco viradas de cabeça das musas. Calíope presenciara quase toda a cena e, assim que foi vista, decidiu emanar seu cosmo totalmente carregado de boas energias. Ah, a meditação...
– Vocês são patéticas. Todas.
– Começou. – Tália bufou.
– Não, não vou me demorar. – respondeu a ruiva, numa elegância admirável. Caminhou até Terpsícore e puxou seu rosto com calma. – Fofa.
Calíope se posicionou no meio da roda e observou o rosto de cada irmã presente.
– Quero compartilhar a verdade que eu encontrei hoje, ao meditar intensamente com o Cavaleiro de Ouro de Virgem. Vocês podem não achar isso importante, mas, na verdade, é muito mais do que imaginam. Consegui ver o que vocês não veem, mesmo estando na cara de vocês. E quase revigorante ver a mudança das minhas irmãzinhas, mas é totalmente patético ver que fecham os olhos para isso. – o tom esnobe estava presente, fervendo o sentimento negativo que as outras musas nutriam pela irmã mais velha.
Calíope riu.
– Vocês estão perdendo tempo me olhando assim, sabiam? Até você, Clio, está tão confusa dentro de si mesma que precisa se ocupar com os casos alheios para preencher uma lacuna mental. – quando a ruiva disse isso, Clio puxou ar, mas ela não deixou a irmã se impor. – Calma, Clio, eu sei que existe preocupação aí também. Que seja! Mas vocês todas estão perdendo as melhores novidades que vieram.
Calíope riu novamente, mas era um riso de quem descobrira verdades engraçadas acerca das irmãs. Por mais que elas quisessem revidar, estranhavam o comportamento da irmã maior com tanta força que preferiam ver o espetáculo terminar.
– Ugh, tá certo. Eu vou falar. – Calíope abriu um sorriso e se virou para Terpsícore. – Querida irmãzinha, você é masoquista. – virou-se para as outras respectivamente. – Melpomene, você é perturbada, seu amor trágico está te inspirando de forma perigosa. Urânia, sua desatenção está tão gritante por causa do cavaleiro de sagitário que até lendo as estrelas errado você está. Caso contrário, estaria no meu lugar relatando essas verdades. Tália, seu gosto por coisas estranhas está lhe deixando cega a ponto de não perceber como o cavaleiro de câncer realmente te olha. Desprenda-se desse egoísmo disfarçado de autenticidade e preste atenção na sua volta.
Os olhares arregalados cresciam a cada frase de Calíope, mas ela não parou. Pelo contrário, suspirou pesadamente e se virou para Clio.
– E, por fim, você Clio. Musa da história e criatividade, responsável pela habilidade da oratória, mas que peca constantemente ao se deparar com um caso que não pode controlar. É óbvio que você está passando por uma turbulência emocional por não conhecer o que está sentindo, e, de tão frustrada que está, acaba descontando em casos que estão mais que resolvidos. – fez uma careta. – Ou estariam se você não tivesse metido o bedelho. – direcionando o olhar para Terpsícore. – Então, é melhor vocês pararem de julgar umas às outras e prestarem atenção no que andam fazendo. Eu recomendo meditação, mas ao mesmo tempo não porque podem atrapalhar a minha com essas energias hostis. Vocês sabem que podem se resolver se quiserem, é só agirem sozinhas.
Calíope dirigiu-se à porta, mas em vez de sair, virou-se para uma das musas:
– E, Clio – levantou uma sobrancelha -, vá viver.
Ao término da fala, Calíope desejou boa noite e se retirou, deixando todas as irmãs boquiabertas e silenciosas. Nenhuma tinha coragem de falar algo, porque, no fundo, parecia que Calíope realmente dizia a verdade.
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Na Casa de Gêmeos, um órgão do cavaleiro protetor batia rapidamente, enquanto repercutia no corpo todo em forma de nervosismo. De alguma forma, a ideia de ficar longe de certa musa o incomodava mais do que o normal. Enquanto isso, uma tempestade se aproximava do Santuário.
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